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Não é uma Maldição
Inveja do Mais Velho
1661 palavras • 9345 caracteres • ⏱ 6 min 39 s

Inveja do Mais Velho

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Entrar no clube da escola foi incrível, minhas corridas ficaram tão boas nas três pistas, que muitos dos novatos tentavam me acompanhar, e eles na maioria das vezes, acabavam caindo dos cavalos, me fazendo agradecer que tinha um mago médico naquela parte da escola, junto de tudo que ainda tinha que fazer, eu sempre parecia cansado, mas consegui um tempinho só pra…conversar com o Brutus, pois assim como ele disse, em menos de uma semana, no sexto dia da semana, ele me contatou por cartas, e falou que precisava falar comigo, e pela letra, aquela conversa ia ser boa.


Com as coisas que eu fiz com o Zorro esses dias, chegar no lugar certo foi basicamente uma piscada, mas quando cheguei, o Sapien Singular estava sentado num banco, fazendo um rosto de medo que eu nunca vi ele fazer antes em nenhum momento, e eu já tinha visto ele quase perder um dos braços, eu disse oi, e ele não respondeu, só continuou olhando pro nada com olhos cheios de terror, era diferente do olhar do Davi, eu conhecia muito bem aquele olhar, ele parecia estar se preparando pro que queria falar, até eu me sentar no banco e deixar tudo sair de uma vez.


Brutus: Antônio…não tem forma simples de eu falar isso então vou falar logo de uma vez…a Dandara…ela é um cadáver ambulante


Antônio: como assim?


Brutus: o que você falou sobre ela não ter vontade nenhuma, cara, você tava sendo gentil, eu, nao me pergunte como, mas lutei com ela fora da escola e…eu não senti que tava lutando com um ser humano, ela era totalmente vazia por dentro, não era apenas técnica, ela não tinha vontade de lutar, medo ou sequer senso de autopreservação, quando eu bloqueava e a machucava, ela sequer parecia sentir dor, e ela…não parecia ter vontade própria, ela me espancou um bom tempo, mas aquela batalha era apenas uma batalha de xadrez pra ela, nunca usando um único movimento próprio ou demonstrando emoções, apenas coisas totalmente vindas dos livros de batalha.


Deus, só Deus, eu sabia que a Dandara estava numa situação difícil, mas aquilo…ela precisava de muito mais ajuda do que eu pensava…mas o que eu poderia fazer? 


Antonio: ela não queria minha ajuda, e se eu forçasse, ela iria me odiar por isso e nunca iria aceitar que eu realmente a ajudei


Brutus: deixe ela se machucar.


Fiquei meio surpreso com a fala de Brutus, ele não era o cara mais sensível do mundo, mas ele não falava aquelas coisas sem motivo.


Antonio: eu falei isso alto?


Brutus: sim, olha cara, a senhorita Dandara está passando por algo que eu e você já passamos uma vez, e por mais que me doa dizer isso, ela só vai entender que precisa de ajuda quando ela se machucar de verdade.


Meu peito ficou apertado, droga, eu fiquei tão inteligente, tão poderoso e me conheci de formas que nem podia imaginar anos atrás, mas não conseguia ajudar minha amiga, eu era patético, e não prestava.


Brutus: não pense dessa forma


Antonio: você pode ler mentes?


Brutus: não preciso ler mentes pra saber o que você está pensando, olha, isso é muita coisa para processar, por que você não volta pra casa e fica um pouco com sua família?


E novamente, vi as mãos do Brutus agitadas, e querendo bem mais que uma conversa comigo, mas ele ainda se segurou e deixou eu ir embora, sabendo que ele poderia entender o que eu sentia pelo meu rosto de novo, falei enquanto sorria.


Antonio: tenta não guardar muita coisa, tudo isso vai acabar indo pro Davi


Brutus: não se preocupe, (estala dedos) terão vários bandidos pra brincarem comigo nesse meio tempo.


Rindo, me afastei um pouco de meu amigo…cara, andar ate minha casa tão cedo a ponto de ainda estar de dia era algo inusitado pra mim, e com minha casa estando no horizonte, nem notei toda a estrada que tive que andar até ali. 


Depois de tomar banho e me arrumar, andei no meio de minha casa, pensando que minha mãe devia estar ocupada ainda, e meu pai não era uma opção, não mais, então andei pelos corredores novamente, vendo que algumas empregadas saiam de um quarto com panos cheios de sangue e com olhares preocupados, mas sabendo quem estava naquele quarto, estava tranquilo. 


Antes de entrar, bati na porta três vezes, apenas ouvindo uma voz bem fraca responder.


???: quem é?


Antonio: sou eu maninho


Pedro: pode entrar.


Entrando no quarto, vi meu irmão cheio de bandagens bem feitas, assistindo um espelho mostrando um mago estudando a natureza. 


Eu subi na cama e me aproximei dele, e bem devagar a gente começou a se abraçar, nós dois ficamos bem felizes e mais leves sentindo o carinho um do outro, eu sabia que meu irmão tinha suas lutas, ainda mais sendo um cavaleiro, mas naquele breve momento, todo o mundo do lado de fora parecia ter sumido, deixando apenas nos para confortar um ao outro.


Antonio: irmão, as vezes eu sinto muita inveja de você


Pedro: por que?


Antonio: as suas feridas já vão sarar, mas apesar de não estar mais machucado, eu ainda me sinto machucado


Pedro: sabe maninho, às vezes eu queria poder sentir o mundo que nem você…quem sabe assim as pessoas iriam me escutar


Antonio: as pessoas te escutam bastante, principalmente eu


Pedro: não o bastante…ainda não é o bastante…o que você fez no campo de cavaleiros…eu nunca conseguiria fazer aquilo


Antônio: eu já era um barril de pólvora cheio, o que eu passei no campo foi apenas a fagulha final


Pedro: isso vindo do cara que transformou todo o campo de treinamento em cinzas, foi posto numa prisão solitária, escapou do lugar e atacou qualquer um que tentou o impedir, parando apenas quando a mamãe apareceu, cara, você era um barril bem grande


Antonio: eu fui um barril enchido por mais de 15 anos, e durante todo esse tempo, sabe o que eu descobri maninho?


Pedro: o que?


António: caso tudo falhe, e nada que você faça adiante, se faça de doido e deixe todos os sentimentos acumulados saírem, pois quase todos apenas entendem quando você passa do limite


Pedro: passar propositalmente do limite quando não aguentar mais? interessante


Antônio: não tem nada de errado em ir além do limite, contanto que seja por sua vontade que você esteja passando do limite, nunca pelos outros


Pedro: ah, então tá tudo bem, eu to indo para os lugares mais perigosos por conta própria


Antonio: será? ou seus superiores te enganaram tão bem que você acha que isso é um pensamento seu?


Meu irmão não falou nada por alguns segundos, o instinto dele foi me abraçar com mais força enquanto parecia tremer de medo alguns segundos antes de falar.


Pedro: eu nunca quis ser um cavaleiro, mas como herdeiro e primeiro na sucessão, eu não tive escolha…eu nunca quis que você passasse pelo que eu passei, e pra te proteger eu prometi aguentar tudo


Antônio: já pensou no que iria fazer quando eu não precisasse mais da sua proteção?


Pedro: acho que então eu arranjaria uma esposa, teria um filho e tentaria proteger ele da mesma forma que te protegi e tratar ele bem melhor que o papai me tratou.


A proteção do abraço do meu irmão mais velho era tão grande e quente que se não me concentrasse acho que poderia acabar dormindo de vez, no lugar disso, falei.


Antonio: ahhhhh, você é realmente meu irmão mais velho, mas sinto um pouco de pena pelo sofrimento que você escolheu, mas como aprendi a muito tempo, “não existe uma vida sem sofrimento, só uma vida onde você escolhe seu sofrimento”, e se você tem certeza que aguenta isso, não ficarei no seu caminho irmaozão


Pedro: e você? aguenta o sofrimento que escolheu?


Antonio: o que EU escolhi, sim, mas o sofrimento que MEU PAI escolheu nunca foi o que eu aguentei, se o monge dos cavaleiros não tivesse insistido pro meu pai que eu deveria ir para um “teste” eu teria me tornado um amaldiçoado errante


Pedro: e eu teria ido atrás de você


Antonio: e eu teria pedido pra você não me procurar…


Eu queria continuar, mas engoli em seco e escolhi as palavras certas pro que eu iria falar, no escuro, abraçado com meu irmão e com um grupo de leões brincando sendo mostrado no espelho, terminei a frase, pensando que aquela resposta ironicamente vinha da minha seção com a Kauane.


Antonio: …o que eu fiz no campo de cavaleiros, agora que me conheço melhor, parece ser só a superfície de tudo que tem dentro de mim, eu sinto que…se ficasse sozinho, fugisse e tivesse apenas as vozes ruins da minha cabeça brigando com as boas, eu acabaria maluco e muito, mas muito diferentes, no sentido ruim, e bem provável que você não iria me reconhecer.


Então, meu irmão desfez o abraço, pegou meu rosto com as mãos e me fez olhar ele nos olhos.


Pedro: Antônio, nunca subestime meu amor por você, eu o reconheceria e o amaria mesmo se você se tornasse o ser mais instável e perigoso de todo o mundo.


Aquelas palavras simples, mas cheias de certeza e fé. Junto dos olhos reascendidos em chamas de paixão, deixavam claro que meu irmão não estava brincando. 


Eu…às vezes esquecia que, apesar de tudo que passei, eu tinha muita sorte, havia muita gente que nunca ouviu uma única palavra de amor em toda sua vida, e tinham muitos que sequer conseguiam chorar ou dar um abraço apertado em quem eles chamavam “família” como eu estava fazendo agora. 


Apesar da nítida dor que meu aperto causava em meu irmão, ele não parecia ligar, e no meio de tudo aquilo, eu não conseguia parar de pensar na Dandara, o cabelo ruivo dela, a pele tão macia dela, os cílios brancos diferentes que ela tinha, droga, eu precisava de ajuda, depois de mais tempo, eu só conseguia pensar na Dandara.


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