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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
55.1 |💫| Ecos da Arena
4840 palavras • 28231 caracteres • ⏱ 19 min 22 s

55.1 |💫| Ecos da Arena

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⚡──────👾──────⚡


O som metálico das grades se fechando ecoou pelos corredores estreitos do Setor 8. O ar estava denso, vibrando como se o próprio setor prendesse a respiração. À frente, um grande portão semicircular se abriu com um rugido mecânico, revelando o ringue — ou, pelo menos, o que parecia ser um.


De fora, o espaço parecia pequeno, quase sufocante. Mas quando os primeiros passos ecoaram lá dentro, a ilusão se desfez. O interior se expandia como um campo infinito, distorcido por tecnologia e energia. As paredes, revestidas por vidro líquido, refletiam o público que rugia em arquibancadas holográficas. Luzes pulsavam no teto, criando sombras vivas que dançavam no chão metálico.


Era mais do que uma arena.

Era um mundo de ecos, onde cada respiração podia ser ouvida, e cada golpe deixava cicatrizes no ar.


Os alto-falantes crepitaram.


— Senhoras e senhores, preparem-se! — a voz do locutor estourou em meio aos aplausos. — A noite da redenção começa agora! Quatro duplas... e apenas uma sairá de pé hoje!


O público vibrou, gritos e aplausos ecoando como trovões. Nomes começaram a ser entoados, como se fossem orações profanas.


A primeira dupla surgiu.


Datti e Myra — As TryHards


As luzes se voltaram para uma figura feminina que caminhava com o passo firme de quem carrega o próprio chão. Datti, o cabelo amarrado em um coque, os olhos selvagens refletindo cada clarão do ringue. Ao seu lado, uma mulher alta, de pele pálida e tatuagens geométricas descendo o pescoço — Myra, uma ex-sentinela que carregava a serenidade de quem já sobreviveu a guerras demais.


O chão tremia sob cada passo delas.

Datti girou o bastão de aço nos dedos e o apoiou no ombro, o sorriso provocante brilhando sob as luzes artificiais.


— Espero que não seja mais uma dessas noites entediantes. — murmurou.


— Entediantes nunca são quando você está por perto, meu bem. — respondeu Myra, ajustando as luvas com lâminas curvadas.


O público rugiu. Datti apenas acenou com desdém, como quem agradece por um título que já lhe pertence.


A arena reagiu — o chão sob elas se iluminou em tons vermelhos e alaranjados, como se reconhecesse a força bruta e o fogo que ambas carregavam.


O locutor respirou fundo antes de anunciar a próxima dupla.


Blank e Sable — Os Ecos da Mente


O silêncio caiu de repente.

Apenas o som das botas ecoou quando Blank atravessou o portão. Seu capuz escondia metade do rosto; a outra metade mostrava um olho cinzento, vazio e calculista, que parecia enxergar além da carne. Atrás dele vinha Sable — uma mulher de expressão distante e movimentos quase flutuantes, como se andasse fora do tempo.


Os dois pararam no centro. Blank levantou o olhar e murmurou algo inaudível — e, de repente, todos os presentes sentiram um arrepio. Era como se ele tivesse sussurrado dentro da mente de cada um.


— Ele está lendo tudo... até os pensamentos do público. — sussurrou um dos seguranças, recuando.


Blank sorriu de leve.

— Ruído demais... medo demais... perfeita vantagem. Bom para vencer os despreocupados.


A luz ao redor deles se distorceu em tons de violeta e azul. Onde pisavam, o ar ondulava, e por um instante parecia que a própria arena respirava com eles.


O locutor hesitou antes de chamar a terceira dupla, a voz trêmula de excitação.


Artem e Ilya — Os Filhos de Hantex


Dois irmãos de pele escura e olhos vermelhos cruzaram o portão. Moviam-se em perfeita sincronia, como reflexos humanos. Suas roupas negras traziam inscrições antigas — marcas da antiga Cidadela de Hantex, destruída décadas atrás.


— Hantex... — sussurrou Datti, observando-os. — Esses não vieram pra brincar.


Quando entraram no ringue, o chão pareceu se apagar sob seus pés. Por um instante, o espaço se inverteu — o chão virou céu, e o céu virou abismo. Depois tudo voltou, deixando uma vertigem suspensa no ar.


— Controle gravitacional parcial... — murmurou Sable, impressionada. — Eles manipulam a densidade do campo.


O público não gritou. Ficou em silêncio, intimado pela presença deles.

Os irmãos não acenaram, não sorriram — apenas ficaram imóveis, encarando o portão final.


--- 💫 ---


O locutor respirou fundo, a voz vibrando com um misto de espanto e nervosismo.


— E agora... uma surpresa para todos! Não são novatos — são lendas!

E ele está de volta: o Cirurgião da Morte!


O público explodiu.

— E parece que ele trouxe companhia... — o locutor completou, inclinando-se para o vidro da cabine.


Drax ergueu o dedo do meio para ele sem pensar duas vezes.


— Heh... temos um estressadinho no ringue. — brincou o narrador.


O som do trovão ressoou pelos alto-falantes. Uma chuva digital caiu sobre o ringue — não água, mas partículas elétricas que crepitavam no ar.


Leon entrou primeiro.

O olhar frio, o cabelo preso para trás. Cada passo era preciso, cada gesto, calculado. Ele movia-se como se cortasse o próprio espaço à sua volta. A plateia sabia o apelido: Cirurgião da Morte, o homem que nunca errava um golpe.


Logo atrás veio Drax.

Sem contenção, sem máscara. A raiva viva em seu olhar, o corpo marcado por cicatrizes antigas. O ar ao redor vibrava com energia, pequenas faíscas escapando de sua pele.

Mas havia algo diferente ali.


Quando Drax entrou no ringue, o trovão cessou.

O público silenciou.

Leon olhou brevemente para o chão, depois para o vazio à frente.


Os quatro pares se posicionaram em seus pontos, o locutor anunciando as regras:

— Luta por eliminação. Nenhuma arma letal. O uso de habilidades é permitido. O último par de pé vence!


As luzes diminuíram.

O silêncio voltou.


E o chão se abriu.


A arena se expandiu, revelando um vasto campo urbano holográfico — prédios flutuantes e becos distorcidos.

Cada dupla foi transportada para um canto diferente, cercada por ecos e sombras.


A batalha havia começado.


--- 💫 ---


Datti foi a primeira a se mover.

— Vamos, Myra. Hora de brincar. — Ela saltou de uma estrutura metálica, o bastão girando como um cometa incandescente.


Do outro lado, Blank fechou os olhos.

— Direita... — murmurou.


Sable girou o corpo e desviou do golpe antes mesmo de vê-lo. O bastão de Datti atingiu o chão com força, criando uma onda de impacto que estilhaçou parte do cenário.


Myra avançou sobre Sable, mas foi atingida por uma ilusão — por um instante, o chão pareceu desaparecer sob seus pés.


Blank abriu os olhos e sorriu.

— Vocês lutam com os músculos, não com a mente. Isso é bonito... mas previsível.


Datti riu.

— E você fala demais.


Ela avançou novamente. A força bruta dela rasgava o ar, e mesmo quando Blank previa o movimento, ela quebrava o ritmo. Impulsiva, caótica, viva.


No alto de uma das torres holográficas, Drax observava o campo.

Leon, ao seu lado, mantinha o olhar analítico.


— Eles vão se destruir antes da hora. — disse Leon. — Devemos agir quando o terreno estiver limpo.


— E perder a diversão? — Drax respondeu, os olhos faiscando.


Leon respirou fundo.

— Isso aqui não é sobre matar... é sobre descobrir. Então, controle sua raiva. Lembre-se que estamos aqui pelo seu irmão também.


Drax o fitou em silêncio.

Drax respirou fundo, deixando a raiva escorrer em faíscas invisíveis ao redor da pele.

— Então… eu me divirto assistindo, certo? — murmurou, os olhos faiscando.

— Exatamente. E você sabe que estamos aqui pelo seu irmão também — completou Leon, em tom de lembrança silenciosa.


Datti foi a primeira a atacar de verdade. Saltou de uma rua flutuante, o bastão girando em um arco amplo. Blank desviou, calculando cada movimento antecipadamente, mas Sable criou uma ilusão de paredes surgindo do nada, confundindo Myra por uma fração de segundo.


— Espera… — murmurou Myra, desviando, quase tropeçando em uma parede ilusória que desapareceu assim que a tocou.


Artem e Ilya avançaram em sincronia, criando um redemoinho de gravidade parcial. O ar ao redor de Datti e Myra tornou-se pesado e instável, forçando-as a recalibrar cada salto. Datti gemeu, mas sorriu:

— Não vai ser fácil assim, né?


Blank aproveitou a confusão e avançou, mas Datti girou o bastão, criando uma barreira improvisada de impacto, desviando o ataque do homem que lia mentes.

— Impressionante — comentou Blank, com um leve sorriso, — mas nada previsível dura para sempre.


O público holográfico rugiu em coro. A tensão vibrava entre as paredes que se dobravam, as ruas que nasciam e morriam em segundos, e o chão que parecia respirar com cada impacto.


— Está ficando interessante — murmurou Drax, a eletricidade serpenteando pelos dedos.


Leon, ao lado dele, manteve o olhar frio, calculado.

— O perigo é inevitável — disse, com a voz calma e firme. — Mas lembre-se do propósito: não é sobre quem sobrevive. É sobre o que descobrimos. Foco.


Drax desviou o olhar por um instante, como se lutasse contra a própria impulsividade. Mas a paciência não era uma virtude dele.


De repente, ele rangeu os dentes e disparou para frente, eletricidade explodindo sob seus pés.


— Que se dane ficar parado esperando! — gritou, saltando com brutalidade e caindo à frente de Blank, o impacto rachando o solo holográfico. — Vamos acabar logo com isso!


O impacto de Drax contra o solo holográfico não foi apenas força.


Foi excesso.


O chão se partiu em placas de luz azulada. Rachaduras elétricas se espalharam como veias abertas.


O público rugiu.


Drax respirava pesado, o peito subindo e descendo rápido demais. A eletricidade escapava de seu corpo sem controle, serpenteando pelo braço que ainda tinha — e, por um instante estranho, faiscando também no espaço vazio onde o outro deveria estar. O chão sob seus pés escurecia, queimado.


— Aparece! — rosnou.


Blank não se moveu.


Ele apenas observou.


A cabeça se inclinou levemente para o lado, como alguém analisando um padrão já conhecido.


— Força bruta. Emoção crua. Raiva acumulada. — murmurou, a voz ecoando não só no ar, mas dentro da mente de Drax. — Você não luta… você explode.


O mundo ao redor de Drax se distorceu.


As ruas se multiplicaram, dobrando sobre si mesmas.

Becos surgiam onde não deveriam existir.


Drax girou o corpo e atacou.


O soco atravessou uma ilusão.


Outro golpe. Vazio.


Ele avançava rápido demais, gastando energia, reagindo a estímulos que não existiam. Cada erro alimentava o próximo.


— Droga…! — ele rangeu os dentes.


Foi quando Sable se moveu.


Ele não correu. Não saltou.


Simplesmente apareceu.


O movimento dele era suave, quase flutuante, como se o próprio campo o carregasse. A lâmina curta surgiu na mão num brilho silencioso, mirando o ponto exato entre as costelas de Drax — não para matar, mas para desligar músculos, quebrar o ritmo.


O golpe não chegou.


Leon surgiu entre eles.


Não com brutalidade. Não com espetáculo.


A luva de Leon brilhou em ciano por um breve instante quando ele interceptou o ataque. Dois dedos pressionaram o pulso de Sable, desviando a lâmina por centímetros, uma descarga curta — não ofensiva, apenas disruptiva — percorrendo o metal. O corpo dele girou o suficiente para colocá-la fora de posição, forçando-a a recuar dois passos.


O corpo de Leon completou o giro antes mesmo de Sable terminar o recuo.


Um passo curto. Ângulo fechado. O cotovelo dele passou a centímetros do rosto dela — não como ataque, mas como limite. Um aviso silencioso de espaço controlado.


— Não aqui. — disse Leon, baixo.


Sable franziu o cenho, reajustando a postura. Os olhos dela não mostravam raiva, mas cálculo. Ela girou a lâmina na mão, trocando a empunhadura, buscando um novo ritmo.


Atrás deles, Drax ainda lutava contra o próprio impulso.


O cenário continuava instável.As ilusões de Blank piscaram por um instante — interferência suficiente para quebrar o padrão.


— Você está desperdiçando energia. — a voz de Blank voltou, calma demais. — Ele não é seu escudo. Ele é seu atraso.


Drax cerrou os dentes.


E, pela primeira vez, não avançou.


Ele puxou o ar com força, sentindo a eletricidade retornar para dentro do corpo, comprimida, densa. As faíscas diminuíram… mas não desapareceram.


Algo errado aconteceu.


A energia se acumulou onde não havia carne.


O espaço ao lado do ombro vazio começou a crepitar.


Drax arregalou os olhos quando viu fios elétricos se entrelaçando no ar, moldando algo instável, bruto — um contorno de braço feito de pura energia, pulsando conforme sua respiração.


— Isso é novo — murmurou.


Leon sentiu a mudança sem olhar.


— Agora. — disse.


Drax bateu o pé no chão.


Não houve explosão.


Houve propagação.


A onda elétrica correu baixa pela superfície holográfica, mais densa, mais concentrada. O braço de energia se estendeu instintivamente, tocando o chão e amplificando a descarga.


Blank deu meio passo para trás pela primeira vez.


Sable aproveitou o instante.


Ela avançou em Leon com uma sequência limpa — três golpes rápidos, lâmina, cotovelo, joelho. Leon respondeu com o mínimo necessário: desviou o primeiro, travou o segundo com o antebraço protegido pela luva, uma faísca roxa escapando, e girou o quadril para tirar o corpo da linha do terceiro.


Nenhum golpe desperdiçado. Nenhuma força além do necessário.


Datti observava.


Ela conhecia aquele ritmo.


Não o antigo — brutal, eficiente demais, feito para terminar rápido.


Esse era… outro.


— Ele está medindo os ataques. — murmurou, mais para si do que para Myra.


Myra assentiu, ajustando a posição ao lado dela.


— E escolhendo não matar ninguém.


Datti avançou.


Não houve técnica refinada.


Houve impacto.


O bastão desceu como se pudesse partir a arena ao meio, força pura concentrada no golpe. Leon recuou um passo, depois dois, sentindo o choque vibrar pelos ossos mesmo através da defesa.


Ela atacava como antes.


Como eles atacavam juntos.


Leon bloqueou o segundo golpe cruzando os antebraços, as luvas absorvendo parte do impacto com um estalo elétrico. Ele girou o corpo para sair do eixo e, em vez de contra-atacar com força, tocou o pulso dela — breve, preciso — e se afastou.


Datti sentiu.


Não dor.


Reconhecimento.


— Você podia ter quebrado meu braço. — disse ela, mantendo a guarda.


— Eu sei. — respondeu Leon.


Sable voltou a atacar Drax.


Dessa vez, ela não mirou o corpo.


Mirou o ritmo.


A lâmina passou rente ao pescoço, depois ao joelho, depois ao torso — golpes calculados para forçar reação. Drax recuou, respirando, o braço elétrico oscilando, quase se desfazendo conforme a raiva ameaçava sair do controle.


— Drax! — Leon chamou, sem virar.


Ele fechou os olhos por um segundo.


Quando abriu, mudou a postura.


Em vez de perseguir Sable, ele esperou.


Ela avançou.


E caiu no erro.


O braço de energia de Drax se solidificou por um instante quando ele segurou o pulso dela. A eletricidade vibrou, contida, precisa — não para ferir, mas para travar. Leon apareceu ao lado, um movimento seco, cirúrgico, desarmando-a. A lâmina caiu no chão com um som metálico limpo.


Sable saltou para trás, ofegante, surpresa evidente no olhar.


— Trabalho em equipe… — murmurou Blank, observando. — Interessante.


Leon ergueu o olhar para ele.


— Ele só me lembrou de algo. — respondeu. — Força sem controle é só barulho.


O outro par se moveu, mas sem destaque.


Pressão. Peso. Nada que importasse.


Myra e Datti já estavam lá, quebrando o avanço com lâminas e pura força física, abrindo espaço.


Leon aproveitou.


Ele entrou rápido, a katana Tomura surgindo num movimento fluido. A lâmina brilhou por um instante quando a energia das luvas a percorreu, faíscas roxas dançando ao redor do fio — não para cortar fundo, apenas para impor respeito.


Um golpe curto. Um empurrão. Espaço criado.


Drax completou o movimento, descarregando uma onda elétrica precisa no chão entre eles, desestabilizando tudo o que restava.


O silêncio se espalhou pela arena.


Não havia corpos no chão.

Não havia gritos.

Não havia o tipo de vitória que o público esperava.


Foi Datti quem se moveu primeiro.


Ela girou o bastão nos dedos uma última vez, sentindo o peso familiar, o equilíbrio perfeito da arma que a acompanhara por tantas lutas — inclusive ao lado de Leon. Depois, com um gesto simples, fincou a ponta no chão holográfico.


O impacto não foi forte.


Mas foi definitivo.


Myra olhou para ela no mesmo instante.


— Datti…? — murmurou.


Datti manteve os olhos em Leon.


Não havia desafio ali.

Nem rancor.

Apenas constatação.


— A gente pode continuar. — disse. — Posso te acertar mais forte. Posso forçar você a errar.


Leon não respondeu.


Ela soltou um riso curto, sem humor.


— Mas você não vai voltar a ser quem era. — completou. — E eu não vou fingir que não vi isso.


Myra respirou fundo.


Ela também havia visto.


Vira Leon recuar quando podia avançar.

Vira golpes contidos onde antes haveria ossos quebrados.


Myra fechou as lâminas e as guardou lentamente.


Datti assentiu.


— Te vejo por aí depois, quem sabe para comer uns doces... Cirurgião da Morte.


Então deu um passo para trás.


O sistema da arena reagiu com um som grave, reconhecendo a desistência voluntária da dupla. As luzes sob os pés delas mudaram de tom, apagando-se aos poucos.


O público murmurou, confuso.


Do outro lado do campo urbano holográfico, Artem e Ilya observaram em silêncio.


Os irmãos sempre lutaram juntos. Sempre terminaram juntos.


Ilya foi o primeiro a baixar a postura.


— Elas desistiram?! — disse, a voz baixa. — Isso… não é possível.


Artem olhou para Leon.


Depois para Drax.


Depois para o chão.


— A arena foi feita para morte, dor, provar superioridade. — murmurou. — Eles estão fazendo o oposto. Não é à nossa luta, é deles.


— Mas e a grana?


— Fodasse a grana, eles não podem nos comprar mesmo. — Disse Artem jogando o dinheiro sujo no chão.


Os dois se viraram ao mesmo tempo, em perfeita sincronia.


Artem pousou o joelho no chão.

Ilya fez o mesmo.


Não submissão.


Respeito.


O campo gravitacional ao redor deles se desfez suavemente, como se a própria arena aceitasse a decisão. O peso no ar diminuiu.


Mais um par fora.


Agora, só restavam dois.


Blank permaneceu imóvel.


Os olhos dele percorriam a cena com atenção cirúrgica:

Sable desarmada, mas em pé.

Datti e Myra afastadas.

Os irmãos ajoelhados.

Drax respirando fundo, o braço de energia ainda instável, pulsando como algo que não deveria existir — mas existia.

Leon à frente, postura firme, sem ameaça aberta.


Blank deu um passo à frente.


A pressão mental voltou.


Não como ataque direto — mas como teste.


O mundo tentou se dobrar outra vez. As bordas da arena tremeram. Fragmentos de cenários antigos surgiram e desapareceram, tentando provocar, confundir, puxar reações violentas.


Leon não se moveu.


Drax também não.


Eles ficaram.


— Interessante… — murmurou Blank, incomodado. — Todos desistiram. Menos vocês.


Ele avançou mais um passo.


Sable se reposicionou ao lado dele, recolhendo outra lâmina, firme, sem hesitação.


— Vamos acabar com isso. — disse ela, baixa.


Blank não respondeu.


O ataque veio coordenado.


Não rápido.

Não brutal.

Preciso.


Sable avançou primeiro, forçando Leon a se mover. Blank pressionou a mente de Drax no mesmo instante, puxando raiva, lembranças, frustração — tudo o que normalmente funcionava.


Drax sentiu o impacto.


O braço elétrico vacilou, ameaçando explodir.


Ele rangeu os dentes.


E… não explodiu.


Em vez disso, o braço se contraiu, se moldando melhor, mais compacto, como se estivesse aprendendo junto com ele.


Leon entrou no espaço de Sable no tempo exato.


O golpe dele parou antes de virar intenção.


Ele desviou. Redirecionou. Usou o próprio movimento dela para colocá-la fora do eixo, sem jogá-la no chão, sem ferir.


Blank avançou mentalmente outra vez.


E encontrou resistência.


Não um bloqueio.


Uma ausência.


A mente de Leon não oferecia âncoras. Nem culpa. Nem prazer. Nem medo. Nada que pudesse ser puxado.


— Você acabou com a graça. — disse Blank, pela primeira vez sem calma total.


Drax avançou.


Não com descarga.


Com controle.


O braço elétrico tocou o chão, espalhando interferência suficiente para quebrar as ilusões de Blank, mas não para ferir ninguém. O campo visual falhou, piscou, caiu.


Por um segundo, tudo ficou real demais.


Blank parou.


Não por cansaço.


Por falta de opções.


Ele analisou rápido. Sempre analisava.


Força bruta não funcionaria.

Pressão mental não escalava.

Violência só criaria resistência coordenada.


Leon e Drax estavam sincronizados — não como armas, mas como decisões conscientes.


Blank ergueu a mão.


Sable congelou imediatamente, surpresa.


— Chega. — disse ele.


A arena começou a se estabilizar.


Não havia vitória declarada.


Mas o combate… cessou.


Blank encarou Leon por um longo segundo.


Não havia respeito ali.

Nem admiração.


Apenas cálculo frio.


— Isso não termina aqui. — disse. — Vocês não venceram. Apenas… provaram algo inconveniente.


Leon sustentou o olhar.


— Era tudo o que precisávamos.


Blank virou-se, sinalizando para Sable.


Eles recuaram.


O público explodiu em reação atrasada, confusa, dividida — sem saber se aquilo tinha sido um espetáculo ou uma falha da arena.


Drax soltou o ar lentamente.


O braço elétrico se dissipou, deixando apenas um leve formigamento.


— Parece que vencemos.


Leon olhou para o espaço agora calmo, a arena perdendo sua agressividade artificial.


— Não. — respondeu. — A gente passou.


--- 💫 ---


A arena não se desligou de uma vez.


Ela desaprendeu a ser violenta.


As estruturas holográficas começaram a perder definição, como prédios esquecendo que eram sólidos. As ruas se achatavam em linhas de luz, os becos se dissolviam em grades transparentes. O céu artificial apagava suas camadas, voltando a um tom neutro, quase pálido.


O público ainda fazia barulho, mas já não era um rugido.


Era ruído.


Gente tentando entender o que tinha acabado de acontecer.


Drax ficou parado por alguns segundos a mais do que precisava. O corpo ainda lembrava do combate, da tensão acumulada. Ele fechou a mão que existia… e, por reflexo, tentou fechar a outra.


Não havia nada ali.


Ainda assim, sentiu.


Um eco elétrico fraco percorreu o ombro vazio, não como dor — como memória.


— Então é isso que acontece quando eu não explodo… — murmurou, mais para si do que para Leon.


Leon se aproximou sem pressa.


— Você segurou. — disse. — Isso é mais difícil do que parece.


Drax soltou um riso curto, quase descrente.


— Não parecia possível.


Leon não respondeu de imediato.


Ele olhava para o chão onde Datti havia fincado o bastão. O local ainda mantinha uma marca residual — um ponto fixo no campo de luz, como se a arena tivesse decidido lembrar daquele gesto.


Datti permanecia ali, imóvel.


Não como alguém esperando outro ataque.


Mas como alguém encerrando um ciclo.


Myra tocou de leve o braço dela, um gesto simples, silencioso. Datti assentiu uma única vez e então virou-se para Leon.


Os dois ficaram frente a frente.


Sem armas erguidas. Sem postura de combate.


Por um instante estranho, o barulho ao redor pareceu distante demais.


— Eu achei que ia doer mais. — disse Datti, quebrando o silêncio.


Leon inclinou levemente a cabeça.


— O quê?


— Ver você assim. — Ela respirou fundo. — Diferente.


Não havia acusação na voz dela. Nem saudade explícita.


Havia… ajuste.


— Eu não mudei porque quis esquecer. — disse Leon. — Mudei porque continuar daquele jeito ia me destruir. E levar mais gente junto.


Datti soltou o ar devagar.


— Eu sei. — respondeu. — É por isso que eu larguei o bastão.


Ela se virou, caminhando alguns passos antes de parar.


— Não porque você venceu. — completou, sem olhar para trás. — Mas porque você não tentou.


Leon aceitou aquilo em silêncio.


Era o máximo de reconciliação que aquele lugar permitia.


Do outro lado da arena, Blank observava tudo enquanto os sistemas se reorganizavam. Os painéis de dados surgiam e desapareciam ao redor dele, números sendo recalculados, probabilidades descartadas.


Sable se aproximou.


— Você parou cedo demais. — disse, baixa. — Ainda dava pra forçar.


Blank não tirou os olhos de Leon e Drax.


— Forçar o quê? — respondeu. — Eles não estavam defendendo posição. Estavam defendendo decisão.


Sable franziu o cenho.


— Isso não muda o resultado.


— Muda sim. — disse ele. — Só não hoje.


Ele se virou finalmente, encarando-a.


— Eles não venceram a arena. — continuou. — Eles mostraram que ela está ficando obsoleta.


Isso incomodava.


Muito.


Os portões começaram a se abrir ao redor do campo, liberando os competidores. A gravidade artificial voltou ao padrão. O peso real do corpo se impôs de novo.


Artem e Ilya passaram por Leon e Drax.


Ilya parou por um segundo.


— Vocês vão atrás da P.A., não vão? — perguntou.


Leon assentiu.


— Precisamos encontrá-la antes que alguém use o que sobrou dela.


Artem sorriu de canto.


— Então é bom se apressarem. — disse. — Gente como o Blank não larga um problema assim.


Eles seguiram adiante.


Quando o espaço finalmente ficou mais vazio, Drax respirou fundo outra vez.


— Sabe o que é estranho? — comentou. — Eu sempre achei que vencer era deixar alguém no chão.


Leon olhou para a saída, para onde a luz real começava a substituir o brilho artificial.


— Hoje, vencer foi sair inteiro. — respondeu. — E sair junto.


Drax assentiu.


— Samuel ia gostar disso.


sorriu.


Mas o silêncio que veio depois não era pesado.


Era firme.


Como um caminho que, pela primeira vez em muito tempo, estava claro o suficiente para ser seguido.


--- 💫 ---


O corredor fora da arena era apenas trânsito.


Metal conhecido. Luz conhecida. Nada ali chamava atenção para quem já tinha passado por aquilo vezes demais.


Blank seguia à frente, impaciente.

Não parecia alguém que tivesse acabado de perder uma vantagem — parecia alguém frustrado por não ter terminado a luta.


— Se era informação que vocês queriam, deviam ter pedido antes de atrapalhar. — disse, sem olhar para trás.


— Você não estava interessado em conversar. — respondeu Leon. — Só em testar limites.


Blank riu pelo nariz.


— Ainda estou.


Eles pararam. Não por portas, nem por protocolo — só porque Leon decidiu que ali bastava.


— Então fala. — disse. — O que você sabe.


Blank virou devagar, o olhar indo direto para Drax, avaliando o estado dele como quem mede um adversário inacabado.


— Quase nada. — respondeu, seco. — E isso é o que mais irrita vocês, né?


Drax abriu a boca para responder, mas Leon foi mais rápido.


— O “quase” já é suficiente.


Blank descruzou os braços lentamente.


— Antes da luta. — disse. — Dei uma olhada rápida na mente de um dos caras que iam entrar.


Drax franziu o cenho.

— E daí?


— Não era sobre a arena. — respondeu Blank. — Era sobre alguém que ele conhecia.


Leon não interrompeu.


— Uma colega. Lutavam juntos. Confiavam um no outro. — Blank inclinou a cabeça. — Ele lembrava dela como alguém barulhenta. Questionadora. Sempre reclamando de tudo.


Blank fez uma pausa curta.


— Até parar.


O silêncio no corredor se ajustou.


— Não foi medo. Nem lavagem cerebral. — continuou. — Foi… aceitação demais. Ela começou a repetir ideias que não eram dela. Sempre calmas. Sempre razoáveis. Sempre com a mesma conclusão: parar de resistir era mais inteligente.


Drax sentiu um arrepio subir pelo braço.


— Ela parecia melhor. — acrescentou Blank. — Dormia melhor. Não brigava. Não se frustrava.


Leon falou pela primeira vez:

— E isso te incomodou.


Blank assentiu de leve.


— Porque não tinha ninguém mandando. — disse. — As ideias só… voltavam. Como se alguém tivesse reorganizado o que ela achava importante.


Ele olhou para o chão.


— Ninguém mandou ela parar. — concluiu. — Ela só percebeu que lutar dava mais trabalho.


Ele se virou um pouco, já perdendo o interesse.


— Quem está por trás disso não obriga ninguém.

Só faz parar parecer sensato.


O corredor permaneceu em silêncio por alguns segundos.


Não era o tipo de revelação que exigia resposta imediata.

Era o tipo que ficava.


Leon desviou o olhar, sentindo o peso daquilo se encaixar em memórias que ele preferia manter fechadas.


Drax fechou a mão lentamente.


Não com raiva.

Com decisão.


— Convencer alguém a desistir… — murmurou. — Isso é pior do que forçar.


Blank já estava se afastando.


— É mais limpo. — respondeu, sem olhar para trás. — E funciona melhor.

— Resistência cansa. Aceitação descansa.


Eles o deixaram ir.


Quando o corredor voltou a se encher do som distante da Cidadela retomando seu ritmo, Leon respirou fundo.


— Seja o que for isso… — disse. — Não é só uma ameaça externa.


Drax assentiu.


— É uma guerra contra a vontade.


Leon pensou em Samuel.

Na maneira como ele avançava sem pressa, sem brutalidade, sem nunca empurrar ninguém para frente — apenas lembrando que ainda valia a pena continuar.


— Então é por isso que ele incomoda tanto. — concluiu. — Porque ele não manda ninguém seguir.


Drax apenas olhou para frente.


E, pela primeira vez desde que haviam entrado naquela arena, o caminho adiante pareceu mais claro — não por ser fácil, mas por ser necessário.


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