🐾────── 🐺 ──────🐾
Alguns meses se passaram desde a chegada de Samuel e Alex à nova alcateia. Aos poucos, ambos começaram a se adaptar à rotina e aos lobos daquele novo lar. Samuel ainda carregava o peso dos olhares desconfiados dos que não o conheciam, mas esses eram suavizados pela aceitação do Alfa, Kuwabara e Sam. Para eles, Samuel era mais que um estranho; ele era parte da família.
Samuel, em silêncio, encontrava consolo ao ver Alex florescer. A cada dia, o pequeno lobo fazia novas amizades e ganhava confiança. Sem a ameaça dos caçadores, a alcateia era agora um lugar seguro, e Samuel finalmente assumia seu papel de vice-líder e pai para Alex, que crescia rodeado por uma nova família.
Com o passar dos dias, Samuel ia deixando para trás as sombras do passado. As aparições misteriosas de luzes em seus sonhos tinham parado, e ele acreditava que poderia encontrar paz ali. Mas numa noite silenciosa, essa paz foi rompida.
Durante o sono, Samuel sentiu uma presença estranha, quase sufocante. Era uma energia densa e antiga, como um chamado distante, ecoando seu nome. Ele tentou ignorá-lo, mas a sensação era avassaladora. Seus olhos se abriram, e ali, diante dele, estava o mesmo lobo sombrio que ele havia avistado na chegada à alcateia. Mas agora, Samuel podia ver detalhes que antes lhe escaparam: os olhos do lobo eram completamente brancos, e havia espinhos enormes saindo das suas costas, que pulsavam como se fossem vivos.
— Você finalmente veio até mim, Samuel. Esperei por você por tanto tempo, — murmurou o lobo, sua voz profunda, ressoando como um lamento.
Samuel, sentindo um calafrio correr por seu corpo, pergunta:
— Quem é você?
O lobo ignorou sua pergunta e continuou, com uma intensidade quase hipnótica:
— Naquela noite, vi uma luz emanando do seu peito, um brilho que me atraiu, me fez querer saber o que ela significa. O que um humano faz com algo tão puro? Algo que não deveria pertencer a uma criatura da sua raça?
Samuel tentou responder, mas o olhar do lobo era tão penetrante que suas palavras ficaram presas. A dor e a raiva que ele via nos olhos do lobo eram intensas, como se ele carregasse consigo todas as mágoas do mundo.
— Graças a você e aos humanos, eu conheci cada tortura e cada morte. Eu vi lobos caírem, amaldiçoados, enquanto seus assassinos sorriam. Vi a agonia em seus olhos, o sangue que os sufocava, o desespero que os consumia. E quero que você sinta isso também. Quero que essa sua luz seja destruída.
A presença do lobo tornou-se pesada, e Samuel sentiu uma pressão em sua mente, como se o lobo estivesse tentando entrar em seus pensamentos. Em flashes, ele começou a ver cenas de dor e desespero — imagens de lobos sendo caçados, caindo um a um. Samuel permaneceu em silêncio. Ele não resistia à dor; pelo contrário, ele a aceitava. Aquilo fazia parte dele.
O lobo, frustrado, intensificou o ataque, vasculhando cada memória que pudesse encontrar em Samuel. Mas o que ele encontrou não era o que esperava. Ele viu o passado de Samuel, suas próprias perdas, as feridas que ainda doíam. Viu o peso que Samuel carregava e percebeu que esse humano também conhecia a dor.
Samuel respirou fundo e, com uma voz firme, disse:
— Dói lembrar de quem eu perdi, acordar todos os dias desejando vê-los de novo. Mas essa dor... ela não vai me destruir. Pelo contrário, ela me dá forças. Eu não sou igual aos outros humanos.
O lobo hesitou, surpreso com a calma de Samuel. Por um instante, o ódio em seu olhar vacilou.
— Você sente essa dor de perder quem ama, mas infligir essa dor a outros não vai apagar a sua. Permitir que o ódio te consuma só vai prolongar seu sofrimento, — continuou Samuel, sua voz firme, mas cheia de compaixão.
— E o que você quer que eu faça, então? — O lobo perguntou, sua voz tremendo de desespero. — Devo deixar os caçadores continuarem a massacrar nossos irmãos? A destruir nossa espécie?
Samuel deu um passo à frente, olhando nos olhos do lobo.
— Lobos como você não merecem esse fardo. O ódio não trará paz. Eu prometo que a guerra terminará, e que não haverá mais sofrimento nas mãos dos caçadores. Sua família não gostaria de vê-lo preso nesse ciclo de vingança.
As palavras de Samuel penetraram o coração do lobo, e lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Suas próprias mãos começaram a brilhar, fazendo com que os seus espinhos desapareceram lentamente, e sua expressão ficou mais suave, como se uma dor antiga finalmente tivesse sido libertada.
— Nunca tive esperança... mas você a trouxe de volta. Nunca se esqueça da sua promessa, humano. Outros, como eu, precisam de alguém que os ajude a ver a luz novamente.
Samuel assentiu, observando enquanto o lobo, agora sereno, desaparecia na escuridão.
— Adeus... herói dos esquecidos...
🌙────── 🐾 ──────🌙

