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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
72 |💫| Entre Risadas e Esperanças
3882 palavras • 22228 caracteres • ⏱ 15 min 32 s

72 |💫| Entre Risadas e Esperanças

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Vittorio estava sentado à mesa do cassino, jogando com a calma de quem já sabia o resultado antes mesmo das cartas virarem.


Ele empurrou a pilha de fichas para si e sorriu de lado.


— Ah… que pena. Ganhei mais uma. Acho que hoje estou com sorte.


O homem do outro lado da mesa levantou-se bruscamente, irritado.


— Eu vou te—


A frase morreu no meio.


Vittorio girava lentamente sua pistola sobre o dedo, como se fosse apenas mais um truque de mesa.


— Vai o quê?


O silêncio tomou conta da mesa por um instante.


Então, de repente, um pequeno som metálico ecoou.


Bip.


Vittorio tirou o relógio de bolso do colete e abriu a tampa.


Observou o horário por um segundo.


— Já está na hora? — murmurou, guardando a pistola com cuidado.


Ele se levantou, ajeitou o paletó e deu uma última olhada no cassino. A luz suave das mesas e o som distante das fichas formavam um contraste curioso com a responsabilidade que o aguardava. Era hora de sair dali.


--- 💫 ---


Leon deslizava pela Cidadela com o skate futurista, flutuando alguns centímetros do chão. Cada impulso respondia com precisão quase telepática, usando rampas, corrimãos e parapeitos como obstáculos perfeitos. O ar cortado pelo skate ecoava pelos corredores, criando uma trilha quase hipnótica.


Sem pressa, mas no controle total, avançou até o apartamento de Lira. Parou o skate a poucos centímetros da porta, levantou-o no ombro e bateu.


Lira abriu a porta.


— Leon! Como você tá? Entra aí.


Ele ajeitou a máscara no rosto e assentiu.


— Lucius e Vittorio estão na cozinha. Fique à vontade.


— Não tem...


— Sim, comprei vários doces pra você. Não precisa se preocupar em socializar com eles, pode ficar na sua comendo.


Leon deu tapinhas suaves na cabeça de Lira.


— Valeu.


Ele se dirigiu à cozinha.


--- 💫 ---


— Como isso é possível? Eu tinha um full house! — reclamou Lucius, jogando as cartas na mesa com uma mistura de frustração e incredulidade.


Vittorio sorriu, recostou-se na cadeira e esticou as pernas sobre a mesa, despreocupado.


— Desculpa se eu sou melhor que você — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo.


— Não, não… — Lucius riu, balançando a cabeça. — Vamos de novo. Mais uma rodada. Você tem sorte demais.


— Sorte? Sorte é minha habilidade.


Leon entrou na cozinha, ainda com o skate futurista no ombro.


Vittorio e Lucius notaram a presença dele.


— E aí, skatista. Quanto tempo? — disse Vittorio.


— Opa, Leon. Que bom que veio. — Lucius assentiu.


Leon só acenou e se sentou à mesa.


— Cadê os doces?


— Ali. — Lucius apontou para o pote.


Leon pegou o pote e começou a comer.


— Bom, como vocês dois já estão aqui… só falta o Samuel, a P.A. e o Drax. Devem chegar daqui uns minutos, eu acho.


— Ele não vem. — Leon falou direto.


— Ele quem?


— Drax.


— Por quê?


— Sei lá. Tava com uns malucos saindo de Valtrex.


Leon abriu mais um doce.


— Saiu de Valtrex… mas por quê?


— Eu sei. — Vittorio sorriu de leve. — Toda informação da Cidadela chega aos meus ouvidos lá no cassino. Quando eu tava jogando, ouvi alguém dizendo que um grupo de sentinelas saiu de Valtrex pra uma missão. Não peguei mais detalhes, porque mataram o cara na hora, então é meio vago.


— Tá… talvez seja algo rápido. Ele pode voltar cedo. — Lucius deu de ombros, tentando acalmar a tensão.


— Ah, lembrei de uma coisa. — Vittorio inclinou a cadeira um pouco para trás. — Fiquei sabendo que você e a Lira tão de namorinho. É isso mesmo?


Lucius travou por um instante.


— Quem te disse isso?


Vittorio deu de ombros.


— Ninguém. Foi sorte.


Lucius passou a mão na nuca, claramente sem saber muito o que responder.


— Tá namorando a Lira? — perguntou Leon, simples.


Lucius assentiu, ainda meio sem jeito.


— Legal.


Leon abriu outro doce e começou a comer, como se fosse a coisa mais normal do mundo.


Nesse momento, Lira entrou na cozinha acompanhada de Sylas. O tigre caminhou tranquilamente até a mesa e se deitou embaixo dela, apoiando o focinho nas patas.


— Vocês dois só sabem ficar jogando?


Vittorio abaixou os pés da mesa rapidamente e juntou as cartas.


— Ele que chamou. Eu até falei que a gente devia arrumar a mesa e tudo mais, afinal o jantar é importante. Mas ele insistiu tanto que eu acabei vindo…


Lucius virou a cabeça devagar para ele, completamente incrédulo.


— O quê? Que mentira. Foi ele que—


Lira se inclinou e interrompeu com um beijo rápido.


— Eu sei, eu sei.


Lucius ficou vermelho na mesma hora.


Vittorio soltou uma risada curta.


Debaixo da mesa, Sylas levantou a cabeça quando Leon deixou um doce no chão.


Leon olhou pros lados e jogou mais um para Sylas.


— Guardem isso. Eu tenho que arrumar a mesa. O restante já deve estar chegando.


Lucius começou a juntar as cartas.


— Ok.


— Ok — repetiu Vittorio, empurrando a cadeira para trás.


Leon pegou mais um doce do pote.


Lira já estava saindo da cozinha com alguns pratos nas mãos.


— Vamos, me ajudem a arrumar isso antes que o resto chegue.


Lucius se levantou da cadeira.


Vittorio suspirou, mas também se levantou.


Leon continuou sentado.


A casa começava a ganhar movimento enquanto o jantar era preparado.


E, em algum lugar da Cidadela, os outros ainda estavam a caminho.


--- 💫 --


Samuel e P.A. caminhavam pelas ruas de Valtrex.


P.A. usava algumas roupas simples para esconder sua aparência. Um gorro cobria parte de seus cabelos, enquanto o dispositivo que Leon havia dado a Samuel agora ajudava a camuflar seus traços artificiais.


Ela olhava ao redor com atenção, observando as pessoas e androides passando pelas ruas iluminadas da cidade.


Era diferente de ver tudo pelas câmeras da torre.


Ali, o mundo parecia… mais real.


— Tem certeza que eles não vão me reconhecer? — perguntou ela, mantendo a voz baixa.


Samuel continuou caminhando com tranquilidade.


— Não, não vão.


Ele lançou um olhar breve para ela.


— Por que tanta preocupação?


P.A. demorou um pouco para responder.


— Eu nunca andei por Valtrex assim… entre as pessoas. Sempre observei tudo pelas câmeras e drones da torre. — Ela olhou para um grupo de androides passando do outro lado da rua. — Andar entre eles é… estranho.


Samuel assentiu levemente.


— Eu entendo.


Eles continuaram caminhando.


— Mas não tem motivo para se preocupar — continuou ele. — Para eles, você é quem salvou Valtrex.


P.A. abaixou um pouco o olhar.


Samuel então completou, com a mesma calma de sempre:


— Mesmo que alguns ainda tenham dúvidas… depois daquele discurso, muitos entenderam algo importante.


Ela levantou os olhos para ele.


— O quê?


— Que você é mais humana do que muitos deles.


Por um instante, P.A. ficou em silêncio.


Seus sistemas começaram a relaxar gradualmente.


— Você tem razão — disse ela, quase em um sussurro.


Mesmo assim, ela ainda evitava olhar diretamente para as pessoas que passavam. Desde aquele dia, ainda havia um certo receio dentro dela… principalmente sobre o que os outros poderiam pensar.


E também sobre como seria encontrar todos na casa de Lira.


Alguns minutos depois, eles finalmente chegaram ao prédio.


Samuel parou diante da porta do apartamento.


— Chegamos.


P.A. observou a porta em silêncio por um instante.


Samuel bateu calmamente.


Alguns segundos depois, a porta se abriu.


— Samuel! P.A.! — disse Lira, abrindo um sorriso sincero. — Que bom que chegaram! Entrem, entrem.


Samuel entrou primeiro, como sempre, com a mesma calma serena.


P.A. ainda hesitou por um segundo na porta.


Samuel estendeu a mão para ela.


Ela olhou para a mão dele… e então segurou com cuidado.


Entrou.


Assim que os dois passaram pela porta, Lira se virou e caminhou rapidamente em direção à cozinha.


Quando chegou lá, encontrou a cena habitual.


Lucius estava parado, segurando um copo sobre a própria cabeça.


Vittorio estava alguns passos à frente, de costas para ele, com os olhos vendados enquanto apontava sua arma.


Leon estava sentado à mesa, comendo doces... ainda.


Lira se aproximou um pouco mais e falou baixo, apenas para eles ouvirem:


— A P.A. veio… ela veio.


Lucius e Vittorio começaram a arrumar as coisas rapidamente sobre a mesa.


Samuel e P.A. chegaram até a cozinha naquele momento.


No meio da pressa, Vittorio tentou guardar a pistola… mas o disparo saiu sem querer.


A bala acertou o pé de Lucius.


Lucius levou uma mão ao rosto, fechando os olhos por um instante.


— Samuel… P.A… fico feliz em vê-los. Fiquem à vontade. — disse ele, tentando agir normalmente.


Vittorio rapidamente escondeu a arma ainda fumegando atrás das costas.


— Samuel, né? Tinha esquecido seu nome. É um prazer revê-la, P.A.


Leon levantou os olhos por um segundo, ainda com um doce na mão.


— Eae.


Samuel apenas assentiu com a cabeça.


P.A. permanecia um pouco nervosa, olhando ao redor da cozinha, como se ainda estivesse se acostumando com tudo.


— Oi… é bom poder sair e tomar um ar fora da torre… obrigada por me convidarem.


— Que isso, sinta-se em casa. — disse Lira.


Samuel puxou uma cadeira para ela.


P.A. sentou-se com cuidado.


— Obrigada.


O grupo se sentou à mesa.


Aos poucos, a cozinha foi se enchendo de conversa.

Pratos passaram de mão em mão, copos foram enchidos, e o cheiro da comida quente tomou o ambiente.


Vittorio falava mais alto que todos, contando alguma história exagerada do cassino, enquanto Lucius tentava corrigir metade do que ele dizia.


Leon continuava pegando doces do pote sempre que podia, como se ninguém estivesse prestando atenção.


Lira ia e voltava da cozinha, trazendo mais coisas para a mesa, sorrindo ao ver todos reunidos.


P.A., ainda um pouco tímida no começo, começou a relaxar aos poucos. Observava as conversas, fazia algumas perguntas curiosas e às vezes deixava escapar um pequeno sorriso.


Samuel permanecia em silêncio na maior parte do tempo.


Ele observava o grupo com calma — os gestos, as risadas, a leve bagunça da mesa.


Por um instante, algo no ar pareceu diferente.


Uma sensação breve.


Quase imperceptível.


Como se o mundo tivesse prendido a respiração por um segundo.


Samuel não comentou nada. Apenas manteve o olhar tranquilo, como se tivesse decidido guardar aquilo para si.


--- 💫 ---


Algum tempo depois, a cozinha já estava silenciosa.

A mesa havia sido esvaziada, e o grupo agora ocupava a sala do pequeno apartamento.


Lucius e Lira estavam sentados no sofá.

Vittorio havia puxado uma cadeira e a virado ao contrário, apoiando os braços no encosto enquanto falava.

Leon estava largado em outro sofá, ainda com o pote de doces no colo.


Samuel permanecia sentado em uma cadeira mais afastada, observando o grupo, sentindo a mesma sensação novamente.


P.A. estava sentada ao lado dele, olhando curiosamente para tudo ao redor, como se ainda estivesse registrando cada detalhe daquele momento.


— Eu tenho uma dúvida séria — disse Vittorio de repente.


Lucius suspirou.


— Lá vem.


— Quem foi o gênio que decidiu que pizza precisa ter borda?


Lira franziu a testa.


— Como assim?


— Tipo… a gente come o meio inteiro feliz da vida e depois sobra aquele pedaço seco no final.


Leon pegou mais um doce.


— É pra segurar.


— Segurar o quê?


— A pizza.


Vittorio ficou alguns segundos em silêncio.


— Então você tá dizendo que a borda existe só pra gente não sujar a mão?


— Basicamente.


Lucius deu uma risada curta.


— Eu nunca pensei nisso.


P.A. levantou levemente a mão, como se estivesse em uma aula.


— Tecnicamente, a borda também ajuda a manter o molho e o queijo no centro da massa durante o preparo.


Todos olharam para ela.


Ela piscou.


— Eu… analisei receitas uma vez.


Vittorio apontou para ela imediatamente.


— Tá vendo? Até a inteligência artificial concorda comigo.


— Ela literalmente acabou de discordar de você — disse Lira.


Leon mastigava calmamente.


— Eu como a borda.


— Claro que come — disse Vittorio.


Leon olhou para o pote vazio.


— Merda. Tem mais, Lira?


Lira riu.


A conversa continuou entre comentários sem sentido, pequenas provocações e perguntas completamente aleatórias.


P.A. parecia cada vez mais confortável ali.


O ambiente estava leve.


Quase tranquilo demais.


Samuel permanecia em silêncio, ouvindo as vozes misturadas na sala.


Mas, por dentro, aquela mesma sensação de antes ainda permanecia.


Algo no ar.


Mesmo assim, ele apenas ficou ali.


Observando.


Esperando.


De repente P.A. toca nele.


— Samuel. — Ela fala baixo.


— Posso conversar em particular com você?


Samuel assentiu com um leve movimento de cabeça.


P.A. levantou-se com cuidado, tentando não chamar atenção.


Samuel fez o mesmo.


Na sala, a conversa continuava.


— Eu ainda acho que existe alguém que só come a borda — dizia Vittorio.


— Isso não faz sentido nenhum — respondeu Lucius.


— Faz sim! Tipo… psicopatas.


Leon abriu outro doce.


— Eu faria isso.


— Tá vendo? — Vittorio apontou para ele.


Enquanto isso, Samuel e P.A. caminharam alguns passos até um canto mais afastado do apartamento, perto da janela. As vozes da sala continuavam audíveis, mas agora mais baixas.


P.A. manteve as mãos juntas diante do corpo por alguns segundos, como se organizasse os próprios pensamentos.


— Eu… queria falar com você sobre aquele dia.


Samuel apenas a observava.


— Eu tô tentando fazer o certo — ela murmurou.


Samuel a observou em silêncio.


A luz verde que corria pelas junções do corpo dela diminuiu um pouco, como se o próprio sistema estivesse respirando mais devagar ao lembrar daquilo.


— Naquele momento… — ela continuou, a voz mais baixa agora — todos os cálculos apontavam para a mesma conclusão. Eu precisava agir. Se existia uma chance de mudar o destino da Cidadela… eu não podia ignorar.


Ela apertou as mãos.


— Mesmo que isso significasse… — ela hesitou — sacrificar você.


Samuel permaneceu calmo.


— Você tomou uma decisão.


Ela levantou os olhos para ele rapidamente.


— Eu quase matei você.


Na sala, ao fundo, Vittorio ainda falava alguma coisa sobre pizza com Leon, completamente alheios à conversa.


P.A. continuou:


— Eu revivi aquele momento milhares de vezes nos meus registros. Cada palavra. Cada escolha.


Ela respirou devagar.


— E o que me confunde não é o que eu fiz.


— É o que você fez.


Samuel inclinou levemente a cabeça.


— Você não lutou — disse ela.


— Não tentou escapar.


— Você simplesmente… ficou ali.


Ela o observava com intensidade agora.


— Por quê?


Samuel não respondeu imediatamente.


Ele olhou de relance para a sala.


Lucius ria de algo que Lira tinha dito. Leon ainda estava comendo. Vittorio gesticulava exageradamente.


Depois voltou o olhar para ela.


— Porque você precisava descobrir sozinha.


P.A. ficou imóvel por um segundo.


— Descobrir… o quê?


Samuel respondeu com a mesma tranquilidade de sempre.


— Que a esperança não nasce de cálculos.


O silêncio entre os dois ficou mais pesado.


Ela olhou para o chão.


— Quando você disse que estava doendo… — ela murmurou — meus sistemas registraram aquilo como falha lógica.


Ela levantou os olhos novamente.


— Mas eu não parei por causa da lógica.


Samuel não parecia surpreso.


— Eu parei porque… — ela hesitou, como se ainda estivesse entendendo aquilo — porque eu não queria que você morresse.


— E isso não estava em nenhum cálculo.


P.A. observou o grupo na sala mais uma vez.


As risadas. A conversa boba. A normalidade daquele momento.


— Eu ainda não entendo completamente — disse ela.


— Mas… eu acho que estou começando a entender.


Ela voltou o olhar para Samuel.


— Foi por isso que você deixou eu fazer aquilo?


Samuel respondeu sem hesitar.


— Foi.


— Porque você sabia que eu ia parar?


Ele pensou por um segundo.


— Porque eu sabia que você iria fazer o melhor.


A luz nos olhos dela suavizou.


Por alguns instantes, nenhum dos dois falou nada.


Na sala, Vittorio levantou a voz de repente:


— EU AINDA ACHO QUE A BORDA DA PIZZA É UMA CONSPIRAÇÃO!


Leon respondeu imediatamente:


— Você só tá bravo porque não tem mais pizza.


Lira riu alto.


P.A. olhou para aquilo… e um pequeno sorriso apareceu.


— Obrigada por confiar em mim naquele dia — ela disse.


Samuel apenas assentiu.


A P.A. permaneceu olhando para a sala por mais alguns segundos.


— Samuel… — ela disse depois de um momento.


Ele voltou o olhar para ela.


— Posso te fazer uma pergunta?


— Pode.


Ela hesitou por um instante.


— Você já sentiu amor ou afeto por alguém? Como foi?


Samuel permaneceu em silêncio por um instante. Seu olhar se afastou dela, indo em direção à janela, como se aquela pergunta tivesse aberto uma memória distante demais para ser respondida imediatamente.


Ele não parecia surpreso com a pergunta.

Apenas pensativo.


Como se aquela palavra abrisse uma memória muito antiga.


Então respondeu.


— Já.


A P.A. inclinou levemente a cabeça.


— Quem?


Samuel demorou um segundo.


— Um filhote.


Samuel desviou o olhar por um momento, como se aquela simples palavra carregasse muito mais do que parecia


Ela piscou devagar.


— Um filhote?


— Sim.


A P.A. analisou aquilo por um momento.


— O nome dele era Alex. — Samuel continuou. — Um filhote de lobo cinzento.


— Um… lobo?


Ela parecia realmente confusa.


— Mas por que não alguém da sua própria espécie?


Samuel balançou a cabeça de leve.


— Amor não escolhe espécie.


Houve um pequeno silêncio.


A P.A. então perguntou, com curiosidade genuína:


— Pode me contar como foi?


Samuel não respondeu imediatamente.


Em vez disso, levou a mão lentamente ao cordão em seu pescoço.


Os dedos tocaram o objeto com cuidado.


Como se ali estivesse guardada uma parte da própria memória.


— Eu não seria a pessoa que sou hoje se não fosse por ele — disse Samuel.


A voz dele continuava calma, mas havia algo mais profundo agora.


— Alex… eu o conheci quando ele mal sabia falar.


Ele olhou por um instante para o chão.


— Ele nasceu em um mundo esquecido.


— Um mundo em guerra.


— Um mundo incrível… mas quebrado.


A P.A. escutava sem interromper.


Samuel continuou.


— Ele perdeu a família muito cedo.


— Mesmo assim… quando eu o encontrei… os olhos dele ainda brilhavam.


Samuel respirou devagar.


— Quando nossos olhares se encontraram… eu senti naquele momento que algo havia mudado.


A memória parecia viva para ele.


— Alex sempre foi alegre.


— Sorridente.


— Ele espalhava amor por onde passava, como se fosse a coisa mais natural do mundo.


Por um instante, algo quase imperceptível suavizou o olhar de Samuel. Como se aquela lembrança ainda carregasse um pouco da luz daquele tempo.


Samuel apertou levemente o cordão entre os dedos.


— Ele não precisava dizer muito.


— Só estar ali já era suficiente.


— Ver ele acordar… brincar… correr…


Samuel levantou um pouco o olhar.


— Ver ele sendo quem era…


— Me fazia feliz.


Samuel continuou, mais baixo:


— Alex era como um filho para mim.


Os dedos dele apertaram o cordão por um breve segundo, antes de relaxarem novamente.


O silêncio voltou por alguns segundos.


Na sala, ao fundo, Vittorio ainda discutia alguma coisa absurda com Leon.


Mas ali, naquele canto, parecia outro mundo.


Samuel prosseguiu:


— Alex se tornou meu motivo.


— Meu tudo.


— Minha esperança.


A mão dele ainda segurava o cordão.


— Mas eu tive que partir.


Samuel desviou o olhar por um instante, observando as luzes da cidadela pela janela.


A P.A. levantou o olhar para ele.


— Mesmo ele ainda sendo jovem.


Samuel assentiu.


— Eu não pude me despedir como queria.


— Eu queria vê-lo crescer.


— Queria ver o lobo que ele se tornaria.


A voz dele permaneceu calma.


Mas havia peso nas palavras.


— Meu maior arrependimento foi ter deixado ele.


— Mas eu fiz uma escolha.


A P.A. perguntou, quase em um sussurro:


— Que escolha?


Samuel respondeu:


— Eu escolhi partir.


— Escolhi deixar ele.


Ela franziu levemente a testa.


— Para salvar outros mundos.


Samuel assentiu.


— Sim.


Então ele disse algo que parecia vir de muito fundo.


— Se eu pudesse voltar no tempo… e escolher entre salvar mundos ou ficar com ele…


A P.A. observava com atenção.


Samuel terminou:


— Eu escolheria ele.


Pela primeira vez desde que a conversa começou, Samuel demorou um pouco mais para continuar falando.


Ela ficou imóvel por um segundo.


— Por quê?


Samuel respondeu com a mesma tranquilidade de sempre.


Mas agora havia algo extremamente humano naquela resposta.


— Porque não existe nenhum universo… nenhuma linha do tempo… nenhuma escolha…


Ele soltou lentamente o cordão. Como se estivesse deixando aquela lembrança voltar para o lugar onde sempre esteve.


— Que possa me levar de volta para aquele momento.


A P.A. permaneceu em silêncio.


Processando.


Não como um cálculo.


Mas como alguém tentando entender um sentimento.


Depois de alguns segundos, ela disse baixinho:


— Então… amar alguém… também significa carregar arrependimentos.


Samuel respondeu:


— Significa carregar memórias.


Ela olhou para ele.


— Você ainda sente falta dele?


Samuel respondeu sem hesitar.


— Todos os dias.


O silêncio entre os dois voltou a existir.


Mas agora não era um silêncio pesado.


Era um silêncio cheio de compreensão.


P.A. permaneceu olhando para ele por alguns segundos.


Processando aquilo.


Não como um cálculo.


Não como um dado.


Mas como algo novo… algo que ela ainda estava aprendendo a sentir.


Ela entendeu.


Entendeu que o coração de Samuel já pertencia a alguém.


Ou melhor…


a um pequeno lobo cinzento em algum lugar de um mundo distante.


E, curiosamente, aquilo não a deixou triste.


Ela apenas… ficou feliz.


Feliz por saber que algo tão verdadeiro existia dentro dele.


Na sala, a discussão continuava.


— EU AINDA DIGO QUE A BORDA DA PIZZA É INÚTIL! — gritou Vittorio.


Leon respondeu imediatamente:


— Você comeu a pizza inteira sozinho.


— Isso não é o ponto!


Lira riu.


Lucius apenas balançou a cabeça.


P.A. observou aquela cena por um instante.


A vida acontecendo de forma simples.


Depois voltou o olhar para Samuel.


A luz suave em seus olhos parecia mais tranquila agora.


— Eu acho… — ela disse devagar — que estou começando a entender o que é esperança.


Samuel não respondeu.


Mas havia algo sereno no olhar dele.


Algo que sempre esteve ali.


P.A. ficou alguns segundos sem dizer nada.


Como se estivesse tomando uma decisão que nenhum cálculo poderia fazer por ela.


Então ela deu um pequeno passo à frente.


Foi um gesto cuidadoso.


Quase tímido.


Como se ainda estivesse aprendendo como aquilo funcionava.


Samuel permaneceu imóvel por um segundo, claramente surpreso com o gesto.


Depois apenas deixou que ela ficasse ali.


— Obrigada, Samuel — ela disse baixinho.


Na sala, Vittorio continuava gesticulando com um pedaço de pizza na mão, claramente frustrado.


— Eu desisto. Vocês não entendem.


Leon respondeu enquanto mastigava, sem nem olhar para ele:


— Você é uma mentira social.


Vittorio apontou para ele imediatamente.


— TU CALA A BOCA!


Lucius suspirou.


E, pela primeira vez desde aquele dia…

P.A. também sorriu.


Talvez fosse assim que a esperança começava.


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