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A casa de Lira ficava em um dos níveis médios da Cidadela, afastada do centro comercial e longe da torre.
Não era grande.
Mas era firme.
As paredes exibiam pequenas rachaduras do impacto. Algumas molduras estavam tortas, uma prateleira caída permanecia encostada no canto. Nada estrutural. Nada irreparável.
Horas haviam se passado.
Depois da dispersão na praça, ninguém quis voltar imediatamente para a própria rotina.
Era um momento de pausa forçada.
— Por que diabos a P.A. pediu pra gente ficar aqui? — questionou Drax.
Ele ocupava o espaço mais próximo da janela, braços cruzados, observando o movimento nas ruas abaixo. Drones ainda circulavam. Luzes ainda piscavam em manutenção.
Mas ele não estava olhando para aquilo.
Lucius respondeu com calma:
— Porque ela acabou de recuperar o corpo físico. Deve estar ajustando sistemas, reorganizando setores… ela não vai querer que a gente atrapalhe.
— A gente salva o corpo dela e ela diz que a gente iria "atrapalhar". — Disse Drax murmurando para si mesmo.
Vittorio estava encostado na parede, girando a moeda entre os dedos — mas sem lançá-la. Pela primeira vez, parecia pensar antes de agir.
Leon se acomodara perto da mesa, analisando seu skate com atenção metódica. A luz roxa refletia na máscara, tornando impossível saber o que se passava em seus olhos.
Lucius permanecia de pé no centro da sala ao lado de Sylas, como se ainda aguardasse uma ordem que não viria.
Samuel estava sentado.
Quieto.
Mas não desligado.
Lira surgiu da pequena cozinha carregando duas luminárias portáteis. Já havia trocado de roupa — algo mais confortável, mais seu. A energia do setor ainda oscilava.
Ela posicionou uma luz sobre a mesa. Outra no aparador.
O ambiente ganhou um tom quente.
Humano.
— Fiquem à vontade… — disse ela, quase automática. — Não é grande, mas é confortável. Só… não façam muito barulho. Os vizinhos daqui reclamam por qualquer coisa.
Ela apoiou as mãos na mesa por um instante.
Respirou fundo.
Só então percebeu que ainda estavam manchadas.
Lucius notou.
— Você devia sentar.
— Eu não posso sentar. — respondeu de imediato. — Tem gente que precisa de mim lá fora.
— Tem outros médicos lá fora. — ele disse, firme, mas suave. — Você precisa respirar também.
Ela abriu a boca para retrucar.
Não retrucou.
Sentou.
Foi um gesto pequeno.
Mas significativo demais para passar despercebido.
Vittorio fechou a moeda na palma.
— Engraçado… — murmurou. — A cidade quase desmorona… e a gente acaba espremido numa sala pequena como essa.
Drax respondeu sem tirar os olhos da janela:
— Melhor do que estar estendido lá fora.
Vittorio inclinou a cabeça.
— É… justo.
Samuel estava quieto.
Mas o ambiente não estava fora do alcance dele.
Apenas atento a cada respiração naquele cômodo.
Lira encostou as costas na cadeira, permitindo que o cansaço finalmente aparecesse no rosto.
Lucius caminhou até ela e se sentou ao lado. Sylas passou entre as pernas dele, deu uma leve cabeçada na mão de Samuel e então deitou perto da cadeira.
Lucius segurou a mão de Lira com cuidado.
— Você tá bem?
Ela engoliu seco.
— Eu tô… — hesitou. — Só fico pensando se eles vão conseguir sem mim.
— Vão. — respondeu ele. — E, se não conseguirem…
Ele olhou ao redor da sala.
— A gente resolve.
Apontou com o queixo para Samuel.
— Temos ele.
Para Drax.
— Ele.
Para Vittorio.
— E ele.
Vittorio ergueu a moeda em silêncio, como se aquilo fosse uma confirmação oficial.
Drax não reagiu.
Samuel apenas inclinou levemente a cabeça.
Lira soltou uma risada baixa, cansada.
— Você faz parecer simples.
Lucius deu de ombros.
— É porque às vezes é.
Ela apoiou a cabeça no ombro dele.
E, pela primeira vez desde o ataque…
ninguém precisava fazer nada.
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Lira ainda estava apoiada no ombro de Lucius quando Sylas se levantou.
O animal caminhou devagar pela sala, contornando a mesa, ignorando Vittorio, passando por Drax… até parar diante de Samuel.
Silêncio.
Sylas inclinou levemente a cabeça.
Samuel não se mexeu.
O tigre deu um passo à frente e aproximou o focinho do joelho dele. Cheirou. Demorou mais do que o normal. As orelhas se moveram para trás por um segundo.
Sylas soltou um som baixo.
Não era ameaça.
Não era carinho.
Era avaliação.
Samuel estendeu a mão lentamente.
Sylas não recuou — mas também não se aproximou.
Ficou ali.
Observando.
— Tá tudo bem — disse Samuel, baixo, sem tirar os olhos dele.
O animal piscou uma vez… e então deitou ao lado da cadeira.
Mas não relaxou completamente.
Ficou atento.
Drax trocou um olhar rápido com Vittorio.
— Vocês sentiram aquilo lá na praça? — perguntou Leon, ainda girando o skate com o pé.
— Aquilo o quê? — Drax respondeu.
Leon levantou o olhar.
— Não parecia só um simples ataque.
Lucius ficou mais sério.
— A P.A. classificou como ataque IA.
Vittorio girou a moeda nos dedos, o metal refletindo a luz fraca da sala.
— IA pode significar muita coisa. Vocês viram o que fizeram com aquele líder. O que impede delas estarem fazendo isso com outros por aí… ou pior…
Ele olhou em volta.
— Com um de nós.
— Tu mal chegou e fala com essa intimidade toda — retrucou Drax.
— Deixa disso, Drax. Ignora ele — disse Lucius.
O ar na sala mudou. Sutil, mas perceptível.
— Eu já lutei com aranhas bem parecidas com aquelas antes — disse Leon. — Mas nunca as vi agindo de maneira tão… consciente.
— Tanto o líder quanto as aranhas, tudo foi uma jogada — respondeu Drax. — Cada movimento calculado. Só que no final todas fracassaram.
— E por quê? — perguntou Vittorio.
Drax suspirou e apontou discretamente para Samuel.
— O que tem ele?
— Você é cego? Não notou nada diferente nele esse tempo todo?
Vittorio inclinou a cabeça, analisando.
— Eu percebi que ele é meio calado… passa uma vibe estranha. Descontraída demais pra quem acabou de sobreviver a tudo aquilo.
Lucius cruzou os braços.
— Ele tem poderes.
— Então ele é uma daquelas “anomalias”?
— Não — respondeu Lucius, firme. — Ele não é uma anomalia. Pode-se dizer que estamos aqui por causa dele.
— Eu tô aqui pelo meu irmão — Drax rebateu.
— Você tá aqui pelo seu irmão, certo. Mas se não fosse por ele… você ainda estaria naquele hospital.
Drax ficou em silêncio. Voltou a encarar a janela.
Lucius continuou:
— Pelo que o Leon falou e pela hipótese do Drax, as IAs estavam planejando isso há tempo. Se quisermos respostas, temos que falar com aquele líder.
— E ele tá onde? — perguntou Vittorio.
— No hospital — respondeu Lira, entrando na conversa. — Sob observação. Vai ser julgado pelo que fez. E… pelo que soube, ele não tentou se defender.
Vittorio inclinou a cabeça.
Leon cruzou os braços.
— Então a gente vai lá depois.
Não foi uma pergunta.
Foi uma decisão.
Samuel escutava mais do que todos.
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Lira se afastou do ombro de Lucius e olhou para Samuel.
Não havia medo em seus olhos.
Havia atenção.
Ela se levantou devagar e caminhou até ele. Parou diante da cadeira, estudando o rosto dele como se buscasse algo invisível.
— Você não parece cansado… como os outros.
Samuel ergueu o olhar.
— Eu estou bem.
Ela balançou a cabeça, quase imperceptível.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Sylas levantou a cabeça, sentindo a mudança no tom.
Lira hesitou por um segundo.
— Você lembra do que eu coloquei no seu bolso naquele dia?
Samuel assentiu.
Levou a mão ao bolso interno da jaqueta e retirou o pequeno embrulho.
O pano era simples. Claro. Amassado pelo tempo.
Ele abriu com cuidado.
Um fragmento de ferro repousava na palma da mão.
Metal irregular. Bordas queimadas.
Tons quase imperceptíveis de azul e vermelho ainda sobreviviam na superfície.
No centro, um ponto dourado permanecia estável.
Silencioso.
Lira observou.
— Eu encontrei isso preso na sua roupa — disse. — Não estava dentro de você… mas parecia puxado para perto.
Samuel não desviou o olhar do fragmento.
— Eu não sabia o que era — ela continuou. — Parte de um núcleo, talvez. Ou algo que sobrou.
Ela respirou fundo.
— Eu só sabia que não queria que a P.A. ficasse com isso.
O silêncio se espalhou pela sala.
— Por quê? — ele perguntou.
Lira demorou um segundo a mais do que o normal.
Não era uma resposta técnica.
— Porque você não parecia alguém que devia ser tratado como coisa.
Ela sustentou o olhar dele.
— Você me lembrou alguém.
Samuel ergueu levemente o rosto.
— Meu avô — explicou, simples. — Ele tinha esse mesmo jeito de olhar. Quieto. Como se estivesse sempre avaliando o que é certo antes de agir.
Sem drama.
Sem peso exagerado.
Só verdade.
— Eu achei que… se aquilo ficou com você, talvez tivesse um motivo.
Por um instante, o ponto dourado pulsou.
Suave.
Como se respondesse.
— Obrigado — disse Samuel.
Mas havia algo diferente na forma como ele falou.
Mais consciente.
Ele fechou lentamente os dedos ao redor do metal.
Sylas se levantou e se posicionou ao lado de Lira.
O tigre não rosnou.
Não se deitou.
Apenas observou.
Como se tivesse entendido que aquilo não era ameaça.
Era vínculo.
Samuel envolveu o fragmento novamente no pano.
Com cuidado.
Como quem guarda algo que não compreende completamente —
mas escolhe proteger mesmo assim.
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O ar parecia mais denso.
Vittorio observava.
Drax também.
Lucius percebeu a tensão antes mesmo de entender o motivo.
— A gente vai no hospital amanhã — disse ele, quebrando o peso no ar. — Antes que alguém resolva silenciar aquele homem.
Leon assentiu.
Drax descruzou os braços.
— Se isso realmente tiver dedo das IAs…
Samuel finalmente falou:
— Tem.
Não era suposição.
Era memória.
Sylas levantou a cabeça novamente.
E, naquela sala, entre paredes rachadas e luz instável, algo havia mudado.
Ainda não era guerra.
Mas também já não era descanso.
Do lado de fora, um drone passou devagar demais pela janela.
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