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O HerĂłi Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
70 |đŸ’«| Caminhos que se Cruzam
1385 palavras ‱ 8198 caracteres ‱ ⏱ 5 min 32 s

70 |đŸ’«| Caminhos que se Cruzam

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Samuel caminhava calmamente em direção à torre.


O ambiente ao redor dele estava muito diferente da primeira vez em que pisou naquele lugar. Antes, tudo parecia pesado, sufocante, como se a prĂłpria cidade estivesse sendo lentamente consumida pela escuridĂŁo.


Agora era diferente.


Ainda não se podia dizer que aquele mundo estava livre dela. Samuel sabia disso melhor do que ninguém.


A escuridão havia recuado
 mas não desaparecido.


Ainda havia muito a ser feito.


Mesmo assim, algo no ar parecia mais leve.


Quando ele se aproximou da torre, a redoma de energia que a envolvia reagiu imediatamente à sua presença. Linhas luminosas percorreram sua superfície e, no instante seguinte, a barreira se abriu diante dele como se o próprio lugar o recebesse.


Samuel atravessou a entrada e seguiu em direção ao grande portão da torre.


Os robĂŽs sentinelas que guardavam o local voltaram seus olhares mecĂąnicos para ele.


Antes, aquele gesto teria sido de alerta.


Agora nĂŁo.


Eles o reconheciam.


Samuel passou por eles sem dizer nada e entrou.


O interior da torre estava mudado.


Ele percorreu o mesmo caminho da primeira vez em que esteve ali, mas o cenĂĄrio era outro.


A natureza artificial que crescia dentro da estrutura havia voltado a se formar. Vinhas metĂĄlicas e estruturas vivas se entrelaçavam pelas paredes, folhas translĂșcidas captavam a luz que vinha do alto e pequenas correntes de energia percorriam o ambiente como se fossem rios invisĂ­veis.


Tudo parecia mais vivo.


Mais estĂĄvel.


A prĂłpria energia do lugar fluĂ­a com leveza, como se finalmente estivesse em equilĂ­brio.


Samuel continuou caminhando atĂ© chegar Ă  sala do nĂșcleo.


Lå dentro, alguém jå estava esperando.


P.A.


Ela permanecia prĂłxima ao centro da sala, diante das estruturas luminosas que alimentavam o nĂșcleo da torre.


Samuel parou a alguns passos dela.


Ela percebeu a presença dele.


Virou apenas o suficiente para confirmar quem havia chegado.


— Samuel.


Ele assentiu levemente.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Apenas o som baixo do nĂșcleo preenchia o ambiente.


— A torre está quase totalmente restaurada — disse ela depois de um momento. — Os sistemas principais já voltaram a funcionar.


Samuel observou as estruturas de energia ao redor da sala.


— Eu soube.


Ela voltou a olhar para o nĂșcleo.


— Ainda existem algumas estruturas danificadas, mas nada que não possamos resolver.


EntĂŁo acrescentou, com o mesmo tom neutro:


— O que te traz aqui?


Samuel respondeu com tranquilidade:


— Eu vim falar com vocĂȘ.


P.A. parou o que estava fazendo.


— Veio falar sobre aquele dia?


— Não.


— Então por que veio?


Samuel observou por um instante as estruturas do nĂșcleo pulsando atrĂĄs dela.


— Eu vim convidar vocĂȘ para sair.


Ela voltou o olhar para o painel diante dela.


— Eu não posso.


P.A. continuou ajustando algumas linhas de energia.


— Ainda existem setores da torre que precisam de supervisão.


— Eu sei que o Lucius mandou vocĂȘ aqui.


Samuel respondeu calmamente:


— Eu vou com vocĂȘ.


Ela nĂŁo respondeu imediatamente.


— Eu tenho trabalho.


Samuel observou o nĂșcleo por alguns segundos antes de falar novamente.


— Às vezes parar um pouco tambĂ©m ajuda.


— A torre ainda precisa de mim.


Samuel respondeu com a mesma calma:


— Eles tambĂ©m precisavam de vocĂȘ.


P.A. ficou em silĂȘncio.


As luzes do nĂșcleo refletiam no rosto dela.


Depois de um momento, ela se virou um pouco mais na direção dele.


— Por que insiste para que eu vá?


Samuel respondeu com simplicidade:


— Porque eles são seus amigos.


Ela permaneceu olhando para ele.


Samuel entĂŁo acrescentou:


— E porque vocĂȘ tambĂ©m merece um momento.


O silĂȘncio voltou a ocupar a sala.


Depois de alguns segundos, P.A. desligou as funçÔes que estava executando.


— Que horas?


Samuel respondeu com o mesmo tom tranquilo de sempre:


— À noite.


Ela demorou mais um instante antes de falar:


— VocĂȘ vai mesmo?


Samuel assentiu.


— Eu e vocĂȘ.


--- đŸ’« ---


Drax estava bem longe de Valtrex.

Longe também de qualquer outra civilização.


O ambiente ao redor parecia completamente morto.


Prédios destruídos se erguiam como esqueletos gigantes, pontes haviam desabado hå muito tempo e as estruturas que restavam mal se sustentavam de pé. O vento passava entre os escombros levantando poeira e pequenos pedaços de metal enferrujado.


NĂŁo havia ĂĄrvores.


NĂŁo havia grama.


Nenhum sinal de algo verde tentando nascer naquele lugar.


Apenas ruĂ­nas.


Drax caminhava entre elas em silĂȘncio.


Ele vestia um casaco tĂĄtico escuro reforçado nos ombros. Alguns equipamentos estavam presos ao cinto, uma arma compacta na lateral da perna e um pequeno comunicador fixado no peitoral. 


Drax estava preparado — pronto para qualquer coisa que pudesse encontrar ali.


Seus passos eram firmes, mas sem pressa, como alguém que jå conhecia bem aquele tipo de cenårio. Ele atravessou uma rua afundada, passou pelos restos de um prédio colapsado e então parou diante de uma estrutura mais alta que as outras.


O prédio estava inclinado, com grandes partes das paredes faltando.


Ainda assim, continuava de pé.


Sem hesitar, Drax começou a subir.


Ele avançava pelos andares destruídos usando vigas expostas, pedaços de escada quebrada e partes da estrutura que ainda resistiam ao tempo. Cada movimento era preciso, natural, como se escalar ruínas fosse algo comum para ele.


Alguns minutos depois, ele finalmente alcançou o topo.


O vento ali em cima era mais forte.


Drax parou na beirada do prédio e observou o horizonte.


RuĂ­nas.


Até onde os olhos alcançavam.


Ele apoiou os braços sobre uma parte quebrada da estrutura e ficou ali por alguns segundos, apenas olhando a imensidão destruída diante dele.


O silĂȘncio daquele lugar era pesado.


E, pela primeira vez em dias, seus pensamentos voltaram para o mesmo lugar de sempre.


Koran.


A Ășltima vez que o viu ainda estava gravada em sua memĂłria.


NĂŁo havia sido uma despedida.


NĂŁo havia sido uma conversa.


Apenas um olhar.


Drax lembrava daquele momento com clareza demais.


Koran havia parado diante dele, os olhos cheios de lĂĄgrimas e um sentimento contido nele. 


Mas quando ele o abraçou...

Naquele segundo havia algo diferente nele.


NĂŁo era raiva.


NĂŁo era Ăłdio.


Era algo mais difĂ­cil de entender.


Como se ele tivesse tomado uma decisão que ninguém mais podia mudar.


Drax apertou levemente o punho.


Ele sabia que o irmĂŁo estava bem.


Disso ele nĂŁo tinha dĂșvida.


Mas não saber onde ele estava
 ou o que estava fazendo
 era pior do que qualquer resposta.


O vento passou mais forte entre as ruĂ­nas.


Drax fechou os olhos por um instante.


EntĂŁo um som metĂĄlico quebrou o silĂȘncio.


Um pequeno rĂĄdio preso ao seu equipamento chiou.


— Comandante Drax?


Ele pegou o comunicador.


— Na escuta.


— Encontramos algo.


Drax franziu levemente a testa.


— O quĂȘ?


Alguns segundos de silĂȘncio passaram antes da resposta.


— VocĂȘ precisa ver isso.


Drax jĂĄ estava se movendo antes mesmo da transmissĂŁo terminar.


Ele guardou o comunicador e deu um Ășltimo olhar para o horizonte de ruĂ­nas.


Então saltou da estrutura quebrada, desaparecendo rapidamente entre os andares destruídos do prédio.


Alguma coisa tinha acontecido.


E ele estava indo descobrir o quĂȘ.


--- đŸ’« ---


Lucius desceu do ĂŽnibus.


Ele caminhou tranquilamente pelas ruas da Cidadela até chegar à casa de Lira. Ao abrir a porta, foi imediatamente recebido por Sylas, que correu até ele abanando o rabo com entusiasmo.


Lucius sorriu e se abaixou um pouco.


— Eu só saí por algumas horas
 pra que toda essa animação, garoto?


Lira escutou a voz dele de dentro da casa. Logo apareceu na entrada.


Ela vestia roupas simples, padrĂŁo da Cidadela. Era seu dia de folga.


Assim que o viu, caminhou até ele sem hesitar e o beijou.

Lucius retribuiu o gesto com naturalidade.


— E aí, como foi? — disse Lira, apoiando a cabeça no ombro dele.


— Bom
 eu convidei ele. Ele disse que vai vir.


Ela levantou um pouco o rosto.


— Mas e a P.A.?


— Pedi pro Samuel convidar ela. Só ele pra fazer ela sair da torre.


Lira arqueou levemente uma sobrancelha.


— VocĂȘ acha mesmo que ela vem?


Lucius deu de ombros.


— Eu duvido muito
 mas Ă© o Samuel.


Lira soltou uma pequena risada.


— VocĂȘ tem razĂŁo.


Ela beijou a bochecha dele.


— Bom
 melhor começarmos a arrumar esse lugar pra recebĂȘ-los.


Afinal, aquela noite reuniria pessoas que hĂĄ muito tempo nĂŁo se encontravam.


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