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O HerĂłi Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
69 |đŸ’«| Depois da Tempestade
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69 |đŸ’«| Depois da Tempestade

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Uma chuva fina começou a cair sobre a torre.


Primeiro apenas algumas gotas. Depois, um véu silencioso que descia do céu cinzento e escorria pelas estruturas rachadas, pelas paredes quebradas e pelos restos de energia que ainda fumegavam no ar.


O corpo de Soffy permanecia imĂłvel.


Toda a luz que antes percorria seu corpo havia desaparecido.


A torre, que antes rugia com o poder do nĂșcleo, agora parecia apenas... cansada.


Koran a observava em silĂȘncio.


Seus olhos estavam fixos no rosto dela, agora inclinado para o lado, os cabelos molhados pela chuva que começava a entrar pelas fendas abertas na estrutura.


Por um longo momento, ele nĂŁo se moveu.


Atrås dele, o que restava das correntes energéticas finalmente cedeu.


Drax, Leon e Vittorio se soltaram ao mesmo tempo, os corpos caindo pesadamente contra o chĂŁo metĂĄlico. O impacto ecoou fraco pelo interior da torre.


Samuel também se libertou.


As Ășltimas linhas de energia que o prendiam se desfizeram no ar, como poeira luminosa sendo levada pelo vento. Ele apenas endireitou o corpo, recuperando o equilĂ­brio com a mesma tranquilidade de sempre.


Koran então caminhou até Soffy.


Cada passo era lento, pesado, como se o prĂłprio chĂŁo resistisse.


Ele se ajoelhou ao lado dela.


Com cuidado, apoiou um dos joelhos no chão molhado e bateu levemente o punho fechado contra o peito dela — um gesto simples, quase ritualístico.


Silencioso.


Depois levou a mĂŁo ao bolso.


De lá retirou o pequeno pingente que havia guardado antes — o mesmo que pertencera a Drax.


Ele o segurou por um instante entre os dedos.


EntĂŁo o colocou no bolso da roupa de Soffy.


Sem palavras.


Drax se aproximou devagar.


A chuva agora escorria pelos cabelos dele, misturando-se ao suor e Ă  poeira da batalha.


Ele parou ao lado de Koran e colocou a mĂŁo sobre o ombro dele.


— Agora ela não vai mais perturbar a gente.


Koran afastou a mĂŁo.


O gesto nĂŁo foi brusco. Apenas firme.


Ele se levantou lentamente.


Seus olhos estavam pesados. Carregados de algo que lutava para sair.


LĂĄgrimas se acumulavam ali, presas na borda, mas nenhuma havia caĂ­do ainda.


Ele abriu a boca.


Parecia prestes a dizer algo. A raiva estava ali. O peso da perda também.


Mas nenhuma palavra veio.


Por fim, ele apenas deu um passo Ă  frente.


E abraçou Drax.


O abraço foi forte. Curto.


Nesse momento, uma Ășnica lĂĄgrima escapou e desceu pelo rosto de Koran, misturando-se Ă  chuva.


Ele se afastou em seguida.


Ficaram se encarando por alguns segundos.


Nenhum dos dois disse nada.


EntĂŁo Koran virou-se novamente para Soffy.


Ele retirou a prĂłpria jaqueta e a envolveu com cuidado ao redor do corpo dela, protegendo-a da chuva.


Depois a ergueu nos braços.


Com cuidado.


Como se temesse quebrar algo que jĂĄ estava quebrado.


Sem olhar para trås, Koran começou a caminhar para fora da torre.


Drax apenas observou.


Calado.


Seu olhar acompanhou cada passo até que a figura de Koran desaparecesse da sala.


--- đŸ’« ---


A chuva continuava caindo.


O silĂȘncio da torre foi quebrado por um movimento brusco.


Lucius despertou de repente.


Ele puxou o ar com força, sentando-se rapidamente.


A mĂŁo foi direto ao peito.


O ferimento que antes atravessava seu corpo jĂĄ havia desaparecido.


Ele franziu o rosto e coçou o local.


— Essa doeu...


O olhar dele percorreu o ambiente.


A torre destruĂ­da.


A chuva entrando pelas rachaduras.


Drax parado, completamente imĂłvel.


E Lira.


Ela estava chorando.


Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Lira o abraçou com força.


— Ei— ei! — Lucius tentou entender. — O que foi? Por que vocĂȘ tĂĄ chorando?


Ela tremia.


As palavras saíam quebradas entre os soluços.


— VocĂȘ estava morto... vocĂȘ estava morto...


Lucius piscou algumas vezes.


— Eu deveria ter te contado...


Ela apenas assentiu contra o peito dele, ainda chorando.


Sylas apareceu logo depois, correndo até os dois e parando ao lado deles, aliviado ao ver Lucius vivo.


Mais afastada do grupo, P.A. observava tudo.


Ela nĂŁo se aproximou.


Seu corpo androide permanecia imĂłvel, mas algo em sua postura denunciava o peso que carregava.


Vergonha.


Culpa.


Ela ergueu lentamente a mĂŁo, como se fosse falar.


Mas parou no meio do movimento.


A mĂŁo desceu novamente.


Então alguém segurou seu pulso.


Samuel.


Ela levantou o olhar.


Mesmo sendo um corpo artificial, a tristeza em sua expressĂŁo era clara.


Samuel a observava.


O olhar dele era o mesmo de sempre.


Sereno. Calmo.


Sem raiva.


Sem julgamento.


— E-e-eu... — ela começou.


A voz falhou.


Samuel falou antes que ela terminasse.


— Está tudo bem.


Ela hesitou.


— Me desculpa...


— Está tudo bem.


— Eu machuquei vocĂȘs...


— Está tudo bem.


A voz dela ficou mais baixa.


— Não está...


Por um momento, ela parecia incapaz de continuar.


Samuel deu um passo Ă  frente.


EntĂŁo a puxou para perto.


O abraço não era apertado. Não era dramåtico.


Era simples.


Um gesto firme, estĂĄvel — como alguĂ©m que oferece abrigo em meio a uma tempestade.


Nenhuma palavra foi necessĂĄria.


A chuva continuava caindo sobre a torre destruĂ­da.


Mas, aos poucos, o tremor no corpo de P.A. começou a diminuir.


E ela finalmente se acalmou.


A chuva continuou caindo, como um rio suave sob uma montanha.


--- đŸ’« ---


Alguns dias haviam se passado.


A torre ainda permanecia de pĂ© — o que, considerando tudo o que havia acontecido ali, jĂĄ era um bom sinal. As estruturas quebradas começavam a se reorganizar lentamente, como se o prĂłprio lugar tentasse recuperar a forma que tinha antes do caos.


Fissuras ainda marcavam as paredes. Algumas partes continuavam silenciosas demais. Mas pouco a pouco, sistemas voltavam a responder, luzes reapareciam em corredores antes apagados, e a torre retomava seu funcionamento.


NĂŁo era como antes.


Ainda havia um peso no ar, como se as paredes guardassem a memĂłria da batalha que quase a destruiu.


Mas ela resistiu.


E assim como a torre, aqueles que estavam ali também seguiam se reorganizando.


Desde aquele dia, Drax não teve mais nenhuma informação sobre Koran.


A raiva que antes carregava parecia ter se dissolvido junto com o fim da batalha. Ele nĂŁo falava muito sobre isso. NĂŁo perguntava. Apenas seguia, mais quieto do que o normal.


No fundo, sabia que Koran estava vivo.


Mesmo assim, a ausĂȘncia deixava um vazio difĂ­cil de ignorar.


A notícia da queda de duas IAs se espalhou rapidamente. Primeiro pela Cidadela. Depois pelos corredores esquecidos do Underground. Não demorou para alcançar também as outras cidadelas além das fronteiras conhecidas.


Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido.


HistĂłrias diferentes surgiam a cada dia. Algumas exageradas, outras incompletas.


Mas, no meio de tantas versÔes, uma sensação parecia comum entre todos.


Esperança.


Como se algo, finalmente, tivesse mudado.


Como se o domĂ­nio silencioso que antes pesava sobre o mundo tivesse recuado um passo.


Por um breve momento, o ar parecia mais leve.


Ainda assim



Longe de Valtrex.


Muito além das outras cidadelas conhecidas.


Algo continuava se movendo nas regiÔes onde nenhuma notícia chegava.


Movimentos sutis. Cuidadosos.


Pequenas mudanças que quase ninguém perceberia.


Mas que, lentamente, começavam a se espalhar.


--- đŸ’« ---


Samuel estava sentado em um dos bancos da praça da Cidadela.


O céu ainda carregava as nuvens pesadas da chuva que havia caído dias antes, espalhadas lentamente pelo horizonte como se o próprio tempo ainda estivesse se reorganizando.


Apesar de tudo, a Cidadela seguia viva.


Pessoas e androides caminhavam pelos corredores abertos da praça, vendedores anunciavam seus produtos em voz alta, e algumas crianças corriam entre os pilares metålicos rindo, completamente alheias ao que havia acontecido ali poucos dias atrås.


A vida seguia.


Como sempre fazia.


Samuel apenas observava.


Seu olhar percorria a praça com tranquilidade, atento a cada pequeno movimento, como se registrasse silenciosamente o retorno daquela normalidade.


Passos se aproximaram.


Alguém parou ao lado do banco.


— Samuel.


Ele ergueu o olhar.


Lucius.


Samuel apenas assentiu com a cabeça.


Lucius se sentou ao lado dele com naturalidade, apoiando os braços nos joelhos.


— Eu sabia que podia te encontrar por aqui.


Ele abriu uma pequena sacola que carregava e tirou dois picolés embrulhados.


— Quer um?


Samuel negou com um leve movimento de cabeça.


— Certo
 então esse vai pra Lira.


Lucius abriu o próprio picolé e começou a comer.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Apenas observavam a movimentação da praça.


— EntĂŁo
 — disse Lucius, lambendo o picolĂ© — o que vocĂȘ tĂĄ fazendo aqui sozinho?


— Nada demais. Só observando.


— Ah.


Ele deu outra lambida no picolé.


— A P.A. falou com vocĂȘ?


— Não.


Lucius soltou um pequeno suspiro.


— Ela anda bem focada na reconstrução da torre. A gente já tá quase terminando, na verdade.


Ele olhou para frente por um momento antes de continuar.


— Mas ela quase nĂŁo fala com ninguĂ©m. Acho que ainda tĂĄ se culpando por tudo aquilo.


Samuel permaneceu em silĂȘncio, observando o movimento da praça.


Lucius apoiou o cotovelo no joelho.


— Talvez vocĂȘ pudesse passar lĂĄ depois
 — disse ele. — Acho que ela ficaria melhor se falasse com vocĂȘ.


Ele levantou o picolé outra vez, mas a parte restante escorregou do palito e caiu.


Antes de tocar o chĂŁo, parou no ar.


Samuel o segurava com seus poderes.


Lucius olhou para o picolé suspenso e depois para Samuel.


— Ainda bem.


Samuel soltou o controle e o picolé voltou para a mão de Lucius.


Lucius riu baixo.


— Falando nisso
 vocĂȘ tem certeza que aquilo nĂŁo te prejudicou?


Ele apontou vagamente com o picolé.


— Ela tava literalmente drenando sua energia. Aquilo parecia
 bem doloroso.


Samuel apenas negou com a cabeça.


Lucius deu de ombros.


— Bom
 se vocĂȘ diz.


Ele terminou o picolé e limpou as mãos.


— Eu e a Lira estamos pensando em fazer um jantar hoje à noite na casa dela. Nada demais, só pra gente sentar, conversar um pouco
 comer alguma coisa decente.


Ele olhou para Samuel.


— Leon, Vittorio
 talvez o Drax apareça tambĂ©m.


Lucius inclinou levemente a cabeça.


— VocĂȘ devia ir.


Ele fez uma pequena pausa antes de acrescentar:


— E talvez vocĂȘ pudesse chamar a P.A. tambĂ©m.


Lucius deu um pequeno sorriso de canto.


— Aposto que ela iria se vocĂȘ chamasse.


Samuel continuava observando a praça.


Mas agora parecia pensar.


— Mas enfim, eu vou indo. 


Lucius estende a mĂŁo.

Samuel aperta.


— Eu nunca vou esquecer o que vocĂȘ fez por mim, Samuel.


— Tchau.


Samuel assente.


Samuel observou a praça por mais alguns segundos.


A vida seguia seu caminho, mesmo depois de tudo.


Ele entĂŁo se levantou do banco.


Ainda havia muito a fazer.


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