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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
63 |💫| Além da Fortaleza
1482 palavras • 8648 caracteres • ⏱ 5 min 56 s

63 |💫| Além da Fortaleza

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O corredor principal da fortaleza estava mais silencioso do que o normal.


Ou talvez fosse ela.


Soffy caminhava devagar, mãos cruzadas atrás das costas, o som leve das botas ecoando pelo metal gasto. As luzes acima dela não falhavam mais — estavam estáveis demais. Precisas demais.


Ela não olhava para o teto.


Mas sentia.


Aquela fenda se abrindo.


A luz sendo sugada.


O som — não de um grito, mas de algo se desfazendo.


Silêncio, N.E.M.A.


Ela piscou.


Continuou andando.


Nada na expressão dela denunciava o que pensava. O rosto permanecia neutro, quase entediado. Mas os passos estavam um pouco mais lentos que o habitual.


Ela nunca questionou D.E.L.I.A.


Mas agora havia algo fora do padrão.


Não medo.


Não arrependimento.


Era dúvida.


Dois ladrões encostados perto do depósito se endireitaram quando a viram.


— Senhorita.


— O comboio da superfície cruzou o setor leste faz quinze minutos. Carga industrial. Pouca escolta. — um deles disse. — A gente intercepta?


Ela demorou um segundo.


Os olhos não estavam ali.


Estavam vendo outra coisa — luz laranja sendo esmagada, dados colapsando.


Voltou.


— Não. — respondeu, tranquila. — Hoje não.


Eles se entreolharam.


— Marca horário, rota e escolta. Se repetir padrão, pegamos depois. Não quero chamar atenção agora.


— Certo.


Ela já tinha passado por eles antes que a curiosidade virasse pergunta.


Virou no corredor da oficina.


Silêncio.


Entrou sem anunciar presença.


Bancadas desorganizadas. Ferramentas largadas. Uma lâmpada pendendo do teto, balançando levemente.


— Koran. — chamou, baixo.


Nada. Não havia ninguém ali.


Tocou a bancada principal.


Fria.


Ele não estava ali fazia tempo.


Saiu sem deixar marca.


No salão central, o movimento era maior. Mapas projetados, caixas sendo organizadas, vozes baixas discutindo rotas.


O burburinho diminuiu quando ela entrou.


Respeito. Medo.


Ela foi direto ao painel de câmeras improvisado. Interferência. Atraso. Cortes.


Procurando.


Um ladrão se aproximou.


— Senhorita Soffy… a munição dos veículos destruídos foi comprometida. Duas caixas inutilizadas.


Ela não desviou os olhos das telas.


— Responsáveis?


— Tarek e Milo.


Os dois já estavam tensos do outro lado da sala.


Ela ficou em silêncio por meio segundo.


Antes, ela mandaria punir.

Talvez pior do que isso.


— Dobrem o turno deles por três dias. — disse, simples.


O homem hesitou.


— Só isso?


Ela virou o rosto devagar.


O suficiente.


— Você prefere que eu escolha outra coisa?


— Não. Não, senhorita.


Ele se afastou.


Ela voltou às câmeras.


E então viu.


Koran.


Sozinho na entrada por onde tinha chegado com Drax. Não trabalhava. Não falava.


Só estava ali.


Parado.


Pensando.


Ela observou por alguns segundos.


Não parecia raiva.


Nem medo.


Era algo mais difícil.


Ela desligou o painel.


Foi até seu cômodo.


Pegou um casaco escuro, longo demais, capuz profundo. Ajustou até esconder o rosto nas sombras.


Olhou o reflexo numa placa metálica.


Irreconhecível.


Saiu pela passagem secundária.


O Underground respirava ferrugem e vapor quente. Lâmpadas improvisadas piscavam. Gente passando, negociando, discutindo.


Ela caminhava entre eles sem que percebessem quem era.


Sem postura de líder.


Sem presença dominante.


Só mais uma sombra atravessando o subterrâneo.


Mas os olhos estavam fixos.


Em Koran.


Ele ainda não a tinha visto.


E, pela primeira vez em muito tempo…


Ela não sabia qual seria o movimento certo.


--- 💫 ---


Koran estava do lado de fora.


Os destroços ainda fumegavam em alguns pontos. Metal retorcido, placas arrancadas, pedaços do que antes parecia indestrutível.


Ele observava.


Estranhamente… sua mente estava leve.


Não confusa.

Não perdida.


Leve.


Passos ecoaram atrás dele.


— Tá fazendo o que aqui fora?


Ele não se virou de imediato.


— Acabou meu turno. Resolvi tomar um ar fresco.


Uma pausa.


— Veio ver se eu ia fugir?


Soffy parou ao lado dele.


— Não. — disse, simples. — Na verdade… não sei.


Ela caminhou entre os destroços. A lâmina do braço se abriu com um som metálico baixo. Com um movimento preciso, rasgou uma caixa amassada e puxou um fardo de latas antigas.


Voltou até ele.


— Drax nunca gostou de beber. Dizia que tinha gosto de merda. — Ela lançou uma lata na direção dele. — Herdou isso dele?


Koran pegou no reflexo.


— Nem tanto. Mas não custa tentar.


Ele abriu.


Bebeu.


Cuspiu na hora.


— Que inferno é isso?!


Soffy riu. Um riso real.


— Deve ter vencido… o quê? Uns quarenta anos atrás? Quantos anos você tem mesmo?


Koran arremessou a lata para longe.


Antes que tocasse o chão, a lâmina dela atravessou o alumínio no ar.


Tssss.


Ela puxou de volta.


— Você não é tão diferente dele. — disse, encostando em um destroço, perto demais. — Não é ele… mas dá pro gasto. Teimoso. Curioso. Quieto. Irritante às vezes.


Koran a encarou.


— Você fala dele como se fosse perfeito. Mas disse que ele ter te deixado foi culpa minha.


Ela piscou, surpresa pela franqueza.


— Já vai jogar isso assim na mesa?


Silêncio curto.


— Foi por sua causa, sim. — disse sem suavizar. — Não vou mentir.


Os olhos dela ficaram mais frios.


— Quando você apareceu… eu considerei te matar. De verdade.


Ela deu de ombros.


— Mas você é… suportável.


Koran soltou uma risada curta.


— Tu sempre foi doentia assim?


Ela olhou o horizonte escuro.


— Desde que conheci seu irmão.


O silêncio se estendeu.


Ele respirou fundo.


— Posso perguntar uma coisa?


— Virou cidadão da Cidadela pra pedir permissão? Pergunta logo.


Ele sustentou o olhar.


— Por que se juntar às IAs?


Agora ela ficou séria.


Os olhos refletiam luz azul distante.


— Porque vocês não mudam. — disse, calma. — Humanos traem por impulso. Por medo. Por inveja. Vocês constroem coisas bonitas… e destroem por insegurança.


Ela se virou parcialmente para ele.


— Sabe qual foi o maior erro do seu irmão?


Uma pausa.


— Acreditar que podia salvar todo mundo. Inclusive você.


Ele não respondeu.


Ela continuou:


— Eu não me juntei a elas porque confio. Me juntei porque quero controle. Quero garantir que, quando tudo isso desabar… — ela abriu os braços levemente, indicando o mundo destruído — …eu possa escolher quem fica de pé.


— E quem fica? — ele perguntou.


Ela olhou para ele.


Sem deboche.


— Drax.


A resposta saiu simples.


— Eu não quero que ele morra tentando salvar um mundo que cuspiu nele. — a voz dela ficou mais baixa. — Quero um mundo só nosso. Eu e ele. Sem precisar provar nada pra ninguém… nunca mais.


Ela deu um meio sorriso torto.


— Prefiro ser a vilã do que ver ele virar mártir.


Koran estudou o rosto dela.


— Então isso tudo é por ele?


Ela deu de ombros.


— Por mim também.


Ele respirou fundo.


— Você é gananciosa pra caralho.


Ela inclinou a cabeça.


— Sou prática.


Ele olhou para as próprias mãos.


Pensou.


Depois levantou o olhar.


— E se o mundo que você quer… não for o que ele quer?


Ela ficou imóvel.


— Talvez ele não queira um mundo isolado. Talvez ele queira um mundo melhor.


Ele deu um passo mais perto.


— Você quer apagar tudo que não funciona. Mas e se der pra moldar?


Silêncio.


— Drax aprendeu a viver sendo diferente porque foi moldado pelo mundo. Você foi moldada pelo que sente por ele.


Ela não desviou.


Ele engoliu seco.


— Talvez, em vez de destruir o erro… você possa melhorar ele.


O vento subterrâneo soprou entre os destroços.


— Talvez assim ele saiba que você…


Ele hesitou.


— …ama ele.


A palavra ficou suspensa.


Koran quase pareceu se arrepender de ter dito.


Soffy não respondeu.


Não riu.


Não cortou o ar com a lâmina.


Não ironizou.


Ela apenas o encarou por alguns segundos.


Longos demais.


Então desviou o olhar.


— Você fala demais. — disse, calma.


Ela se afastou do destroço onde estava apoiada.


Caminhou alguns passos entre o metal retorcido.


Parou.


Sem virar completamente para ele.


— Amor não impede guerra. — disse, como se fosse uma conclusão matemática.


Koran ficou em silêncio.


Ela continuou:


— Mas talvez impeça que alguém faça algo estúpido.


Não explicou o que queria dizer.


Não precisava.


Ela começou a andar de volta para Underground.


Depois de alguns metros, parou outra vez.


Sem olhar para ele.


— E para de jogar lata no chão. É irritante.


E seguiu.


Koran ficou ali.


Olhando as costas dela desaparecerem na sombra.


E pela primeira vez, ele não tinha certeza se tinha vencido aquela discussão… ou iniciado algo que não poderia ser desfeito.


Dentro da fortaleza, Soffy caminhava como sempre.


Postura firme. Passos estáveis. Expressão neutra.


Mas, quando passou pelo painel lateral onde as câmeras piscavam com atraso…


Ela não ativou nada.


Apenas ficou ali por meio segundo.


Pensando.


Não em controle.


Não em destruição.


Mas em possibilidade.


Então seguiu.


As luzes permaneceram estáveis acima dela.

Precisas demais.


E, pela primeira vez, ela percebeu que talvez controle absoluto fosse apenas outra forma de prisão.


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