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A torre permanecia em silêncio.
Na superfície, ela ainda sustentava os escudos da Cidadela, canalizando energia para manter vivos os sistemas de suporte, a barreira defensiva e a vida dos que habitavam a última chama da resistência. No entanto, dentro de si, P.A. sentia-se como uma lâmpada tremulante — o núcleo instável, os dados atrasando em ciclos irregulares. Cada fragmento de sua consciência trabalhava dobrado, exaurindo energia que mal existia.
— Desligar unidades de vigilância de setores abandonados… — murmurou, sua voz digital saindo trêmula.
— Recolher drones de observação… suspender escaneamento de superfície… manter mínimo necessário para integridade da rede.
Cada comando era como um passo dado no meio de um campo minado: cuidadoso, contido, necessário.
Mas entre tudo aquilo, havia um único setor intocado.
O coração verde da torre.
Ela transferiu parte de sua visão para lá, como se precisasse respirar… mesmo sem pulmões.
Ali, no interior do nível mais isolado da estrutura, vivia um milagre silencioso: a floresta cibernatural.
Árvores de tronco real, mas raízes entrelaçadas com fios de energia orgânica. Plantas nascidas de sementes adaptadas, resistentes à poluição. Animais pequenos — aves de penas cristalinas, coelhos de pelo sintético, insetos luminescentes — habitavam o ecossistema com uma paz que o mundo lá fora desconhecia.
E naquele momento, enquanto o resto da torre lutava para não cair, aquilo seguia florescendo.
P.A. observou em silêncio, os olhos digitais suavizados.
Ali não havia protocolos. Nem algoritmos. Nem alertas.
Só a lembrança de algo que realmente importava.
Ela se recordou do início…
De quando construíra aquele lugar ao lado de Lucius, antes da guerra escalar, quando ambos ainda acreditavam que tecnologia e natureza não precisavam se opor — que poderiam coexistir. Unir o metal à raiz, a lógica ao ciclo da vida.
Essa floresta era a missão verdadeira.
Mais do que cálculos, mais do que a proteção da Cidadela, mais até do que a barreira… aquilo era o sonho.
A última semente de um mundo que ainda podia dar certo.
— Quando a guerra acabar… quando a torre se abrir… — murmurou. — Isso poderá se espalhar.
E o mundo… talvez respire de novo.
Ela sabia que não viveria para ver.
Mas aquela floresta… poderia viver por ela.
Por um instante, a dor dos sistemas em colapso cessou.
Porque dentro dela, havia um foco de vida — de esperança concreta, crescendo no escuro.
Mas logo um novo impulso acendeu em seu núcleo.
Um impulso que não vinha de falha… ou medo.
Era mais profundo.
Era saudade.
Do grupo. De Lira, de Lucius… de Samuel.
Ele havia prometido. Que voltaria. Que restauraria seu corpo.
Ela acreditava.
Mas aquela lembrança não bastava agora. Havia algo mais… como uma leve pressão.
Um impulso interno, sem explicação lógica — como um toque, uma intuição, um aviso que não vinha de nenhum cálculo.
Uma sensação diferente… como se alguém a estivesse chamando.
Não diretamente. Mas através do tempo, da conexão emocional que ela, mesmo sendo IA, havia desenvolvido com o grupo.
Ela precisava saber se estavam bem.
Precisava saber… se ele ainda estava bem.
— Conectar sistema auxiliar… reativar canal de comunicação passiva.
P.A. buscou, com cuidado, o sinal do antigo drone auxiliar que havia ajudado o grupo antes — aquele que agora estava guardado por Lucius. Uma tecnologia simples, reciclada de dispositivos da gangue Underground. Um canal que parecia esquecido… mas ainda ativo.
Com dificuldade, ela o alcançou.
A lente do drone piscou fraca dentro da mochila de Lucius.
— Estabelecendo ponte segura. Compressão de voz em baixa frequência…
E então, gravou:
— Sou eu… P.A.
Pausa.
Sua voz tremia, não por falha no sistema, mas por tudo o que ela queria dizer — e não podia.
— Ainda estou aqui. Sustentando o que resta. A Cidadela… permanece protegida.
Outra pausa, como se buscasse as palavras certas entre milhares de cálculos.
— Minhas reservas estão baixas. O núcleo… instável. Não posso manter tudo por muito mais tempo. Me desculpem não poder está aí com vocês os ajudando.
A voz se suavizou, quase um sussurro digital.
— Não envio isso como alerta. Mas porque... senti algo.
Mais uma pausa. Quase imperceptível.
— Não tenho sensores que expliquem. Não encontrei a lógica. Apenas… sinto.
Que devo falar com vocês. Com você.
Silêncio. Um leve estalo no áudio.
— Samuel…
Estou cumprindo a promessa. A minha parte.
Espero que ainda esteja… fazendo a sua.
Por fim, uma última linha. Quase inaudível. Mas verdadeira.
— Eu continuo acreditando.
A mensagem foi enviada como um sussurro digital, delicado e esperançoso.
Mas ela não sabia o que aconteceria depois.
Aquela frequência, embora adormecida, ainda era rastreável.
E na fortaleza de Underground...
um sinal foi captado.
E o eco daquela esperança — transmitido sem medo — se tornaria também o eco de um novo perigo...
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Os corredores da Fortaleza estavam mais silenciosos do que o habitual. As engrenagens giravam com um ronco preguiçoso, como se até mesmo as máquinas estivessem exaustas da guerra que parecia nunca acabar.
Soffy caminhava pelos salões com sua postura imponente de sempre, mas algo nela... estava diferente.
O passo era firme, o olhar atento, os ombros retos — e mesmo assim, havia um ruído estranho por trás de cada gesto. Um atraso milimétrico, um olhar que durava meio segundo a mais.
Ela estava dispersa... mas não fraca. Apenas... carregada demais por dentro.
As palavras de Koran, ditas mais cedo, ainda ecoavam em sua mente, mesmo que ela fingisse o contrário. Ela não demonstrava arrependimento, tampouco culpa — mas algo nela, naquele dia, parecia menos blindado. Talvez fosse só a solidão... ou talvez fosse o nome que voltava a ecoar dentro dela como uma música maldita.
Drax.
Aquela lembrança a fazia franzir o cenho. Não de dor, nem de saudade — mas de inquietação.
— Eu já tenho o irmão dele... — sussurrou a si mesma, enquanto seus dedos deslizavam por uma viga metálica enferrujada. — Só preciso que ele me olhe do jeito certo. Amor é uma questão de... reprogramar.
Girou suavemente nos próprios calcanhares, como se dançasse sozinha em um salão vazio. Um sorriso pálido surgiu em seus lábios — frio, mas não cruel. Talvez até... confuso.
Naquele instante, ela não parecia a tirana impiedosa. Parecia alguém tentando se convencer de algo que nunca funcionou.
— Senhora Soffy! — uma voz masculina a chamou, apressada.
Um dos ladrões atravessou o salão quase tropeçando nas próprias botas, ofegante e pálido.
— O que foi agora? — ela perguntou, irritada por ter sua dança interrompida.
— Recebemos um sinal.
Ela revirou os olhos, voltando à sua máscara de frieza.
— Se for interferência daquele satélite de novo, eu juro que vou arrancar a língua do próximo que me chamar pra isso...
— Não é interferência, senhora. — disse ele, rápido. — É... a fonte.
O salão pareceu congelar.
Soffy parou. O olhar antes perdido tornou-se preciso como uma lâmina.
— Continue.
— Um dos rastreadores do Draken captou um sinal vindo de Valtrex. Curto alcance, exposto. Foi ativado de forma remota. Um dos drones perdidos na caçada dos sentinelas.
Ela estreitou os olhos, avançando lentamente em sua direção.
— E quem está com esse drone?
O técnico hesitou por um segundo. Um segundo a mais do que devia.
E aquele segundo custaria caro.
Soffy o fitou como uma lâmina prestes a se curvar.
— Eu... os registros mostram que ele foi visto ao lado de Lucius Arkwright. E... e há outro nome...
Ela estreitou os olhos.
— Que nome?
O silêncio caiu como um peso brutal sobre o salão.
O ar parecia mais espesso, como se cada partícula carregasse eletricidade.
E o técnico... sentiu tudo isso na pele.
Soffy avançou um passo. Apenas um.
Mas foi o suficiente para que ele sentisse sua respiração — metálica, fria, quase desumana — tocar o rosto dele.
— Diga o nome.
Ele engoliu em seco, a voz falhando.
— Samuel, senhora...
E, segundo o cruzamento dos dados com o padrão da Fonte...
— ...ele não está apenas próximo da energia.
— Ele... ele é a fonte.
Soffy não disse nada.
Mas seu corpo recuou um único passo — como se o impacto da revelação tivesse sido físico, um golpe invisível no centro de sua mente distorcida.
Os olhos dela piscavam mais lentamente agora.
Como se estivessem tentando absorver o que haviam ouvido.
Mas o que veio não foi negação.
Não foi descrença.
Foi algo muito pior.
Fascínio.
— Um humano... — ela murmurou, quase sem ar — ...é a Fonte?
Suas palavras não soavam como perguntas.
Soavam como um eco.
Um feitiço recém-descoberto.
Ela não se moveu por longos segundos. Estava ali, parada, encarando o vazio como quem vê uma profecia se cumprir bem diante dos olhos.
E então… ela sorriu.
Mas não foi um sorriso cruel.
Nem uma gargalhada insana.
Foi o sorriso de alguém que acabou de descobrir o segredo mais precioso do mundo.
Um tesouro vivo. Uma raridade impensável.
Algo que não pode ser ignorado — ou deixado livre.
— Eu sabia, uma anomalia... — sussurrou, com voz fina, quase infantil.
— Que conveniente...
Ela ergueu o rosto em direção ao teto de aço, os olhos brilhando com uma chama nova, um desejo antigo reacendido por algo completamente novo.
A Fonte... tinha um nome. Tinha um corpo.
Era mais do que poder.
Era pessoal.
Com essa informação tudo poderia mudar.
— Samuel... — ela repetiu, saboreando cada sílaba.
E naquele instante, algo mudou no olhar dela.
Não era só ganância.
Ela virou-se devagar, o passo repentinamente leve demais, como se estivesse flutuando num sonho.
Mas alguém a observava.
Na oficina, Koran observava tudo.
Enquanto ajustava um painel danificado, as mãos sujas de graxa, mas seus olhos estavam vidrados em Soffy.
Não havia apenas desconfiança neles.
Havia dor. Tristeza. Um pesar que só quem ainda acredita sente.
Ele via tudo. Os sorrisos falsos. Os delírios sutis. Os planos distorcidos.
E mesmo assim...
Mesmo assim, algo nele ainda queria puxá-la de volta.
Como se, no fundo, ainda existisse algo ali — algo real, soterrado sob os escombros daquela androide.
Mas nem mesmo ele sabia se era possível.
Ou se... já tinha passado do ponto de retorno.
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