O dia passou voando, ainda mais para nós, que tínhamos bastante coisas pra resolver, e quando tava anoitecendo, eu e Davi pegamos caminhos diferentes, eu estava bem ciente que ele ficaria bem com o Brutus o protegendo, e a noite, apesar de ser perigosa pra mim, também não era nada super perigosa.
Uma vez em casa e de banho tomado, decidi não jantar e ir direto pro quarto, meu eu do futuro iria repreendê-lo por isso, mas não tava nem aí, pois o que eu tava pensando era bem mais importante do que isso. Estando escuro, e novamente protegido pelo escuro, me deixei relaxar um pouco, e antes de dormir de vez, encarei a escuridão um bom tempo até falar em voz alta.
Antônio: às vezes, eu escondo o que eu sinto, mas…isso é uma coisa ruim? Não, segurar minha vontade de bater na cara de uma pessoa, queimar uma árvore sem motivo, e apenas tentar me estressar por motivo nenhum não são coisas que deveriam sair…mas isso são mais impulsos, enquanto traços de personalidade continuam normalmente no lugar. Mas, segurar a minha vontade de ler, ou a minha grande vontade de pintar, ou minha vontade de lutar, isso não pode acontecer, isso sim é um seguramento ruim, e mesmo assim, sinto que tem coisas que é melhor deixar dentro da minha mente, mesmo coisas que parecem parte de mim, como minha antiga agressividade, e minha negação de chorar perto das pessoas…mas isso não tá totalmente solto…sinto que ainda preciso escolher bem onde deveria chorar, o mundo é tão ruim lá fora pra quem chora muito, tanto homens quanto mulheres.
E novamente eu dormi com uma boa noite de sono, no dia seguinte, fiquei lendo o dia todo até a hora do almoço, e depois de esperar um pouco pra comida descer, sai de casa na hora, indo correndo para o ponto de encontro de mim e do Davi, uma quadra de futebol vazia, e lá estava ele, em seu corpo um pouco maior, todo peludo e um rosto comprido, digno de um lobisomem rebaixado, e garras grandes tanto nos pés quanto nas mãos mostravam quem era. Junto da regata e bermuda de Davi, me aproximei de Brutus, e o comprimento.
Antônio: oi Brutus
Brutus: oi Tony
Antônio: então, quer começar agora?
Brutus: vai, me dá um tempo Tony, agente não se fala cara a cara a tanto tempo e você quer começar a lutar agora?
Eu via as mãos de Brutus impacientes, querendo nosso duelo mais do que nunca, mas também via que, seja lá o que ele quisesse falar, era importante o bastante pra deixar a luta pra depois, e eu respeitava isso, então só, sentei no banquinho que ele estava.
Antônio: vai, me fala, é sobre o Davi?
Brutus: sim, você não vai acreditar, EU FIZ UMA AMIGA NO HOSPÍCIO
Antônio: É SÉRIO? PARABÉNS CARA…mas ela tá…solta?
Brutus: se ela tá? Ela saiu primeiro que eu e o menino aqui (bateu no próprio peito) o problema é que eu não contei pra ela pro Davi, você pode manter isso em segredo dele, por favor?
Antônio: Brutus, minha boca é um túmulo.
E Brutus só acenou com a cabeça feliz, e começou a abanar o rabo, sério, eu sempre me perguntava como eu consegui virar amigo das duas partes do meu melhor amigo, e levantando da cadeira, Brutus fechou seus punhos e deixou um pouco do sangue de alma dele sair, sorrindo, me levantei também, feliz que tinha ido pra lá equipado com minhas roupas de mago, me preparei para o aquecimento, e batendo no chão uma vez, criei uma armadura por cima de mim, uma armadura tecnológica o bastante para aumentar minha força no nível do Brutus, o cheiro de carro novo da armadura me deixava tranquilo, enquanto me virava para Brutus.
Antônio: eu queria te perguntar como ficou o novo acordo de você e do Davi, mas tá na cara que você não quer mais conversar.
E o Brutus sequer respondeu, ele só avançou na minha cara e me deu um soco tão forte na cabeça que fez minha cabeça ser jogada pra esquerda e uma grande preçao de ar acontecer, e naquele momento, seus músculos se tornaram úteis e me manteriam no lugar junto das maquinas que eu criei para eu devolver o golpe de direita, e Brutus devolveu, até que agente parou de só jogar golpes simples e começamos a jogar golpes mais rápidos que fortes e nossas cabeças pararam de ser jogadas pra trás.
Meus punhos cheios de aço e as patas cheias de pelos dele fizeram o som de metal batendo em metal, nós continuamos até o suor de nós dois começar a brilhar em cada golpe, junto de ferimentos simples.
Ja estando aquecidos, eu desviei de um golpe e dei um soco na barriga de Brutus, e o lobo aguentou e tentou me chutar, e novamente desviei e dei um soco bem na cara dele, e novamente ele aguentou e tentou me dar um soco, e novamente desviei, mas era uma finta, e ele me deu um chute na cara tão forte que trincou minha armadura, mas eu havia defendido a tempo e só trincou meu antebraço.
Sem descanso, mais um soco veio e eu joguei meu rosto pra trás para dar um chute nas costelas do lobo, e quando ele cambaleou para o lado, eu saltei e dei um chute giratório na nuca dele, mas o Brutus se recuperou e deu um soco na minha perna, a minha armadura estilhaçou de forma que minha carne ficou exposta, mas o Brutus não saiu ileso.
Sua mão machucada era uma oportunidade e eu aproveitei socando ele com a guarda enfraquecida, com ele revidando logo depois, meu capacete foi amassado até ele ser arrancado de minha cabeça, mas o sangue suor e saliva espalhados por todo lado eram todos do Brutus, senti minha armadura amassando no peito e tirando meu ar, até que o Brutus recuperou a própria mão, mas quando ele contemplou a mão melhorada, uma pequena abertura foi feita, permitindo que eu chutasse a nuca dele.
O Brutus cambaleou novamente, e agora eu não parei, dei mais socos na cara dele, arrancando várias presas até ele morder meu braço, o Brutus, você não entendeu isso direito, ativando um mecanismo, tirei minha luva da armadura e deixei ele ficar com aquele pedaço, que segundos depois, explodiu bem na cara dele enquanto ia mais para trás.
Naquele sublime momento, vi a grande lança dele indo em minha direção, e por pouco não sou atingido por ela, mas bem quando a lança passou, criei no chão uma grande torre de disparos, e disparei uma bola de fogo bem na cara dele, uma duas três, quatro, a quinta foi partida ao meio, e a torre de disparos foi destruída logo depois. Rindo, olhei para o Brutus, que nem devagar, olhou pra mim, com seu corpo se curando bem devagar, mas com o preço dele estar muito cansado.
Antônio: então, vamos começar?
Brutus: nem precisa perguntar.
Com a permissão de Brutus, fiz 30 torres de disparo de uma vez e fui pra bem pra trás, nunca abandonando a lança do lobo, uma lança feita de pura energia que em uma estocada conseguiu criar quase um canhão carregado de toda a raiva que ele guardou só para mim, e eu retribui colidindo bolas de fogo uma na outra, criando uma cadeia de explosões tão grande que a primeira estocada foi parada e ele precisou dar mais estocadas.
A cada estocada, Brutus tentava conectar o golpe que minha magia sofria com o meu corpo, mas usando as torres como um meio, conseguia me manter inteiro, das 30 torres que fiz, apenas 10 conseguiram ficar inteiras, e no meio de tudo, ainda disparei quase 100 bolas de pedra em meio às explosões, conseguindo quebrar os ossos do Brutus algumas vezes, e na última bola, o Brutus encontrou o ângulo certo e antes de eu conseguir fazer qualquer coisa, ele cortou 3 pedras e apagou uma das chamas, quebrando o osso da minha panturrilha, rachando minha mandíbula e fazendo um corte em meu ombro que imobilizou meu braço esquerdo.
Nós dois estávamos bem cansados, mas não queríamos parar, aquilo só tava começando, e em mais um duelo, criei mais torres, e explodi ela na cara dele mais e mais vezes, um fogo que ele resistiu bem, e com mais disparos de pedra que ele conseguiu dar um jeito.
Até que ele decidiu parar de brincar, e apertou a lança com suas duas mãos, começando a fazer um desenho onde sua lança passava, então eu vi, a lança de Brutus deslizou pelo ar fazendo um caminho tão certo e imprevisível que tive que olhar bem a ponta para não ser pego de surpresa, até que me atacou.
Mas eu nunca perdi ela de vista, e nos segundos em que a lança dele iria me atingir diretamente, criei um punho feito totalmente de máquinas, uma das minhas maiores obras primas, apesar de não estar completa, e num único soco, vários pelos de Brutus foram raspados, junto de alguns ossos voando dos ferimentos enormes que abriam, e apesar de ter defendido, eu perdi a maior parte da minha armadura, e tive meu braço esquerdo e minhas pernas totalmente queimadas pelo calor intenso da raiva do Brutus.
No fim, nos afastamos novamente, em situações normais eu já estaria me remoendo e gritando no chão, mas assim como aquilo extravasava a raiva do Brutus, aquilo servia pra eu mesmo consegui me extravasar de toda a raiva que nenhuma terapia ou sessão de relaxamento poderia lidar.
Nós lutamos até ficarmos cansados demais pra nossas pernas cambaleavam e estarmos cobertos de suor e sangue, e mais uma vez, eu ganhei do Brutus. Voltando para o banco, e bebendo um uma poção de energia, nós dois apenas olhamos pro horizonte por um bom tempo antes de considerarmos descansar.
Antônio: e aí, quer fazer o que agora? Quer lutar mais?
Brutus: que tal agente pegar um espetinho de carne?
Antônio: gostei da sua sugestão, vamos lá.
Nós estávamos muito mal, então eu joguei um pouco de água na gente com um feitiço, costurei nossas peles e depois nossas roupas de forma grosseira, e de repente, estávamos pelo menos com uma aparência “decente” tive que dar uma carona pro Brutus, pois nosso esconderijo secreto era bem longe de todo o resto, mas para conseguir um bom espetinho pro meu amigo, valeu a pena. Deu pra ver que o vendedor estava com um pouco de medo do Brutus, mas estava fazendo o possível pra ser legal com o cliente, o que me deu uma ótima impressão dele.
Antonio: as coisas mudaram bastante por aqui, nao e?
Brutus: pois é.
O sorriso de Brutus era sublime, mas sabendo quando aquele simples sorriso carregava alívio de milhares de perseguições ficava feliz por meu amigo. Depois a gente só passeou pelas ruas mais calmas do lugar, com Brutus começando a conversa
Brutus: você melhorou
Antonio: você também, mais três golpes e eu estaria perdido
Brutus: você aguentava mais golpes? eu não ia aguentar mais nada.
A gente riu um pouco mais e depois vi que já estamos mais confortáveis depois de tudo.
Antonio: agora fala sério, o que você e o Davi combinaram?
Brutus: como você viu, eu tenho o fantoche pra falar quando ele está no controle, e que ele iria lutar as próprias brigas, nunca mais me usando como uma bengala
Antonio: e vocês continuam trocando de dia em dia, né?
Brutus: sim, metade da semana é minha e a outra metade é dele, com a gente trocando o domingo de semana em semana
Antonio: você…tem um fantoche dele?
Brutus: não, ele nunca acorda quando eu que to no controle
Antônio: que curioso
Brutus: nem tanto, eu sou o original afinal.
Apenas concordei com a cabeça e não perguntei a fundo o que aquilo significava, esse lance de “o original” nunca importou pra mim, não importa quem veio primeiro, eu gostava dos dois então não tinha nenhuma diferença.
E como último lugar de visitas, levei o Brutus para um campinho de grama onde dava pra deitar e relaxar, eu sentia a terra na minha roupa, mas eu gostava de relaxar ali com os olhos fechados junto do Brutus, antes ele voltava a ser o Davi sempre que se acalmava demais, mas agora, ele era apenas um lobinho tranquilo sem deixar sua outra parte voltar a tona.
Antonio: me fala, tá empolgado para as aulas?
Brutus: o se to, e eu me prepararia se fosse você, ouvi dizer que muitas fadas iam participar esse ano na torre dos constructos
Antonio: eu to contando com isso, tenho que me preparar com experiências de combate com outros magos
Brutus: ahhhhhhh, como eu queria lutar com outros magos como você
Antônio: um dia irmão, um dia.
E por um momento, vi um rosto bem incomum no Brutus, um tipo de contemplação que demonstrava que ele absorveu tantos sentimentos que agora era uma segunda personalidade inteira ao invés de um pedaço de personalidade, sério Davi, o que que você passou na sua casa?
Brutus: é…um dia.
Bom, não interessava, eu gosto dos dois, e dependendo do pessoal que vou encontrar na torre, isso é mais essencial do que nunca.

