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O despertar veio antes do sol.
Lira abriu os olhos devagar, sem entender exatamente o motivo. Não houve barulho, nem movimento brusco. O corpo ainda estava cansado, pesado o suficiente para querer voltar ao descanso, mas algo não deixou.
Ela ficou deitada por alguns segundos, olhando o teto simples acima dela. A luz da manhã ainda não tinha chegado de verdade, só um tom fraco passando pelas cortinas e desenhando formas nas paredes.
Tudo parecia normal.
E ainda assim… não estava.
Ela franziu levemente o cenho.
Era uma sensação estranha. Não era medo, nem dor. Só… diferente. Como se o silêncio tivesse mudado.
Lira virou o rosto devagar.
Ao lado dela, Lucius ainda dormia. O braço dele estava sobre ela de forma natural, como se mesmo dormindo ainda a mantivesse por perto. A respiração era calma, mas havia uma leve tensão no rosto dele, quase imperceptível.
Ela observou por um instante, então tocou o braço dele com cuidado.
— Lucius…
A voz saiu baixa.
Ele não respondeu.
— Lucius.
Dessa vez ele reagiu. Os olhos abriram devagar, ainda pesados, demorando um pouco pra focar.
— …já é de manhã? — murmurou, rouco.
— Ainda não.
Ele piscou algumas vezes.
— Então por que você tá acordada?
Lira hesitou.
— Eu… não sei.
Lucius a encarou melhor.
— Você sentiu também?
Ela não respondeu, mas não precisou. O olhar já dizia.
Ele soltou o ar devagar e se sentou, passando a mão pelo rosto.
A sala continuava quieta. Vittorio ainda estava jogado na poltrona, exatamente como tinha apagado. Sylas permanecia no chão, respirando lento. Tudo no lugar.
Mas o silêncio…
não era o mesmo.
Lira se levantou com cuidado, afastando o cobertor. Os pés tocaram o chão frio, trazendo um leve arrepio que não combinava com o ambiente. Ela olhou ao redor.
— Cadê o Samuel…?
Lucius também olhou, como se só agora percebesse.
— E a P.A.?
— Saíram.
A resposta veio de Leon.
Ele continuava sentado perto da janela, na mesma posição. Nem olhou pra eles.
— Já tem um tempo.
Lira franziu o cenho.
— Você viu?
— Vi. Disseram que iam caminhar.
Lucius apoiou os cotovelos nos joelhos, ainda acordando.
— Estranho… ele normalmente—
Ele parou.
Porque também tinha sentido.
O silêncio voltou, mas não era pesado. Só… presente. Como se tivesse algo ali ocupando o espaço.
Lira deu alguns passos pela sala e parou.
O ar parecia diferente. Mais limpo… mas não de um jeito normal. Como se algo tivesse passado por ali e deixado uma marca.
Uma marca que não combinava com a Cidadela.
Ela respirou fundo.
— Isso não é normal…
Leon virou o rosto só um pouco.
— Não.
Simples. Sem dúvida.
Lá fora, a cidade começava a acordar. Luzes acendiam, portas se abriam, sons voltavam aos poucos.
Mas ainda havia um intervalo.
Entre um som e outro.
Entre um movimento e outro.
Como se o mundo estivesse respirando diferente.
Lucius se levantou devagar.
— Isso tem a ver com ele… não tem?
Ninguém respondeu.
Mas ninguém negou.
Lira foi até a janela.
O céu estava cinza, como sempre.
— A gente devia ir atrás deles?
A pergunta saiu baixa.
Leon não respondeu.
Lucius soltou o ar e olhou pra porta antes de voltar pra ela.
— Não.
Uma pausa.
— Se ele saiu… sabe o que tá fazendo.
Lira desviou o olhar, ainda inquieta.
— Então a gente só fica aqui?
Lucius passou a mão no rosto.
— Fica.
Outra pausa.
— Pelo menos por agora.
O silêncio voltou.
Mas não era mais o mesmo.
Algo estava vindo.
Eles ainda não viam. Ainda não ouviam. Mas todos já sabiam.
Então, de repente… o som da cidade sumiu.
Não foi aos poucos.
Sumiu.
Lira travou na janela.
Um zumbido começou, baixo, estranho. Não parecia vir de um ponto específico.
— Você tá ouvindo…?
Ela nem terminou.
O som aumentou.
Rápido.
Errado.
E então veio.
Um impacto de pressão atravessou tudo.
O ar tremeu. O chão vibrou. O som passou direto por eles, como se não existisse barreira.
Lira levou as mãos aos ouvidos.
Não adiantou.
Lucius travou, firme no lugar, tentando se manter de pé.
Vittorio acordou no susto.
— Eita porra—?!
Sylas já estava de pé, olhando ao redor, pronto pra reagir.
Mas não tinha nada.
Só o som.
Pesado. Constante. Forçando.
Pensar ficou difícil.
Respirar também.
Leon não se mexeu.
Só ficou olhando.
Fixo.
Durou poucos segundos.
E parou.
De uma vez.
O silêncio voltou pesado.
Lira abaixou as mãos devagar, respirando irregular.
— …o que foi isso?
Ninguém respondeu.
Lucius olhou pra fora.
— Não veio da Cidadela.
Vittorio passou a mão no rosto.
— Isso é algum tipo de alarme…?
Lira voltou o olhar pro céu.
E viu.
A fumaça não estava parada.
Estava se movendo.
Se organizando.
Lucius também viu.
— Tem alguma coisa vindo…
Ele não terminou.
Mais ao fundo, partes da cidade começaram a apagar. Luzes sumindo em sequência. Outras pessoas já olhavam pro céu.
E dessa vez não era sensação.
Era real.
Algo estava chegando.
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Drax despertou devagar.
A visão veio embaçada, pesada, enquanto um zumbido forte ecoava na cabeça. A respiração saiu irregular no início, mais profunda do que o normal, até se estabilizar.
Ele piscou algumas vezes.
E então olhou ao redor.
O interior da nave estava destruído.
Metal retorcido, partes arrancadas, faíscas ainda surgindo em pontos isolados. Ao lado dele, o sentinela permanecia desacordado, o corpo inclinado contra o assento. Um fio de sangue escorria do canto da boca.
À frente, o vidro da cabine estava quebrado.
Do lado de fora… Mirax.
E os destroços da nave espalhados, alguns ainda em chamas.
Drax se levantou.
O corpo respondeu sem dificuldade.
Nenhum corte.
Nenhuma hesitação.
Ele olhou novamente para o sentinela e se aproximou, tocando levemente o ombro dele.
— Consegue me ouvir?
O sentinela reagiu aos poucos. Um leve movimento, depois outro. Os olhos abriram com dificuldade.
— Está ferido?
O homem ainda parecia confuso. O sangue continuava escorrendo pela boca, mas ele negou com a cabeça, devagar.
— Olha os outros… — disse, com a voz baixa. — Eu já vou…
Drax estendeu a mão.
O sentinela segurou com firmeza, mesmo fraco.
— Vou chamar ajuda.
O sentinela apenas assentiu, mantendo a cabeça baixa.
Drax soltou e saiu da cabine.
O cenário do lado de fora era pior.
A nave estava partida.
Espalhada.
Ele empurrou um pedaço de metal preso na saída e abriu caminho à força. Assim que passou, começou a procurar.
Então ouviu.
— Companheiro… pode me ajudar?
Drax virou na hora.
— Comandante.
Uma placa enorme de metal prendia o capitão ao chão. Um dos sentinelas tentava erguer, sem conseguir.
Drax foi direto até eles.
Segurou a placa.
E levantou.
Sem esforço aparente.
Jogou para o lado.
O capitão se levantou imediatamente.
Mas havia algo errado.
A cabeça dele estava no chão.
Por um segundo… silêncio.
Então ele se abaixou, pegou a própria cabeça e a encaixou no lugar, como se não fosse nada.
— Queda brusca — disse, ajustando o corpo. — Fomos abatidos.
Ele olhou ao redor.
— Campo inimigo.
Procurou algo no chão, encontrou o chapéu e colocou de volta com precisão.
O uniforme estava danificado, mas a postura… intacta.
— Precisamos encontrar o batalhão.
Drax já tinha se virado para o outro sentinela.
— Sabe onde estão os outros?
— Um não resistiu… — respondeu, ainda ofegante. — Não achei o Max nem o operador.
Drax apontou para trás.
— Vai pra cabine. Tem um ferido lá.
— Sim, senhor.
Ele então olhou para o capitão.
— Ajuda a procurar.
O capitão apenas assentiu.
Drax seguiu.
Passos firmes entre os destroços.
Então ouviu.
Metal sendo arrastado.
Ele virou na hora.
Max.
Ele nem percebeu Drax de imediato.
Drax se aproximou.
Max se assustou e quase aponta o rifle para ele.
— Que merda. Pensei que você tinha morrido.
Ele puxou a alça de uma bolsa rasgada.
— Não temos mais nada.
Foi nesse momento que o chão tremeu.
Um impacto seco ecoou ao longe.
Max parou.
Drax virou o rosto.
Outro impacto.
Mais próximo.
Só olhou na mesma direção.
E então vieram os disparos.
Rápidos.
Contínuos.
Metal contra metal.
Explosões.
Max segurou o rifle.
Passos rápidos começaram a vir em direção a eles.
De repente Os dois sentinelas e o capitão apareceram.
O sentinela carregava seu companheiro que permanecia de cabeça baixa.
— Eles me viram.
Silêncio.
Drax não respondeu.
Só olhou na direção dos disparos.
Depois virou levemente o rosto.
— Então a gente não fica aqui.
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