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O núcleo da torre pulsava em silêncio.
P.A. caminhava ao lado de Samuel, sua forma oscilando levemente entre o físico e o digital.
— Eu posso ajudar — disse ela. — Já estou me conectando ao sistema da torre. Posso acessar drones, câmeras, registros… qualquer coisa que você precisar.
Linhas de dados atravessaram seu corpo como reflexos breves, mas Samuel continuou andando sem responder. Seu olhar passava pelo ambiente sem realmente se prender a nada.
— Se houver algo escondido aqui, eu encontro.
Ele parou devagar e ergueu o olhar para o alto da estrutura.
— Tem como subir?
P.A. analisou rapidamente.
— Sim. Existem acessos internos. Mas seria mais eficiente se eu mesma procurasse. Posso direcionar drones, escanear áreas—
— Não.
A resposta veio tranquila, final.
P.A. inclinou levemente a cabeça.
— Então… o que você está procurando?
Samuel já havia voltado a andar.
— Um lugar alto.
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O topo da torre era silencioso. O vento atravessava as estruturas quebradas e levava consigo o som distante da cidade, enquanto a Cidadela se espalhava abaixo, imóvel à primeira vista, mas viva de um jeito difícil de explicar.
P.A. surgiu ao lado dele.
— Daqui eu tenho acesso total à rede. Posso procurar qualquer coisa.
Samuel manteve os olhos no horizonte.
— Não é isso.
O silêncio se prolongou por um instante.
— Então o que você quer aqui?
Ele ergueu a mão levemente.
A luz surgiu devagar, quase tímida, como algo que ainda decidia se deveria existir. P.A. apenas observou. A luz cresceu o suficiente para se desprender da palma, subindo leve, seguindo o vento.
Então o céu respondeu.
Não houve som nem brilho, apenas uma distorção breve atravessando o espaço, quase imperceptível. Tudo ao redor pareceu parar por um momento.
Samuel avançou sem dizer nada.
E atravessou.
A escuridão veio primeiro — não vazia, mas densa, como se escondesse algo em todas as direções. Ele estava de pé, mesmo sem chão, com a mão ainda erguida.
A luz agora era pequena, contida como a chama de um lampião, iluminando apenas o suficiente enquanto o resto permanecia oculto.
Samuel começou a andar.
Sem pressa.
Parou diante de um fragmento flutuando no nada, sua superfície instável como um reflexo distorcido. Aproximou a chama, que tremulou levemente, reagindo àquilo.
Então ela sumiu.
O silêncio mudou. Não como um som, mas como o próprio espaço cedendo ao redor.
O chão surgiu sob seus pés — áspero, seco.
Samuel olhou ao redor.
Areia se estendia até onde a vista alcançava, um deserto imóvel, como se o tempo não passasse ali. O céu não tinha cor definida, o vento não soprava, mas a areia ainda se movia em pequenos rastros, como se algo tivesse passado há pouco.
Ele deu um passo. O som foi abafado, como se o próprio lugar recusasse eco, e continuou avançando.
Ao longe, formas começaram a surgir — primeiro sombras, depois estruturas.
Escavações gigantes cortavam o solo em profundidades impossíveis, como feridas abertas na terra.
Ao se aproximar, ele viu.
Máquinas.
Centenas… talvez milhares, movendo-se em silêncio enquanto braços mecânicos mergulhavam na terra, arrancando camadas inteiras do solo. Outras transportavam o que era extraído. A areia ao redor não era natural — era o que restou.
Tudo havia sido retirado dali.
Samuel seguiu, passando por carcaças. Animais… ou algo projetado para parecer com eles. Estruturas metálicas retorcidas, cobertas pela poeira, algumas ainda com formas reconhecíveis — mandíbulas abertas, olhos apagados, descartadas como se não tivessem valor.
Ele não desviou o olhar.
Mais à frente, o terreno se fechava em um grande cerco de estruturas metálicas fincadas na areia, delimitando algo que não deveria ser alcançado.
Samuel atravessou.
E, ao se aproximar, ficou claro.
Aquilo não era apenas uma estrutura.
Era algo vivo.
Partes orgânicas e metal não estavam em harmonia — eram forçadas a coexistir. Superfícies se moviam lentamente, como uma respiração irregular. Nada ali parecia completo. Nada parecia certo.
Havia padrão. Lógica. Presença.
Como algo que ainda pensava… mesmo fragmentado.
E ao redor…
centenas de sombras.
Não dispersas.
Reunidas.
Como se tudo aquilo que estava espalhado pelo mundo tivesse sido trazido de volta para aquele ponto… ou nunca tivesse saído dali.
Formas distorcidas e instáveis, fragmentos de algo que já foi inteiro um dia.
Samuel parou.
Agora não havia dúvida.
Aquilo não era tudo. Nem a origem de tudo.
Mas ali… era onde o Esquecimento daquele mundo respirava — não apenas onde surgia, mas onde se acumulava, onde permanecia.
As sombras não eram guardas nem vítimas.
Eram extensões.
Partes soltas de algo maior.
E ainda assim… incompleto.
Samuel deu mais um passo.
Nada o impediu, mas o espaço ao redor se tornou mais denso, como se a própria realidade resistisse à sua aproximação.
Então uma sombra se desfez.
Sem som, sem ruptura — apenas cedeu, transformando-se em pó escuro que não caiu, mas se moveu, deslizando pelo espaço até desaparecer.
Outra fez o mesmo.
E outra.
E outra.
Uma continuidade silenciosa.
Samuel observava sem interferir.
Antes… aquilo permanecia.
Agora… estava saindo.
Agora era claro: aquilo não estava sendo destruído, mas liberado. Os fragmentos não seguiam um único caminho — se espalhavam, saindo dali, alcançando o mundo além daquele espaço.
Alguns se prendiam a padrões mecânicos.
Outros… algo mais profundo.
Algo vivo.
Memórias. Consciência. Presenças.
Samuel estreitou levemente o olhar enquanto mais sombras se desfaziam e mais fragmentos partiam. O espaço ao redor já não estava cheio, mas isso não trouxe alívio.
Porque agora ele entendia.
Aquilo não estava se reunindo.
Estava sendo enviado.
E tudo começava ali.
Enquanto aquilo existisse… o mundo continuaria sendo consumido.
A chama em sua mão se estabilizou, firme e silenciosa. Ele a abaixou devagar, mantendo o mesmo olhar calmo e imutável.
Mas agora… ele sabia.
Algo grande estava vindo.
Não como possibilidade.
Mas como certeza.
E não havia mais tempo a ser desperdiçado.
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Samuel voltou a si.
P.A. ainda o observava.
— E então? O que foi aquela luz?
— Tem algo grande vindo.
Samuel falou em um tom sério. Aquilo fez P.A. hesitar por um instante.
— Algo ruim?
O silêncio se estendeu.
Samuel não respondeu de imediato.
Seus olhos ainda pareciam distantes, como se parte dele não tivesse voltado completamente.
— São elas.
P.A. ficou em silêncio por um breve momento.
Então, linhas de dados começaram a atravessar seu corpo, rápidas e precisas. Ela acessava a rede, buscava qualquer sinal, qualquer padrão.
E então…
sua forma oscilou.
— Isso… não faz sentido…
Samuel ergueu levemente o olhar.
— Por quê?
P.A. respondeu mais baixo agora:
— Porque elas deveriam estar fracas.
Uma breve pausa.
— Duas já foram destruídas. O sistema delas não devia conseguir sustentar algo desse nível agora.
Linhas de dados atravessaram seu corpo novamente, instáveis.
— Isso é… cedo demais.
Samuel desviou o olhar para o horizonte.
O silêncio voltou por um instante.
— Não é cedo.
P.A. ficou imóvel.
Samuel continuou, calmo, mas agora havia algo diferente no tom — não dúvida, não análise.
— Elas sabem que não tem mais tempo.
O ar pareceu pesar ao redor.
P.A. não respondeu.
Samuel manteve os olhos fixos na distância.
— O que quer que venha… vai decidir tudo.
O silêncio voltou — mais pesado.
O vento arrastou poeira.
O céu escureceu.
Não eram nuvens.
P.A. ficou imóvel.
Olhos no horizonte.
— Vamos enfrentar isso juntos.
P.A. virou o olhar.
Assentiu.
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