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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
58 |💫| Quando o Mundo Hesita
957 palavras • 5645 caracteres • ⏱ 3 min 50 s

58 |💫| Quando o Mundo Hesita

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A oficina estava mais barulhenta do que o normal.


Não por caos — aquilo sempre existiu — mas por ritmo. Um fluxo constante de vozes sobrepostas e metal batendo. Um som familiar, quase confortável para quem já fazia parte daquele lugar. Para eles, aquele barulho não significava problema. Significava funcionamento.


A Fortaleza seguia viva.


Koran estava no meio disso.


Não chamava atenção. Não se impunha. Não tentava ocupar espaço além do necessário. Encostado na bancada, passava uma peça de uma mão para a outra, ouvindo Pink reclamar de absolutamente tudo ao mesmo tempo.


— Eu tô dizendo, essa porcaria vai explodir se tu insistir nisso — Pink resmungou, apontando para a estrutura improvisada, os olhos semicerrados de irritação.


— Explodir não — Madson respondeu. — No máximo dá um choque.


— TU FALA COMO SE ISSO FOSSE MELHOR! — TM rebateu, largando uma ferramenta com força demais.


Phomer riu, apoiado na mesa, como se aquele diálogo fosse apenas parte da trilha sonora do dia.


Koran falou quase sem pensar:


— Se inverter esse fio, pelo menos não pega em quem estiver segurando.


O silêncio durou meio segundo.


Madson parou o que fazia.


— …faz sentido.


Pink virou o rosto devagar.


— Desde quando tu entende dessas coisas?


Koran deu de ombros, simples.


— Desde que eu quase perdi dois dedos ontem.


Phomer soltou uma risada mais alta.


— Justo.


Do lado de fora da oficina, encostada na lateral da estrutura metálica, Soffy observava.


Não interferia. Não se aproximava. Apenas assistia, braços cruzados, o olhar atento demais para alguém que insistia em dizer que não se importava.


Ele não estava mais deslocado.


Aquilo a incomodava.


Mais do que deveria.


Foi então que a luz piscou.


Uma única vez.


Breve demais para virar alarme. Rápida o suficiente para que quase todos ignorassem.


— Ih… — TM comentou. — Começou.


— Relaxa — Pink respondeu, já voltando ao trabalho. — A rede de Underground é um lixo mesmo.


Koran ergueu o olhar por instinto, encarando o teto por um segundo a mais que os outros.


Do lado de fora, Soffy também sentiu.


Não pelo curto em si — mas pela sensação estranha que veio junto. Um peso sutil, um deslocamento difícil de explicar. Como se algo tivesse acontecido… em outro lugar.


A luz voltou.


Estável.


O barulho retomou seu ritmo.


Mas, por algum motivo, nada parecia exatamente no lugar depois disso.


E Soffy percebeu.


— Era isso que deveria acontecer? — murmurou, mais para si do que para o mundo.


Sem dizer mais nada, virou o corpo e se afastou da oficina. Passos firmes, rápidos o suficiente para não chamar atenção, mas decididos demais para serem apenas curiosidade. Havia lugares na Fortaleza onde apagões curtos diziam mais do que quedas longas demais.


E ela precisava confirmar.


Koran viu.


Não o rosto — a silhueta.


O jeito como ela se moveu. Preciso. Ordenado. O mesmo jeito de quem seguia comandos mesmo quando não eram verbalizados.


Aquilo se fixou na mente dele.


O curto tinha durado poucos segundos.


Mas o que o causou…


Ainda estava em movimento.


Koran esperou.


Não muito. Pink reclamava de um painel que não reiniciava direito. Madson discutia com Phomer sobre quem tinha mexido no quê. TM já estava de volta à bancada, como se nada tivesse acontecido.


Koran deu um passo para trás.


Depois outro.


Ninguém reparou.


Ele passou pela lateral da oficina, atravessando a abertura metálica. Do lado de fora, os corredores da Fortaleza mantinham o brilho frio e funcional de sempre — mas algo ali parecia… deslocado. Como se os sistemas ainda estivessem se lembrando de como existir.


Ele caminhou rápido.


Sabia para onde ela tinha ido.


Não porque soubesse — mas porque reconheceu aqueles passos. Soffy não se afastara por curiosidade. Ela estava cumprindo algo.


Koran manteve distância.


Viu-a virar um corredor mais estreito, longe das áreas de trabalho, onde sensores eram antigos demais e a vigilância menos constante. A silhueta dela avançava sem hesitar, como se seguisse um rastro invisível.


Ela não olhou para trás.


Koran também não fez barulho.


Soffy parou diante de uma porta.


Passou a mão pela fechadura.


Esperou.


Koran observava a alguns metros, parcialmente escondido pela estrutura metálica.


Ela respirou fundo, deu um passo para trás — e só então virou o rosto, como se tivesse finalmente aceitado que não estava sozinha.


Os olhos dela encontraram os dele no corredor.


— Sabia que seguir os outros é feio? — disse, com um leve sorriso torto. — Aprendeu bem, hein. Eu gosto disso. Venha.


Ela quebrou o contato visual primeiro.


Koran a acompanhou.


Ela seguia à frente, postura rígida. Cada passo parecia calculado.


— Parece que concluímos um passo importante, Koran. — A voz dela era controlada demais. — Se tudo tiver ocorrido como deveria… não estamos tão longe assim de vermos seu irmãozinho.


Quando chegaram ao limite do corredor, Soffy parou. Não virou o corpo por completo — apenas o suficiente para que ele visse seu perfil sob a luz fria da Fortaleza.


— Você não vai contar pra ninguém, vai? — Ela inclinou levemente a cabeça. — Ah, é mesmo… você não tem pra quem contar.


Ela riu. Baixo. Um pouco nervosa.


Koran não respondeu.


Agora ela o encarou.

De verdade.


Não como supervisora.

Não como observadora.


Mas como alguém no controle.


— Fique em silêncio… ou eu mato você.


Ela se afastou antes que ele pudesse responder.


Koran permaneceu parado no corredor, sentindo o peso do que não fora dito.


O curto tinha sido breve.


Mas fora tempo suficiente para separar quem apenas vive ali…

de quem percebe quando o mundo hesita.


Ele ergueu o olhar para as luzes da Fortaleza — agora firmes, constantes, obedientes.


Tudo funcionava.


E isso…


Isso era exatamente o problema.


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