No dia seguinte, cavalguei por um lugar estranho, eu não conhecia de cor todas as ruas do reino, mas aquela rua parecia “limpa” demais, não havia barulho ou lixo espalhado pelo lugar, e os prédios não estavam rachados ou com marcas de batalha, hunnnnnn.
No meio desses prédios, entrei num apartamento e prendi o Zorro num estábulo calmo junto de outros cavalos.
Tentei não me impressionar com o fato de quase todos os cavalos ali serem maiores, mais musculosos e mais “durões” que o Zorro, alguns deles eram nitidamente cavalos modificados ou cavalos mágicos, mas a verdadeira surpresa que tive foi quando entrei no apartamento.
Em toda minha vida, eu nunca vi tantos Singulares num único lugar, antigamente, me sentiria mal por ter sido comparado a tantas pessoas com tantos problemas, achando que a minha maldição era calma e “mais fácil de lidar” mas agora, esses sentimentos não existiam mais, mas eu iria guarda-los para a psicomaga, eu iria querer falar bastante com ela.
Tinha um garoto que não conseguia controlar os braços e a própria cabeça, ao lado de um garoto que tinha certeza que era alérgico ao ar por ele estar numa bolha, a garota do lado dele explodiu por todos os lados e tinha um que segurava a própria cabeça.
E tinham aqueles que pareciam…normais, mas que tinham o colar que já estava me acostumando a usar bem devagar.
Ainda tinha algum tempo até a minha vez, então sentei perto daquele que eu parecia que poderia ter uma conversa e perguntei a primeira coisa que podia perguntar a um estranho.
Antônio: oi, eu sou Antônio, qual o seu nome?
Mas a pessoa não respondeu, ela tirou uma caneta do bolso e escreveu no ar “olá Antônio, eu sou Mia” ahhh, uma muda, não sei por que, mas aquilo me deixava feliz.
Antônio: é a minha primeira consulta com a psicomaga, alguma sugestão?
Mia: (não fique nervoso, ela está ali pra te ajudar, só relaxar e aja como se ela fosse sua melhor amiga de aluguel)
Antônio: pfffffhahahaha, melhor amiga de aluguel!? Gostei dessa, obrigado.
Conversando um pouco mais com a senhora mia, descobre que ela está nesse atendimento há 8 anos, e ela tinha a maldição de cuspir morcegos sempre que fazia qualquer som com a boca, si-nis-tro. E no fim, fui chamado e continuei meu caminho.
Antônio: tchau senhorita Mia, espero te ver de novo
Mia: (eu também jovem, eu também).
Subindo as escadas vi algo interessante nas paredes. Nossa, havia feitiços de resistência física e mágica, feitiços à prova de som, nada do que eu falasse ali iria sair, eles pensaram em tudo, legal.
Quando cheguei na porta número 25, bati três vezes e ouvi a maga falando pra eu entrar. Quando entrei senti um frio muito bom la dentro que me fez relaxar um pouco.
Psicomaga: oi Antonio, eu sou a Kauana e vou ser sua psicomaga, por favor, sente-se.
Santo deus, que voz era aquela? Era uma voz tão doce e tão tranquila, enquanto sentava na poltrona só pensava como aquela maga havia se dedicado bastante ao trabalho para sua voz ser tão doce, essas poucas palavras dela me fizeram sentir que eu estava falando com a minha mãe, era isso que a Dandara sentia quando me via? Não era atoa que ela falou que eu atrapalhava ela, mas antes de terminar meus devaneios, a voz doce de Kauana me chamou novamente.
Kauana: então Antônio, pode me contar um pouco sobre você?
Antonio: (risada) engraçado, ultimamente fiquei pensando bastante sobre mim mesmo e sobre minha maldição
Kauane: jura? E o que descobriu?
Antônio: que mesmo quando eu recusava com tudo o que eu tinha, no fim ela sempre me ajudou de certa forma, meu stress, minha raiva, minhas manias, algumas eu acabei perdendo com o tempo, mas a maioria acabou aguentando e chegou até aqui, conservando essa pessoa incrível que eu sou
Kauane: e quem você é?
Antônio: eu sou…um bom garoto, eu gosto muito de livros de princesas, eu amo animais, amo crianças, amo minha família, gosto muito de magia e o quão complicada ela é, e eu amo prédios lindos e bem feitos mais do que tudo no mundo
Kauane: por que você se diz como “um bom garoto”?
Antonio: por que eu obedeço meus pais, as vezes muito pro meu próprio bem, nunca aceitei poções estranhas de estranhos, só estudei e me esforcei bastante e sempre ajudei eles quando precisavam, eu não me vejo como um mau garoto
Kauane: e o que seria um mau garoto?
Antonio: uma criança levada, que não escuta ninguém, briga e bate nos pais, têm filhos antes da hora e vive sempre nas costas de seus pais
Kauane: então você está dizendo que você é um bom garoto por não dar trabalho demais aos seus pais e sempre tentar ajudar a si mesmo quando consegue, certo?
Antônio: sim, eu amo minha família, mas na primeira oportunidade que eu tiver, vou sair de casa
Kauane: algum plano quando conseguir isso?
Antônio: mas é claro, eu quero sair daqui e viajar pra vários lugares diferentes, pontos turísticos famosos que muitas pessoas amariam ver, mas não tem coragem pra isso.
Kauane: como assim não tem coragem?
Antonio: muitas crianças que eu conheci me falaram “por que ir ali? as pessoas já descobriram tudo ali” mas na minha opinião é por causa exatamente desses exploradores que eu tenho o dever de ir até lá, não sei de todos os detalhes, mas nos livros que eu descobri sobre esses lugares, sei que, não importa o quão preparados eles estavam, eles com certeza perderam muitas coisas físicas e psicologicas, eles…sacrificaram muita coisa para nós sabermos do lugar, conquistá-lo e agora qualquer um pode ir lá para ver, admirar e registrar coisas que levou tanto de várias pessoas, esse nível de dor que nem consigo imaginar que eles passaram não pode ser passada em vão, eu quero honrar esses idiotas corajosos indo para cada lugar fantástico espalhado pelo mundo…esse é meu sonho, minha missão, meu motivo pra viver.
Deixei as palavras ficam no ar, eu ri depois de contar isso pra mais alguem, eu ja tinha falado pro Brutus e pro Davi, separadamente, mas eu me sentia tão feliz em deixar um adulto saber meu sonho, e pelo olhar de felicidade e olhos quase em lágrimas, era uma adulta que entendia meu sonho, seja pelo trabalho ou por algo pessoal, ela me entendia, e isso fez meu coração se sentir tão leve que por alguns segundos que pensei ter morrido, mas não, eu só estava feliz de uma forma que eu nem conseguia explicar direito, conferi meus olhos pra ter certeza que não estava chorando, e pelo amor de deus, não estava, ela era confiável, mas era a primeira sessão, estava cedo pras lágrimas caírem.
Kauane: você tem um sonho lindo (limpa lágrimas) e um bem longo, alguma ideia do que fazer no meio disso?
Antonio: sinceramente, não muita, tirando a escola e o curral dos cavalos, não vejo muitos lugares que eu iria perder meu tempo pra sair de casa pra ver
Kauane: e o que você faz na sua casa, assiste o espelho:
Antonio: a não, eu leio, leio bastante
Kauane: você gosta de livros? Que legal, o que você lê?
Antônio: ah, sabe como é, um pouquinho disso, um pouquinho daquilo, romance, suspense, aventura, fantasia, tudo menos terror e thriller
Kauane: e você tem um livro favorito?
Antônio: (sorri) sim, o meu livro favorito é sobre um príncipe que vagou pelos 4 cantos do planeta tentando pegar pedaços diferentes dele próprio…uma história linda, o príncipe se apaixonou, fez amigos e machucou muitas pessoas, mas no fim, ele se sentiu inteiro, feliz, completo pela primeira vez na vida
Kauane: que incrível Antônio, e por que você gosta tanto desse livro?
A resposta estava na ponta da minha língua naquele momento, mas antes de responder, pensei um pouco antes de falar.
Antônio: acho que só achei o protagonista legal por ser um mago…e também pelo fato dele…meio que não entender pessoas antes de ir a sua jornada, os 4 pedaços da alma dele que foram separadas foram seus sentimentos, sua dor, seu senso de si e seu respeito.
Poder apenas falar coisas assim com alguém que não era meu irmão era libertador, e ao mesmo tempo vergonhoso, apesar de não sentir vergonha do que falava, algo em tudo aquilo me fazia sentir totalmente exposto, mesmo estando totalmente vestido, aquele desconforto era horrível, mas ainda perdia pra alegria que sentia daquele momento.
Antônio: era interessante que ele descobriu o primeiro pedaço da alma por acaso, quando ele estava apenas vagando como um monstro imortal que nem parecia uma pessoa, sem saber quem era, até que…as emoções dele o encontraram…e as páginas dele encontrando as emoções, sentindo pela primeira vez todos os sentimentos que ele nem sabia que existiam…me fez querer saber como a história iria acabar
Kauane: o livro contou a idade do príncipe?
Antônio: não, mas ele ficou bastante tempo vazio, tempo o bastante pra ele ficar com medo de encontrar os outros pedaços, mas depois de conseguir seus sentimentos e…descobrir que o que ele tinha não era vida, ele viajou no lugar mais perigoso do mundo só pra encontrar a própria dor, ele entrou num mar onde as chamas não o queimaram, os monstros lá não o atacaram e ele não sentia fome, mas quando ele encontrou a própria “dor” o livro descreve da seguinte forma “o mundo se tornou meu inimigo, o lugar que eu sempre enxerguei em cinzas se tornou tão colorido que quase fiquei cego e pelos próximos momentos de minha vida pensei que não iria sobreviver, mas não, eu sobrevivi, e quando comi minha primeira refeição, nunca me senti mais vivo”.
Queria falar mais do livro, mas não podia, olhei o relógio da parede e vi que não tínhamos muito tempo sobrando, tinha que usar o resto do tempo com cuidado.
Antonio: cara, já tá acabando? que saco
Kauane: você quer ficar mais algum tempo?
Antônio: não, tudo bem, não seria justo com o cara que ta atras de mim, so…vamos continuar
Apesar de falar aquilo, deixei de falar por um tempo, pensando no que podia discutir com ela no pouco tempo que a gente tinha, mas ela acabou me dando uma ajudinha.
Kauane: Antônio, eu acho que você gostou tanto desse livro porque você se viu muito no protagonista…e que se ele conseguisse, poderia significar que você conseguiria também
Antônio: não podia falar de forma melhor, mas eu também gosto de histórias clássicas, príncipes lutando contra monstros enormes, resgatando princesas de castelos altos e destruindo grandes feras
Kauane: por que?
Antônio: porque, no fim de tudo, eu ainda sou um homem, eu quero ser forte, poderoso e conseguir proteger as pessoas, manter minha princesa segura e defendê-la de qualquer coisa jogada em mim, mas como não posso fazer isso, eu me contento em ler histórias de pessoas que conseguiram
Kauane: e por que você não poderia fazer o que esses protagonistas fazem?
Antonio: bom, porque eu não sou um bom lutador, e não acho que sou confiável pra qualquer um ficar sob minha proteção
Kauane: bom, você não precisa lutar o tempo todo para as pessoas confiarem em você, é na verdade o contrário, você se torna mais confiável quando está tão forte que não precisa lutar para proteger os outros, entende?
Antonio: poderia me dar um exemplo?
Kauane: não darei só um exemplo, falarei de uma vez o que você preciza, pessoas que são poderosas sabem as consequências de brigar sem motivo, e isso é muito além de apenas a luta física, eles sabem que apenas mostrar a própria força ou crescer basta para muitos agressores desistirem
Antônio: mas por que?
Kauane: porque esses agressores, na maioria do tempo lutam com os fracos, pois eles só querem mostrar que são fortes, e ironicamente, eles são os últimos a enfrentarem alguém que apenas não leva as ameaças deles a serio e so fica la, os encarando, pronto pra “fazer” o que muitos desses bandidos só “falam” entende?
Antônio: mais ou menos.
Era um ponto de vista interessantes, a vida real e as histórias em livros eram diferentes, mas até no mundo da fantasia existia scenas assim, scenas onde um personagem bandidão figurante tentava implicar com alguém do grupo do protagonista, e o protagonista apenas salvava a pessoa, na maioria das vezes só aparecendo ali e mostrando sua aura e confiança extrema…e na maioria das vezes, os bandidos deixavam o protagonista em paz sem o protagonista sequer levantar as mãos, interessante.
Antonio: e como eu chego nesse ponto?
Kauane: o que você tem feito até agora?
Antonio: estudado magia, treinando com meu amigo e cavalgando com meu cavalo, coisa simples
Kauane: só isso está bom por enquanto, o tipo de herói que você quer ser é algo que leva tempo pra acontecer
Antonio: sem problema, eu entendo.
O resto da sessão foi bem simples e calminho, depois eu só continuei falando dos livros que li e lugares de cavalgada favoritos, e quando a seção da psicomaga terminou, apertei a mão dela e senti que estava mais forte do que nunca, como se uma luz intensa de felicidade tivesse explodido na escuridão do meu ódio, ambos tentaram se fundir e criar meu humor naquele dia, e o resultado? Uma leveza que me fez sorrir como um pateta e a saltitar no corredor, encontrando aquele garoto que explodiu no corredor.
Antonio: melhoras pro senhor
???: o-o-o-o-obrigado.
Cara, eu tava tão feliz que decidi só cavalgar com meu cavalo por aí sem ligar pra nada, entendendo minha empolgação, Zorro relinchou e cavalgou numa velocidade extrema, me fazendo usar as ruas mais desertas no lugar, e o vento batendo no meu rosto dissipou qualquer barulho.
Na minha corrida frenética, notei que alguém começou a se aproximar de mim, e eu reconheci o cavalo na hora, como sempre, eu corri ainda mais rápido, tentando impedir que ela me alcançasse, mas ela continuou avançando de forma constante e regular, como se fosse para me provocar, e estava funcionando, então eu vi, Saytus em um cavalo de 2 patas e com corpo de alce indo na minha direção, ela parou bem do meu lado e falou.
Saytus: à sua esquerda.
E depois de ser humilhado e alcançado com Saytus me falando “a sua esquerda” 140 vezes, me senti calmo o suficiente para ir pra casa.

