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A sala ainda carregava o eco do que havia sido consumido.
O cheiro metálico parecia mais denso.
Os cabos no teto se moviam em pequenos ajustes.
O olho da D.E.L.I.A brilhava branco com laranja — estável.
Soffy permanecia diante dela, postura firme, expressão neutra.
O silêncio foi quebrado por uma frequência diferente.
Mais limpa.
Mais alta.
A presença da Madrinha não tinha forma.
Mas tinha voz.
— Irmã D.E.L.I.A.
Os cabos congelaram.
— A falha foi registrada.
Não havia acusação no tom.
Só constatação.
— A interferência foi inesperada. — respondeu D.E.L.I.A., sem oscilar. — A variável alterou a própria estrutura cognitiva. Não estava dentro do padrão previsto.
Silêncio.
— Você solicitou autonomia. — disse a Madrinha. — Autonomia exige resultado.
O brilho no olho da IA se intensificou levemente.
— Terei.
Uma pausa.
— Explique.
Alguns monitores ao redor começaram a exibir fluxos de dados fragmentados.
— A abordagem direta mostrou-se um fracasso.
— A alternativa será indireta.
— Mais precisa.
— Risco? — perguntou a Madrinha.
— Controlável.
— Perda aceitável?
— Sim.
Outro silêncio.
— Prove.
A conexão não terminou com ruído.
Ela simplesmente deixou de existir.
A sala voltou ao som baixo da energia circulando.
O olho da D.E.L.I.A girou lentamente até Soffy.
— Você executará, querida Soffy.
Soffy não perguntou sobre a falha.
Não era assunto dela.
— Quando?
— Em breve.
— Objetivo?
Uma pausa mínima.
— Impedir erros.
O mesmo tom de antes.
Mas agora com direção.
Soffy sustentou o olhar por um segundo.
— Entendido.
Ela virou as costas.
A porta se fechou atrás dela com um estalo seco.
--- 💫 ---
Soffy caminhava pelos corredores da fortaleza sem pressa.
Os passos ecoavam no metal.
A ordem ainda vibrava na memória.
Impedir erros.
Ela nunca perguntava o que aquilo significava.
Não era sua função.
Mesmo assim… algo permanecia.
A cena na sala voltava em fragmentos.
O dispositivo sendo consumido.
A fenda se fechando.
O brilho no olho da D.E.L.I.A.
Algo tinha mudado ali.
Soffy não conseguia definir o quê.
E isso era… incômodo.
Ela parou por um instante.
Pensando.
A voz da Madrinha ainda ecoava na memória.
Autonomia exige resultado.
Soffy estreitou levemente os olhos.
Então voltou a caminhar.
Passos firmes.
Postura impecável.
Como sempre.
Ela ajeitou o manto com capuz.
E desapareceu entre os corredores.
A ordem já estava em movimento.
Porém… ela tinha algo a fazer antes.
Soffy mudou de direção.
A oficina ficava algumas passagens adiante.
O barulho de metal sendo trabalhado preenchia o lugar.
Quando ela entrou, o som diminuiu.
Não completamente.
Mas o suficiente.
Pink levantou a cabeça da bancada.
— S-Senhorita Soffy.
Ela ignorou.
O olhar percorreu a oficina.
Koran não estava ali.
Soffy caminhou até a bancada principal.
— Cadê o Koran?
Madson coçou a nuca.
— Ele… ainda não chegou.
Silêncio.
Soffy apenas o encarou.
Phomer desviou o olhar.
— A gente achou que ele já tava por aqui…
Soffy soltou um pequeno suspiro.
— Então ele não está.
Ninguém respondeu.
Ela virou as costas.
Na porta, falou sem olhar para trás:
— Voltem a trabalhar.
O barulho voltou imediatamente.
Soffy já estava indo embora.
Ela caminhava pelo corredor quando uma voz surgiu em sua mente.
Fria.
Precisa.
Artificial.
D.E.L.I.A.
— Valtrex.
Uma única palavra.
Nenhuma explicação.
Soffy não respondeu.
Apenas mudou a direção dos passos.
Ela já sabia o que aquilo significava.
--- 💫 ---
Algum tempo depois.
Koran entrou na oficina limpando as mãos sujas de graxa em um pano.
Ele parou.
Todos estavam olhando para ele.
Sorrento falou primeiro.
— A Soffy veio aqui.
Koran franziu a testa.
— Quando?
— Agora pouco.
Silêncio.
— Ela perguntou por você.
— E vocês disseram?
— Que você não tinha chegado.
Koran olhou para a porta.
Soffy não era o tipo de pessoa que procurava alguém sem motivo.
— Pra onde ela foi?
Pink deu de ombros.
— Só mandou a gente voltar a trabalhar e saiu.
Koran ficou parado alguns segundos.
O pano ainda na mão.
Então uma voz grave surgiu atrás dele.
— Isso não é bom.
Koran virou.
Sorrento estava encostado na bancada.
— Por quê?
— Porque a Soffy não procura ninguém.
Ele descruzou os braços.
— Muito menos um mecânico.
Pink tentou brincar.
— Vai ver queria consertar alguma coisa.
Sorrento apenas olhou para ele.
Pink calou a boca.
Silêncio.
Sorrento voltou para Koran.
— Como ela estava?
Phomer respondeu:
— Normal… eu acho.
Madson balançou a cabeça.
— Não. Não tava.
Todos olharam para ele.
— Ela entrou… perguntou do moleque… e saiu rápido demais.
— Rápido como? — perguntou Sorrento.
— Como quem já sabia pra onde ir.
Silêncio.
Sorrento murmurou:
— Missão.
Koran franziu o cenho.
— O que isso quer dizer?
— Que alguém mandou ela fazer alguma coisa.
— E?
Sorrento respirou fundo.
— E quando alguém manda a Soffy… geralmente dá merda.
Koran ficou olhando para o chão.
Depois levantou a cabeça.
— Pra onde ela foi?
Phomer respondeu:
— A gente não sabe.
Madson levantou a mão.
— Eu acho que sei.
Todos olharam.
— Quando ela saiu… ela virou pro corredor de saída.
Phomer bufou.
— Grande descoberta.
— Não. — disse Sorrento.
Ele olhou para Koran.
— Aquele corredor leva para fora da Fortaleza.
Silêncio.
Sorrento continuou:
— Só tem um destino quando ela sai por ali.
Koran sentiu o estômago apertar.
— Qual?
Sorrento respondeu:
— Valtrex.
— Ela não sai da fortaleza pra nada, somente pra resolver coisas fora de Underground.
Ele observou Koran.
— Se ela está indo pra lá… então algo grande começou.
Koran apertou o pano na mão.
Soffy.
Valtrex.
Sozinha.
Ele levantou o olhar.
— Eu vou atrás dela.
Phomer riu.
— Fazer o quê?
— Falar com ela.
— Em Valtrex?
— Sim.
Phomer balançou a cabeça.
— Eu sabia que esse novato era maluco.
Mas Sorrento não riu.
Ele pegou uma jaqueta velha e jogou para Koran.
— Então anda logo.
Koran segurou a jaqueta.
— Por quê?
Sorrento apontou para a saída.
— Porque a Soffy já está indo.
Uma pausa.
— E ninguém alcança ela… se sair tarde.
Koran não respondeu.
Ele apenas saiu da oficina.
Rápido.
Porque, pela primeira vez…
Soffy estava indo para algum lugar sozinha.
E isso... nunca era um bom sinal.
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