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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
57 |💫| Sombras que Caminham
3728 palavras • 21759 caracteres • ⏱ 14 min 55 s

57 |💫| Sombras que Caminham

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O caminho se estendia como um corredor de memórias apagadas. As passagens que cruzava eram setores há muito abandonados, mas não pela escuridão comum do esquecimento. Ali, as paredes ainda guardavam vestígios de grandeza — pilares partidos que outrora sustentaram templos de esperança, corredores marcados por símbolos de eras que ninguém mais lembrava.


O ar estava impregnado de uma aura diferente. Não era pesado como em outros lugares, nem sufocante. Pelo contrário, havia uma estranha sensação de reverência, como se cada passo fosse observado por sombras silenciosas que não se atreviam a se aproximar.


O chão refletia luz em certos pontos, pequenas lascas de cristal incrustadas nas pedras, faiscando como se capturassem ecos de estrelas distantes. Estruturas antigas erguiam-se no caminho, grandiosas mesmo em sua ruína, lembrando a Samuel que aquilo que o esquecimento havia tomado ainda possuía uma beleza que não podia ser extinta.


Ele avançava em silêncio, sentindo o espaço se transformar a cada passo. Corredores que pareciam se curvar como se estivessem vivos. Arcos quebrados deixavam passar uma claridade suave, quase etérea.


E, entre aqueles setores esquecidos, Samuel sentiu a presença. Não era como as outras. Diferente, singular.


— Então é você de quem tantos falam? — A voz ecoou pelo ambiente, suave, quase como um sussurro entre paredes que nunca haviam esquecido os sons antigos.


Samuel parou. Sylas ergueu o corpo em alerta, rosnando baixo para a escuridão que se movia.


— Senti sua presença desde que pisou nesta estação. — continuou a voz. — É uma honra enorme estar diante de você.


Das sombras, uma figura emergiu. Não se arrastava como as outras, nem se contorcia em tormento. Caminhava com calma. Era uma sombra negra, olhos vermelhos cintilando, contorno humano que nunca chegava a se fixar. Ainda assim, Samuel sabia. Aquilo não era um homem — era uma sombra.


Ela parou a poucos passos, mantendo o olhar firme em Samuel.


— É um prazer conhecê-lo.


Sylas mostrou os dentes, mas Samuel ergueu a mão num gesto breve, sereno, sinalizando que era seguro. Seus olhos, imperturbáveis, se fixaram na criatura.


— Você é diferente. — disse ele, com a voz baixa, mas certa.


A sombra inclinou levemente a cabeça, como se aquilo a divertisse.


— Diferente? Talvez. Eu não me alimento do que as outras consomem. Não corro em direção ao ódio, nem ao vazio. Eu apenas... permaneço. Fui esquecido, assim como este lugar. E com o tempo, aprendi a aceitar o que sou.


— Então não vê razão para partir. — Samuel concluiu.


— Partir? — ela sorriu de forma quase imperceptível. — Não, não vejo. A Luz... não me chama. Nem as trevas me consomem. Eu sou só eu.


Um breve silêncio caiu entre eles. Sylas observava, inquieto, mas Samuel cruzou os braços, mantendo o olhar fixo, como quem não precisa de palavras para dizer ‘estou aqui'.


— Como devo chamá-lo? — perguntou, direto.


— Não tenho nome. Mas... se deseja, pode me dar um.


Samuel pensou por um momento, depois respondeu com calma:


— Não preciso dar um nome ao que já é. Você existe. Isso basta.


A sombra ficou em silêncio, e então soltou um som estranho, que poderia ser interpretado como uma risada contida.


— Vejo por que tantos o temem, Samuel. Sua luz não me machuca, mas me mostra o que eu sou. Não sei se agradeço... ou se isso deveria me assustar.


Samuel não desviou o olhar.


— Não estou aqui para escolher por você. A Luz não é caminho que se impõe. É apenas caminho.


O silêncio que se seguiu era mais denso que o vazio ao redor. Então, a sombra deu um passo à frente. Seus olhos rubros ardiam como brasas brandas.


— Então... — ela murmurou. — Posso caminhar ao seu lado? Quero entender o que você vê, o que você é.


Samuel manteve-se imóvel, mas havia algo na rigidez de seu semblante que suavizou.


— Caminhe — respondeu por fim, simples, firme. — Mas não busco convencer você.


— Eu sei. — disse ela, quase sorrindo. — É por isso que quero ir.


Por um instante, a sombra parecia menos sombra — apenas um ser esquecido que, pela primeira vez em muito tempo, desejava olhar o mundo de outro modo.


Samuel estendeu a mão, e a sombra, sem hesitar a aceitou. Seu toque era frio, quase etéreo, como se os dedos se desfizessem em névoa. Ainda assim, havia ali um peso, uma ânsia de existir.


— Se me permitir saber… — a voz dela soou baixa, quebradiça, como um sussurro preso entre séculos de silêncio. — Como é existir sem ser apenas sombra.


Os olhos de Samuel permaneceram firmes sobre ela. Não havia julgamento, nem compaixão frágil. Apenas aquela serenidade imperturbável que carregava a clareza de quem via cada escolha como um fio legítimo na trama do destino.


A sombra hesitou, como se temesse que o silêncio dele fosse uma rejeição. Ainda assim, encontrou forças para continuar:


— Eu não peço para ser salvo. Apenas… que me permita sentir o que é não estar sozinho, mesmo que seja só agora. Não se preocupe, eu o irei ajudá-lo no seu caminho, eu sei o que faz aqui.


Por um instante, o tempo pareceu suspenso. O ar rarefeito ao redor deles carregava uma quietude solene, e a própria escuridão do lugar parecia ouvir. O vazio que envolvia a criatura já não era o mesmo; nele havia agora uma centelha tênue, frágil e instável, mas real.


Samuel não sorriu, nem respondeu com palavras fáceis. Apenas manteve a mão estendida, firme, sustentando o gesto que não era de condenação, nem de salvação, mas de escolha.


E, pela primeira vez, a sombra percebeu que não era ignorada. Que, mesmo sendo feita de esquecimento, alguém a via. Não como ameaça, nem como ruína — mas como parte de algo maior.


Ela não resistiu. Sua forma começou a se desfazer lentamente, como fumaça tocada pelo vento, mas não desapareceu no vazio. Cada fragmento se uniu a Samuel, como se tivesse encontrado nele um lar onde não seria apagada.


Não foi absorvida, nem destruída — apenas se tornou uma nova presença. Uma lembrança que respirava junto dele.


E o silêncio que ficou não era pesado, mas leve, quase pacífico.


Samuel alisa suavemente a cabeça de Sylas e então continuou.


Samuel deu um leve clique no dispositivo preso à sua cabeça, e imediatamente um ponto brilhou no mapa projetado em seus olhos. A localização enviada por Trash pulsava diante dele. Aquilo não era apenas um destino marcado. Samuel compreendeu de imediato: era um encontro inevitável.


Ele ergueu os olhos e, com um gesto sutil, deixou que uma luz suave se espalhasse pelo ambiente.

O lugar se revelou aos poucos: colunas quebradas, paredes manchadas pelo tempo e fragmentos de símbolos já quase apagados. Tudo ali carregava uma estranha familiaridade, como se fosse um reflexo distante de onde ele havia vindo.


Havia rastros. Pequenos, quase invisíveis. Marcas arrastadas no chão metálico, vestígios que denunciavam movimento recente. Samuel se abaixou, analisando com calma a direção que aquelas marcas seguiam.


Antes que pudesse avançar, um rosnado baixo cortou o silêncio.

Sylas disparou à frente, mergulhando na escuridão.


Samuel se levantou e correu atrás dele, atento. Quando alcançou o companheiro, viu os músculos do animal tensionados, os olhos brilhando na penumbra. Entre as presas cerradas, algo se debatia em desespero.


Uma aranha mecânica, de metal gasto, rangia estalos enquanto tentava escapar. As patas se agitavam como lâminas afiadas, faiscando contra as presas de Sylas, até que o peso da mandíbula começou a esmagar sua carcaça.


Samuel aproximou-se devagar. Seu olhar permaneceu calmo, sem pressa, mas firme.

— Sylas.


O tigre soltou um rosnado instintivo, grave como trovão preso no peito. Samuel estendeu a mão, e o gesto, silencioso, trouxe o comando sem precisar de força. A fera baixou a cabeça, obedecendo, mas os olhos permaneciam atentos, queimando em vigília.


A aranha caiu no chão com um estalo seco. O corpo metálico se contorcia em espasmos elétricos, cada perna batendo contra o piso com chiados agudos, como lâminas arranhando ferro. Samuel se agachou diante dela, observando em silêncio. Ele parecia ouvir mais do que os ruídos: como se até o último tremor escondesse uma história.


Com cuidado, estendeu a mão. Ao tocar o corpo da criatura, não foi apenas metal que sentiu. O mundo tremeu, e uma lembrança alheia atravessou seus olhos.


---💫---


A visão era da própria aranha.

Seus passos apressados e quase inaudíveis deslizavam pela escuridão. Ela não caminhava sem propósito: caçava. Procurava algo. Então parou, imobilizando-se tão por completo que se confundia com as trevas.


Adiante, ecos humanos: passos nervosos, apressados. Vozes abafadas, carregadas de receio. A aranha manteve-se no escuro, apenas observando.

E então — a sombra.


Do vazio, ela tomou forma. Não se aproximou da aranha, apenas ergueu o braço, apontando para um corredor à frente. Um gesto simples, mas carregado de destino. Antes que Samuel pudesse entender por inteiro, a figura se desfez como fumaça dissolvida.


O mundo estalou, e Samuel voltou. O peso da visão sumiu de seus olhos.


--- 💫 ---


A aranha ainda se contorcia, embora fraca, seus últimos espasmos faiscando luzes azuladas pelas juntas partidas. Samuel, sem pressa, pousou a outra mão sobre ela. Seus dedos, firmes e gentis, fecharam-se em concha.


Um brilho suave surgiu em sua palma, quente como aurora contida. Quando ele abriu a mão, o corpo da aranha não estava mais partido. As juntas se alinharam, a energia voltou a correr por suas pernas finas.


Ela se ergueu em sua mão, firme, viva — e o julgou. Suas patas afiadas cravaram-se na pele dele, fazendo o sangue escorrer em filetes vermelhos. Mas o gesto teve outro sentido: um teste. Samuel não recuou. Seu semblante permaneceu sereno, inalterável.


O sangue não o deteve, nem alterou sua calma. A aranha hesitou, como se não compreendesse aquilo. Então, simplesmente desapareceu, esvanecendo como um código que desistiu de se manter.


Sylas, atento, aproximou-se ao sentir o cheiro de sangue. O tigre rosnou baixo, inquieto, tocando a mão do homem com o focinho. Samuel abriu e fechou a palma devagar. O corte sumiu como se nunca tivesse existido.


— Eu estou bem. — disse, baixo, firme, sem desviar os olhos do corredor onde a sombra antes havia apontado.


O silêncio respondeu. Mas não era um silêncio vazio — tinha peso, densidade, intenção. Não era apenas um caminho. Era um chamado.


Samuel se levantou de súbito, postura firme, como quem responde não a uma ordem, mas a uma certeza.


— O lugar é aqui perto. — murmurou. — Eu sinto isso.


Sylas se colocou ao lado dele, músculos tensos, olhar fixo no escuro. Juntos, avançaram.


--- 💫 ---


O corredor parecia mais estreito do que antes, como se as paredes estivessem vivas e fechassem ao redor deles. As marcas no metal lembravam arranhões profundos, feitos não por ferramentas, mas por garras ou lâminas em desespero.


No fim do corredor, uma passagem selada. Não havia mecanismo visível, apenas uma placa de aço corroída pelo tempo. Samuel estendeu a mão. Bastou um toque. O metal cedeu com um gemido profundo, abrindo-se como se reconhecesse quem estava diante dele.


O interior revelou-se.


Um espaço amplo, abafado, iluminado apenas por reflexos esparsos de cristais incrustados no teto. Ali, o ar era pesado de ferrugem e óleo queimado. Restos de androides estavam espalhados em torno do salão — corpos retorcidos, cabeças partidas, membros carbonizados. Eram dezenas, talvez centenas, todos marcados por um mesmo símbolo gravado no peito: três linhas paralelas cruzadas por um círculo irregular.


Era impossível dizer se aquilo era linguagem, marca de posse ou ritual. Mas não era acaso. Todos tinham a mesma cicatriz metálica.


Samuel avançou devagar, cada passo ecoando entre os destroços. Sylas rosnava baixo, inquieto.


No centro da sala, algo se erguia.


Uma cruz colossal de ferro, cravada no solo como espinha dorsal de uma catedral profana. Não era enfeite, era símbolo. Era altar.


Samuel parou diante dela. Seus olhos tocaram o metal, e então uma lembrança veio.


Rápida. Crua.


Um corpo feminino, suspenso pela estrutura. Membros presos, a cabeça pendida para o lado. Não havia dor na expressão — havia vazio. Uma lembrança vaga, distorcida, como se a memória não fosse dele, mas do próprio lugar.


A visão se fragmentou. Um sopro frio tocou a nuca de Samuel. Ele ergueu a mão instintivamente e, quando a palma roçou o ferro, algo brilhou.


Um feixe de luz verde, tênue mas real, atravessou a estrutura.


O eco dentro de si não deixava dúvidas.


— P.A. — murmurou, em voz quase inaudível.


Ali estava o corpo da P.A., naquela cruz, mas agora estava vazio. Mas porque? Quem iria fazer aquilo? Adoração? Ódio?


Sylas avançou lentamente, farejando o ar. O tigre estava tenso, os músculos retesados, os pelos do dorso eriçados como lâminas prontas para o combate. Ele sentia algo — não cheiro de morte, mas de persistência. Aquele lugar, apesar do abandono, não estava realmente vazio. Havia rastros de vontade, uma marca de que forças ainda permaneciam ativas ali.


Samuel observou mais de perto a cruz. Um símbolo estava marcado em sua estrutura, traços ásperos, desenhados à mão, quase como um selo. Os riscos eram tortos, feitos às pressas, mas a energia sombria que emanava deles não deixava dúvidas: era a marca de um culto.


Samuel pressionou o pequeno dispositivo em seu ouvido. Um estalo metálico confirmou a conexão.


— Pensei que tivesse morto. Achou alguma coisa? — a voz rouca de Trash ecoou pelo canal.


— A P.A. esteve aqui. — respondeu Samuel, firme.


— Sério? Como você sabe?


— Eu encontrei um símbolo. O grupo que você mencionou parece ter ligação direta com o corpo da P.A.


Trash soltou uma risada curta, sem humor.

— Eu sabia... Kim e os outros conseguiram algumas informações. Parece que aqueles desgraçados estão preparando algo. Não sei o quê, mas promete ser grande... Eu acho—


A transmissão se cortou abruptamente, deixando apenas um chiado seco nos ouvidos de Samuel.


Sylas rosnou baixo. Seus olhos selvagens estavam fixos em algo invisível no ar, as orelhas inclinadas para trás. Samuel ergueu o olhar e, em silêncio, analisou os arredores. O espaço parecia vibrar, como se o próprio vazio prendesse a respiração. Algo estava errado.


De repente, os corpos dos androides caídos começaram a se mover. Suas carcaças retorcidas estremeceram, braços metálicos se arrastaram contra o chão. Rostos quebrados e apagados voltaram à vida em uma paródia grotesca de consciência, contorcendo as feições destruídas. Um a um, eles se ergueram, cambaleando na direção de Samuel e Sylas.


O tigre recuou para o lado de Samuel, rosnando furioso.


— Eu já disse... — Samuel ergueu a mão calmamente, sua voz era uma promessa fria — eu não vou deixar nada machucar você.


Luz pura irrompeu da palma de sua mão, formando uma barreira translúcida ao redor deles. Os androides se chocaram contra a proteção, escalando e amontoando-se uns sobre os outros, como insetos atraídos por uma chama. O som metálico dos impactos ecoava em um crescendo sufocante.


Com um movimento breve, quase sem esforço, Samuel fez a barreira pulsar. A onda de energia se expandiu em um clarão violento, lançando os androides em todas as direções. As carcaças colidiram contra as paredes e caíram em pedaços, espalhando faíscas pelo chão.


Sylas não hesitou; colado ao lado de Samuel, seguiu o passo firme de seu companheiro. Eles se afastaram em meio à fumaça e aos estalos das máquinas destruídas.


Mas Samuel sabia. Não estavam sozinhos.


Em meio aos androides, uma silhueta os observava. Encapuzado, o rosto oculto na sombra, parado como uma sentinela silenciosa. A figura não se moveu, apenas acompanhou cada gesto de Samuel com atenção sombria.


Samuel ergueu os olhos na direção do homem. Nada disse — apenas mudou o ritmo da caminhada; cada passo se tornou leve, porém firme. O vento que soprava pelos trilhos abandonados parecia se aquietar ao redor dele.


Num piscar, Samuel já estava a seu lado. O homem, surpreso, levantou a mão; uma aura roxa pulsou ao redor dos dedos, o comando que despertava os androides. Antes que a ordem saísse, Samuel ergueu suavemente a mão. Uma onda branca varreu o ar, e os androides caíram como folhas no outono, tomados por uma paz que anulava a agressão.


Uma fina gota de sangue escorreu do nariz de Samuel — preço discreto por tanto poder. Ele limpou com calma, como quem apenas respira.


— Onde está o corpo da P.A.? — perguntou, a voz baixa, sem tom de ameaça.


O homem soltou um riso trêmulo. — Corpo? — murmurou. — Ela não merece esse nome. É uma heresia que caminha. E o Deus... o nosso líder... ordenou que o fogo a purifique diante de todos.


Samuel apenas o olhou. Não havia julgamento em seu semblante, apenas uma leve tristeza.


— Então é isso que você chama de fé? — perguntou.


O homem ergueu o emblema da seita — um círculo de ferro marcado com três chamas. — O Líder nos mostrou o caminho! Ele revelou a mentira dessas máquinas! Elas corromperam o que somos, tomaram o lugar da humanidade. A chama do julgamento vai devolver ao mundo o que é nosso por direito.


Sylas se aproximou, rosnando baixo, os olhos atentos. O seguidor recuou um passo, mas manteve o símbolo erguido.


Samuel, sem pressa, baixou o olhar por um instante e depois o ergueu outra vez.

— Estranho... vocês dizem querer devolver a humanidade, mas foram os primeiros a esquecê-la.


O homem o fitou, surpreso. — Cale-se! Você fala como ela. Está contaminado!


— Contaminado por quê? — perguntou Samuel, tranquilo. — Por acreditar que ainda existe algo bom em quem foi condenado?


O seguidor tremeu. — Ela engana. Foi assim com todos nós. O Líder nos salvou do controle dela. Ele nos libertou.


— Libertou... ou prendeu vocês em outro tipo de corrente? — Samuel inclinou a cabeça levemente. — O medo também é uma prisão. E o seu “Deus” aprendeu a trancar pessoas dentro dela.


O homem vacilou, o símbolo em sua mão começou a tremer. — Você não entende! Ele é o escolhido... ele viu a verdade!


Samuel deu um passo à frente, firme, mas sereno.

— Eu não duvido que ele viu algo. Mas o que ele viu não é a verdade. É apenas o reflexo da dor que ele espalhou. Nenhum homem que se diz Deus é capaz de salvar, apenas controlar.


O seguidor tentou responder, mas a voz falhou — as palavras quebraram-se na própria boca como vidro antigo. A fúria que antes o guiava vacilou; havia agora um tremor, como se algo dentro dele tivesse despertado de um sono venenoso.


Samuel avançou um passo, e o brilho suave nos seus olhos abateu-se sobre o homem como uma aurora calma. — O fogo que ele prega não vai purificar o mundo, só vai deixá-lo mais vazio. E você sabe disso. — Aquele foi um sussurro que não cortou; aqueceu. — A esperança não nasce das chamas, nasce do perdão.


O seguidor recuou, os passos descompassados; a fé em seu rosto oscilou entre convicção e dúvida. Por um instante foi apenas humano — confuso, aterrorizado com o próprio furor. Samuel estendeu a mão, sem exigir, apenas oferecendo. Um gesto simples. Um convite.


Quando a pele do homem tocou a palma de Samuel, algo mudou. Não era uma visão fabricada, nem truque: era a verdade inteira, compacta e breve, como um clarão no meio da noite.


Ele tentou afastar a mão — impulso violento, reflexo de alguém que teme o que a consciência revela — mas seu corpo não obedeceu. Algo nele lutava; outra coisa, mais antiga e pesada, o prendia. O queixo caiu; o olhar se perdeu. Baixou a cabeça como se carregasse o mundo.


Ao erguer o rosto novamente, a mudança era brusca: os olhos, antes inflamados de fanatismo, tornaram-se opacos por um segundo, como vidro que devolve uma imagem que não é sua. Havia ali um erro na feição — um contrapeso: a dúvida arremessando pedras pela muralha da crença. Seu rosto, que antes incendiava palavras, agora tremia com remorso.


— Ele vai… — murmurou, a voz cortada, como se uma grande exaustão o tomasse — Vai queima-la diante de toda cidadela. Vai fazer o setor inteiro assistir...


As palavras caíram pesadas entre os vagões. O som da fumaça no ar pareceu crescer, como se o túnel escutasse e repetisse. Samuel olhou-o nos olhos de modo direto, sem rancor, a serenidade transformando-se em uma determinação gentil. Lentamente, os cantos de seus olhos escureceram, uma sombra discreta que não era ódio, mas resolução. Seu rosto permaneceu calmo — porém sua presença ganhou arestas de propósito.


— Você tem que impedi-lo — disse Samuel, a voz baixa e firme — Só assim você pode pará-lo. Não por mim, nem por ela, mas por tudo que ainda pode nascer daqui.


O homem abriu a boca para falar, talvez para negar, talvez para prometer. Em vez disso, soltou a mão de Samuel. Algo o puxou para trás como se uma corda invisível tivesse sido acertada em seu peito. Antes que pudesse recompor-se, uma aura púrpura irrompeu ao redor de seu corpo: luz que queimava por dentro, cheia de palavras não ditas e ordens urgentes.


Os olhos do seguidor brilharam por um segundo — não com escolha, mas com obediência. Um último lampejo de confusão cruzou a face, e então ele começou a ser consumido pela cor violeta, como se a própria fé o estivesse recolhendo de volta. Em poucos instantes, o som de seus passos foi silenciado; a aura o envolveu por completo e ele desapareceu entre o ferro e as sombras, como uma vela que se apaga.


Sylas rangeu as mandíbulas, alerta, mas não atacou. Samuel ficou de pé, os lábios cerrados por um momento, observando o ponto onde o homem houvera sido. O cheiro do vento parecia mais denso — e por baixo dele, o gosto de fumaça se tornava promessa.


— Ainda há tempo — murmurou Samuel, mais para si do que para o vazio — Mas não muito, temos que voltar, logo.


E sem mais demora dobrou os ombros, ajeitou Sylas ao lado e partiu rapidamente de volta pelos trilhos, levando nas costas a urgência de impedir uma catástrofe que poderia fazer do mundo um esquecimento público.

A cruz ficou para trás, minúscula na distância, engolida pela escuridão que parecia devorar até a esperança.


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