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O brilho das luzes de neon refletia nas mesas de pôquer e roleta. Fichas tilintavam, cartas deslizavam, risadas forçadas se misturavam ao cheiro de charuto e perfume barato. O cassino respirava pecado — e informação.
— Esse lugar é excelente para descobrir as informações que precisamos. — disse Kim olhando ao redor com calma, analisando cada mesa.
— Eu acho que é o oposto... — respondeu Lira, a expressão desconfiada.
— Aqui tá cheio de mafiosos, apostadores e, o mais importante, informantes. — replicou Kim, inclinando-se levemente para frente. — Mas, para chegarmos até ele, temos que jogar.
Um sorriso malicioso surgiu em seu rosto.
— E aí? Qual dos dois amantes sabe apostar?
Lucius ergueu a mão com hesitação.
— Bem... eu sei um pouco.
O olhar desconfiado de Lira caiu sobre ele.
— É sério, Lucius?
Ele desviou o olhar, coçando a nuca.
— Eu tive uma época que... me viciei bastante em apostas.
— Que inédito. Agora eu quero saber mais sobre esse seu passado. — disse Lira.
Lucius engoliu seco, as luzes refletindo no suor em sua testa.
— Melhor não...
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo tilintar de fichas sobre a mesa ao lado, e pela voz do crupiê chamando:
— Próxima rodada, senhores!
As fichas deslizaram para o centro da mesa, o som metálico ecoando como música para os ouvidos dos apostadores. A fumaça dos charutos formava nuvens densas no ar, turvando as luzes douradas que iluminavam o salão principal. A mesa de pôquer, porém, era um altar silencioso em meio ao caos do cassino.
Para alguns, era vício puro — mãos repetindo gestos sem pensar. Para Lucius, era sobrevivência. Para Vittorio, curiosidade.
Lucius se sentou, mas de forma nada elegante. A cadeira arrastou alto no piso, ele quase deixou cair as cartas ao recebê-las e, em vez de parecer um jogador frio e calculista, parecia apenas um garoto deslocado em meio aos tubarões. Kim levou a mão ao rosto, já esperando o pior.
— Primeira rodada. — anunciou o crupiê, distribuindo as cartas.
Lucius pegou as suas, deixou escapar um suspiro nervoso e quase derrubou uma ficha da pilha. Endireitou-se, coçou a nuca e então, sem pensar muito, jogou a pilha inteira no centro da mesa.
— All in. — disse, com um meio sorriso desajeitado.
Os jogadores explodiram em risadas.
— Esse moleque é um palhaço. — zombou um dos mafiosos, baforando o charuto.
Kim arregalou os olhos.
— Ele não fez isso...
Lira, por outro lado, percebeu um detalhe. Apesar do jeito estabanado, o olhar de Lucius tinha uma firmeza quase inconsciente.
As apostas seguiram, a mesa virou, e o impossível aconteceu: um flush perfeito. As fichas deslizaram até a pilha de Lucius. Ele piscou surpreso, como se nem acreditasse que tinha vencido.
— Uau... acho que tive sorte. — comentou, ajeitando o cabelo como se tentasse disfarçar.
Kim soltou uma risada nervosa, Lira arregalou os olhos e mordeu o lábio.
Segunda rodada. Terceira. Quarta. Entre tropeços e fichas derrubadas… ele continuava vencendo.
— Esse garoto só pode estar de bruxaria! — gritou a mulher dos olhos cortantes, batendo na mesa.
O franzino tremia, sem conseguir sustentar o blefe. Os mafiosos, agora em silêncio, trocavam olhares pesados, engolindo a raiva.
Kim e Lira vibravam como torcedores.
— Continua, continua! — sussurrava Lira, quase sem conseguir ficar sentada.
— Vai, Lucius! Acaba com eles! — completava Kim, rindo alto.
E ele, meio atrapalhado, meio brilhante, continuava a acumular fichas até formar uma muralha. O burburinho tomou conta do salão, e não havia como ignorar.
Os olhares começaram a se acumular ao redor da mesa, e Vittorio “Chance” finalmente desceu do camarote, aproximando-se da mesa com passos calmos, mas cheios de imponência. Havia algo no jeito dele que, mesmo sem levantar um tom de voz, comandava respeito. Os outros apostadores se afastaram um pouco, não de medo, mas por cortesia — e talvez admiração — para quem estava ali na frente deles.
Vittorio vestia um conjunto elegante com um toque futurista: jaqueta de couro ajustada com detalhes metálicos que reluziam sob a luz do cassino, calças escuras e botas discretas. Um colete branco quebrava o tom sombrio, e os óculos apoiados na testa foram empurrados para cima quando ele se inclinou sobre a mesa. Havia nele um equilíbrio natural entre sofisticação e ousadia — como alguém sempre pronto para uma aposta arriscada.
Ele se inclinou sobre o banco de Lucius, avaliando o jeito atrapalhado, o sorriso nervoso, a mão trêmula… e a confiança que insistia em surgir.
Vittorio sorriu, não como quem vê ameaça, mas como quem encontra algo interessante demais para ignorar.
— Nunca vi seu rosto por aqui. E quais as honras eu devo?
Lucius engoliu em seco, ajeitando as cartas em suas mãos.
— Lucius… Lucius Arkwright.
— Esse nome me soa familiar… — Vittorio sorriu. — Veio até aqui para tomar meu trono com habilidade… ou só sorte mesmo?
Lucius corou levemente, tropeçando nas fichas. Antes que respondesse, Lira se inclinou discretamente em sua direção, encostando de leve no braço dele.
— Você consegue. — sussurrou, com um sorriso tímido, mas os olhos cheios de confiança.
A respiração de Lucius falhou por um instante. Ele desviou os olhos, tentando disfarçar o rubor nas bochechas, mas o sorriso nervoso o entregava. Vittorio notou e soltou uma risada curta.
— Ah, então temos torcida particular. Isso sempre pesa no coração do jogador.
Lucius pigarreou, tentando recuperar a compostura.
— Estamos atrás de algo… que dizem que passa por aqui.
— Informações, é? — Vittorio girou uma ficha entre os dedos, divertido. — Talvez eu tenha exatamente o que precisa… mas só digo se ganhar de mim. Eu contra você.
Lucius respirou fundo, olhando de relance para Lira. Ela apertava os punhos discretamente, como se quisesse transmitir coragem só com o olhar. O calor que isso lhe trouxe foi suficiente.
— Eu topo.
Kim franziu a testa, preocupado, mas Lira abriu um sorriso firme. Ela não disse nada. Só segurou o olhar dele, firme.
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As rodadas começaram. Vittorio era habilidoso, virando cartas com naturalidade, enquanto conversava. Lucius, no início, tremia levemente, deixando escapar pequenas trapalhadas — uma ficha que rolava, um gesto desajeitado. Mas sempre que olhava de lado, via Lira torcendo silenciosamente, às vezes mordendo o lábio, às vezes sorrindo, como se vibrasse a cada movimento dele.
Aos poucos, começou a responder com jogadas mais seguras.
— Boa tentativa! — elogiou Vittorio, genuíno. — Mas cuidado, a próxima pode ser traiçoeira.
Lucius respondeu com um sorriso tímido, e Lira inclinou-se, murmurando:
— Eu sabia que você tinha jeito.
Ele desviou o olhar, sentindo o calor subir ao rosto, e errou ao ajeitar as cartas, deixando uma cair no chão. O rubor piorou, mas a gargalhada leve de Lira o fez relaxar.
O jogo seguiu, cada vez mais intenso, até a rodada final. Vittorio se recostou, o brilho nos olhos refletindo as luzes do cassino.
— Parece que é a decisiva. Nervoso?
Lucius inspirou fundo e olhou de relance para Lira. Ela não disse nada, apenas ergueu o polegar com um sorriso encorajador.
— Não. Graças a eles… eu tô pronto.
O salão inteiro prendia a respiração. As cartas estavam na mesa, a última virada pelo crupiê. O silêncio pesava tanto quanto a fumaça dos charutos.
Lucius manteve os olhos fixos nas cartas, mas sentiu o coração despencar. A sorte o havia abandonado.
Ele perdeu. O corpo de Lucius afundou na cadeira, como se o peso finalmente tivesse alcançado seus ombros.
Por alguns instantes, nada aconteceu. O mundo pareceu suspenso — fichas paradas no centro da mesa, jogadores estáticos, até o tilintar dos copos no bar soava distante. Lucius baixou a cabeça, já esperando as risadas, o deboche, o peso cruel da derrota.
Mas não houve nada disso.
Vittorio recostou-se lentamente, um sorriso calmo surgindo em seu rosto.
— A vitória… — disse em voz firme, mas sem arrogância — sempre esteve ao meu lado. Não por mérito, mas porque a sorte insiste em me acompanhar.
Ele pegou uma ficha dourada e a lançou no ar. O objeto girou, refletindo as luzes de neon como se fosse um pequeno sol em meio à fumaça. Lucius, no reflexo, estendeu a mão e a segurou, quase sem perceber.
— Sorte vai e volta. Mas isso aí? — ele apontou de leve para Lira — isso não se compra na mesa.
Lucius gaguejou, apertando a ficha entre os dedos enquanto Lira desviava o olhar com um sorriso contido, incapaz de esconder o brilho que tremeluzia em suas pupilas.
Então, pela primeira vez naquela noite, Vittorio deixou o tom brincalhão de lado. Pousou a mão sobre a mesa, firme, a ficha dourada reluzindo entre seus dedos.
— Que tal um acordo? — disse em voz baixa, quase um sussurro que soou mais sério do que qualquer grito. — Vocês me contam o que estão procurando… e eu talvez vá com vocês nessa.
A ficha refletiu a luz como se guardasse algo mais que sorte — um presságio.
Girou mais uma vez sob o neon.
E ninguém ali sabia o que tinha acabado de ser apostado.
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