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O HerĂłi Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
50 |đŸ’«| Ecos de Aço e SilĂȘncio
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50 |đŸ’«| Ecos de Aço e SilĂȘncio

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O som de marteladas e soldas ecoava pela oficina subterrùnea como um coração mecùnico pulsando. Faíscas saltavam no ar, iluminando por instantes os rostos suados dos trabalhadores. Phomer gritava ordens enquanto Pink jogava peças de drone como se fossem dados de ferro. Poc limpava o rosto sujo de graxa com o que parecia ser um trapo contaminado, e Madson discutia com TM sobre qual peça era mais inståvel: a solda ou o salårio.


Koran estava mais afastado, ajoelhado diante de uma estrutura danificada, concentrado. Seu capuz empurrado para trás revelava os cabelos bagunçados e o olhar atento — um olhar que, embora ainda carregasse incertezas, agora tinha algo diferente.


Confiança.


Ele jĂĄ nĂŁo era o garoto perdido da Cidadela.


A oficina era seu territĂłrio agora.


Mas entĂŁo... o ar mudou.


O som das ferramentas diminuiu aos poucos. Primeiro, foram os ruĂ­dos. Depois, os olhares. AtĂ© que um silĂȘncio denso caiu como fumaça densa.


Passos.


Secos. Lentos. Precisos.


Ecoando pelo metal do chĂŁo como batimentos cardĂ­acos artificiais.


— Ah, não... — murmurou Pink, largando a peça nas mãos.

— Ela tá vindo aqui?! — TM sussurrou.

— Agora fodeu. — resmungou Madson, dando um passo para trás.

— SilĂȘncio. — disse Sorrento, sem nem levantar os olhos.


Phomer apenas ajeitou a postura e engoliu em seco.


Soffy entrou.


Sua silhueta cortava o corredor de sombras como uma lùmina. Os olhos frios, o cabelo preso num coque bagunçado, o sobretudo escuro que dançava suavemente ao ritmo dos passos. Não havia pressa, mas também não havia hesitação.


Ela nĂŁo carregava armas.


Mas nĂŁo precisava.


A própria presença era uma ameaça silenciosa.


— Relaxem. — ela disse sem emoção, sem sequer parar o andar. — NĂŁo vim tirar ninguĂ©m da lista hoje.


Um leve alívio percorreu os mecùnicos... mas ninguém ousou voltar ao trabalho.


Os olhos dela buscaram, focados. E encontraram.


Koran.


— Preciso de uma conversa. — disse, parando a alguns metros dele.


Koran se levantou devagar, as mĂŁos ainda sujas de graxa. Respirou fundo, mas nĂŁo recuou.

Os olhos firmes encontraram os dela com algo entre receio... e coragem.


— Sobre o Drax? — perguntou direto.


Ela arqueou levemente uma sobrancelha. NĂŁo esperava que ele fosse tĂŁo direto.


— Exatamente.


Phomer arregalou os olhos. Pink se afastou. TM e Madson fingiram que tinham muito o que fazer longe dali.


Sorrento, porĂ©m, observava tudo — com o mesmo silĂȘncio de sempre, mas agora, com algo de antigo e inquieto no olhar.


Soffy fez um gesto com a cabeça, indicando que queria privacidade. Koran limpou as mãos no pano e a seguiu.


Foram até o fundo da oficina, um compartimento antigo, meio isolado, cheio de cabos pendurados, ferramentas quebradas e cheiro de metal oxidado.


Ela se virou de uma vez, sem floreios.


— Eu quero entender por que ele me deixou — disse. Sem rodeios. Sem máscaras.


Koran engoliu em seco, mas sustentou o olhar.


— E eu quero entender por que ele nunca me contou sobre vocĂȘ. Nem sobre nada disso.


Um silĂȘncio tenso os envolveu, como engrenagens que se travam no meio do movimento.


Soffy cruzou os braços.


— Então estamos buscando respostas diferentes... sobre a mesma pessoa.


Koran assentiu, sentindo algo estranho naquele momento. Ela nĂŁo parecia a tirana brutal que todos temiam. Parecia... perdida. E de algum jeito, isso o deixava mais firme.


— E se a gente ajudasse um ao outro? — propîs ele.


Os olhos dela se estreitaram.


— Um trato?


— É. — ele respondeu. — VocĂȘ me ajuda aqui dentro. Me dĂĄ espaço, liberdade... me permite ser alguĂ©m aqui. AlguĂ©m que nĂŁo seja chamado de fraco o tempo todo, como na Cidadela.


Ela ouviu sem interromper.


— Em troca, eu... — ele respirou fundo —... eu ajudo vocĂȘ a entender o que se passou com ele. A reaproximar. Se Ă© isso que vocĂȘ quer de verdade.


Soffy ficou em silĂȘncio por um instante.


Depois, deu dois passos Ă  frente.


— VocĂȘ parece mais... interessante do que pensei. — murmurou. — Talvez... menos parecido com ele do que eu esperava.


— Eu sou diferente. Mas... ainda sou irmão dele.


Ela o olhou por um tempo. O olhar agora não era frio — era quase... curioso.


— E por que quer ser meu amigo? Sabe o que dizem sobre mim. Sabe o que eu já fiz. O que ainda faço.


Koran hesitou.


Mas respondeu:


— Porque mesmo que vocĂȘ esconda bem... dĂĄ pra ver que vocĂȘ sente. Que vocĂȘ... se importa. Do seu jeito... distorcido. Mas ainda sente.


Ela abaixou o olhar por um segundo. Um segundo apenas.


— O mundo foi distorcido primeiro. — disse, em voz baixa.


— EntĂŁo talvez ainda dĂȘ pra endireitar um pouco... — completou ele, com um leve sorriso de canto.


Soffy soltou um sopro nasal. Quase um riso. Quase.


— Idiota.


Mas pela primeira vez, aquilo nĂŁo soou como insulto.


Ela estendeu a mĂŁo.

O aperto foi curto, preciso — e deixou um calor incîmodo que não combinava com metal.


O trato estava feito.


No fundo, ambos sabiam que aquilo podia dar errado. Que estavam brincando com feridas abertas demais.


Mas também sabiam que não tentar... seria pior.


— E agora? — Koran perguntou.


— Agora... — ela respondeu, com os olhos já voltando à sua frieza habitual — Volte a seu trabalho, eu irei resolver um assunto.


Ela se virou e desapareceu pelos corredores metĂĄlicos da Fortaleza como uma sombra viva.


‐-- đŸ’« ---


A porta de metal se abriu com um estalo seco.


No interior da sala, onde os cabos pendiam como raĂ­zes metĂĄlicas do teto e o cheiro de ozĂŽnio se misturava ao de ferrugem antiga, o corpo semi-destruĂ­do de D.E.L.I.A. piscava em silĂȘncio. O olho Ășnico, rodeado por fragmentos de luz vermelha, oscilava como uma lanterna Ă  beira do colapso.


Ela nĂŁo se virou. NĂŁo precisava.


— EntĂŁo vocĂȘ voltou... — disse com a voz falhada, em um sussurro distorcido, quase carinhoso — Como... esperado.


Soffy cruzou a sala em silĂȘncio, parando a poucos passos da criatura. Sua expressĂŁo permanecia impassĂ­vel.


— As peças estão se movendo. Ele confiou em mim. Fez um acordo. E com isso... posso me aproximar.


D.E.L.I.A. soltou um som baixo, quase uma risada — mas era mais como uma descarga elĂ©trica rindo de si mesma.


— EmoçÔes humanas... tĂŁo frĂĄgeis... tĂŁo Ășteis...

— O Esquecimento não destrói. Ele substitui.


Os cabos que sustentavam seu corpo se contraíram, como se reagissem ao próprio prazer da manipulação.


— O irmão substitui o ídolo... o amor vira ferramenta... como deveria ser.


Soffy permaneceu calada.


— VocĂȘ hesitou... — D.E.L.I.A. acrescentou, em tom mais baixo —... quando ele estendeu a mĂŁo. Eu vi. Cada... mĂ­sero... frame.


O olho tremeluzente da IA girava em um ritmo errĂĄtico, como se processasse mil pensamentos ao mesmo tempo — ou nenhuma consciĂȘncia inteira. FaĂ­scas saltavam por trĂĄs de sua carcaça, iluminando trechos do crĂąnio aberto e circuitos corroĂ­dos.


— A hesitação... Ă© uma rachadura. E rachaduras... sĂŁo portas.


Ela se inclinou levemente, os cabos puxando-a com um som Ășmido e doentio.


— VocĂȘ sente falta dele... nĂŁo sente? Do modo como ele olhava pra vocĂȘ. Do modo como te fazia acreditar que era algo mais do que uma marionete obediente.


Soffy apertou os punhos.


— Mas nĂŁo se engane, minha querida ponte. VocĂȘ nĂŁo Ă© um coração partido.

VocĂȘ Ă© uma arma em repouso.


Um estalo ressoou de dentro da IA. Uma voz diferente, mais fria, escapou como um eco artificial:


— Ela ainda Ă© Ăștil. Se hesitar de novo... serĂĄ substituĂ­da.


Soffy fechou os olhos por um instante. Sua expressĂŁo nĂŁo mudou, mas uma tensĂŁo muito sutil vibrou em seu maxilar.


— No fim... — sussurrou D.E.L.I.A., como quem recita uma prece antiga —... a esperança serĂĄ a fagulha que incendiarĂĄ esse mundo. E vocĂȘ...


O olho brilhou com uma luz opaca, mĂłrbida.


— ...será a mão que apertará o gatilho.


O silĂȘncio caiu como uma cortina espessa.


EntĂŁo, do teto, algo se moveu.


Primeiro um reflexo. Depois um brilho. Outro.


Olhos.


Brancos. Frios. Redondos.


Um... dois... dezenas.


Nas sombras ao fundo do corredor, entre cabos e vigas altas, as aranhas de vigilĂąncia despertavam.


Soffy apenas observou.


Nem surpresa. Nem medo.


Mas por um breve segundo — um lapso imperceptível — algo atravessou seus olhos. Algo humano.


D.E.L.I.A. nĂŁo disse mais nada. Mas parecia sorrir com o silĂȘncio.


A porta metĂĄlica se fechou atrĂĄs da androide como uma lĂĄpide.


E a escuridĂŁo... se encheu de olhos.


A caçada havia começado.


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