logo do projeto lunar

Capa
O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
62 |💫| O Depois do Caos
1574 palavras • 9564 caracteres • ⏱ 6 min 18 s

62 |💫| O Depois do Caos

0
0
0

⚡──────👾──────⚡


A Cidadela não voltou ao normal de imediato.


Ela despertava aos poucos, como alguém que abre os olhos depois de um pesadelo longo demais. As luzes permaneciam acesas, estáveis, porém mais suaves, menos agressivas. Sistemas ainda se recalibravam, criando um zumbido baixo, constante, quase como uma respiração coletiva.


As ruas carregavam marcas claras do ataque — estruturas parcialmente colapsadas, paredes chamuscadas, trilhas de energia carbonizada no chão. Drones de manutenção se moviam lentamente, avaliando danos, projetando feixes de reparo que piscavam e se apagavam.


Mas havia algo diferente.


Silêncio.


Não o silêncio tenso que antecede a morte.

Nem o silêncio sufocante do medo.


Era um silêncio cansado… porém vivo.


Civis e androides começaram a sair de seus esconderijos aos poucos. Portas se abriam com cautela. Escudos improvisados eram desligados. Alguns ainda tremiam, outros caminhavam devagar, como se não confiassem totalmente no próprio corpo — ou no chão sob os pés.


Crianças eram puxadas pelas mãos, abraçadas forte demais, como se soltar significasse perder de novo. Pessoas se sentavam onde podiam, encostadas em paredes, degraus ou destroços, fechando os olhos por alguns segundos só para lembrar como era respirar sem contar o tempo.


Ninguém comemorava.


Mas ninguém corria mais.


Perto da base da torre, Drax permanecia de pé, braços cruzados, olhando para o alto. A luz verde refletia em seus olhos de um jeito quase estranho, como se algo lá dentro ainda estivesse sendo avaliado. Ele não parecia tenso.


Apenas atento.


Lira e outros médicos caminhavam entre os civis, ajudando onde podiam. Socorriam os feridos, às vezes ofereciam água, às vezes apenas tocava o ombro de alguém — um gesto simples, silencioso, que dizia “acabou” sem precisar de palavras.


Trash e Leon estavam sentados sobre uma caixa metálica virada de lado.


— Odeio quando dá tudo certo — resmungou Trash. — Bora embora daqui logo. A superfície é nojenta.


Kim passou por ele, limpando o suor do rosto com a manga.


— Pois é. — disse, sem parar.


Do outro lado, Vittorio surgiu mancando levemente. Estava sujo, mas inteiro. Jogava sua moeda para o alto enquanto caminhava, como se testasse a própria sorte.


A torre permanecia imponente, pulsando com aquela luz constante, quase reconfortante. Não havia alarmes. Não havia ordens sendo gritadas. Apenas o som distante de sistemas se reorganizando… e de pessoas voltando a existir.


Foi então que Samuel surgiu.


Ele desceu os degraus da torre sem pressa, como se o tempo tivesse diminuído apenas para ele. Nenhuma marca visível de luta. Nenhum sinal de urgência em explicar o que quer que tivesse acontecido lá dentro.


Quando pisou fora da barreira, alguns o notaram.


Outros apenas sentiram.


Conversas foram cessando aos poucos. Não por medo. Por algo mais difícil de nomear — um respeito involuntário, quase instintivo.


Lucius foi o primeiro a se aproximar.


— Acabou? — perguntou, direto.


Samuel olhou ao redor. Para as pessoas sentadas no chão. Para os feridos sendo atendidos. Para a torre ainda viva atrás dele.


— Por agora.


Isso foi suficiente.


Lira respirou fundo. O ar saiu trêmulo. Ela deu alguns passos… mas passou por Samuel.


Parou diante de Lucius.


Por um instante, pareceu que diria algo. Não disse. Apenas o abraçou. Forte. Desajeitado. Como quem segura alguém para não cair.


Lucius demorou um segundo para reagir.


Depois, retribuiu.


Nada foi dito.


Samuel observou por um breve momento. Então seguiu adiante.


Sem precisar de palavras.

Sem precisar de gestos.


A presença dele já bastava.


Mas a paz durou pouco.


Primeiro vieram vozes isoladas.


— Isso não podia ter acontecido!

— Isso é culpa dela!

— Onde estava a IA quando precisávamos?!


A multidão se aproximou da base da torre. Algumas mãos batiam contra a barreira energética.


A indignação crescia, alimentada pelo medo que ainda não tinha ido embora.


Drax observava, atento.

Lucius permaneceu firme, mas não interveio.

Samuel apenas ficou ali.


Então a luz da torre mudou.


O verde pulsante suavizou… e se expandiu.


Partículas desceram como poeira luminosa, formando a silhueta conhecida.


P.A.


O barulho diminuiu aos poucos.


Ela não falou de imediato. Apenas olhou para eles.


Para os feridos.

Para as crianças agarradas às roupas dos pais.

Para os rostos cansados.


Quando falou, sua voz não era fria.


Era clara.


— Eu sei que vocês estão com raiva.


A multidão hesitou.


— Eu sei que dói. Que parece que tudo pode desabar a qualquer momento.


Ela fez uma breve pausa.


— O ataque não foi pequeno. Não foi simples. Foi feito para atravessar defesas que, até hoje, nunca tinham sido quebradas.


Alguém gritou:


— Então a culpa é sua!


P.A. não desviou o olhar.


— Parte dela, sim.


O silêncio caiu pesado.


— Mas não apenas minha.


Alguns franziram o cenho.


— Eu protejo esta cidade todos os dias. Mesmo quando vocês não veem. Mesmo quando não pensam nisso.


Sua voz não subiu. Não acusava.


Mas não se curvava.


— Muitas vezes, sou ignorada. Porque tudo parece estável ou porque “Ela é uma das IAs”.


O murmúrio enfraqueceu.


— Segurança não é um botão que eu aperto sozinha. É algo que construímos juntos.

— Mesmo quando sou colocada de lado, mal respeitada. Eu ainda continuo aqui.


Ela olhou ao redor.


— Eu não sou perfeita.

— E não vou dizer que está tudo resolvido, porque não está. 


A sinceridade pesou mais do que qualquer cálculo.


— Ainda há riscos. Ainda há coisas que eu não enxergo totalmente.

— E eu vou me adaptar.


A luz da torre pulsou de forma mais intensa por um instante.


— Mas não me tratem como descartável porque eu sou uma IA… e indispensável apenas quando algo dá errado.


Algumas pessoas abaixaram os olhos.


— Vocês estão vivos hoje.

— Isso não aconteceu por acaso. Foi um ataque combinado.


O silêncio agora não era agressivo.


Era incômodo.


— Eu continuo aqui.

— Continuarei protegendo.

— Mas preciso que vocês estejam comigo… não apenas atrás de mim, me apunhalando.


A projeção começou a se desfazer lentamente.


Antes de desaparecer, ela concluiu:


— A Cidadela não caiu.

— E não vai cair… se nós não deixarmos.


A luz voltou ao seu ritmo constante.


A multidão já não gritava.


Alguns ainda estavam irritados. Outros envergonhados. Muitos apenas cansados.


Mas ninguém avançava mais contra a torre.


E, pela primeira vez desde o ataque, a tensão não era só medo.


Era responsabilidade compartilhada.


— Estamos de pé. E isso depende de todos nós.


A multidão começou a se dispersar aos poucos.


Alguns não foram embora.


Ficaram.


Um homem começou a recolher pedaços de metal.

Outro se juntou.

Logo havia mãos suficientes.


Um grupo improvisou uma mesa usando uma porta arrancada de uma estrutura caída. Sobre ela, colocaram recipientes com água, alimentos embalados, o que ainda estava intacto. Não havia organização formal — apenas mãos estendendo, dividindo, oferecendo.


— Pega. Você precisa mais do que eu.


A pessoa hesitou antes de aceitar.

Como se ainda não soubesse se era permitido depender de alguém.


Um pequeno gerador portátil foi religado no centro da praça. As luzes principais ainda estavam instáveis, então alguém acendeu luminárias manuais, distribuindo pontos de claridade quente entre os escombros. A praça deixou de parecer campo de batalha.


Passou a parecer abrigo.


Um homem ergueu uma garrafa amassada.


— Pela Cidadela… — disse, sem entusiasmo exagerado.


Outros repetiram, baixo.

— Pela Cidadela.


Não era um brinde de vitória.


Era um acordo silencioso de permanência.


Perto dali, um músico sentou-se sobre uma caixa metálica e começou a tocar. A melodia não era alegre. Também não era triste.


Era firme.


Notas longas, sustentadas, como quem diz: ainda estamos aqui.


Alguns fecharam os olhos apenas para ouvir.


Outros continuaram trabalhando ao som daquela resistência suave.


Não havia festa.


Havia reconstrução.


Havia cansaço compartilhado.


Havia sobrevivência.


Samuel não se moveu.


Ele permaneceu olhando para a torre… e além dela.


Algo estava errado.


Não na estrutura.

Não na energia.


No ar.


Era quase imperceptível. Algo grande havia se resolvido, mas algo estava errado.


Um vazio.


Como se um som tivesse sido removido do mundo e ninguém tivesse notado.


Ele fechou os olhos por um segundo.


Sentiu.


Ali.


Fraco.


Distante.


Um espaço onde deveria haver algo… e não havia mais.


Um painel público projetava a notícia do ataque, noticiava sobre os nomes dos desaparecidos.


As letras tremularam por um segundo.


Um dos nomes falhou.


As letras tremularam…


e a linha se ajustou.


Como se tivesse sido erro de digitação.


O sistema recalculou.


Reescreveu a linha.


Era como se aquele nome nunca tivesse estado ali.


Samuel ergueu o olhar.


Não era destruição.

Era subtração.


Do outro lado da praça, um androide parou por um instante. Seus olhos piscaram duas vezes… depois três.


Retomou o movimento.


Como se nada tivesse acontecido.


A luz da torre oscilou.


Não visivelmente.


Mas o suficiente para alguém atento perceber.


A sensação estava crescendo.


Não como uma sombra que avança.


Mas como algo que apaga.


Ele respirou fundo.


O ataque não tinha sido apenas físico.


Foi combinado.


E talvez… o que atravessou as barreiras não fosse energia.


Fosse ausência.


A Cidadela estava de pé.


As pessoas estavam vivas.


Mas algo havia sido tocado.


E o Esquecimento não precisava destruir.


Ele só precisava começar.


Samuel virou-se lentamente.


Seus olhos estavam calmos.


Mas agora havia certeza ali.


Isso não tinha acabado.


Nem começado da forma que todos pensavam.


De repente alguém toca no ombro de Samuel.


— Samuel? — Perguntou Lucius — Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?


Samuel negou com a cabeça.

O painel atualizou novamente.


⚡──────🌟──────⚡



Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.