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Não é uma Maldição
O universo em uma garrafa
1679 palavras • 9367 caracteres • ⏱ 6 min 43 s

O universo em uma garrafa

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Estava bem frio, mesmo com o escuro do meu quarto, a luz da janela me acordava melhor que qualquer despertador, ainda deitado, contemplei o escuro restante em meu quarto um bom tempo como uma desculpa para não levantar logo depois de acordar, relaxei como a primeira coisa de manhã.


Nos 10 segundos de meu dia, não fazia ideia de quem era e meus pensamentos não começavam, mas a grande onda de pensamentos não demorou para aparecer, menos de 10 segundos, isso era o que eu tinha antes de todos os meus pensamentos nublarem minha própria mente. A benção e maldição que eu carregava, sendo ambos e ao mesmo tempo nenhum, hehe, era um bom pensamento pra começar o dia.


Esses 10 segundos sem pensamentos foram o momento mais feliz em todo meu dia por bastante tempo, eu odiava meu corpo, odiava minha mente, e odiava eu mesmo por não conseguir ser calmo, controlado e tranquilo como todos me viam por fora, mas agora, pelo menos as vezes, eu era calmo tanto por dentro quanto por fora.


Respirei fundo e sentei na cama, e ainda sentindo como se eu falasse com um estranho dentro do meu próprio corpo, ouvi cada voz que tentou me ajudar, me proteger ou só orientar assim que acordei, das pessimistas as otimistas, e antes de levantar de vez, cheguei num acordo comigo mesmo que já tinha pensado o bastante pela manhã.


Caaaaaaara, eu já tinha passado por tanta coisa, as vezes me perguntava se eu realmente conseguiria, se realmente daria pra eu só, me tornar um constructo, será que meu sonho era possível, ou minha maldição iria ficar no caminho e me impedir na primeira oportunidade?


Outra voz em minha cabeça falou que era o completo oposto, minha maldição me ajudou a manter meu sonho, me impediu de passar ainda mais dor, e sentir uma fração da dor que a Dandara estava lutando tanto pra lutar…hehe, era irônico, nossas vidas não podiam ser mais diferentes, e ainda assim, podiamos ter acabado de forma iguais. 


Hehe, eu tinha muito que agradecer e muito que xingar minha maldição, mas assim como antes, não conseguia me ver sem ela, apesar de tudo, minha…singularidade, era, é, e sempre será parte de mim, tanto quanto minha raiva ou meu amor por animais, eu não seria “eu” sem ela.


Outras vozes complementam que a mamãe ajudou bastante, a Kauane ajudou bastante, meus melhores amigos ajudaram muito e eu nem podia começar a falar como os gigantes me ajudaram a entender mais sobre mim mesmo.


Mas uma outra voz dizia que além da maldição, eu tinha que agradecer a algo bem mais físico, que até onde eu entendia as coisas, era quase um milagre, esticando minha mão sem sair da cama, peguei uma poção diferente que sempre ficava perto de mim, além dela ser maior que as outras, ela tinha a aparência de um universo escuro e estrelado dentro de uma garrafa, o nível de trabalho naquela garrafa era algo que eu não conseguia e nem queria entender, pois se isso me deixava mais calmo e tranquilo, já bastava.


O nível de anos, sacrifícios, suor, lágrimas e sangue necessário para chegar naquela única garrafa me impressionava apenas de imaginar. Ao mesmo tempo, me fazia sempre pensar que, todo meu progresso, minha nova calma, meu novo controle…meu novo “eu”, quanto daquilo era eu e quanto aquilo era só a poção? Eu poderia dizer que minha calma de hoje era algo que eu consegui? Fiquei um bom tempo olhando a garrafa, não conseguindo pensar numa resposta, até que eu ouvi alguém batendo na porta.


Antonio: pode entrar.


Era a minha mãe, nossa, ela tinha terminado de tratar da papelada? que milagre, aquelas pilhas de papel às vezes não pareciam ter fim, fiquei feliz em ver ela depois de tanto tempo. 


Ela estava da mesma forma que eu lembrava, um corpo bem cheio, um rosto que parecia sempre triste e em sofrimento, e um cabelo bem ressecado em certas áreas. Mas ainda a mulher que me criou desde pequeno e que carregava o amor mais profundo que eu tinha em meu coração.


Ela sentou do meu lado da cama e viu que eu ainda segurava minha poção especial e perguntou.


Mãe: o que foi filho?


Antonio: nada não mãe, eu só…bom, me fala uma coisa, você acha que eu fiquei mais calmo e tranquilo ultimamente?


Mãe: é claro filho, você ta bem melhor


Antonio: eu só…tava pensando o quanto dessa calmaria é mérito meu e quanto e da poção


Mãe: que bobeira você tá falando? e claro que a poção ajudou, mas ela é só um regulador de humor, ela ajuda você em partes que você mesmo não pode cuidar sozinho, e nada além disso


Antonio: eu…não entendo


Mãe: por que você está tão focado nisso? Tá com vergonha por não conseguir melhorar a si mesmo sozinho?


Ai, ela acertou bem no alvo, como ela conseguia fazer isso?


Antonio: acho que sim


Mãe: cavaleiros usam espadas e armaduras para usar aura, e magos como você usam cajados e mantos especiais para lutar. Nenhum de vocês luta ou faz treinamentos apenas com as próprias mãos, vocês sempre recebem ajuda de equipamentos, então por que é tão difícil pra você aceitar ajuda de uma poção quando você ainda tem todo o trabalho de fazer ela valer a pena?


Antonio: …


Mae: filho?


Antônio: é que eu tenho medo, medo do que pode acontecer comigo se eu não tiver as poções por muito tempo


Mãe: e em qual situação você ficaria sem a poção por muito tempo?


Eu…não consegui responder, ela estava certa, sem ela falar mais a fundo, entendi na hora que eu só estava sendo pessimista, sim, um pessimismo que eu ainda carregava, mas que era forte o bastante para eu ter sido bem resistente a essas poções um dia. 


Mesmo agora, eu não conseguia me convencer a tomar ela todos os dias, e ao invés de raiva, só conseguia rir do quão patético eu era por, no fim de tudo, ainda acreditar no que meu pai dizia que eu era ao invés do que eu SABIA o que eu era.


Antonio: hehe, acho que uma parte de mim ainda quer ser normal


Mãe: ah filho, (abraça) ninguém é normal, nem eu, nem você, nem essas pessoas que se intitulam “normais”, você não quer ser normal, você se acostumou em ser “normal” por minha causa…eu…sinto muito por isso


Antônio: não, não, não fala isso, nada disso é culpa sua.


Falei aquilo enquanto abraçava de volta minha mãe bem forte, ficamos abraçados daquele jeito um bom tempo, uma troca de calor tão intensa e com sentimentos tão carregados que senti que nossas almas estavam se abraçando. 


Em toda minha vida, nunca senti um calor e conforto parecido com o que tinha quando a abraçava, e talvez nunca tivesse, sim, nunca conheceria alguém como minha mãe, mas podia encontrar algo parecido, baseado no que ela me ensinou, esse amor, ele será minha bússola para meus amigos, e para minha amante.


Antônio: obrigado mãe


Mãe: pelo que?


Antônio: por, tudo…nunca diga que é culpa sua eu ter ficado assim, não tinha como você saber o que eu tinha na época, as maldições, mesmo depois de séculos, ainda parece que nós e os gigantes estamos apenas arranhando a superfície do que elas significam


Mãe: hehehe, nem as melhores mentes do mundo conseguiram entender a magia e as maldições por completo, só como lidar com ela, eles queriam entender tudo, ainda desejam entender tudo e a todos, talvez você acabe seguindo esse caminho no futuro.


Minha mãe desfez o abraço, se afastou um pouco de mim e me deu um beijo na testa, eu parei de abraçar ela e deixei ela me abraçar mais forte, enquanto ela continuava.


Mãe: mas para uma mãe como eu, só saber o bastante pra você ficar bem, já é o suficiente.


Eu...tentei o máximo ficar calmo, mas minhas lágrimas caíram sem eu conseguir impedir, e minha mãe nem ligou e só fez carinho em minha cabeça, mesmo chorando, eu me sentia a criança mais abençoada do mundo por ter uma mãe como ela.


Queria falar algo pra minha mãe, mas não consegui, eu queria ficar daquele jeito com ela o máximo que conseguia, eu queria sentir tudo por saber o quão raro era ela conseguir falar comigo daquela forma, só depois de bastante tempo eu fiquei calmo novamente, e quando a olhei, vi que ela já parecia saber o que era.


Mãe: o que foi filho?


Antônio: bom…mãe, amanhã a minha amiga me pediu para acompanhá-la pra casa de reabilitação, e eu pensei se…você poderia me acompanhar


Mãe: é claro filho.


Foi tão simples que nem acreditei no quão foi fácil.


Mãe: já perguntou para seu pai se ele quer ir também?


Antônio: não quero que ele vá.


Minha voz continuava calma, o ódio que eu sentia e manifestava sempre que pensava ou falava sobre meu pai desapareceu, mas a rejeição de minha lógica ainda prevalecia. 


Foi difícil, mas eu fiquei muito tempo aprendendo sobre inteligência emocional, sobre como lidar com minhas próprias emoções, meu amor, minha alegria e felicidade queriam estar perto do meu pai, mas minha lógica sabia que ficar perto dele só ia me machucar mais. 


Parecia contraditório pela forma como eu não parava de pensar nele mesmo depois de ignorá-lo, mas eu pus tudo e todos os cenários em uma balança, e no fim, ignorá-lo e fingir que ele não existia parecia o menos doloroso de todos.


Antônio: por favor mãe, não conte pro meu pai o que agente vai fazer amanhã.


Minha mãe olhou pra mim por algum tempo, eu…ainda não tinha contado nada daquilo pra ela, mas ela me conheceu a vida toda…não, ela me conhecia antes mesmo de eu viver, ela me carregou, me protegeu, me quis, me sentiu com cada parte de seu ser…Ahhhhhhhh, tava pensando demais de novo. Com um olhar ela entendeu perfeitamente as palavras que eu não falei, e apenas falou.


Mãe: tá bom, já que é o que você quer


Antônio: obrigado mãe.


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