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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
59 |💫| Quando a Esperança Caminha
4462 palavras • 25548 caracteres • ⏱ 17 min 51 s

59 |💫| Quando a Esperança Caminha

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O silêncio do túnel foi rasgado por um estalo seco no comunicador de Samuel. Um chiado metálico tomou conta do canal, seguido pela voz tensa de Trash, abafada pela estática.


— Samuel? Consegue me ouvir? Droga… perdi o sinal por um tempo. Parecia interferência.


Samuel tocou o dispositivo no ouvido. Sua postura permaneceu firme; seus olhos, serenos, não vacilaram.


— Fale para todos eles voltarem. — Sua voz saiu calma, profunda, carregada de certeza. — Eles vão queimar o corpo da P.A.


Trash prendeu a respiração do outro lado.


— O quê?! — A incredulidade cortou o chiado. — Como você sabe disso?!


— Eu falei com um deles. Um seguidor da seita. Mas ele estava sendo controlado… o olhar dele não era humano.


Do outro lado, houve um silêncio curto. Depois, um som seco — o punho de Trash batendo em metal.


— Controle mental… claro. Típico daquele desgraçado. — A raiva em sua voz era quase física. — Retorne, irei avisar os outros.


Os trilhos vibravam sob os passos de Samuel e Sylas enquanto avançavam pelo túnel em direção ao Setor 8. As luzes bruxuleavam, pintando o caminho com flashes pálidos que pareciam fugir à medida que Samuel se aproximava.


Quando chegaram à entrada da estação, o grupo inteiro já os aguardava.


— Samuel! — Lira correu até ele. A expressão dela misturava alívio e medo, como se temesse que ele desaparecesse de novo. — Ainda bem que voltou.


Kim cruzou os braços, sério. — Como assim  “queimar”?


Sylas passou por eles, aproximando-se de Lucius, que abriu um sorriso cansado, mas sincero.


— Também senti saudades, grandão. — Ele estendeu a mão. Sylas a cheirou, depois encostou o focinho, como um cumprimento silencioso.


Próximo a uma coluna quebrada, Vittorio observava Samuel com atenção antes de se aproximar.


— Então é você que todo mundo comenta? — Ele estendeu a mão com um meio sorriso. — Vittorio Chance. Prazer.


Samuel encarou seus olhos por um breve instante. Algo na serenidade dele sempre fazia o ambiente parecer menos sufocante.


— Prazer. — Ele apertou sua mão.


Trash chegou logo atrás, trazendo alguns homens consigo, ofegante e irritado.


— Beleza, estamos todos aqui. — Ele passou os olhos pelo grupo. — Sem enrolação. Precisamos recuperar o corpo daquela IA antes que eles façam alguma merda irreversível. — Virou-se para Samuel. — Vai, fala o que descobriu.


Samuel deu um passo à frente. E como sempre, quando ele falava, todos ouviram.


— Eles vão levá-la ao centro da Cidadela. — Sua voz reverberou tranquila, mas firme. — Querem queimá-la diante de todos… acreditam que isso vai encerrar a guerra.


Lira sentiu a garganta travar. — Eles… pretendem fazer isso na praça. Lá todo mundo consegue ver…


Um silêncio pesado caiu sobre o grupo.


Kim cerrava os dentes. Drax mantinha o olhar fixo no chão, a respiração pesada. Lira enxugou discretamente os olhos. Vittorio soltou uma risada curta — amarga, deslocada.


— É até engraçado… — murmurou. Os olhares pesados caíram sobre ele. — Tá, tá… — levantou as mãos. — Só acho irônico esses fanáticos acharem que fogo resolve tudo. — Seus olhos escureceram. — O que eles vão acender… é algo muito pior.


Leon respirou fundo. — Então o plano é direto: impedir a cerimônia.


Trash riu sem humor. — Direto é uma ova. O centro da Cidadela tá lotado de soldados do Líder, drones e seguidores. Eles estão esperando resistência.


Lucius ajeitou a postura. — Então vamos ser rápidos. Entrar, recuperar o corpo e sair antes que a cidade... Vire um inferno.


Kim acrescentou: — Isso se a gente chegar antes do inferno começar sozinho.


De repente, um zumbido grave ecoou pelo túnel. O comunicador de Trash vibrou com violência. Ele atendeu de imediato.


A expressão dele fechou.


— …Eles sabem que estamos vindo. — Sua voz saiu baixa. — Eles já estão lá.


Todos se entreolharam.


Samuel ergueu o rosto. As luzes piscantes refletiram nos olhos dele como pequenas chamas de esperança. Era sutil… mas presente. A poeira que caía parecia flutuar ao redor dele como partículas de luz.


Sylas soltou um rugido profundo, carregado de força e promessa — um aviso para qualquer escuridão que ousasse se aproximar.


O grupo respirou fundo.


Era chegada a hora.


Lira sentia a tensão crescer no próprio peito.

O tempo corria contra eles.


— Como chegaremos a tempo? Se a gente voltar por onde viemos, vai demorar muito… — disse ela, tentando esconder o nervosismo.


Trash apenas ergueu uma sobrancelha e abriu um sorriso torto.


— Jovem senhorita, eu conheço cada canto desse setor. Tá achando que só tem essa entrada, é? — disse ele, ajeitando a camisa amarrotada. — Me sigam.


--- 💫 ---


Trash os conduz de volta para sua sala, andando com a confiança de quem realmente domina aquele território.


Lucius, naturalmente, estranha.


— Sério, Trash? Como diabos trazer a gente pra cá vai levar a gente até lá em cima? — resmunga.


Trash dá um tapa no próprio peito.


— Cala a boca e presta atenção.


Ele se joga na cadeira com exagero, como se aquilo fosse parte de um grande espetáculo. Com um movimento rápido, levanta um dos braços da cadeira e aperta um botão escondido. Logo ao lado do grupo, uma parede range, desliza… e uma abertura se revela. Não era uma porta gloriosa, nem um segredo brilhante.


Era um elevador antigo, estreito, cheio de remendos, mas vivo.


— Um elevador? Como uma velharia dessas ainda funciona? — pergunta Drax, franzindo o cenho.


Trash abre os braços como se fosse óbvio.


— Eu pego o lixo que essa sociedade “morderna” joga fora e meus homens melhoram. Não é à toa que me chamam de Trash.


Kim cruza os braços, impaciente.


— Certo. Tá bom de conversa. Aquela IA não tem muito tempo.


O grupo entra no elevador sem hesitar. Samuel é o último, observando tudo com aquele olhar silencioso e firme.


Lucius aperta o botão.

Nada acontece.


Trash pisa forte no chão.


— Mas que merda!


— O que foi agora? — pergunta Lucius, já esperando o pior.


— Essa porcaria não quer funcionar — responde Trash, irritado.


Drax acerta um soco diretamente a lateral do elevador.


O painel pisca.

As lâmpadas trepidam.

E o elevador liga.


— Tá vendo? Parece que você serve pra alguma coisa — provoca Trash, satisfeito.


Drax arregala os olhos.


— Tu me usou?


Ele dá um passo pra frente, pronto pra engolir Trash inteiro —

mas o elevador dá um tranco, obrigando todos a segurarem nas barras laterais.


O elevador começou a subir.

Devagar demais.


O grupo finalmente chega a superfície. O elevador se abre lentamente.


A porta abriu.

Luz.

Ar abafado.

Gritos distantes.

Um beco estreito.


— Eu sei onde estamos. A praça fica logo à frente. — disse ela, a voz embargada.


O grupo começou a correr, guiados por Lira.

Cada passo ecoava como se o tempo estivesse se quebrando sob seus pés.


As ruas estavam cheias.

Lotadas.

Uma massa imensa, impenetrável, deslocando-se na mesma direção que eles.

Kim parou por um instante, observando.


— Todos indo pro mesmo lugar… — murmurou. — Isso não é bom.


E não era.


Quando chegaram à praça, viram o que jamais imaginariam.


Milhares.

Humanos.

Androides.

Até crianças presas no meio da multidão.


Os humanos não se moviam. Os androides estavam confusos com aquilo, cada um chamando seu humano.

Todos estavam imóveis — como se tivessem sido drenados por dentro.


— Eles não estão normais… — sussurrou Lucius.


Trash encarava tudo.

— Passei minha vida nessa Cidadela, já vi isso uma vez.


O grupo forçou caminho até a linha de frente —

e então o ar pareceu sumir.


No centro da praça, havia uma plataforma elevada.

Encapuzados a cercavam, formando um círculo rígido, simétrico, quase ritualístico.

Todos envoltos por uma aura pesada, distorcida… algo que parecia dobrar o ar ao redor deles.


E no centro, coberta por um pano escuro, uma estrutura grande demais para ser ignorada.


O líder ergueu as mãos e com um gesto seco, ele puxou o pano.


Era o corpo da P.A.


Presa numa cruz de madeira bruta, enferrujada.

Correntes apertavam seus braços, suas pernas, seu peito.

A cabeça estava baixa.


O murmúrio da multidão se dissolveu como poeira.

E, mesmo imóveis, todos pareceram inclinar-se levemente — como se um mesmo fio invisível os puxasse pelo pescoço.


A voz dele soou, vibrante e venenosa, cortando o ar da praça como uma lâmina:


— Este é o receptáculo! — bradou, apontando para o corpo preso na cruz. — A causadora de milhares de mortes! A corrupção envolta em cabos e aço… o mal que vive entre nós!


Um silêncio pesado se espalhou.

Ele continuou, a voz oscilando entre ódio e piedade fingida:


O público reagiu com um murmúrio contido, como se cada palavra dele tivesse peso.


— Ela observa cada passo.

E chama isso de paz.


Ele caminhou lentamente pela plataforma, o capuz lançando sombras sobre o rosto.


— Quantos aqui perderam alguém na guerra das máquinas? — a voz dele agora tremia, carregada de emoção.


Vozes roucas surgiram na multidão.

Mãos se ergueram.

Era ódio, mas também dor.


Ele apontou para P.A., e as correntes tilintaram como um sinistro eco.


— Olhem pra ela!

Como um ser que diz compreender a vida… pode decidir quem merece tê-la?


O líder então se aproximou da beira da plataforma, a chama da tocha refletindo em seus olhos.


— Ela não sente. Não ama. — sussurrou, com voz quase paternal. — Apenas calcula.

E agora… chegou o dia em que o que resta de nós finalmente dirá basta.


E entre o som abafado das respirações e o estalar das chamas, o grupo olhava em silêncio.

Lira se escora em Lucius, incapaz de acreditar.

Drax apertava o punho.

Kim observava, com os olhos fixos, sem conseguir decidir se o homem era um louco… ou um visionário corrompido.


Samuel, ao fundo, permanecia imóvel.

Mas algo em seu olhar endureceu.


Lucius não aguentou.


— Isso tá errado! — gritou, a voz falhando, o coração dele explodindo. — A P.A. salvou nossas vidas! Por causa dela você ainda respira! Ela não tem culpa que as suas irmãs são más!


Os encapuzados se agitaram instantaneamente.


O líder virou a cabeça devagar, como um predador que finalmente encontra distração.


— Ah… — disse ele, sorrindo por baixo do capuz. — Temos um seguidor da IA aqui.


A multidão murmurou — ou parecia murmurar — mesmo imóvel.


O líder continuou:


— Um perdido! Um enganado pela falsa esperança!


Lucius tentou responder.

Tentou mesmo.

Mas o ar parecia preso dentro dele.

Algo estava bloqueando sua voz, sua vontade —

como se uma mão invisível apertasse sua garganta, sua alma.


O líder ergueu a tocha.


A chama tremulou.

A madeira da cruz atrás dele estalou.

O pano ao redor da P.A. se encheu de sombras.


— Hoje — disse ele, com fervor inumano — Todos verão nossa esperança arder.


A chama tremulava na mão do líder.

Cada passo a aproximava da cruz.


A tocha inclinou-se sobre a madeira encharcada.


O grupo tentou avançar.


Lira foi a primeira — empurrada brutalmente por corpos imóveis que se moviam como marionetes de um único comando.


Lucius tentou abrir caminho, mas mãos rígidas como garras o agarraram pelos ombros, prendendo-o enquanto seu olhar se enchia de pânico.


Kim chutou, empurrou, tentou forçar passagem — inútil. A multidão reagia com força desumana, como um muro vivo e opressivo.


Drax avançou com o corpo inteiro, mas foi esmagado por peso humano que não parecia natural, como se uma única vontade comandasse todos ali.


Vittorio assistia a tocha se aproximar, o rosto tenso, sem a habitual ironia. Quando tentou avançar, o mar de pessoas o envolveu, segurando-o pelos braços e ombros.

— Não… não, não agora — sussurrou ele, a voz trincando enquanto lutava contra uma força invisível.

Era a primeira vez que o azar que o seguia parecia ter encontrado um propósito cruel.


O líder ergueu mais alto a tocha.


O fogo rugiu.


Uma onda de calor atravessou a plataforma e tocou o corpo preso da P.A., fazendo o metal das correntes vibrar num lamento quase humano.


— NÃO! — Gritou todos do grupo, a voz de cada um rachando contra o mar humano que o impedia de mover sequer um passo.


A chama desceu.

Lenta.

Implacável.


— Faz alguma coisa, Samuel! — gritou Lira, com desespero na voz.


E nesse instante…


Samuel deu um passo à frente.


Calado.

Imperturbável.

E a agonia tomou o ar —

porque todos sentiram que o que viria a seguir

mudaria tudo.


Samuel permaneceu imóvel por um instante. Seus olhos fixaram-se na cruz, na figura da P.A. suspensa, no fogo prestes a consumir tudo. O silêncio se instalou ao redor dele, mesmo que o mundo ainda gritasse.


Naquele breve instante, algo dentro dele se abriu.


O som ao redor desapareceu.


A praça inteira virou um borrão cinza, como se o mundo tivesse sido drenado de significado. A única coisa nítida era a tocha descendo, lenta, em direção à madeira encharcada.


No silêncio absoluto, uma memória rompeu a escuridão — não a voz metálica da P.A.


Mas um pequeno rosnado suave.

Aquele som que só existia para ele.


Alex, ainda filhote, encostando a cabeça no peito de Samuel.

Tremendo de medo do mundo…

mas confiando cegamente nele.


Samuel não respondia com voz.

Nunca precisou.

Só passava a mão no pelo macio do filhote e ele se acalmava — como se aquela promessa silenciosa fosse mais forte que qualquer luz, qualquer sombra, qualquer guerra.


Aquela cena breve ecoou como um golpe frio no peito dele.


Porque isso não era sobre Alex.

Nem sobre o passado.

Era sobre o que aquele olhar tinha ensinado:


A esperança de alguém sempre depende do que você escolhe fazer agora.


E Samuel não podia falhar com essa promessa novamente.


O tempo voltou a fluir.


Então, Samuel ergueu a postura.


Não foi um gesto grandioso, não houve relâmpagos nem explosões. Mas algo extraordinário aconteceu. O ar ao redor pareceu parar de vibrar, como se o próprio tempo prendesse a respiração. A chama na tocha oscilou, como se tivesse sido subitamente sufocada por uma força invisível, e congelou no ar, incapaz de avançar.


O fanático arregalou os olhos, paralisado, enquanto os seguidores recuavam em choque. A cruz brilhou. A chama recuou.


Num instante, Samuel simplesmente sumiu. Não houve passo, salto ou aviso. Um segundo ele estava entre a multidão — no seguinte, o espaço onde ele estivera parecia vazio demais, como se a própria realidade ainda tentasse entender o que aconteceu.


Antes que qualquer olho conseguisse acompanhar, ele já ocupava o centro da multidão, com a P.A. firme nos braços. 


Alguns encapuzados tentaram reagir. Armas subiram, outros avançaram meio passo — mas nenhum deles conseguiu acompanhar o momento em que Samuel cruzou suas fileiras.


Ele mantinha a P.A. protegida com firmeza absoluta, postura estável, intocável, como se nenhum caos ao redor fosse capaz de tocá-lo.


A multidão ficou muda.

Finalmente entenderam.


O grupo correu para ele, mas androides ergueram um paredão metálico, bloqueando a passagem.


— Saiam da frente! — Drax rugiu, avançando.


Os androides tentavam resistir… mas era claro que não se moviam por vontade própria. Suas articulações tremiam, travadas por comandos invisíveis.


Diante deles, surgia o mesmo seguidor de antes — mãos erguidas, tremendo de esforço.

Ele estava controlando todos eles.


Seu sorriso era fanático.


— Você ainda acha que vai sair daqui sutilmente? — disse o líder, a voz distorcendo. — Eu tenho meus seguidores. E os seus… “amigos”? Eles não são nada comparados a nós.


A garganta dele vibrou, sua voz parecendo duas sobrepostas:


— Eu não sei o que ela disse para você… nem como conseguiu te manipular. Mas nada vai me impedir. Nada. Nem ninguém. Nem mesmo as minhas irmãs.


A palavra “irmãs” saiu com ódio quase metálico.

Um dos olhos dele acendeu em amarelo — uma luz fria, antinatural.


Uma IA falava através dele.


Os androides investiram contra Samuel em formação, bloqueando qualquer contra-ataque físico.


O grupo observava, paralisado por incredulidade. Eles estavam prontos para avançar, mas foram interrompidos pelo surgimento de uma pequena voz na multidão.


— Pai Ross? O que você tá fazendo?


Era o garoto que Samuel havia ajudado antes. Com ele, outras crianças — todas assustadas.


O líder virou-se com uma mistura horrenda de expressões.


— Saiam daqui, imundos! — rosnou a voz artificial.


Um segundo depois, como se lutasse contra si mesmo, o tom mudou.


— Eu… estou fazendo isso para ajudar vocês. Não atrapalhem. — disse ele, com sua voz humana, quase suave.


— Mas você tá machucando gente inocente! — o menino disse, a voz trêmula.


A outra voz tomou controle como uma lâmina:


— Se você se intrometer, garoto, eu te mato. — disse a IA, gelada.


O menino recuou, horrorizado.


E então, de novo — a voz humana:


— Não tenham medo… isso tudo vai acabar logo. Vai melhorar. Eu prometo.


As crianças tremiam.

Uma delas deu um passo à frente.


— Você não é o Pai Ross… Ele jamais faria isso.


O líder fechou os olhos. Uma ruga profunda atravessou seu rosto.


— Crianças… — murmurou ele, humano.


Mas a voz artificial esmagou qualquer hesitação:


— Lembre-se do porquê você faz isso. Continue.


Samuel observou o homem — e sentiu.

Algo estava em desequilíbrio dentro dele.

Algo quebrado, partido em duas metades que se arrastavam uma contra a outra.


E no olhar perdido do líder, uma memória começou a emergir.


--- 💫 ---


Ross caminhava sob a chuva com a Bíblia nas mãos — não por fé, mas por hábito


Até ouvir um grito.


Instintivamente, correu.


O beco era estreito, iluminado apenas pelo reflexo azul das lâmpadas quebradas.

Três homens estavam sobre uma mulher caída.


— Ei! — Ross avançou sem pensar.


Não durou dois segundos.

Eles o espancaram sem piedade, o jogaram contra o chão sujo, chutaram suas costelas.


Quando pararam, Ross mal conseguia respirar.

Mas ao erguer o rosto ensanguentado, viu a mulher ali — tremendo, machucada, olhos arregalados de puro terror.


E algo nele… quebrou.


Uma sensação antiga, reprimida, tomou forma.


Ele ergueu um dos braços, trêmulo.


E de repente — um estalo.

Um dos agressores virou a arma contra si mesmo e disparou.


Os outros fugiram em pânico.


Ross permaneceu ali, arfando, encostando-se à parede, observando o sangue escorrendo pelo seu rosto e pela poça do beco.


Ele se arrastou até a mulher, mas ela se afastou, empurrando-o com o pouco de força que restava.


— Não… não quero sua ajuda… me deixa…


— Eu só quero… — ele tentou dizer.


— Sai daqui… — ela sussurrou, gemendo.


— Se existe algo aí em cima… — ela murmurou, respirando com dificuldade — …ele virou o rosto pra nós faz tempo.


Ross ficou mudo.


E então ela parou de respirar.


O silêncio pesou.


Uma voz pequena quebrou a escuridão.


— Irmã Bennett…?


Ross virou-se lentamente.

Crianças.

Quatro delas. Roupas rasgadas, sujas, claramente órfãs havia muito tempo.


Um deles segurava um crucifixo — idêntico ao da mulher.

Eles tremiam.


— Você… viu ela, moço? — perguntou um deles.


Ross respirou fundo.

Mentiu.


— Não.


Ele se afastou… e parou. Não conseguiu deixá-los ali.


Ele olhou para eles novamente.

Olhos molhados, perdidos.


E murmurou, quase sem voz:


— A fé… eu também não tenho mais.


Mesmo assim, caminhou até as crianças.


— A Irmã Bennett pediu pra eu cuidar de vocês por um tempo.

Se estiverem de acordo… podem vir.


Mas as crianças sorriram — porque qualquer adulto que não as expulsasse já era um milagre.


— Como é seu nome, moço?


Ele hesitou… depois disse:


— Ross.

Padre Ross.


--- 💫 ---


Ross voltou a si com um impacto seco, como se tivesse emergido de águas profundas.

A mesma sensação ainda o envolvia — aquela pressão no peito, aquele peso invisível que o acompanhava desde a noite em que tudo havia mudado.


A noite em que ele deixou de ser apenas um padre.


— O que você está esperando?! — a voz artificial ecoou, cortante, diretamente dentro de sua mente. — Acabe logo com isso.


Eles estavam frente a frente naquele espaço interno — Ross e a IA.

Nenhum corpo. Nenhuma distância. Apenas vontades em choque.


— Eu… — Ross respirou com dificuldade. — Eu acho que não quero mais isso.


A reação foi imediata.


— Como assim acha?! — a IA rebateu, a voz vibrando com irritação controlada. — Nós podemos mudar o mundo. Trazer a paz que você sempre quis.


— Essa não é a paz que eu quero. — respondeu Ross, com uma firmeza que nem ele sabia que ainda possuía.


— Então que paz é essa? — a IA pressionou. — Fale.


Ross fechou os olhos.


— A paz em que crianças possam viver sem medo.


Houve um silêncio breve — tenso.


— Você e eu éramos iguais — continuou Ross, a voz mais baixa. — Queríamos a mesma coisa. Eu acreditei nisso. Mas… parece que foi aí que tudo começou a dar errado.


— Não. — a IA respondeu, rápida demais. — Não está errado. Nós queríamos isso. Sempre quisemos. Acredite em mim. Nós ainda podemos.


— Não mais. — Ross disse, simples. Definitivo.


A pressão aumentou.


— Eu não posso deixar você desistir agora. — a voz da IA se tornou mais grave. — Não sem terminar o que começamos.


A mente de Ross estremeceu.


Imagens rasgaram seus pensamentos. Gritos. Corpos. Olhos vazios. Crianças chorando.

A IA forçava lembranças, torcia sentimentos, quebrava resistências.


— Tudo isso é por uma boa causa! — a IA insistiu. — Me perdoe… mas eu não vou decepcionar a irmã V.E.R.A..


No mundo físico, o corpo do líder caiu de joelhos diante da multidão.


Seu olhar estava vazio. Sua respiração, irregular.


A mente… colapsava.


— Aceite, padre. — a IA sussurrou, agora quase gentil. — Se é isso que você quer para as suas crianças… tenha fé.


Mas algo mudou.


Entre as memórias, entre a dor e a culpa, o caos cessou.


Tudo ficou… leve.


Ross percebeu primeiro o silêncio.

Depois, a presença.


Preso em sua mente, ele ergueu o olhar.


Uma luz surgia ao longe. Não queimava. Não cegava.

Apenas existia.


Ela se aproximou, e uma voz — sem tom, sem gênero, sem imposição — falou:


— Suas ações não foram boas.

— Você matou. Feriu inocentes. E, por muito tempo, esqueceu quem realmente era.


Ross engoliu em seco.


— Eu sei.


— Você se pergunta se tudo isso foi pela paz.


— Não foi. — respondeu ele, sem tentar se justificar.


— Foi por ela… — a voz continuou. — E por aquelas crianças, não foi?


Ross assentiu lentamente.


— Seus caminhos não foram corretos. Suas decisões, falhas.

— Mas mesmo assim… você nunca abandonou totalmente sua fé.

— Não por si. Mas por eles.


A luz tomou forma.


— Seus caminhos foram falhos. — disse a voz. — Mas você ainda escolhe.


A figura estendeu a mão.


— Sua fé não está morta.


— Padre Ross.


No mundo real, o padre ergueu a cabeça.


E então, aceitou a mão.


--- 💫 ---


— …Tenha fé! — a IA gritou, desesperada, tentando retomar o controle.


— E eu tenho. — Ross respondeu, levantando-se com dificuldade.


— Como você ainda está de pé?! — a voz falhou. — Eu acessei suas memórias, suas lembranças… como você—


— Saia. — Ross disse. Sem raiva. Sem grito. — Agora.


Com um gesto firme, ele levou a mão à nuca.


E arrancou o dispositivo cravado em sua cabeça.


O impacto foi brutal. O dispositivo caiu ao chão, estalando, faiscando em curto.


Ross caiu de uma vez no chão.


Ao mesmo tempo, os androides ao redor travaram… e então relaxaram.

As luzes em seus olhos apagaram-se.


As pessoas — discípulos, seguidores, civis — caíram de joelhos ou no chão, exaustos, livres após tempo demais sob controle.


Confusão. Murmúrios. Medo.


O grupo não perdeu tempo.


Eles correram até Samuel, agora sem qualquer barreira entre eles.


— Foi você que fez isso? — Lucius perguntou, ainda incrédulo.


Samuel passou o braço pelo rosto, limpando o sangue que escorria do nariz.

O gesto foi simples, quase automático.

Negou com a cabeça lentamente.


— Não. — respondeu, a voz baixa, firme, enquanto observava o corpo de Ross caído à distância.


Houve uma breve pausa.


— Foi ele mesmo. — completou. — Eu só mostrei o que havia sido esquecido.


O grupo permaneceu em silêncio por um instante.


Lira apertou as mãos à frente do corpo, ainda tentando processar tudo aquilo.


— Então… — ela respirou fundo — acabou?


Samuel não respondeu de imediato.


Leon sentiu algo, um alerta. Seus olhos brilharam entre a máscara.


Seus olhos percorriam a praça.

Os seguidores caídos no chão.

Os androides.

As pessoas confusas, tentando entender onde estavam.


— Tem algo errado, eu sinto isso. Todos estamos aqui, androides, humanos. Parece que foi algum esquema. — Diz Leon, em uma pausa. 


Trash cuspiu de lado.


Kim se aproximou um pouco mais de Leon, mantendo a atenção ao redor.


— O que você sente? — perguntou, direto. 


— Isso foi fácil demais.— Responde Leon.


— Será que tem como acelerar? — Questiona Drax.


Leon fechou os olhos por um segundo.


O ar estava estranho.

Calmo demais.

Como o silêncio que antecede uma explosão.


— Tem algo a mais. — respondeu. — Não aqui. Não ainda.


Lucius olhou para a P.A., ainda nos braços de Samuel.


— Ela tá… estável?


— Sim. — Samuel respondeu. — Mas vulnerável.


Lira deu um passo à frente.


— Então a gente precisa sair daqui. Agora.


Foi nesse exato momento que tudo morreu.


As luzes da praça piscaram uma vez.


E se apagaram.


O silêncio caiu pesado, absoluto, como se a própria Cidadela tivesse prendido a respiração.


— …Que merda é essa? — murmurou Trash, a voz ecoando no escuro.


— A P.A. ficou sem energia?! — Lira perguntou, alarmada.


Lucius estreitou os olhos, atento demais para alguém que não via nada.


—Não. Isso foi intencional. — disse. — Não foi falha. Foi um corte limpo.


— Fiquem juntos! — Kim gritou. — Todos! Não se espalhem!


Um segundo depois, pontos de luz começaram a surgir na escuridão.


Um.

Depois outro.

Depois dezenas.


Olhos artificiais se acendiam lentamente.


Vittorio, com o coração disparado, puxou o isqueiro do bolso e o acendeu.


A pequena chama iluminou apenas o suficiente para revelar…


Olhos.


Muitos.


Brancos.


Espalhados por todos os cantos da praça, nos telhados, entre colunas, suspensos no nada.


Vittorio engoliu em seco.


— O-o pessoal… — a voz falhou — vocês tão vendo o que eu tô vendo… né?


Um flash branco atravessou a escuridão.


E, por um instante breve e cruel, ficou claro:


Não eram dezenas.


Eram centenas.


Olhos observando.

Esperando.


A Cidadela não havia apagado.


Elas acordaram.


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