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Não é uma Maldição
A Maldiçao do Vazio
2906 palavras • 16500 caracteres • ⏱ 11 min 37 s

A Maldiçao do Vazio

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Eu tava pensando muito nisso, minha mente tava numa guerra interna tão grande que não falei com ninguém, até o essencial e simples como “bom dia” estavam me irritando a ponto de explodir. Droga, droga, droga, minha magia estava instável, instável demais, eu, queria fazer alguma coisa, qualquer coisa pra me acalmar, mas eu não, conseguia mais mexer as mãos, meu pai me fez odiar aquilo, AH QUE ÓTIMO, AGORA EU TAVA QUASE EXPLODINDO.


Mas assim que saí de casa, peguei meu cordão, e de repente, agora conseguia entender melhor o que o “peso” daquele cordão significava, eu era um vulcão prestes a explodir, e eu tinha que ter muito cuidado quando saísse de casa, mas pela primeira vez, eu coloquei o colar no pescoço.


Sair de casa foi 5 vezes mais difícil com todo o stress em minha cabeça, eu tava ficando sem ar e suando bastante, mas no meio do barulho e meu próprio stress, peguei meu cordão e comecei a brincar com as pétalas dos girassóis, mexendo, mudando e remoendo elas, respirei fundo e deixei minha mente se focar apenas nos movimentos da minha mão, na sensação que meus dedos tinham tocando as pétalas, e até fiz um pequeno jogo de contar cada pétala, e quando vi, as vozes em minha cabeça diminuíram bastante. 


Mas mesmo mais calmo, eu não estava bem, ainda tava suado, amarrotado e meio acabado, e o Davi percebeu, quando cheguei na casa dele ainda estava péssimo, mas ele ainda não falou nada, so…esperou que eu contasse pra ele o problema, coisa que não fiz, e quando chegamos nas escadas dos gigantes, ele perguntou.


Davi: Antonio… você tá bem?


Antônio: não


Davi: quer falar sobre isso?


Antonio: também não…a gente pode falar de outra coisa?


Davi: claro, do que você quer falar?


Ainda tocando no meu colar pra ficar calmo, pensei em Dandara, não iria ignorar essa sombra obscura, ainda mais depois que eu descobri o quanto ela tava me afetando, mas por enquanto, precisava de uma pausa de olhar pra mim mesmo, e a Dandara era o bote salva vidas perfeito.


Antônio: tem uma garota da minha escola que…eu to interessado, mas acho que ela me odeia


Davi: sério? por que?


Antonio: eu só queria saber mais sobre ela, não to apaixonado nem nada do tipo, mas quando finalmente falei com ela, ela falou que eu distraio ela e que queria que eu parasse de falar com ela


Davi: e você fez o que ela disse?


Antonio: sim, não ia perder nada fazendo o que ela diz, mas não é isso que eu queria falar…tem algo estranho na magia dela, é como se ela não estivesse ali quando fas os feitiços


Davi: como assim?


Antonio: deve ser difícil explicar isso pra alguém que não é mago, mas…os feitiços dela não tem alma, são apenas técnica pura sem sentimento nenhum


Davi: unhun, unhun, acho que tenho uma ideia do que você quer dizer.


Cara, eu sou um idiota, estava falando de tecnicas de lutas com um aspirante a cavaleiro, naquele momento Davi pareceu entrar num estranho redemoinho de pensamentos que eu não entendia, mas sabia que seria algo incrivel, mas a conclusao daqueles pensamentos iria ficar pra depois, pois nos tinhamos chegado no topo das nuvens.


Pisando fora da escada, demos de cara com o chão liso de pedra em cima das nuvens carregando humildes casinhas de monges feitas de pedra, e como sempre, o pátio estava cheio de várias multidões de várias espécies palestrando uma com a outra. Minha mente estava muito inclinada a ouvir uma certa palestra hoje, então a procurei com muito cuidado até encontrar algo bem interessante, e ouvi um pouco a palestra dele.


Gigante: aquele que tenta agradar a todos, acaba sozinho. Muitos aqui já esconderam, ou ainda escondem quem são, pensando que se ficarem quietos e não falarem nada as coisas darão certo, mas é o completo oposto, existem realmente coisas que não devem ser ditas, mas existem momentos em que você DEVE se impor e falar sua opinião, não importa a relação que você tem com alguém, se ela precisa que você minta constantemente para ela e guardar várias coisas que você sente o tempo todo, então esse relacionamento nunca foi verdadeiro.


Ai, aquele comentário doeu, ao mesmo tempo que me deixou aliviado, eu havia chegado sozinho aquela conclusão há bastante tempo, mas eu não fazia ideia se eu estava certo ou não, e ver um gigante monge chegando à mesma conclusão que eu, tirava um peso das minhas costas, ao mesmo tempo que deixava um buraco no meu coração pela implicação que a relação que eu tinha com meu pai, onde eu “escondia” minha maldição, nunca foi de verdade, mas no meio de minhas divagações, uma pessoa levantou a mão em dúvida.


Aluno1: e como sabemos quando devemos guardar algo ou deixar sair?


Gigante: ótima pergunta, (bate palmas) muitos não sabem disso, mas o truque para saber se o que você está guardando é ruim ou não, é analisar seu próprio corpo, claro que existem exceções, mas sempre que você guardar algo dentro de si próprio, pergunte a si mesmo “isso está me machucando?” ou “isso está me fazendo mal?” mesmo quando você decepciona ou ofende pessoas, a saúde mental é mais importante do que fingir ser totalmente bom


Aluno2: como assim “totalmente bom?”


Gigante: ah jovem, você não soube, o ser humano é egoísta por natureza, até a pessoa mais altruísta do mundo precisa de pelo menos 5 minutos só pra ela, e não tem nada de errado em querer ter um tempo só pra si mesmo, mas pensar em si próprio virou um tabu por incompetentes que extrapolaram essa regra tão simples, demonizando o amor próprio ao extremo para muitas pessoas


Davi: então nós estamos condenados a ser maus?


Gigante: jovem, condenados é uma palavra bem forte, nós estamos propensos a sempre nos importarmos com nós mesmos no final, lutar contra a natureza da nossa própria preservação cria brechas para os não tão bons intencionados nos explorem até o limite. Nós devemos usar a maldade dentro de todos nós não para machucar os outros, mas para nos proteger, precisamos da maldade pra dizer não pra um amigo que precisa de ajuda ou dinheiro, precisamos de maldade para exigir os direitos de nossos chefes, e precisamos da maldade para nos impormos quando nossos pais nos maltratam, pois nenhuma “criança boa” iria desrespeitar os pais, não importa o quão podres eles sejam.


Minha magia quase explodiu pra fora na última parte, mas consegui me controlar a tempo agarrando com força meu colar, e olhei em volta, pra ver vários outros alunos desconfortáveis com uma situação bem pior que a minha, não era atoa que tinham tão poucas pessoas ali…


O stress e raiva acumulada ameaçou sair de meu corpo várias vezes, mas pude me controlar segurando o colar, era…estranho, eu sentia como se meus sentimentos estivessem me afogando, mas o colar parecia uma corda que me permitia respirar, mesmo que um pouco, a voz de meu pai, dizendo que eu não era aquilo, eu não era maluco. Tentava mexer com a minha cabeça, mas consegui a ignorar o bastante para eu me manter calmo


Sim, agora eu entendia, eu nasci assim, e no fundo eu sempre soube o que tinha, mas pensei estar errado, pois não existia ninguém que eu confiava mais que meu pai, mesmo quando ele alegava me conhecer mais do que eu mesmo…eu estava errado.


Nós vimos mais algumas palestras, o suficiente para eu conseguir me acalmar, mas mesmo calmo, Davi ainda me olhava bem preocupado, e da forma que eu estava agindo, não o culpava, ele queria me perguntar algo quando nos desciamos de novo para o reino dos gigantes, mas antes dele falar, falei primeiro.


Antonio: e ai, como tá indo a escola de cavaleiros?


Davi: estranha, o Brutus conseguiu se inscrever lá quando eu estava dormindo, e agora nós estamos tendo aulas separadas, (balança a cabeça) agora o meu pai tem que pagar a escola por dois


Antonio: humpf, bem feito pra ele


Davi: não fala assim Antônio, você sabe que minha situação com meu pai é complicada


Antonio: o que tem de complicado nela? você sempre se esforçou muito, e quando suas irmãs gêmeas nasceram você continuou se esforçando mas seus pais nunca te encorajaram ou te deram presentes como suas irmãs, tudo por que eles pensaram não precisar por você ser “bem maduro” pra sua idade, isso te deixou com raiva, junto de várias coisas, e essa raiva acumulada acabou criando o Brutus, o que tem de complicado nisso?


Ele não falou mais nada depois disso, droga eu fiz de novo.


Antônio: ah, desculpa Davi, eu não queria…


Davi: não, tá tudo bem, voce ta certo, mas isso é passado, o meu psicomago me ajudou bastante a me resolver com meus pais e tudo ficou uma maravilha


Antonio: esse mundo precisa de mais psicomagos


Davi: também acho…por falar nisso, como é que tá o seu?


Antônio: ainda não o conheci, mas sinceramente to empolgado pra conhecê-lo


Davi: nao, nao o psicomago, como ta o seu pai.


Eu demorei pra responder, apesar de eu já admitir isso pra mim mesmo, ainda era um segredo que apenas eu e o escuro sabíamos, minha mente assustada considerou um bom tempo se o Davi era confiável de eu contar aquilo pra ele, até chegar à conclusão de que “que que é que eu tô pensando? é claro que ele é”.


Antonio: bom, eu descobri que eu…odeio meu pai.


Lá estava, aquela voz sinistra que ainda não conseguia acreditar que era minha, mas sem nem se abalar, Davi me perguntou.


Davi: jura? por que?


Antonio: …por que ele me fez…pensar que eu era uma aberração, eu…sempre tive ataques e momentos de raiva por causa dos meus super sentidos, mas ele nunca achou que era um problema, e só me repreendeu dizendo que eu devia “parar de agir como um maluco” e eu obedeci, até que um dia…meu corpo se cansou de fingir e, comecei a ter ataques muito mais pesados


Davi: tá me falando que seu corpo só…desistiu?


Antonio: pois é, estranho né? um dia eu estava todo bom, perfeito e deixando toda a minha sombra contida, até que quando eu entrei na grande brigada de cavaleiros, minha máscara desmoronou, ela não quebrou ou caiu, ela foi esmigalhada em pedaços e eu nao consegui a reconstruir, não importa o que eu fizesse.


Eu disse isso. Eu não tinha percebido, mas eu estava quase chorando, então eu vi o Davi rindo, com alegria e pelo que parecia…inveja? Nossa, me senti um lixo em pensar que aquilo me fazia sentir um pouco melhor, mas não falei em voz alta.


Davi: bom, acho que isso é uma benção que a sua maldição traz


Antônio: como assim?


Davi: acho que…não existe ninguém mais fiel a você do que sua mente, mesmo estando manipulado e não vivendo por si mesmo, sua Singularidade não desistiu e continuou te lembrando dia após dia quem você era, que você não era um cavaleiro mas sim um mago, e quando a máscara venceu, sua Singularidade decidiu só desmantelar por completo a máscara, fazendo essa visão de “filho perfeito sem erros” ser totalmente desfeita


Antônio: ah, mas…cara, isso é muita coisa pra processar


Davi: sendo sobre maldições sempre é, mesmo as mais simples como a sua


Antônio: pois é


Davi: agora me fala Antônio, o que teria acontecido se você tivesse entrado na escola de cavaleiros?


Antônio: bom…talvez eu…acabasse me perdendo


Davi: por que?


Antônio: por mais estranho que pareço, não consigo me imaginar ficando na escola, pois para eu ficar lá eu teria que não ter a minha singularidade, a singularidade que me permitiu antes de tudo, ter bastante foco e estudar bastante, a singularidade que me fez amar construir coisas, a singularidade que…antes de eu entender o que era, sempre esteve comigo, nas partes boas e ruins, então…eu não faço ideia como eu ficaria se eu ficasse na escola, por que enquanto eu continuar sendo eu mesmo, isso não iria acontecer.


Davi parou de falar então, decifrando cada palavra do que eu disse sem pressa nenhuma, até falar novamente.


Davi: tenta.


Aquelas simples palavras me fizeram tentar pensar no que aconteceria se eu, no fim de todas as possibilidades, ficasse na escola de cavaleiros.


Antônio: acho que…eu ficaria apenas, estagnado, sabendo que não importa o que eu sofresse ou o quanto eu estivesse mal, nada daquilo iria importar, então só ficaria em conseguir mais dinheiro pra completar meu sonho…e quando eu conseguisse…não iria mais querer realizá-lo…


Chegar naquela conclusão pesou tanto meu peito que eu tive que parar de andar um pouco, meu coração parecia de chumbo, estava ficando com falta de ar, mas minha magia não estava se descontrolando, eu não sabia como me referir a aquilo, mas sentia como se o peso da consciência do que passei me atingisse de uma vez só e quase me fez desmaiar. 


Depois de me acalmar, eu fiquei olhando os céus um bom tempo, já estava anoitecendo, mas não queria voltar pra casa, não no meio do que estava descobrindo.


Davi: por que não?


Antônio: por que, uma hora ou outra…eu ia chegar a conclusão que se não deveria ligar para as coisas ruins que sentia, não deveria ligar para coisas boas também, meus sonhos, minha felicidade, minha alegria…tudo isso ia perder sentido pra mim, e só o dinheiro iria importar…por que foi isso que acabariam me ensinando, não importa o quanto você sofra, não importa o que você sacrifique, mesmo que você deva desistir do seu próprio sonho e talvez até de você mesmo, desde que você consiga o dinheiro no final, tudo vai valer a pena


Davi: e foi isso que tentaram te ensinar?


Antônio: não, mas acho que acabaria nessa conclusão…e talvez eu acabasse…você sabe…com “aquela” maldiçao


Davi: do que você tá…


Davi parou sua fala no meio do caminho, e cobriu a boca com as duas mãos com o que estava dizendo, o horror e medo nos olhos dele dizia bem que ele tinha entendido.  


Sim, o maior tabu da história das maldições, uma das poucas maldições considerada altamente mortal, e com um lugar especial até entre as maldiçoes mortais pelo quão fácil era de contraí-la, ela já matou muitos magos, e ainda mataria muitos outros, e se eu não tivesse minha Singularidade, talvez tivesse me pegado também, e eu não teria chance de sobreviver.


Tentei ficar calmo, mas não conseguia me impedir de tremer, e o fato do Davi estar tremendo e com ainda mais medo que eu não ajudava também.


Davi: você…te-te-tem certeza!?


Eu considerei aquilo, e apesar de tudo, aquilo era apenas o pior caso, mas quanto mais eu pensava, mas aquele parecia ser o único caso.


Antônio: sim, no melhor dos casos eu iria só sair de casa pra trabalhar, eu não seria diferente de um golem depois de um tempo.


Davi pareceu ter entendido que havia entrado num lugar bem perigoso da minha mente e apenas falou.


Davi: (voz tremendo)quer saber Antônio, acho que já chega de reflexão por hoje, vamos só cavalgar um pouco


Antônio: …


Davi: Antônio?


Antônio: ahn? Ah, claro, claro, vamos cavalgar.


E nós só cavalgamos pelo reino, encontrando várias pessoas que estavam vivendo suas vidas, mercadores, cavaleiros e bardos ambulantes. Mas nada daquilo chamou minha atenção, finalmente entender o que minha Singularidade me impediu de passar me fez apertar ainda com mais força meu colar de girassóis, além de eu ter entendido muito melhor o por que eu odiava meu pai tanto assim, e pra garantir que entendi, falei de forma voluntária.


Antônio: eu odeio meu pai.


Sim, eu tinha entendido cada grama do ódio que minha voz carregava e sabia como “lidar” com ela, Davi ficou com muito medo de mim, mas não falou nada, pensando que minha magia iria explodir se falasse algo errado, mas não, minha magia na verdade parecia mais controlada e contida do que o normal, isso porque aquilo que destruía tudo e todos por não saber por que existia, agora tinha um alvo, um alvo de toda a miséria e dor que eu passei. 


Mas por enquanto, tinha que ficar tranquilo e impedir suspeitas, minha magia entendeu isso e diminuiu sua força e por fora eu continuava sendo o gentil e feliz Antônio quando ficava calmo, mas com uma conversa, eu estava totalmente diferente por dentro.


Davi: Antônio


Antônio: que foi?


Davi: tá tudo bem?


Antônio: ah, sim, eu me sinto ótimo.


Eu não menti pra ele, eu estava mesmo ótimo e mal podia esperar para as próximas aulas.


Quando cheguei em casa, vi todo mundo vendo algo no espelho da sala, eu fiquei interessado, mas quando vi meu pai junto de meu irmão, me senti…calmo, calmo de uma forma que não pensei ser possível.


Pai: oi filho, quer ver conosco?


Antônio: ah não, eu tô cansado pai, na verdade, eu só ia ler na biblioteca de novo


Pedro: agente pode ter um papo antes disso? Irmão.


Antônio: fica pra próxima maninho, amanhã vai ser minha primeira consulta, lembra?


Vi meu irmão mais velho ficando bem triste, cara, ele parecia uma criança quando fazia aquela cara, e toda a raiva gélida que construí pro meu pai acabou trocando de lugar com o quente amor que ainda tinha por meu irmão.


Antônio: vou contar os dias


Pedro: EU TAMBÉM.


Sério, às vezes parecia que eu era o mais velho.


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