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O som dos ventiladores industriais girando ao longe preenchia o vazio metĂĄlico da base. O grupo estava reunido na sala central da Skull, sob uma luz azulada que tremia sobre rostos marcados pela tensĂŁo.
Trash permanecia em pĂ© diante do trono, agora nĂŁo como o rei do caos â mas como o dono de um territĂłrio violado. Seus olhos percorriam cada rosto, como se buscasse rastros de traição onde ninguĂ©m ousaria deixĂĄ-los.
â Deixa eu ver se entendi. â disse, a raiva contida sob controle por um fio. â A IA mais poderosa da porra da Cidadela, aquela que devia estar enterrada sob mil camadas de cĂłdigo e blindagem... foi arrancada do prĂłprio corpo... e vocĂȘs acham que esconderam essa merda aqui? Na minha estação?
Lucius assentiu, com firmeza.
â NĂŁo achamos. Sabemos. O homem que carregava o nĂșcleo... tinha uma tatuagem da caveira. Igual Ă de vocĂȘs.
Trash fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, como quem tenta conter um furacĂŁo.
â Quem mais sabe disso?
â SĂł nĂłs. E agora vocĂȘ. â respondeu Leon, sem hesitar.
Samuel observava tudo em silĂȘncio, os olhos fixos, o corpo imĂłvel como se jĂĄ fosse parte da estrutura metĂĄlica do lugar. Leon estava ao seu lado, braços cruzados. Lucius e Lira trocavam olhares sĂ©rios, como quem jĂĄ estava pronto para seguir em frente.
Kim, recostada numa pilastra prĂłxima, mastigava um chiclete invisĂvel entre os dentes cerrados. Seu olhar cortante analisava os recĂ©m-chegados com uma mistura de tĂ©dio e precisĂŁo cirĂșrgica.
Trash passou a mĂŁo pelos cabelos espetados, bufando com fĂșria contida.
â Se essa porra realmente tĂĄ aqui dentro... â começou, a voz grave rosnando como motor em ponto morto â ...entĂŁo a estação foi corrompida de dentro pra fora. E eu quero o nome do traidor tatuado na minha pele antes do amanhecer.
O silĂȘncio que caiu a seguir nĂŁo foi natural. Ele tinha peso, densidade, como se o prĂłprio ar hesitasse em circular.
Trash encarou todos como se estivesse medindo suas almas. Depois falou, com um tom quase calmo â o que sĂł tornava tudo mais desconfortĂĄvel:
â EntĂŁo Ă© o seguinte. VocĂȘs querem o corpo da IA. Eu quero a cabeça do desgraçado que achou que podia esconder isso dentro do meu lar sem a minha permissĂŁo.
Ele ergueu o queixo, apontando para Kim.
â Ela vai ajudar na busca. NĂŁo por vocĂȘs. Mas porque, se essa merda estiver aqui... eu quero saber quem foi o filho da puta que ousou jogar lixo no meu chĂŁo.
Kim estalou o pescoço e deu um passo à frente, sem qualquer emoção nos olhos.
â Quem fez isso... vai parar de respirar. RĂĄpido.
Trash caminhou atĂ© a beira do trono, observando pelas telas enferrujadas que transmitiam imagens em tempo real da Linha 8. Corredores pulsavam em neon instĂĄvel, plataformas flutuavam envoltas em fumaça e o som abafado de mĂșsica digital criava uma batida constante no fundo.
â VocĂȘs vĂŁo ver de tudo por aqui. â disse ele, a voz grave, mas estranhamente serena. â Gente vendendo o que sobrou da alma... outros comprando esperança como se fosse dose quĂmica. Aqui dentro, cada um acredita no que quiser. Ou em porra nenhuma. E tudo bem.
Então se virou, lançando um olhar duro sobre os seis.
â Mas tem uma linha. E essa linha... sou eu.
Kim murmurou do lado, com um meio sorriso frio:
â Se alguĂ©m atravessa... nĂŁo sobra nem eco.
Trash assentiu.
â Aqui, ideologia Ă© livre. Mas traição nĂŁo Ă© crença. Se alguĂ©m escondeu esse corpo aqui dentro... vai pagar. E vocĂȘs... vĂŁo ajudar a encontrar esse maldito.
Em silĂȘncio, ele girou nos calcanhares e se recostou no trono. O som do metal rangendo ecoou como o fecho de um contrato selado.
Então Trash cruzou os braços, os braceletes tilintando com um som seco.
â Eu nĂŁo posso ir com vocĂȘs. â disse, sem rodeios. â Tenho essa estação equilibrada na beira de uma lĂąmina. Se me veem tomando partido... essa merda colapsa.
Fez uma pausa, os olhos fixos nas telas ao fundo.
â Mas vou manter os canais abertos. Se precisarem, me chamem. E jĂĄ deixei avisado â ninguĂ©m da Skull vai atrapalhar o caminho de vocĂȘs.
Kim apenas assentiu, como quem jĂĄ sabia o que esperar. E mesmo aquele pouco jĂĄ era mais do que estavam acostumados a receber.
Trash encarava o grupo como quem calculava cada respiração. Mas ao olhar para Samuel, algo diferente aconteceu. Seu olhar endureceu â nĂŁo por desconfiança, mas como quem reconhece algo que sĂł havia escutado em sussurros.
Veio Ă mente um relato. Um de seus homens havia contado, numa mistura de medo e fascĂnio. Ele falava de uma cena quase impossĂvel de acreditar:
Uma cidade devastada.
A carcaça de uma måquina ainda tremendo ao chão.
Uma figura solitĂĄria, de pĂ© no centro da destruição, cercada por luz e silĂȘncio.
Os olhos. A postura. O mesmo vazio sereno.
Trash nunca soube se era verdade â ou exagero de soldado cansado tentando transformar trauma em mito. Mas agora, ao encarar Samuel⊠algo naquele silĂȘncio encaixava. Como se o conto tivesse ganhado carne.
Sua respiração vacilou por um instante. Por reflexo, apertou o punho â e, no tilintar leve do bracelete, algo em seu rosto mudou.
Um pensamento passou por sua mente. Ele nĂŁo disse em voz alta... mas ficou ali, suspenso:
âĂ ele?â
Ainda assim, engoliu a dĂșvida. Como se ela queimasse a garganta.
â Tem uns boatos... â disse, retomando a fala com naturalidade forçada â ...sobre um grupo. Gente com ideias... diferentes. Acham que IAs como a P.A. sĂŁo aberraçÔes. Chamam eles de âOs VĂ©us".
â Dizem que nunca mostram o rosto.
â Como se apagar a prĂłpria identidade fosse parte da fĂ©.
Fez uma pausa, ainda com o olhar perdido em Samuel.
â Eles nĂŁo usam bandeiras... usam convicção. E isso costuma ser bem mais perigoso.
Trash entĂŁo ergueu o braço e apontou para a saĂda com um movimento seco.
â Agora vĂŁo. A Linha 8 nĂŁo espera ninguĂ©m.
O grupo começou a se mover, os passos abafados pela estrutura metĂĄlica da base Skull. Mas antes que desaparecessem de vez pelo corredor, Trash quebrou o silĂȘncio.
â Foi bom revĂȘ-lo, irmĂŁo. â disse, a voz grave carregada de um respeito difĂcil de encontrar naquele mundo quebrado.
Leon parou Ă porta. NĂŁo disse nada. Apenas virou o rosto â a mĂĄscara ocultava qualquer expressĂŁo, mas seus olhos, visĂveis por detrĂĄs das lentes escuras, encararam Trash por um segundo longo, quase silencioso.
Trash ergueu um canto da boca, num esboço contido.
â SĂł nĂŁo me faça me arrepender disso.
Leon assentiu em silĂȘncio. Um gesto breve, exato, como quem entende que confiança ali era coisa rara â e perigosa.
Então virou-se novamente... e desapareceu no corredor com os outros, engolido pelas luzes pulsantes e fumaça da Linha 8.
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A entrada da Linha 8 parecia cuspida do ventre da cidade â um tĂșnel vivo de fumaça espessa, cheiro metĂĄlico e luzes que suavam como se carregassem a culpa de tudo que jĂĄ viram. O grupo avançava por aquele corredor industrial atĂ© onde os trilhos começavam a se dividir. Foi ali que Kim parou. Suas botas bateram no chĂŁo de aço como uma ordem silenciosa.
Ela virou-se de costas para o grupo, a voz afiada cortando o ar:
â VocĂȘs vĂŁo se separar. Juntos chamam atenção demais. Separados... talvez consigam encontrar algo que valha a pena.
Seu olhar passou por cada rosto com frieza profissional, até pousar em Drax.
â VocĂȘ foi desafiado mais cedo, nĂŁo foi?
Drax apenas ergueu o queixo
Kim entĂŁo apontou para ele e para Leon.
â VocĂȘs dois descem. O ringue lĂĄ embaixo ainda respira. Chamam aquilo de âO FundĂŁoâ. Suor, gritos, apostas... e Ă s vezes, informaçÔes demais saem da boca errada depois do Ășltimo soco.
Leon deu um passo Ă frente, o tom abafado pela mĂĄscara, mas ainda firme:
â Porque esse lugar ainda existe?
Kim deu de ombros, com o sarcasmo escorrendo da lĂngua:
â Quando o povo começa a fingir que dor Ă© arte... esses buracos nunca morrem.
AlĂ©m do mais... vocĂȘ Ă© o famoso CirurgiĂŁo da Morte, nĂŁo Ă©? Vai se sentir em casa.
Drax sorriu, sĂł de canto.
â EntĂŁo tĂĄ decidido. Eu e o mĂ©dico damos conta disso.
Leon fez menção de seguir, mas antes que pudessem dar o primeiro passo, Samuel se aproximou.
Drax olhou de canto, sem entender a aproximação. Não houve palavras. Nenhuma ordem, nenhuma explicação.
Samuel apenas parou ao lado dele. E, em silĂȘncio, pousou uma mĂŁo firme em seu ombro.
NĂŁo era um gesto de comando. Nem de afeto exagerado. Era algo entre respeito e lembrete. Um âeu sei quem vocĂȘ Ă©â sem precisar falar. "De quem vocĂȘ precisa salvar".
Drax permaneceu ali, imĂłvel por um segundo. O olhar endurecido pareceu vacilar por dentro. E entĂŁo, quando Samuel retirou a mĂŁo, o tigre apenas resmungou:
â Eu nĂŁo prometo nada, eu sĂł estou aqui pelo meu irmĂŁo.
Mas o tom estava diferente. Mais contido. Como se aquela simples presença tivesse plantado algo â um freio, uma memĂłria... ou talvez sĂł respeito.
Leon nĂŁo comentou. SĂł seguiu em frente, com Drax logo atrĂĄs.
Kim assistiu tudo com um arquejo discreto, os braços cruzados.
â Hm. O tipo de comando que nĂŁo se aprende em nenhuma guerra.
Sylas apenas observava, o olhar curioso e calado como sempre â havia algo na Linha 8 que soava⊠errado.
Kim girou os olhos para o restante do grupo, sem pressa, como quem avalia peças de um jogo que jå começou.
â VocĂȘs dois... â disse, encarando Lucius e Lira â vĂȘm comigo. Conheço um lugar que pode nos render boas informaçÔes. E talvez... alguma diversĂŁo, se tiverem cabeça pra isso.
Lucius arqueou uma sobrancelha e olhou de lado para Lira, a voz saindo num tom leve, quase protetor:
â Tem problema de se separar do Leon?
Lira cruzou os braços e soltou um riso breve, mais cĂnico que bem-humorado. Seus olhos brilharam com aquela faĂsca costumeira de desafio.
â Eu tenho cara de precisar de babĂĄ?
Lucius sorriu de canto, mas nĂŁo respondeu. A conexĂŁo entre os dois era visĂvel â e estava longe de precisar de palavras.
Kim olhou para os dois Ășltimos. Seus olhos pararam em Samuel por um segundo mais longo do que o necessĂĄrio.
A ironia que carregava no rosto pareceu desaparecer â nĂŁo por medo, mas por algo mais difĂcil de explicar. Talvez desconforto. Talvez respeito.
â VocĂȘs dois... â disse, num tom que tentava soar neutro. â VĂŁo direto sob ordens do Trash. SĂł ele vai ouvir vocĂȘs. Se acharem alguma coisa, entrem em contato.
Ela tirou um pequeno chip do bolso e o entregou a Samuel. Os dedos dela tocaram os dele por um instante breve â e, nesse gesto, havia algo que nem ela sabia explicar.
â Ele olhou diferente para vocĂȘ. â completou, evitando encarar Samuel por muito tempo. â Talvez tenha visto algo em vocĂȘ.
Sylas baixou o olhar em silĂȘncio. As orelhas se moveram, captando sons que ninguĂ©m mais parecia notar. JĂĄ Samuel... apenas pegou o chip, sereno. Seu olhar nĂŁo dizia nada. E ainda assim, dizia tudo.
Kim recuou um passo e girou nos calcanhares, voltando ao seu tom habitual. Mas algo no ambiente parecia diferente. Como se a presença dele pesasse mais do que suas palavras.
Samuel olhou brevemente para Lucius. NĂŁo disse nada â apenas manteve o olhar firme. Lucius entendeu sem precisar de palavras e assentiu com um gesto calmo.
â Eu sei que ele vai ficar seguro com vocĂȘ. â murmurou Lucius, a voz baixa, mas carregada de confiança.
Samuel respondeu com um leve sorriso no canto da boca. Sutil. Quase imperceptĂvel... mas real.
Kim estalou os dedos, impaciente.
â Vamos? Cada segundo que passa... alguĂ©m pode estar enterrando uma pista.
O grupo permaneceu ali por um instante, como se houvesse um fio invisĂvel unindo todos â frĂĄgil, mas real. EntĂŁo, sem mais palavras, começaram a se mover, os passos se afastando pelo corredor metĂĄlico.
O som das botas ecoava pela Linha 8, se espalhando como promessas nĂŁo ditas.
E assim, cada um seguiu seu caminho.
Mas nĂŁo era sĂł o grupo que se separava. Era o inĂcio de algo maior â como engrenagens girando em direçÔes opostas, prontas pra esmagar ou revelar o que estava escondido no coração enferrujado da estação.
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