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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
49 |💫| A Marcha até o Trono
2382 palavras • 13696 caracteres • ⏱ 9 min 32 s

49 |💫| A Marcha até o Trono

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O corredor seguinte parecia pulsar com vida própria.


Kim seguia à frente com passos firmes, os saltos das botas ecoando no chão metálico. Ela não falava nada por enquanto — mas sua simples presença abria caminho, como se todos soubessem que ninguém queria ficar no caminho dela. O grupo a acompanhava em silêncio, absorvendo cada detalhe ao redor.


Logo, o som das batidas eletrônicas ficou mais forte.


A próxima sala era uma explosão de luzes frenéticas, cores distorcidas e odores pesados. Um salão amplo, coberto por neon quebrado, grafites vivos e fios elétricos passando expostos sobre os pilares. O teto abria espaço para drones dançarem no ar, lançando pó brilhante como confete químico sobre a multidão abaixo.


A festa era crua. Uma mistura de rave, mercado negro e ritual urbano.


Homens e mulheres dançavam com olhos vidrados, alguns conectados a sistemas neurais, outros com tubos inseridos nos braços recebendo doses químicas em tempo real. Plataformas flutuantes conduziam DJs com máscaras de caveira, enquanto telões transmitiam lutas anteriores da rinha — com sangue, dentes quebrados e apostas explodindo em valores.


Lira observava em silêncio, os olhos tentando absorver tudo, mas mantendo o foco. Ela já estivera em zonas perigosas, mas a Linha 8 era... outro mundo.


Kim parou por um instante, virando levemente o rosto para trás — como se esperasse por Leon. Quando ele se aproximou, ela sorriu de canto, sem afeto.


— Você teve coragem de voltar.


— Parece que você ainda não aprendeu a sorrir com simpatia. — respondeu Leon, com o mesmo sarcasmo arrastado de sempre.


— E você parece ainda achar que tem lugar aqui.


— Eu nunca tive. Mas isso nunca me impediu de passar. — disse ele, sem abaixar o olhar.


Kim riu com desdém, mas não hostilidade. Apenas o tipo de ironia de quem já teve esse diálogo outras mil vezes.


— As coisas mudaram desde que você sumiu. As regras estão mais afiadas. E os olhos mais atentos.


— Eu notei. A estação respira diferente... fede diferente também.


— É. A festa é constante agora. Mas nem toda música é pra dançar... algumas são só pra afogar o silêncio.


Ela voltou a andar. Mas algo em seu olhar revelava que a volta de Leon não a deixava confortável. Ou talvez... mexia com alguma lembrança enterrada.


Passos adiante, ela lançou mais uma olhada por cima do ombro, dessa vez para o grupo que os acompanhava.


— E esses aí...? — perguntou, num tom mais baixo, mais pessoal. — Desde quando você anda com gente que não parece saber onde pisou?


Leon deu de ombros, o olhar firme.


— Eles tem um motivo pra estar aqui. Diferentemente de mim.


Kim semicerrava os olhos, observando com mais atenção.


— Um homem que não cala a boca... uma garota que tenta parecer mais dura do que é... um tigre? Porque diabos um tigre?... um cara que parece sempre prestes a explodir...


Seus olhos pararam em Samuel.


— ...e aquele ali... tem algo estranho.


Houve um silêncio pequeno — não desconfortável, mas respeitoso.


Ela continuou andando como se nada tivesse dito, mas a pausa tinha deixado claro: até Kim, que lia todo mundo como um livro aberto, hesitava diante dele.


Leon apenas assentiu, sem sorrir.


— É. Eles são diferentes. — Leon admitiu. — Mas não estão perdidos. Eles tem minha confiança.


Kim não respondeu de imediato. Apenas assentiu levemente, mas ainda parecia cética. O olhar dela parou por mais alguns segundos em Samuel, como se tentasse decifrar algo que simplesmente não fazia sentido.


— Cuidado pra não deixar sua intuição virar ponto fraco. — murmurou por fim, voltando a olhar à frente. — Isso aqui não é lugar pra laços fracos.


Depois do salão, o corredor se estreitou — e os sons de socos secos, ossos batendo em carne e gritos abafados começaram a ecoar. Um ringue improvisado surgiu logo à frente. Tubos de luz iluminavam uma arena quadrada, delimitada por cercas elétricas. A plateia era uma muralha de caveiras tatuadas e olhares sedentos por violência.


Dentro da rinha, dois brutamontes se golpeavam sem piedade. Sangue espirrava no piso metálico. As apostas eram gritadas, os valores mudando a cada soco bem encaixado.


Kim nem olhou duas vezes.


— Ainda fazem isso toda noite? — perguntou Leon, casual.


— Agora fazem de hora em hora. O caos virou lucro. — respondeu ela, olhando o ringue com indiferença.


Samuel observava tudo com olhos calmos. Não parecia chocado — apenas atento. Sylas rosnou baixo ao ver uma das lutas ser interrompida por um choque violento que apagou um dos combatentes.


— Isso é o inferno disfarçado de entretenimento. — murmurou Lira, sombria.


Kim olhou por cima do ombro mais uma vez, encarando Leon como se não aguentasse guardar mais aquilo.


— Por que voltou?


Leon a encarou, sério. Havia um peso real na pergunta dela.


— Porque ainda tem gente aqui que me respeita. Gente que lembra que eu não vim por fama, nem por controle. Eu vim por ideias. Por causa... de quem eu era.


Kim ficou em silêncio por um momento, como se quisesse responder com veneno, mas algo a segurasse. No fundo, ela sabia que era verdade.


— Só espero que o Trash ainda pense assim. — murmurou ela, mais para si mesma.


Ao ouvirem o nome, Drax ergueu levemente uma sobrancelha.


— Então é esse o nome do líder? Trash?


Kim soltou uma risada curta.


— É. E não se engane. Você pode rir do nome. Mas vai parar na primeira troca de olhar.


— E ele respeita o Leon? — perguntou Lucius, genuinamente surpreso.


Kim assentiu.


— De um jeito estranho, sim. Trash não segue o que você espera. Ele não é sobre aparência, é sobre essência. E o Leon... sempre teve uma essência forte. Por isso ainda tá inteiro.


O grupo continuou.


Subiram uma escada de metal até um nível mais elevado da estação, passando por mais corredores escuros, onde os sussurros diminuíam. O som da festa morria pouco a pouco, substituído por um silêncio denso. Era o andar do comando. Onde o caos era observado de cima.

Kim parou diante de uma porta reforçada, com engrenagens gravadas em alto relevo — o símbolo do Skull, uma caveira com olhos de máquina, desenhada sobre ferro bruto.


Ela tocou o comunicador no pulso.


— Eles chegaram....


A porta se abriu com um rangido baixo e mecânico.


Kim não entrou. Apenas virou-se para o grupo.


— Não irritem ele. Não provoquem. E, acima de tudo... não mintam.


Ela olhou diretamente para Leon.


— Você tem sorte, Leon. Muita sorte dele respeitar você.


Leon assentiu.


— Eu sei.


E então, o grupo entrou.


--- 💫 ---


Ao atravessarem a porta, o ambiente era inesperadamente... contido.


Ao contrário do caos lá fora, ali tudo parecia montado com precisão. As paredes eram reforçadas, revestidas com placas metálicas opacas, marcadas por traços de arte urbana: caveiras pintadas com tinta fosforescente, detalhes em vermelho enferrujado e roxo escuro. Havia colagens bem posicionadas, engrenagens encaixadas como peças decorativas, e símbolos da Skull desenhados com cuidado, não com pressa.


A luz indireta, suave e fria, preenchia o cômodo sem agredir os olhos. Um som ambiente de baixa frequência vibrava sutilmente no fundo — não para incomodar, mas para lembrar que tudo ali pulsava com intenção.


O “trono” ficava ao fundo, num pequeno patamar elevado. Era uma cadeira robusta de ferro moldado, com o encosto gravado em alto relevo: uma caveira com engrenagens nos olhos. Ao lado, uma mesa improvisada — peças de tecnologia desmontadas, restos de armas e uma caneca de metal ainda soltando vapor. Não era uma mesa de comando. Era uma extensão do próprio dono.


E o dono... ainda não estava ali.


Por um instante, o grupo hesitou. Lucius foi o primeiro a dar um passo para dentro, seguido por Sylas e Lira, atentos às sombras. Samuel manteve-se calmo — sem apreensão, sem curiosidade. Apenas observava.


Foi então que a porta lateral se escancarou com um baque.


— Leon, seu desgraçado!


A voz veio antes da figura. Grave, rouca, mas carregada de empolgação. E então, surgiu ele.


Trash.


Cabelos brancos espetados, casaco largo caindo dos ombros, corrente dourada pendendo do pescoço e olheiras profundas que não apagavam o brilho selvagem dos olhos. O sorriso que ele abriu era largo, genuíno e absurdamente vivo.


Ele atravessou a sala como um raio e puxou Leon para um abraço tão firme que o som seco de ossos estalando ecoou pelo salão, como se alguma vértebra tivesse sido reposicionada à força.


— Achei que você tinha virado poeira, porra! — gritou, rindo com uma alegria explosiva.


Leon soltou um meio gemido e uma risada torta, batendo nas costas do outro com esforço.


— Senti falta do jeito gentil que você cumprimenta as pessoas... — murmurou, tentando recuperar o fôlego e o alinhamento da coluna.


Trash gargalhou alto e o soltou como quem larga uma arma carregada.


— Vai se ferrar. Tá mais magro! Ou é só impressão porque agora anda com um exército?


Seus olhos vasculharam o grupo por um segundo. Não havia julgamento — apenas cálculo rápido. Qualquer coisa ligada à Cidadela carregava peso político… e risco demais para ignorar.


Apontou para o sofá central com o queixo.


— Senta aí, irmão. Relaxa. Não é porque aqui fede a tensão que você precisa fingir que tá na mira.


Foi até a mesa, pegou a caneca e deu um gole generoso.


— Quem são seus acompanhantes? — perguntou, virando-se casualmente para os outros.


Leon não hesitou.


— É exatamente por causa deles que vim até aqui.


Trash inclinou a cabeça, atento. Não demonstrava hostilidade, mas também não havia confiança gratuita.


— Se estão com você... estão comigo. Por enquanto. Mas não comecem bancando os espertos. — disse, encarando Lucius por um segundo. Este apenas levantou as mãos, como quem diz: “Relaxa, tô suave.”


Então os olhos de Trash pousaram em Samuel.


E ali, ele ficou um segundo a mais.


— ...E você é o estranho no meio. — murmurou, sem desviar o olhar. — Mas não parece perdido. Nem cego. Você é... quieto. Gosto disso.


E voltou ao trono, o som metálico ecoando quando se jogou sobre a estrutura pesada.


— Beleza. Agora, Leon... o que você e seu grupo querem comigo?


Antes que Leon respondesse, Lucius sentiu a mochila vibrar levemente contra suas costas.


Não era um alerta. Não exatamente.


Era como um ruído fora de ritmo — um atraso estranho, quase imperceptível.


Então, Trash mal havia terminado a pergunta quando um som agudo cortou o ambiente — um bip eletrônico sutil, vindo da bolsa de Lucius.


Lucius girou para a mochila com rapidez. Em vez de abri-la, tentou fechar o zíper às pressas, como se algo ali dentro não devesse ser visto.


Mas era tarde.


A lente do drone auxiliar já piscava. Um ponto verde tremeluzia, emitindo uma energia quase viva.


— Que porra é essa...? — resmungou Trash, já se levantando.


E então, ela falou.


A voz.


Fraca. Digital. Mas carregada de alma.


— Sou eu… P.A.


O ar congelou.


A caneca escorregou da mão de Trash, caiu com um baque metálico e o líquido se espalhou pelo chão. Os olhos dele endureceram num piscar de raiva.


A mensagem seguiu:


— Ainda estou aqui. Sustentando o que resta. A Cidadela... permanece protegida. Minhas reservas estão baixas. O núcleo... instável...


Trash girou o rosto lentamente para Leon. Depois para Lucius.


— Alguém vai me explicar… — a voz dele saiu baixa, mas tensa como arame — por que a porra da inteligência artificial da Cidadela tá na minha sala?!


A P.A. continuou, como se ignorasse o caos à volta.


— Não envio isso como alerta. Mas porque... senti algo. Uma presença. Samuel... estou cumprindo a promessa. Espero que ainda esteja fazendo a sua...


Trash avançou com os ombros travados como um touro prestes a estourar.


— Isso é real?! É ela de verdade?! — berrou, chutando a mesa com força. As peças desmontadas voaram e colidiram contra a parede.


— Isso aqui é a porra da Skull! A gente sobrevive mantendo a cabeça abaixada pra cima... e vocês me trazem uma relíquia da guerra pra dentro da minha sala?! Tão achando que isso aqui é parque de diversões?!


E então, Samuel deu um passo à frente.

Não disse nada.

Não precisou.


A atmosfera mudou sutilmente — como se até a raiva de Trash precisasse parar para olhar.


Lira recuou um passo, surpresa. Sylas rosnou, se posicionando entre ela.


Drax já estava com o punho fechado, o maxilar tensionado.


— Mas que merda... — rosnou, dando um passo brusco, o peito arfando. — Vocês enlouqueceram?


Lucius respirou fundo. Deu um passo à frente, o olhar firme.


— Viemos recuperar o corpo da P.A. — declarou. — Sabemos que está aqui. E não vamos sair sem ela.


Trash piscou. Parecia que não tinha ouvido certo.


— ...o quê?


— O corpo dela — repetiu Lucius, com a mesma firmeza. — Vocês roubaram.


Trash explodiu.


— QUE CARALHOS VOCÊ TÁ FALANDO?! — gritou, e o chão pareceu vibrar sob seus pés. — Eu nunca peguei corpo nenhum! Vocês acham mesmo que eu, TRASH, teria uma IA inteira escondida aqui e não estaria usando? Parem de delirar, porra!


Lira, ainda em alerta, deu um passo à frente.


— Então... não foi você?


Trash respirava como um motor superaquecido. Mas seus olhos agora mostravam algo além da raiva: frustração, confusão. Vulnerabilidade.


— Claro que não! Se fosse meu, vocês iam saber. Eu teria feito um holograma dela rimando com armas nos braços, porra!


O grupo se entreolhou. A confusão era geral. Mas Trash... estava mudando.


A expressão dele endureceu. O sorriso louco desapareceu. O brilho nos olhos agora era puro cálculo.


— Se o corpo dela tá aqui… então alguém teve a audácia de esconder isso na minha estação. E fez isso sem que eu soubesse.


Ele olhou para Samuel.


— Me mostrem esse drone. Contem tudo o que sabem.


Fez uma pausa, longa o suficiente para que todos sentissem o peso de suas próximas palavras.


— E eu prometo... quem colocou isso no meu território vai sangrar.


O silêncio que se instalou não era mais de medo.


Era o som seco de um novo acordo sendo selado.


O Trono da Caveira… agora fazia parte da missão.


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