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Samuel e Sylas avançavam pelas zonas deterioradas do Setor 8. Os caminhos ali pareciam sufocadas pelo tempo â o concreto rachado, os fios pendendo do alto como serpentes mortas, e um silĂȘncio opressor interrompido apenas pelos passos soltos de desconhecidos que observavam com olhares duros e julgadores.
NĂŁo era um lugar acolhedor. E Sylas sentia isso.
O tigre caminhava com o corpo tenso, as orelhas baixas e os olhos atentos. Mesmo sem emitir som algum, o medo transparecia em cada passo que dava â mais lento, mais hesitante. AtĂ© que, quase instintivamente, ele se aproximou de Samuel, buscando algo que o ambiente havia arrancado: segurança.
Samuel percebeu. Parou de andar. Se virou com tranquilidade e se agachou diante dele, na altura de seus olhos. Seus olhos sérios encontraram os de Sylas, mas havia ali algo que poucos conseguiam ver: uma firmeza acolhedora, uma presença que dizia mais do que mil palavras.
â EstĂĄ assustado... â murmurou, observando os pequenos tremores do corpo de Sylas. â VocĂȘ nunca ficou longe do Lucius, nĂŁo Ă©?
Sylas hesitou, mas entĂŁo balançou a cabeça, de forma quase imperceptĂvel. Ele compreendia. Mesmo sendo apenas um animal, havia algo na voz de Samuel que o fazia entender â como se palavras fossem secundĂĄrias, e a verdade estivesse nos gestos.
â Ele confiou vocĂȘ a mim â continuou Samuel, com a mesma serenidade. â Isso jĂĄ diz tudo. Se ele acredita que eu posso te proteger... entĂŁo Ă© o que eu vou fazer.
Levantou uma das mĂŁos e a estendeu devagar, sem pressa. Sylas se aproximou e, com um gesto pequeno mas cheio de significado, esfregou a cabeça na mĂŁo de Samuel â buscando ali o calor que o mundo lĂĄ fora insistia em negar.
Por um instante, sĂł havia aquele silĂȘncio. Um instante raro de paz.
Mas a calmaria foi rasgada.
Um chiado agudo e repentino cortou o breve silĂȘncio, vindo do comunicador preso Ă orelha de Samuel. Seus olhos, que antes carregavam um traço de empatia ao lado de Sylas, voltaram ao foco inabalĂĄvel de sempre â frios, atentos, preparados.
A voz que veio logo em seguida foi carregada de ironia e desprezo:
â Olha sĂł... emocionante. â Trash zombou com um tom debochado. â VocĂȘ Ă© um psicĂłlogo de animais?
Samuel manteve-se calado, inexpressivo. O silĂȘncio dele parecia responder mais do que qualquer palavra.
â Relaxa, nĂŁo Ă© julgamento... sĂł acho patĂ©tico mesmo â continuou Trash, rindo brevemente, como se falasse com alguĂ©m inferior. â Mas vamos ao que interessa. Eu nĂŁo vim te chamar pra sessĂŁo de terapia.
A voz dele mudou levemente de tom â ainda sarcĂĄstica, mas agora havia um traço de interesse genuĂno, raro.
â VocĂȘ me pareceu... diferente. SĂ©rio demais. E talvez, sĂł talvez, confiĂĄvel o bastante pra seguir minhas ordens cara a cara.
Uma breve pausa. O barulho do rådio crepitava entre as palavras como se fosse parte da própria presença caótica de Trash.
â Eu normalmente ignoro todo mundo. A maioria fede... ou de medo, ou de inutilidade. Mas vocĂȘ... â a risada dele voltou, mais baixa â vocĂȘ me intriga.
O chiado do rĂĄdio voltava a ranger entre as palavras, como se atĂ© a estĂĄtica tivesse medo de interromper aquela voz. Por um instante, sĂł o som metĂĄlico preenchia o ar. EntĂŁo, ela veio â carregada de escĂĄrnio e quase animalesco.
Samuel nĂŁo respondeu. Apenas manteve a mĂŁo prĂłxima ao comunicador, os olhos fixos em nada, mas atentos a tudo. Sua expressĂŁo continuava sĂ©ria, imperturbĂĄvel. Do lado, Sylas observava em silĂȘncio, como se a voz que ecoava no rĂĄdio tambĂ©m o fizesse sentir algo estranho, incĂŽmodo.
â NĂŁo me faça me arrepender de apostar em vocĂȘâŠ
Trash silenciou por um segundo, e quando voltou, sua voz carregava um tom mais sombrio, quase cĂnico:
â Tem um lugar por aqui, numa parte esquecida da estação. Um canto... que eu nĂŁo reconheço como territĂłrio da Skull. Isolado, quieto demais. Boatos dizem que coisas estranhas acontecem por lĂĄ. Uns falam atĂ© em algo sobrenatural.
Ele riu de novo, sem humor.
â Eu nĂŁo acredito em besteiras assim. Mas... se alguĂ©m quer esconder algo de mim, vai tentar fazer isso bem longe dos meus olhos. E lĂĄ parece... perfeito demais pra isso.
Uma notificação discreta surgiu no comunicador de Samuel.
â Enviei a localização. Quando chegar, me avise. Estarei esperando.
Houve uma pausa longa, incĂŽmoda, como se Trash estivesse prestes a dizer algo mais. O chiado do comunicador parecia intensificar o silĂȘncio entre uma palavra e outra.
Do outro lado, ele hesitou.
â E, aliĂĄs... â começou, num tom diferente, mais introspectivo. Havia um traço de dĂșvida, porĂ©m deixou de lado â âŠdeixa pra lĂĄ.
O som cortou. SilĂȘncio.
Trash queria perguntar. Sobre Samuel, sobre o relato que ouviu, mas decidiu que agora nĂŁo era a hora certa.
Samuel soltou a mĂŁo do comunicador sem mudar de expressĂŁo. Deu meia-volta com passos firmes, calmos... mas cada movimento seu carregava aquela aura densa de convicção â a certeza de que, onde quer que fosse, ele jamais recuaria.
Sylas o seguiu em silĂȘncio. Sempre atento. NĂŁo apenas como um aliado â mas como alguĂ©m que jĂĄ percebia, mesmo sem palavras, o que Samuel era: nĂŁo um lĂder, nem um soldado, mas o fio de esperança que, mesmo entre as sombras daquela estação decadente, continuava a brilhar sem vacilar.
E ainda que Samuel nĂŁo dissesse nada... ele o mantinha por perto. Como quem protege. Como quem guarda uma parte de si.
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Drax caminhava ao lado de Leon, seus passos ecoando pelos corredores gĂ©lidos e silenciosos. Eles nĂŁo estavam sozinhos â olhos curiosos acompanhavam a dupla, murmurando entre si. Muitos reconheciam o homem ao lado de Drax⊠e nĂŁo era por boas razĂ”es.
â CirurgiĂŁo da Morte... que apelido mais ridĂculo. â resmungou Drax, cruzando os braços com desdĂ©m. â De onde foi que inventaram essa merda?
Leon suspirou, sem reagir com humor.
â Meu passado aqui nĂŁo Ă© um dos melhores. â respondeu, lançando um olhar de relance para alguns que os observavam, visivelmente desconfortĂĄveis com sua presença.
Drax bufou.
â Passado, passado, passado... VocĂȘ sĂł sabe falar disso, Ă©? Parece um disco riscado.
Leon parou por um segundo, como se ponderasse se valia a pena explicar. Mas Drax continuou:
â Meu passado tambĂ©m Ă© uma porcaria, pior que o seu, provavelmente. Mas eu nĂŁo fico por aĂ reclamando, dizendo pra todo mundo o quĂŁo "sombrio" ele Ă©.
Leon manteve o tom calmo, porém carregado de uma verdade amarga.
â Eu jĂĄ estive em situaçÔes onde precisei decidir se alguĂ©m vivia... ou morria. SituaçÔes em que a escolha era minha. â Ele olhou fixamente para o chĂŁo, como se revivesse cada uma. â VocĂȘ acha que alguĂ©m devia ter esse poder? Claro que nĂŁo. NinguĂ©m deveria.
Houve um silĂȘncio breve, atĂ© ele continuar, a voz mais pesada:
â Eu nĂŁo gosto de matar. NĂŁo gosto de tocar a vida de ninguĂ©m dessa forma. Mas... existe alguĂ©m. Um ser. Eu preciso tirĂĄ-lo do caminho. Ă a Ășnica forma. Quando eu fizer isso... talvez, sĂł talvez... as almas que ele destruiu finalmente possam descansar.
Drax ficou em silĂȘncio por alguns instantes. Depois riu â uma risada sem alegria, quase amarga.
â VocĂȘ realmente acha que matar esse cara vai te dar paz?
Leon hesitou.
Drax chutou uma pedra no caminho e completou:
â Se vingança trouxesse paz... eu estaria em casa agora, com uma vida tranquila. Mas nĂŁo tĂŽ. TĂŽ aqui. E sabe por quĂȘ? Por causa do meu irmĂŁo. Cada maldito passo que eu dou Ă© por ele.
Leon o encarou com mais atenção agora.
â Engraçado... vocĂȘ falando que vingança nĂŁo leva a nada?
Drax olhou de lado, o semblante endurecido.
â NĂŁo tĂŽ dizendo que Ă© ruim... sĂł tĂŽ dizendo que nĂŁo leva a porra nenhuma.
Leon franziu o cenho.
â VocĂȘ disse que tava aqui por causa do seu irmĂŁo, certo? E o que aconteceu com ele?
Drax parou de andar. O som das botas contra o chĂŁo de metal cessou. Seus olhos se voltaram lentamente para Leon, frios e intensos, como se atravessassem a alma.
â Isso nĂŁo Ă© da sua conta. â respondeu com firmeza, sem elevar a voz, mas com uma presença que silenciaria qualquer sala.
Leon ergueu as mĂŁos, tentando aliviar o clima.
â Calma, nĂŁo precisa ficar putinho. Pensei que estĂĄvamos compartilhando nossos passados.
Drax soltou um suspiro pesado, quase entediado com a conversa.
â Eu nĂŁo curto falar da minha vida.
Leon ia responder, mas apenas assentiu. JĂĄ tinha entendido: nĂŁo era sĂł uma dor ali, era uma ferida aberta que sangrava por dentro.
â Tudo bem entĂŁo... â disse por fim, parando ao lado de Drax. â De qualquer forma, chegamos.
Diante deles, o espaço se abria como uma arena improvisada, oculta entre corredores escuros da cidade subterrùnea. O ringue era montado no centro de um salão enferrujado, com grades tortas e luzes de neon piscando em tons vermelhos e violetas. O chão ao redor estava coberto por manchas escuras, algumas de óleo... outras que claramente não eram.
O pĂșblico começava a se reunir nas laterais: pessoas encapuzadas, com olhos fundos e expressĂ”es famintas por violĂȘncia. Alguns apostavam em silĂȘncio, trocando crĂ©ditos e favores. Outros apenas olhavam com sorrisos perturbadores. Era o tipo de lugar onde os fracos nĂŁo duravam e onde os fortes viravam lendas ou cadĂĄveres.
O ringue em si era simples, delimitado por quatro colunas com cabos tensionados, mas tinha algo ameaçador em sua presença. O metal reluzia em pontos onde o sangue não secou completamente. Acima, uma luz solitåria os iluminava, como se até a escuridão observasse o que viria a seguir.
Leon cruzou os braços, observando a arena.
â TĂĄ mais podre do que da Ășltima vez... â comentou, quase com desprezo. â Isso aqui nĂŁo muda nunca...
â EntĂŁo eles vĂŁo ter o que querem... â disse Drax, enquanto seus olhos se fixavam no centro do ringue, onde o destino jĂĄ o esperava.
Foi entĂŁo que uma voz conhecida soou do lado esquerdo da arquibancada improvisada:
â Ora, ora⊠olha sĂł quem resolveu aparecer â disse um homem alto, de cabeça raspada e um grande corte em forma de X na sobrancelha. Ele estava encostado numa das colunas de metal, com um sorriso malicioso surgindo nos lĂĄbios ao avistar Drax.
Drax o reconheceu imediatamente â era o mesmo desgraçado que havia o provocado mais cedo. O sujeito se afastou da parede, caminhando lentamente em direção a eles, arrastando os pĂ©s como quem saboreava cada passo da aproximação.
â Achei que vocĂȘ fosse covarde demais para aparecer aqui â zombou, deixando escapar um riso debochado.
Mas seu tom mudou sutilmente ao perceber quem estava ao lado de Drax.
Seus olhos encontraram Leon, e por um breve segundo, o sorriso se quebrou. Um dos homens ao lado dele â um sujeito de moicano e olhos fundos â sussurrou, visivelmente nervoso:
â Ei, ei⊠esse cara⊠é o CirurgiĂŁo. VocĂȘ sabe quem ele Ă©, nĂ©?
O provocador tentou manter a pose, mas seus olhos vacilaram por um instante. Ainda assim, tentou manter o tom sarcĂĄstico:
â Que surpresa⊠â disse o homem com um sorriso enviesado, os olhos se fixando em Drax antes de se voltarem lentamente para Leon. â NĂŁo sabia que vocĂȘ andava com lendas urbanas, sujeitinho⊠EntĂŁo agora Ă© assim que se anda por aqui? Com um mito ao lado?
A voz dele carregava uma malĂcia provocativa, como se estivesse mais interessado em provocar do que em conversar. Alguns dos homens atrĂĄs dele, antes cheios de arrogĂąncia, perderam o sorriso ao verem Leon ali. Um deles atĂ© deu um passo para trĂĄs. Eles o conheciam. E temiam.
Leon cruzou os braços com calma, seu olhar impassĂvel, frio como aço. NĂŁo precisou dizer nada. Sua presença, firme e imperturbĂĄvel, jĂĄ era resposta suficiente.
â Mas vamos ao que interessa⊠â continuou o sujeito, girando lentamente um palito de dentes entre os dedos, depois se apoiando de lado na grade enferrujada do ringue. â VocĂȘs nĂŁo vieram aqui sĂł pra fazer turismo nesse fim de mundo, nĂ©? Ouvi uns sussurros... boatos de que andam fuçando nos cantos errados, perguntando sobre relĂquias mortas... tipo a tal IAzinha largada. A P.A., certo?
Ele deu uma risada seca, zombeteira, como se a simples menção do nome fosse uma piada.
â Aquilo nĂŁo passa de um bug antigo que ninguĂ©m mais liga. SĂł mais um lixo velho largado por aĂ. Mas⊠â ele inclinou a cabeça de leve, os olhos se estreitando, como se conseguisse ver alĂ©m da pele de Drax e Leon â vai saber... talvez eu tenha escutado umas coisinhas interessantes sobre o que fizeram com o corpo dela. InformaçÔes boas⊠muito boas.
Drax deu um passo Ă frente, os punhos cerrados. A tensĂŁo em seus ombros era visĂvel, mas ele nĂŁo disse uma palavra. O mesmo, porĂ©m, notou. Ele notava tudo.
NĂŁo era apenas percepção comum. Era como se cada pensamento ecoasse em sua mente, como se a superfĂcie da alma de quem estivesse diante dele fosse um livro aberto. Ele nĂŁo apenas lia intençÔes â ele as sentia, as experimentava, e sabia exatamente em qual ferida tocar. Era essa habilidade que fazia dele um dos mais temidos no ringue: lutar contra ele era lutar contra alguĂ©m que sempre sabia seu prĂłximo movimento antes mesmo de vocĂȘ decidir.
Seus olhos brilharam com esse dom cruel, e o sorriso se alargou, venenoso.
â VocĂȘs nĂŁo precisam falar, eu jĂĄ sei o que vieram buscar â murmurou em tom de deboche. â Mas eu nĂŁo entrego informação de graça⊠aqui embaixo, tudo tem um preço.
Ele se afastou, girando o pescoço como quem aquecia antes de um espetåculo. O som dos ossos estalando ecoou pelo espaço. Em seguida, apontou para o ringue, os olhos faiscando com expectativa.
â Que tal um trato? VocĂȘs sobem aqui comigo. Se vencerem, eu conto o que sei. Se perderem⊠bem, aĂ nĂŁo vai importar mesmo. Pelo menos me darĂŁo um bom aquecimento.
Ele sorriu mais uma vez, com a confiança de quem jå havia lido o destino da luta antes mesmo de ela começar.
â E entĂŁo? Temos um acordo⊠ou vĂŁo sair daqui sem respostas?
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Lucius, Lira e Kim caminhavam pelo setor 8. O ar era pesado, tĂpico daquela parte esquecida da cidade, mas Kim seguia Ă frente com passos firmes, a postura de quem estava acostumada a abrir caminho. Lucius e Lira vinham alguns passos atrĂĄs, conversando em tom baixo.
â EntĂŁo⊠o que vocĂȘ faz aqui? â perguntou Lucius, quase sem pensar.
Lira o encarou, arqueando uma sobrancelha, com um meio sorriso debochado.
â Que pergunta Ă© essa, Lucius?
â Foi mal⊠â ele coçou a nuca, arrependido.
â Tudo bem. â Ela desviou o olhar, mas a voz ganhou um tom mais curioso. â VocĂȘ viu como aquele cara estranho⊠o Trash⊠olhava para o Samuel?
â NĂŁo. â Lucius respondeu, seco.
â Ah, claro⊠vocĂȘ tambĂ©m Ă© cego, nĂ©? â Lira balançou a cabeça, rindo de leve. â Parecia que ele conhecia o Samuel ou algo assim.
â ImpossĂvel. NĂŁo tem como ele conhecer o Samuel.
â E como vocĂȘ tem tanta certeza?
â Porque ele⊠é diferente. â Lucius manteve o olhar Ă frente, mas sua voz caiu um pouco. â NĂŁo percebeu que ele nĂŁo parece ser daqui?
â Percebi. Mas ele me disse, quando nos conhecemos, que veio de uma Cidadela que foi destruĂda.
Lucius desviou o olhar, franzindo levemente a testa.
"EstranhoâŠ", pensou.
â Eu nĂŁo sei⊠o jeito dele⊠aquele silĂȘncio⊠nĂŁo Ă© ruim, mas⊠tem algo nele. Algo que nĂŁo se vĂȘ, mas que se sente.
â Ă. Samuel é⊠diferente. â Lucius falou com um certo peso nas palavras. â Fala de um jeito confuso, parece que tudo que diz tem um significado escondido. Se nĂŁo fosse por ele, eu provavelmente estaria trancada no laboratĂłrio atĂ© hoje.
â LaboratĂłrio? â Lira parou por um instante, estreitando os olhos. â EntĂŁo o Drax estava certo em te chamar de cientista.
Lucius engoliu seco, tentando disfarçar.
â Que interessante, Lucius⊠â o tom de Lira mudou para algo entre curiosidade e provocação. â Mas que laboratĂłrio era esse?
â Vamos mudar de assunto? â ele cortou rĂĄpido, acelerando o passo.
â Ei, vocĂȘs dois! â a voz de Kim os interrompeu de repente.
Ambos se viraram na mesma hora, um pouco assustados.
â Podem parar com essa paquerinha de vocĂȘs, pombinhos? Por favor? â Kim falou com um sorriso malicioso, sem sequer diminuir o passo.
Os dois ficaram vermelhos instantaneamente. Lira desviou o olhar para o chĂŁo, mordendo o lĂĄbio para esconder o riso. Lucius apenas soltou um resmungo e seguiu andando, torcendo para que o assunto morresse ali.
Kim parou diante de uma porta larga, feita de metal gasto, com um brilho manchado de ferrugem e pequenos arranhĂ”es que denunciavam anos de uso. Um leve som abafado de vozes e mĂșsica escapava pelas frestas.
Ela virou-se para os dois, apoiando uma mĂŁo no batente.
â Espero que vocĂȘs saibam como apostar.
Lucius franziu o cenho.
â Como assim?
Kim apenas arqueou um sorriso enigmĂĄtico, os olhos estreitando como se guardasse um segredo.
â Onde mais vocĂȘ acha que podemos conseguir informaçÔes Ășteis?
Lira cruzou os braços, pensando alto.
â Hm... um depĂłsito de mercado negro?
â NĂŁo... quer dizer, sim, mas.. â Kim concordou com um aceno breve. â Estamos em um muito melhor.
Sem esperar resposta, ela empurrou a porta com força.
Um turbilhão de luzes douradas e vermelhas invadiu a visão dos dois. O cheiro de bebida forte misturado com fumaça tomou o ar. Mesas de jogo espalhavam-se pelo salão, fichas tilintavam, e vozes animadas se misturavam ao som de roletas girando. Um palco no canto exibia uma dançarina se movendo ao som de jazz lento.
Kim abriu os braços como quem apresenta uma obra de arte.
â Sejam bem-vindos⊠ao cassino.
â Ă, estamos lascados.
Sem que percebessem, alguĂ©m no cassino jĂĄ observava â e a aposta havia começado muito antes de eles entrarem pela porta.
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