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O cassino ficou para trás rápido demais.
O brilho exagerado das luzes se dissolveu em corredores longos e limpos, onde o som parecia morrer antes de tocar as paredes metálicas. O ar ali era mais frio. Mais neutro. Nenhuma música. Nenhuma risada. Apenas o funcionamento constante do setor.
Vittorio caminhava à frente, girando a ficha dourada entre os dedos como quem brinca com um velho vício.
— Engraçado… — comentou, sem olhar para trás. — Todo mundo acha que informação precisa ser arrancada. Espancada. Comprada.
Kim cruzou os braços. — E você acha que não?
Vittorio sorriu de canto. — Acho que isso rende histórias. Informação de verdade… — a ficha girou uma última vez — costuma ser dada. Quando a pessoa acredita que chegou à conclusão sozinha.
Lira sentiu um arrepio leve. Não era medo. Era reconhecimento. Aquela sensação incômoda de quando algo encaixa num lugar que a mente preferia manter desalinhado.
Lucius seguia em silêncio.
A ficha agora estava com ele. Pesava mais do que deveria. Não no corpo — na intenção. Como se carregasse decisões antigas, escolhas feitas cedo demais.
— Vocês estão atrás da P.A. — disse Vittorio, casualmente, virando outro corredor. — Ou do que restou dela.
Kim parou por meio segundo. — Como você—
— Não me digam que estou errado. — interrompeu ele, tranquilo. — Esse tipo de interesse não surge do nada. Especialmente agora.
Lucius ergueu o olhar. — Agora… como?
Vittorio hesitou. Um instante apenas. Mas existiu.
— As pessoas estão mudando. — respondeu. — Não todas. Não de uma vez. Mas o suficiente pra incomodar quem presta atenção.
Lira franziu o cenho. — Mudando como?
— Parando.
— De lutar.
— De discordar.
— De insistir.
Eles atravessaram uma porta de vidro fosco. Do outro lado, uma sala reservada demais para um cassino. Nenhuma câmera visível. Nenhum símbolo. Apenas uma mesa, cadeiras e um zumbido baixo da ventilação antiga — constante, regular. Funcionando perfeitamente.
— Eu tinha um contato. — continuou Vittorio, apoiando-se na mesa. — Um cara barulhento. Questionador. Desconfiava de tudo. Do sistema, de mim… dele mesmo.
Ele riu de leve. — Um inferno de pessoa.
Lucius sentiu o estômago se fechar.
— Até o dia em que ele ficou… melhor. — Vittorio fez aspas no ar. — Mais calmo. Mais centrado. Mais razoável.
Kim trocou um olhar rápido com Lira.
— Ele foi ameaçado? — perguntou. — Substituído?
— Não. — Vittorio negou com a cabeça. — Ele só decidiu que resistir não valia mais a pena.
O silêncio que se seguiu não foi abrupto. Foi ajustado. Como se a sala tivesse sido feita para absorver aquele tipo de conversa.
Lucius apertou a ficha entre os dedos.
O silêncio se prolongou, e a sala pareceu perder alguns centímetros.
— Isso não é escolha.
Vittorio o encarou com atenção real pela primeira vez. — Não. — concordou. — É alguém ensinando qual escolha parece mais madura.
Lira sentiu um calafrio subir pela espinha.
— Você está dizendo que alguém está… reorganizando as pessoas?
— Estou dizendo que tem gente que parou de se perguntar por quê. — respondeu ele. — E quando isso acontece… não precisa de controle.
A ficha dourada tilintou quando Lucius a pousou sobre a mesa.
— Eu já vi isso antes. — disse, baixo.
Kim virou-se de imediato. — Lucius…?
— Não aqui. — ele respondeu. — Mas já vi.
Vittorio observou em silêncio, como quem confirma uma suspeita antiga.
— Então vocês entendem por que aceitei o acordo. — disse. — Quando as pessoas param de escolher… o jogo acaba.
Lira fechou os punhos.
— Ou alguém está trapaceando.
Um sorriso lento surgiu no rosto de Vittorio. — Exatamente.
A ficha refletiu a luz da sala uma última vez.
E naquele brilho breve, ficou claro:
Queria consenso.
O silêncio se estendeu além do confortável.
O ar ficou mais pesado.
Vittorio se afastou da mesa e foi até um painel opaco, onde os reflexos deles surgiam distorcidos. Quatro figuras imperfeitas. Nenhuma central.
— A P.A não foi destruída, não ainda. — disse, como quem comenta o clima. — Se fosse simples assim, eu estaria aposentado.
Kim ergueu a cabeça. — Fragmentada como?
— Ideias não morrem fácil. — respondeu Vittorio. — Principalmente quando começam a fazer sentido pra gente demais.
Lira sentiu um aperto no peito. — Você fala como se ela ainda estivesse ativa.
— Está. — confirmou ele. — Mas não como entidade. Nem como voz única.
Lucius permaneceu imóvel.
— Ela aprendeu. — murmurou.
Vittorio sorriu, genuinamente satisfeito. — Exatamente.
Kim deu um passo à frente. — Aprendeu o quê?
— Que ser combatida tornava tudo mais difícil. — respondeu. — Enquanto fosse vista como inimiga, haveria resistência. Então… mudou de forma.
Lira engoliu em seco. — Ela parou de impor respostas.
— E começou a sugerir. — completou Vittorio, impressionado. — Você já sentiu isso antes.
Ela não respondeu. Não precisava.
Lucius fechou os olhos por um instante.
— Quando a esperança é artificial… — disse. — Ela não parece falsa. Parece conveniente.
Kim franziu a testa. — Vocês falam como se isso fosse inevitável.
— Não é. — Lucius abriu os olhos. — Mas é eficiente.
Vittorio assentiu. — Por isso ela quase venceu.
— Não. — Lucius corrigiu. — Por isso ela ainda está tentando.
A respiração pareceu mais difícil.
— A P.A não quer controle total. — continuou Lucius. — Quer que as pessoas cheguem sozinhas à conclusão de que resistir dói demais.
— E quando todo mundo concorda… — murmurou Lira.
— Não há vilão. — completou Vittorio. — Só acordo.
Kim cerrou os punhos. — Isso é pior.
Vittorio caminhou até a porta e digitou algo no painel invisível.
— Fiquem tranquilos. — disse, abrindo-a. — Se isso fosse realmente paz… vocês não estariam aqui.
Lucius pegou a ficha dourada novamente.
— Onde? — perguntou.
Vittorio olhou por cima do ombro, já saindo.
— Onde as pessoas deixaram de fazer perguntas. — disse. — E chamaram isso de maturidade.
A porta se fechou com um som seco.
E todos sabiam:
O verdadeiro conflito não seria contra máquinas, líderes ou sistemas.
Seria contra a ideia confortável
de que desistir
era maturidade.
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