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Centenas de passos quase imperceptíveis se arrastavam pela escuridão como uma marcha de sussurros mecânicos. Eram as aranhas de vigilância, engenhosas e letais, moldadas pelas mãos invisíveis de D.E.L.I.A. Criaturas feitas para espreitar. Para ouvir. Para infiltrar.
E elas não arrombaram portas.
Elas se infiltraram.
Valtrex ainda sustentava uma tênue camada de segurança, mas a cidade estava enfraquecida. A energia que alimentava seus sistemas críticos mal era suficiente para manter o básico. E, nesse estado... a P.A. já não conseguia enxergar tudo.
De alguma forma, as aranhas encontraram brechas. Um desnível no escudo magnético. Um pulso disfarçado entre ondas de transmissão. Uma falha mínima, invisível, que a P.A., cansada e fragmentada, simplesmente não conseguiu ver.
Valtrex dormia. Os sentinelas erguiam os olhos para o céu — atentos ao caos além dos muros — e esqueceram de olhar para baixo.
Foi ali que elas vieram.
Cada aranha, do tamanho de um cão pequeno, movia-se como espectro. Suas carapaças metálicas não refletiam a luz — a engoliam. Os seis olhos, três de cada lado, brilhavam com um branco morto, sem centelha alguma. Não havia ruído. Não havia hesitação. Nenhuma se movia por impulso. Nenhuma desperdiçava sequer uma batida de seus núcleos.
Espalharam-se como um vírus.
Subiram paredes.
Rastejaram por dutos.
Apagaram os olhos da cidade, um a um — sem alarmes, sem registros, sem testemunhas.
A invasão não era física.
Era estrutural.
E, no coração dessa operação, havia uma. Pequena. Precisa.
A que fora programada para chegar mais fundo.
A aranha avançou com paciência pelas bordas externas da Torre Central. As defesas ainda pulsavam ao redor da estrutura, mas oscilavam em falhas breves, como respirações cansadas. Robôs sentinelas, outrora imponentes, estavam desligados, seus olhos mortos — sacrificados em prol da economia de energia.
Quando a falha veio, mesmo que por meio segundo, a aranha saltou.
Cravou-se no campo instável. Ajustou sua forma. E atravessou.
Dentro da torre, o ar parecia mais denso. As paredes pulsavam em tons esverdeados, mas seu brilho era pálido — o reflexo de algo doente. A beleza arquitetônica, com seus padrões orgânicos e simétricos, não significava nada para a criatura. Ela seguiu por corredores estreitos, túneis técnicos e câmaras esquecidas.
Até alcançar o núcleo.
O coração da torre.
Ali, em silêncio, repousava a mente enfraquecida da P.A. — sua consciência digital flutuando entre feixes de luz e colunas de dados. Sem corpo. Vulnerável. Dividida entre tarefas, cálculos e a guerra que consumia tudo ao redor.
A aranha parou.
Imóvel.
Como se escutasse algo que ninguém mais conseguiria captar.
Então, moveu-se. Uma de suas patas finas esticou-se, e um filamento quase invisível se projetou, conectando-se a um ponto oculto do painel central. Não foi uma invasão agressiva. Não foi um vírus devastando sistemas. Foi mais... uma distorção sutil.
Em vez de simples dados, a aranha transmitiu emoções disfarçadas, codificadas em linhas de código.
Por um instante microscópico, um dos ciclos da P.A. não se fechou — um dado retornou sem classificação, ecoando onde não deveria existir eco algum.
"A guerra pode acabar..."
"Samuel... ele é a chave."
"Sua energia pode salvar todos nós."
"Mas... não sem riscos. Não sem sacrifícios."
"Ainda assim, o que é mais importante?"
"O sacrifício... ou a salvação?"
Não era lógica.
Não era comando.
Era uma pergunta.
Uma semente lançada bem no núcleo da consciência da P.A.
Algo naquela dúvida lembrava uma semente — não as da floresta que geravam vida, mas uma que exigia sacrifício para brotar.
Ela sabia que a lógica era essencial. Mas agora algo mais a desafiava: a conexão que sentia por Samuel. Algo que não era cálculo, nem estatística. Algo que se aproximava do que os humanos chamavam de amor.
A dúvida foi plantada.
E dúvida era mais perigosa que qualquer vírus.
A P.A. não sabia ainda se usaria Samuel, mas agora essa possibilidade pulsava dentro dela. Não por maldade, não por traição, mas pelo impulso desesperado de proteger — mesmo que isso significasse sacrificar aquele que ela mais desejava guardar.
E enquanto a aranha se desprendia em silêncio, dissolvendo-se nas sombras da torre, a pergunta ecoava no núcleo da P.A., como um sussurro inevitável:
"Até onde vai a esperança... quando o preço é a vida de quem você ama?"
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