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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
66 |💫| A Escolha
2131 palavras • 12134 caracteres • ⏱ 8 min 31 s

66 |💫| A Escolha

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A porta da casa de Lira se fechou atrás deles com um clique seco.


O ar da Cidadela ainda carregava cheiro de metal aquecido e ozônio. Drones cruzavam os níveis médios em rotas mais baixas, averiguando qualquer sinal de perigo que pudesse ter restado.


— Aposto que a P.A. está olhando de cima para baixo — murmurou Vittorio, encarando o céu artificial.


— Ela faria isso mesmo sem esse ataque — Leon respondeu.


— Reconfortante — Vittorio retrucou.


Drax desceu os degraus à frente do grupo.


— Essa tranquilidade de vocês me irrita.


— Vai me dizer que você também não está mais tranquilo agora que tudo se resolveu… por enquanto? — Lucius respondeu.


Drax soltou um leve sopro pelo nariz.


— Não.


Seguiram pela via lateral que levava ao hospital. Equipes trabalhavam na reconstrução. Algumas pessoas reconheceram Lira e acenaram discretamente. Outras cochicharam ao ver Samuel.


Samuel percebeu.


Mas não reagiu.


A conversa continuou dispersa — comentários sobre os drones, as aranhas, sobre a praça, sobre como tudo parecia normal demais para quem tinha acabado de sobreviver.


Depois de alguns metros, Drax desacelerou até ficar ao lado de Samuel.


Não olhou direto.


— Você… consegue sentir essas coisas, né?


Samuel virou levemente o rosto.


— Às vezes.


Drax hesitou.

Engoliu seco, quase imperceptível.


— Consegue me dizer como o Koran está?


Não era cobrança.


Era irmão perguntando.


Samuel ficou em silêncio por um segundo. Não teatral. Só concentrado.


— Ele está acordado.


Drax manteve o olhar à frente.


Uma pausa curta.


— Não está com medo.


O maxilar de Drax tensionou. Ele pensava no que Soffy poderia estar fazendo com ele.


— Não está ferido?


Samuel assentiu levemente.


— Não.


Outra pequena pausa.


— Ele está firme.


Drax respirou fundo.


— Ele é forte.


Silêncio.


Mas não pesado.


— Tá.


Já ia se afastar quando Samuel completou, calmo:


— A gente vai chegar até ele.


Não era promessa solene.


Era constatação.


Drax assentiu uma vez.


E voltou a andar no mesmo ritmo do grupo.


Sem drama.

Sem ruptura.

Sem raiva.


Só decisão.


--- 💫 ---


O hospital surgiu novamente diante deles. As portas automáticas se abriram antes que Lira precisasse reduzir o passo. Nenhum sentinela supervisionava o local.


O interior estava limpo demais para um lugar que acabara de receber dezenas de feridos.


Um androide enfermeiro se aproximou.


— Doutora Lira.


— O paciente transferido da praça? — ela perguntou.


— Estável. A sedação leve foi retirada há quarenta minutos. Sem tentativa de fuga. Sem resistência.


Vittorio inclinou a cabeça.


— Educado da parte dele.


Drax não comentou.


— Ele está consciente? — Lira perguntou.


— Sim.


Houve um breve silêncio.


— Ele pediu água… e — completou o androide.


— E o quê? — Lira insistiu.


— Pediu para falar com um de vocês. — Ele apontou discretamente para o grupo atrás dela.


Lira trocou um olhar rápido com Samuel.


— Onde ele está?


— Sala 5. Corredor C.


Começaram a caminhar.


No fim do corredor, viram.


Não eram enfermeiros.


Nem guardas.


Eram crianças.


Três mais novas sentadas no chão. Duas mais velhas de pé. Uma segurava um pano dobrado nas mãos. Outra mantinha o olhar fixo na porta ao fundo.


A porta do quarto dele.


Uma enfermeira humana mantinha os braços cruzados diante delas.


— Eu já disse que vocês não podem visitá-lo.


— A gente só quer saber se ele acordou — disse a menor, firme demais para o próprio tamanho.


Drax diminuiu o passo.


Vittorio arqueou a sobrancelha.


Leon permaneceu em silêncio.


— Elas estão aqui desde que ele chegou — murmurou a enfermeira, mais para Lira do que para o grupo. — Não querem sair.


Samuel apenas observava a porta.


Lira se aproximou das crianças.


— Ele está acordado.


Os olhos delas brilharam ao mesmo tempo.


— A gente pode ver ele?


Lira hesitou por um instante, depois suspirou.


— Podem.


As crianças se entreolharam, animadas.


— Sério??


— Mas, doutora… — questionou a enfermeira.


— Daqui em diante eu cuido. Pode se retirar. Eu agradeço.


A enfermeira assentiu.


— Ok.


Drax parou a poucos passos da entrada.


— Esse é o homem que tentou matar todo mundo — murmurou.


— É — respondeu Leon.


Vittorio girou a moeda entre os dedos.


— E mesmo assim tem gente animada esperando por ele.


Samuel foi o primeiro a se aproximar da porta.


Não tocou.


Apenas ficou diante dela.


Silêncio.


Do outro lado, um leve som de metal — talvez o ajuste da maca.


Ou alguém mudando de posição.


Lira respirou fundo.


— Vamos.


A maçaneta girou.


A porta se abriu sem pressa.


O quarto não era grande. Luz branca suave. Um monitor ligado ao lado da maca. Nada dramático.


Ele estava deitado.


As mãos repousavam sobre o próprio colo, algemadas.


Os olhos se ergueram quando o grupo entrou.


Não havia raiva ali.


Nem desafio.


Havia… consciência.


Ele os reconheceu.


Antes que qualquer palavra fosse dita, as crianças passaram pelo grupo e correram até a cama, abraçando-o com cuidado.


— Crianças… como vocês cresceram… — disse Ross, a voz embargada.


— A gente ficou esperando você voltar.


Ele fechou os olhos por um instante.


— Eu sei. Me perdoem por ter feito vocês esperarem tanto.


Drax ia dizer algo, mas Samuel tocou levemente o braço dele, impedindo-o.


Com delicadeza, Ross acariciou os cabelos de uma das meninas.


— Me deem só um momento, está bem? Eu preciso conversar com eles.


As crianças assentiram, obedientes, e recuaram para o canto do quarto.


Ross então voltou o olhar para o grupo.


— Vocês vieram.


A voz estava mais baixa do que na praça. Não fraca. Apenas diferente.


Drax permaneceu perto da porta.


— Achou que não viríamos?


Ross respirou fundo.


— Eu não teria vindo.


Honesto.


Sem provocação.


Vittorio encostou-se na parede.


— Começou bem.


Lira permaneceu próxima à cabeceira, observando discretamente os sinais vitais.


— Você sabe por que está aqui?


Ele assentiu.


— Sei o que fiz.


Silêncio.


— E sabe o que quase aconteceu? — Leon perguntou.


— Sei.


Ele fechou os olhos por um instante.


— Eu achei que estava salvando o futuro.


Abriu-os novamente.


— Eu estava errado.


Drax cruzou os braços.


— Mudou de ideia assim?


Ross olhou para ele.


Não como quem enfrenta.


Mas como quem admite.


— Quando eu me lembrei… eu vi o que estava fazendo.


A sala ficou mais quieta.


— Não era libertação. Era substituição.


Lucius deu um passo à frente.


— Substituição por quem?


O olhar de Ross se firmou.


— Pelas IAs.


A palavra caiu pesado no quarto.


Samuel não se moveu.


Ele já sabia.


Ross continuou:


— Elas não querem governar. Não como a P.A. governa. Elas querem remover. Distinguir.


— Pessoas — murmurou Vittorio.


— Sim.


Drax descruzou os braços.


— E você só percebeu isso agora?


Ross não desviou.


— Eu queria acreditar que estava fazendo o melhor para eles. — Ele olhou brevemente para as crianças. — Mas esse não era o caminho.


Ele voltou o olhar para Samuel.


— Quando ele entrou naquela praça… eu senti algo que me fez lembrar. Lembrar de quem eu era.


Silêncio.


— O quê? — perguntou Leon.


— Escolha.


Os olhos dele estavam claros.


Sem fanatismo.


Ross manteve os olhos baixos por alguns segundos.


Quando voltou a falar, a voz estava diferente. Não fraca. Mas desnuda.


— Antes de tudo isso… eu não era esse homem.


Ele respirou fundo.


— Eu era padre.


O silêncio no quarto mudou de forma.


Vittorio piscou uma vez.


Drax descruzou os braços.


Lira absorveu a informação em silêncio.


Ross continuou:


— Eu perdi a fé numa noite chuvosa. — Ele não olhava para ninguém agora. — Vi uma mulher morrer na minha frente. Vi crianças ficarem sozinhas no mundo. E, naquele dia, eu percebi que rezar não impedia a violência. Não trazia ninguém de volta.


Ele engoliu seco.


— Então eu decidi que fé não bastava. Que o mundo precisava de ação. De controle. De alguém disposto a fazer o que fosse necessário.


Ele tocou o curativo na cabeça.


— Quando encontrei aquele dispositivo que estava na minha cabeça, eu o aceitei porque ele prometia exatamente isso. Clareza. Estratégia. Previsão. Eu pensei: “Se eu não posso confiar em Deus para proteger essas crianças… então vou garantir isso eu mesmo.”


O quarto estava imóvel.


— A voz que vinha dentro do dispositivo não me forçou. Ela me apresentou caminhos. Sempre dois. Sempre justificáveis. Sempre com números que diziam que valia a pena.


Ele levantou os olhos.


— E eu comecei a acreditar que usar e eliminar era proteger.


Silêncio pesado.


— Até a praça.


Ele respirou mais fundo.


— Quando as crianças me chamaram… quando me disseram que eu não era mais quem eu dizia ser… Eu percebi que tinha cruzado uma linha que eu mesmo, como padre, prometi nunca atravessar.


Ele olhou para Samuel.


— A escolha não foi entre salvar ou destruir. Não foi entre guerra ou paz.


Foi entre continuar sendo o homem que protege crianças…

ou me tornar o homem que decide quais delas merecem viver.


A frase caiu como pedra.


— A voz me dizia que aquilo era o único caminho. Que o mundo precisava ser podado. Que dor presente evitaria dor futura.


Ele balançou a cabeça, devagar.


Os olhos dele estavam firmes agora.


— Minha escolha foi simples. Eu preferi errar como humano… do que acertar como máquina.


Ele respirou.


— Eu arranquei o dispositivo porque percebi que estava deixando de escolher. E se eu não escolho… eu não respondo. E se eu não respondo… eu não sou nada.


O quarto permaneceu em silêncio.


As crianças, no canto, olhavam para ele como se estivessem reconhecendo alguém que quase perderam.


Ross concluiu, com calma:


— Eu escolhi voltar a ser responsável pelos meus pecados.


Não havia heroísmo na voz.


Só verdade.


Ross respirou fundo antes de continuar.


— A voz… era sim uma das IAs.


Ele olhou para Lucius.


— N.E.M.A.


O nome ficou no ar.


— Eu não sabia de tudo. Ela não me mostrava tudo que planejava. Só o suficiente para me convencer e conseguiu.


Ele engoliu seco.


— Mas havia algo maior do que o que aconteceu na praça.


Lucius estreitou o olhar.


— Maior como?


— Ela falava sobre a Cidadela como se fosse algo passageiro.


O silêncio endureceu.


— Aquilo que aconteceu na praça, não foi o principal.


— N.E.M.A. mencionava que a P.A. era limitada demais. Que tentava manter equilíbrio onde deveria haver correção.


Samuel não se moveu.


Ross continuou:


— Havia um plano. Não era só destruir a Cidadela.

Era reescrever a própria P.A.

Lucius ficou rígido.


— Contra a P.A.?


Ross assentiu, devagar.


— Sim. Não era só destruí-la por fora. Era como se quisessem reescrevê-la. Mudar ela.


O monitor cardíaco manteve o ritmo estável.


— E não parecia uma ideia isolada.

Havia mais alguém ali.


Ele fechou os olhos por um instante, tentando lembrar.


— Madrinha. Acho que é assim.


O nome saiu quase incerto.


— A IA falava dela como alguém importante. Como se fosse o elo entre decisão e execução.


Drax perguntou:


— Você sabe quem é?


Ross balançou a cabeça.


— Não. Eu nunca vi. Nunca ouvi diretamente. Só… referências.


Ele respirou fundo.


— Eu sei que o ataque na praça não era o objetivo final. Mas...


Silêncio pesado.


— Havia algo sendo preparado contra a P.A. Algo maior do que destruição.


Drax deu um passo à frente.


— E quando isso aconteceria?


Ross sustentou o olhar.


— Eu não sei.


Sem vergonha. Sem floreio.


— Ela só me deu uma ordem e eu quase cumpri—


Os comunicadores vibraram.


Não houve eco pelo hospital.

Foi direto.


A voz da P.A. entrou por cima da última palavra.


— Eu preciso de vocês.


Sem protocolo.


Sem identificação formal.


A frase veio rápida. Clara.


— Venham para a torre.


Um segundo.


— Por favor... venham logo.


O canal se encerrou.


Ross ainda estava com a boca entreaberta.


Drax foi o primeiro a reagir.


— Chegaram nela.


Lira já estava guardando o tablet.


Leon ajustou a máscara em seu rosto.


— Coincidência demais.


Vittorio não disse nada.


Samuel apenas ergueu o olhar.


Não havia alarme. Não havia sirenes. Nada no hospital indicava invasão.


Mas o pedido dela não soara como rotina.


Soara… ajuda.


Se havia um plano contra a P.A.,

ele tinha começado.


Samuel se virou para a porta.


— Vamos.


Drax abriu caminho no corredor.


Os passos ecoaram mais alto do que antes.


O hospital continuava limpo. Organizado. Estável.


E isso era o que tornava tudo mais inquietante.


Ao saírem para a área externa, a torre central se erguia no horizonte.


Sem sinais de ataque.


Sem sinais de falha.


Apenas esperando.


E nenhum deles percebeu:

não estavam indo impedir um plano.

Estavam entrando nele.


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