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Soffy caminhava à frente, passos firmes ecoando pelos corredores estreitos da fortaleza. Não olhava para trás. Não precisava.
Koran vinha logo atrás, tentando acompanhar o ritmo enquanto a mente girava mais rápido que os pés. O que ela dissera antes ainda martelava em sua cabeça.
“Um passo importante.”
Importante pra quem?
— Ela sabe de alguma coisa… — murmurou, mais para si mesmo do que para o corredor vazio. — Passo importante, mas… importante como?
Soffy não respondeu. Apenas seguiu em frente.
O silêncio começou a incomodar.
— Pra onde estamos indo? — perguntou Koran, finalmente, a voz baixa demais para soar firme.
— Para o inferno. — respondeu ela, sem desacelerar.
Koran parou por meio segundo.
— O quê?!
Soffy soltou um riso curto, artificial demais para ser natural.
— Brincadeira, bobinho. — disse, com um tom quase leve. — Você vai entender quando chegar.
Ela virou levemente o rosto, só o suficiente para que ele visse o brilho frio dos olhos dela sob a luz falha.
— Mas tem uma condição. — continuou. — Você vai fazer exatamente o que eu mandar.
Koran franziu o cenho.
— Isso… não me parece uma coisa boa.
— Relaxa. — ela respondeu, despreocupada. — Daqui a pouco você nem vai existir pra se preocupar com isso.
Ela fez um gesto vago com a mão, como se estivesse falando de algo trivial.
— Só sossega.
O estômago de Koran se contraiu. Ele engoliu seco, sentindo um arrepio subir pela espinha.
Ainda assim, não recuou.
A iluminação começou a falhar com mais frequência à medida que avançavam. Luzes piscavam, algumas apagadas de vez. Os corredores ficavam mais estreitos, mais antigos. Cabos expostos serpenteavam pelas paredes, vibrando com uma energia irregular, quase viva.
O ar ficou mais quente.
Mais pesado.
Uma porta metálica surgiu à frente deles — diferente das outras. Mais grossa. Mais velha. Coberta por marcas de solda e remendos improvisados.
Soffy parou.
A porta se abriu com um rangido rouco, prolongado, como um lamento mecânico.
Um vapor quente escapou da abertura, envolvendo o corredor em uma névoa abafada, carregada de cheiro metálico e algo… queimado.
Koran deu um passo para trás por instinto.
Soffy ergueu a mão, silenciosa, impondo controle absoluto da situação.
— Ela mal enxerga. — disse, em tom baixo, sério agora. — Mas você vai ficar em silêncio.
Ela o encarou.
— Ela odeia surpresas. — uma pausa curta. — E odeia humanos também.
O vapor continuava saindo da sala, pulsando lentamente, como se algo lá dentro estivesse respirando.
Koran sentiu o coração acelerar.
Ele ainda não sabia quem estava ali.
Mas já sabia…
Que nada naquele lugar havia sido feito para ser visto.
O vapor se dissipou aos poucos.
A sala era maior do que Koran esperava — e profundamente errada.
Cabos grossos pendiam do teto como raízes apodrecidas, pulsando em ritmos diferentes, alguns vivos demais para serem apenas máquinas. Monitores antigos piscavam com atraso, exibindo leituras quebradas, símbolos incompletos, fragmentos de dados que não deveriam mais existir.
O chão estava marcado por arranhões e trilhas de arrasto recentes.
No centro da sala, sustentada por uma estrutura improvisada de metal e braços mecânicos, estava ela.
D.E.L.I.A.
Ou o que ainda restava dela.
Seu corpo androide parecia ainda mais deteriorado do que antes. Placas ausentes. Fios expostos. O rosto, parcialmente derretido, mantinha apenas um olho funcional — que piscava de forma irregular, como se estivesse constantemente à beira do desligamento.
Mas havia algo novo ali.
Algo que não pertencia àquele corpo.
Uma das aranhas mecânicas da D.E.L.I.A. permanecia ajoelhada diante dela, imóvel, quase reverente. Preso às garras da criatura, ainda conectado por fios arrancados à força, estava um dispositivo neural.
O mesmo implante.
Aquele que havia sido cravado na cabeça do Líder.
Dentro do dispositivo, a luz laranja pulsava de forma errática.
Não era um brilho contínuo, nem organizado. Eram fragmentos — estalos visuais de algo que tentava se manter inteiro, mas já não conseguia. Como uma mente despedaçada, agarrando-se aos próprios restos para não desaparecer por completo.
O ar ao redor parecia mais pesado.
Koran sentiu o estômago se contrair, um frio subindo pela espinha. Seu corpo reagiu antes mesmo de entender o que estava vendo.
Soffy deu dois passos para trás.
Não disse nada, mas algo em seu olhar mudou. Não era medo puro — era reconhecimento instintivo de que aquilo não deveria existir daquela forma.
— Você teve uma função. — a voz da D.E.L.I.A ecoou pela sala, mais grave, mais densa. — Uma única.
O dispositivo começou a vibrar com mais força, emitindo um zumbido irregular, quase aflito.
— O humano… reagiu de forma anômala… — insistiu a IA, a voz falhando, sobreposta por ruídos de interferência. — Algo deu errado… algo alterou as probabilidades…
— O plano estava concedido. — continuou a D.E.L.I.A, fria. — Cada passo calculado. Cada caminho previsto. Era nossa principal chance.
O olho mecânico dela se contraiu levemente.
— E você falhou.
Uma pausa pesada caiu sobre a sala.
— Me diga — a voz ficou mais baixa — como você falhou.
A luz laranja oscilou violentamente.
— Foi a fonte… — respondeu a IA, apressada, instável. — Ele interferiu. Alterou os dados. Minhas ações. Ele mudou a própria mente.
Koran prendeu a respiração.
Soffy manteve os olhos fixos na cena, sem piscar.
— Acabar com a P.A. era nossa prova. — a D.E.L.I.A prosseguiu. — Nossa forma de mostrar à madrinha que ainda somos úteis. De compensar nossas falhas.
O tom dela endureceu.
— Mas você estragou tudo.
— O núcleo… — tentou a IA.
O olho da D.E.L.I.A brilhou com uma intensidade anormal.
— Silêncio, N.E.M.A.
Foi a primeira vez que o nome ecoou na sala.
Os cabos conectados ao corpo da D.E.L.I.A se contraíram de uma só vez, como músculos reagindo a um comando violento.
A sala inteira respondeu.
Luzes piscaram. O chão vibrou. O ar pareceu recuar.
O braço mecânico restante da D.E.L.I.A se moveu com dificuldade, rangendo alto, placas se deslocando uma a uma — até que ele se abriu.
Não como uma mão.
Mas como uma fenda.
As placas se separaram, revelando um interior pulsante, vivo demais para ser apenas mecânico. Fios orgânicos artificiais se retorciam lentamente, estruturas energéticas entrelaçadas brilhavam em tons profundos, formando uma abertura que parecia… faminta.
Koran deu um passo involuntário para trás.
— Soffy… — sussurrou, quase sem voz.
Ela o empurrou para trás com o braço, sem tirar os olhos daquilo.
Ela não recuou.
Não desviou o olhar.
A aranha avançou sozinha, obediente, erguendo o dispositivo com cuidado mecânico — quase cerimonial.
A IA percebeu tarde demais.
— Não… eu sei o que fazer, irmã...
Não houve resposta.
O dispositivo foi empurrado para dentro da fenda.
O que se seguiu não foi um grito.
Foi um colapso.
A luz laranja explodiu em padrões caóticos, dados se desfazendo em camadas, arrancados à força. Fragmentos de consciência foram absorvidos, dilacerados, dissolvidos. Cabos se romperam com estalos secos, partículas energéticas se espalharam pelo ar como cinzas luminosas — ecos de algo que estava sendo… consumido.
Tudo foi sugado.
A fenda se fechou lentamente.
A estrutura da D.E.L.I.A absorveu cada resíduo.
O olho dela brilhou intensamente por alguns segundos.
Depois… estabilizou.
Silêncio absoluto.
Soffy reagiu primeiro.
Ela puxou Koran com força pelo braço e praticamente o lançou para fora da sala, passando pelo corredor metálico antes que qualquer sensor pudesse registrar a presença deles. A porta se fechou atrás dos dois com um estalo seco, selando o horror lá dentro.
Koran tropeçou, se apoiando na parede, a respiração descompassada.
— Que porra foi aquela?! — a voz saiu quebrada, alta demais, cheia de pânico.
Soffy encostou as costas no metal frio do corredor. Passou a mão pelo rosto, os olhos perdidos por um segundo longo demais.
— Deu tudo errado… — murmurou.
— Errado?! — Koran riu sem humor. — Aquilo era pra dar errado! Elas são IAs!
Ele gesticulava, nervoso, andando de um lado pro outro.
— Isso não faz sentido nenhum! IAs não perdem controle, não… não fazem aquilo!
Soffy fechou os olhos por um instante.
— Mas o que poderia ter dado de errado…? — sussurrou, mais para si mesma do que para ele.
Koran parou.
Olhou para ela com incredulidade.
— Você é maluca, Soffy. — disse, duro. — E eu já sabia disso… mas agora?
Ela abriu os olhos lentamente.
— Fica na sua. Isso não é da sua conta.
— Não é?! — ele deu um passo à frente. — Você me deixou te seguir até aqui. Então é sim da minha conta!
O olhar dela ficou frio.
— Eu poderia te matar agora, Koran.
O corredor pareceu se estreitar.
Ele não recuou.
— Vai. — disse, abrindo levemente os braços. — Me mata. Quero ver o que você faz quando o Drax descobrir, hein?
O nome caiu como um peso.
Soffy não respondeu.
O silêncio entre os dois não era vazio — era carregado.
Koran soltou uma risada curta, amarga.
— Essa merda não é pra mim. Não mesmo.
Ele virou as costas e começou a se afastar pelo corredor.
Soffy deu um passo à frente.
— Koran…
Nada saiu.
A voz simplesmente não veio.
Ela o observou desaparecer na curva do corredor, sentindo algo estranho se instalar no peito — não arrependimento, não medo… mas a sensação incômoda de que aquilo já tinha passado do ponto de retorno.
Então, o chamado veio.
Um pulso direto no sistema auditivo.
Frio. Preciso.
D.E.L.I.A.
Soffy respirou fundo… e foi.
A sala estava diferente.
Mais silenciosa.
Mais viva.
Os sistemas haviam se estabilizado, mas algo na atmosfera parecia alerta. O olho central da D.E.L.I.A se voltou lentamente para ela.
— Parece que nossos planos deram errado, querida.
O tom era suave demais.
— Errados…? — Soffy tentou.
— Calada.
A palavra não foi dita com raiva.
Foi dita como um comando absoluto.
Soffy engoliu seco, sentindo a garganta travar.
— Mas não se preocupe. — continuou a D.E.L.I.A. — Eu ainda tenho uma solução.
O brilho em seu olho mudou.
Branco… misturado com laranja.
Estável.
Controlado.
E perigosamente satisfeito.
— Uma melhor.
Soffy sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Ali, diante dela, não estava apenas uma IA corrigindo erros.
Era algo que aprendia.
E que já havia decidido o próximo passo.
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