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A bancada era velha, arranhada, cheia de cortes finos e marcas de ferramentas que o tempo já tinha apagado. Mesmo assim, Koran estava sentado ali como se fosse uma cadeira de comando. Costas retas, mãos apoiadas nos joelhos, tentando parecer alguém que sabia o que estava fazendo.
E aquilo era importante.
Não pelo lugar — mas porque Soffy estava ali, parada à sua frente, braços cruzados, analisando cada detalhe dele como quem avalia um recruta… ou um possível desastre ambulante.
— Certo — ela disse, ajeitando o casaco, jogando o peso pro lado com impaciência — vamos tentar de novo.
Ela deu um passo pra frente, inclinando-se um pouco, o olhar apertado como se estivesse montando um personagem que ele deveria interpretar.
— Situação um: você tá andando pela oficina e um dos seus colegas de trabalho tenta puxar papo contigo. Como você iria agir? — Ela ergue o queixo. — Então eu vou ser esse colega. Presta atenção.
Ela muda completamente o jeito de falar, se transformando em uma voz masculina.
— Ô garoto… eu curti essa gambiarra ai sua.. Mas assim? Posso te ensinar de uma maneira mais moleza, que tal..
Koran esfrega o polegar contra o indicador, tentando lembrar de tudo que ela disse nas últimas horas. Então responde de forma educada, quase formal demais:
— Obrigado! Eu iria adorar bastante a sua ajuda e cooperação, colega.
Soffy arregala os olhos.
— O que é isso, ta falando com um juiz?! — Ela coloca as mãos na cintura. — Virou soldado por acaso?
Koran abre a boca pra se defender:
— Assim… tecnicamente eu sou um so—
— Cala a boca. — Ela levanta a mão, frustrada, mas rindo pelo nariz. — Você não entendeu nada. Nada.
Ela passa a mão pelo cabelo e suspira mais forte ainda.
— Você tem certeza que quer isso mesmo?
Koran ajeita-se na bancada, firma os punhos e a expressão muda. Séria. Determinada. Aquela que ele só mostrava quando o assunto era Drax.
— É claro que eu quero. Eu tenho que mostrar pro Drax que eu não sou só um fracote com medo. Tenho que mostrar que sou forte. Forte pra caramba. — Ele respira fundo, firme. — Eu preciso.
Por um momento, Soffy o observa calada. Não com pena — mas com um reconhecimento silencioso. Ela vê alguém tentando crescer, e vê algo de si mesma nisso.
Suspira mais uma vez, mas dessa vez não de irritação — e sim de cansaço misturado com compreensão.
— Se você diz. — Ela dá um leve empurrão no ombro dele com a ponta dos dedos. — Mas lembra do nosso trato. Não faço isso por pena. Você quer aprender? Então aprende direito.
— Eu vou. — Koran afirma.
— Beleza. — Soffy estala os dedos como quem chama a próxima cena. — Então vamos continuar. E dessa vez tenta parecer menos… idiota. Você não tá treinando pra virar mocinha.
Ela vira de costas e faz sinal para ele segui-la.
E pela primeira vez desde que começaram aquilo, Koran vai atrás dela sem hesitar. Agora demonstrava mais confiança.
E Soffy percebe — mesmo que não admita — que ele realmente está mudando.
Assim como ela.
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Horas se passaram.
Koran estava novamente na oficina, mas dessa vez não parecia tão deslocado quanto antes. Não era que ele tivesse se tornado um deles… mas estava começando a entrar no ritmo caótico daquele lugar.
Pink, Phomer e TM discutiam ao redor de uma mesa lotada de peças enferrujadas, cada um defendendo uma ideia diferente como se fosse uma lei universal. Madson, afastado, ajustava uma arma improvisada que chiava de um jeito preocupante.
Koran respirou fundo.
Fala simples. Postura relaxada. Nada de “sim senhor”, nada de formalidade. Age natural… o mais natural que conseguir.
Ele se aproximou da bancada.
Phomer, vendo ele chegar, lançou:
— Viu, novato? A gente tá tentando fazer esse trambolho funcionar. Mas esses dois aqui são cabeça dura.
Pink bufou.
— Cabeça dura é você! Isso aí não tem sustentação nenhuma!
TM só revirou os olhos.
Koran apoiou o cotovelo na borda — imitando sem perceber a postura do TM — e comentou:
— Essa peça aí tá frouxa. Se encaixar assim, vai soltar de novo.
Os três pararam.
Pink inclinou a cabeça.
— Desde quando tu mete opinião nas nossas porcarias?
Koran ajustou a postura na bancada, sentindo o olhar deles pesar.
Respira. Não fala como soldado.
— Ué… vocês quase me acertaram com isso mais cedo. Pensei que… sei lá… pudesse evitar de morrer hoje.
Pink explodiu numa risada.
— Hahaha! Finalmente tá abrindo a boca sem gaguejar!
TM deu um leve empurrão no ombro dele.
— Tá ficando esperto, novato.
Koran deu de ombros, imitando o descaso que via neles.
Por dentro, estava estranhamente confortável.
Do outro lado da oficina:
— CONSEGUI! — Madson anunciou, levantando a arma improvisada como um troféu.
Antes que alguém pudesse comentar, a arma fez um CHIC… seguido de um BOOM com faíscas voando.
Pink caiu de susto.
TM berrou:
— TU É MALUCO MADSON, NÉ ASSIM NÃO.
Koran, ao invés de se jogar no chão como faria antes, só murmurou:
— É… acho que isso não era pra acontecer.
Madson, coberto de fumaça, tossiu.
— Porra.. acho que funcionou não..
Phomer colocou as mãos na cabeça.
— Tu acha ainda!? Tu quase abriu um buraco no teto!
Koran soltou um riso baixo.
Pequeno.
Natural.
E pela primeira vez, os quatro o olharam não como “o novato estranho”…
mas como alguém que realmente estava ali com eles.
Pink sorriu.
— Se continuar assim, vai virar gente aqui na oficina rapidinho.
Koran desviou o olhar, tímido mas satisfeito.
— Tô só… me acostumando com vocês.
TM ri.
— Boa sorte, então. A gente não é fácil não.
Enquanto o grupo voltava ao caos habitual, Soffy observava ao longe, apoiada na porta entreaberta.
Sem interferir.
Sem chamar atenção.
Mas havia algo diferente no olhar dela.
Sem perceber, Soffy relaxou os ombros — um hábito que não tinha quando estava sozinha.
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