🐾────── 🐺 ──────🐾
No caminho de volta, Lumaris e Kuwabara se aproximaram de Samuel e do Alfa, suas presenças trazendo uma leveza momentânea após a tensa reunião. O som de suas patas contra o solo era cadenciado, quase tranquilizador, enquanto conversavam.
— Você percebeu que, durante toda a reunião, o lobo angélico não tirou os olhos de você, Samuel? — comentou Lumaris, com um tom intrigado. — Ele parecia desconfiado.
Samuel deu um leve sorriso cínico, desviando o olhar para a trilha à frente.
— Desde a aparição da rainha no aniversário do Alex, aquele lobo tem me olhado com desgosto — respondeu ele, seu tom frio e direto. — Mas, sinceramente, pouco me importo com a opinião dele.
— Só espero que ele não decida levar isso além de olhares — acrescentou Lumaris, um pouco hesitante. — Ele não é qualquer um, afinal.
— Se ele não mexer com vocês, é tudo o que importa para mim — afirmou Samuel, sua voz carregada de determinação. — O resto não faz diferença.
Kuwabara riu baixo, tentando aliviar o clima.
— Foi bem gentil da sua parte dizer isso, Samuel. Mas, cuidado, ele é um dos protetores diretos da rainha. Não é alguém a ser subestimado.
Antes que a conversa pudesse tomar um rumo mais pesado, o Alfa interveio, mudando de assunto com um tom mais casual:
— A propósito, Samuel... O que foi que a rainha falou com você antes de partirmos? Eu vi quando ela se aproximou e entregou algo a você.
Samuel parou por um instante e tirou o pequeno cristal azul do bolso, segurando-o entre os dedos enquanto a luz do luar refletia em sua superfície brilhante.
— Ela me pediu para interrogar o lobo infiltrado — explicou, sem muito entusiasmo. — Disse que eu poderia usar isso para contatá-la, caso descobrisse algo importante.
Kuwabara arqueou uma sobrancelha, impressionado.
— Que honra, hein? A rainha falar com você pessoalmente e ainda confiar essa tarefa a você!
Samuel deu de ombros, seu rosto inexpressivo.
— Ainda tenho minhas desconfianças sobre ela... — disse ele, guardando o cristal de volta no bolso.
O grupo continuou caminhando em silêncio por alguns momentos, o som da floresta preenchendo o espaço entre as palavras. Ao chegarem às proximidades da alcateia, Samuel quebra o silêncio.
— Ah, Lumaris, obrigado por avisar a Anne sobre o Alex.
— Não foi nada, Samuel — respondeu ela, com um leve aceno. — Sempre que precisar, é só avisar.
— Até mais! — despediu-se Lumaris, seguindo com Kuwabara em direção ao outro lado da aldeia.
O Alfa observou-os partirem antes de se voltar para Samuel, seu olhar mais sério.
— Vamos para a toca. Preciso conversar com você sobre algo importante.
Samuel assentiu sem questionar, ajustando a postura enquanto acompanhava o Alfa em direção ao abrigo. O ar ao redor deles parecia mudar, como se algo significativo estivesse prestes a ser revelado.
Quando chegaram à toca, o Alfa foi direto ao ponto, sua voz grave preenchendo o espaço.
— A rainha mencionou aquele humano encontrado morto na floresta. Pelo que ela disse sobre ele ser um traidor, é bem provável que tenha sido ele quem entregou nossa localização aos caçadores — começou ele.
Samuel assentiu, sua expressão séria.
— Não duvido que estejam tramando algo grande. Tudo indica que querem nos erradicar de uma vez por todas. Vou precisar muito de sua ajuda, Samuel.
— Estamos juntos nessa — respondeu Samuel, firme. — Mas não se preocupe. Se esse confronto for mesmo o desfecho dessa guerra, farei o possível para garantir que ele termine com a paz entre os dois lados.
O Alfa franziu o cenho, surpreso com as palavras do humano. Desde que Samuel se juntara à alcateia, ele sempre demonstrara desprezo pelos humanos, mesmo sendo um deles. Mas algo havia mudado. O Alfa percebeu que, de alguma forma, Samuel começara a ver os humanos de forma diferente. Talvez fosse o impacto do convívio com a alcateia, ou quem sabe, algo mais profundo.
— Você mudou, Samuel — comentou o Alfa, com um sorriso. — Há tempos você jamais consideraria algo assim.
Samuel dá um leve sorriso.
— A guerra já levou muito de nós. Se há uma chance de terminar com isso de maneira que ninguém mais precise sofrer, vale a pena tentar.
O Alfa balançou a cabeça, admirado, antes de mudar o tom.
— Vou tratar desse assunto com Selara. Nossas alcateias tomarão as decisões juntas, é melhor assim.
— Se você diz... — Samuel fez uma pausa, cruzando os braços. — Antes de ir, preciso saber onde o lobo infiltrado está preso.
O Alfa apontou para a direção do jardim.
— Perto do jardim, tem uma caverna subterrânea ao leste. É um lugar seguro, protegido por runas e por alguns lobos. Apenas lobos autorizados podem entrar. Se precisar interrogá-lo, fale com um dos guardas, eles abrirão o caminho para você.
Samuel assentiu, armazenando a informação. Algo lhe dizia que aquele lobo poderia ser a chave para descobrir o que realmente estava acontecendo.
O Alfa colocou uma pata no ombro de Samuel, seu olhar sério.
— Lembre-se, Samuel, você não está sozinho. Vamos enfrentar isso juntos.
Samuel segurou o olhar do Alfa por um momento antes de responder.
— Eu sei.
Com um breve aceno, o Alfa se retirou, deixando Samuel sozinho para organizar seus pensamentos. Ele observou o cristal azul na palma de sua mão por mais alguns instantes, refletindo sobre o que aquilo realmente simbolizava: confiança ou vigilância disfarçada? Suspirando, guardou o objeto no bolso, sentindo o peso simbólico dele sobre seus ombros.
Antes de seguir para a caverna onde o lobo infiltrado estava preso, uma lembrança emergiu com clareza. Varnor havia solicitado sua presença. Embora Samuel não soubesse exatamente o que esperar, sentiu que era prudente atendê-lo antes de prosseguir. Em tempos como aquele, até mesmo um encontro breve poderia trazer revelações importantes.
Com passos firmes, Samuel tomou o caminho até a toca do Varnor. O som de suas botas contra o solo ecoava pelo ambiente, quebrando o silêncio ao seu redor. Enquanto avançava, sua mente permaneceu alerta, antecipando o que aquele encontro poderia significar.
🌙────── 🐾 ──────🌙

