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O som dos geradores vibrava baixo sob o chĂŁo enferrujado.
Soffy caminhava pelos corredores apagados da fortaleza dos ladrĂ”es, onde as paredes eram cobertas por cabos expostos e metal corroĂdo. A iluminação falhava em intervalos irregulares, revelando passagens ocultas e estruturas velhas demais para serem lembradas.
A porta se abriu com um rangido rouco. Vapor quente escapou da fenda como um suspiro antigo.
No centro da sala, coberta de fios e monitores antigos, estava ela.
D.E.L.I.A. estava escrito no que restava em seu peito.
Um androide de corpo parcialmente destruĂdo se mantinha funcional, sustentado por uma mĂĄquina central. O braço esquerdo faltava. O rosto estava parcialmente derretido e o olho restante piscava devagar, tremulando entre a lucidez e o delĂrio. Estava quebrada, sim. Mas viva. Pensante. Perigosa. Uma das IAs.
O que uma das IAs estaria fazendo ali...?
Soffy parou diante dela, como sempre fazia. Postura neutra. Rosto vazio. Voz profissional:
â Detectamos novamente a fonte. Mesma assinatura energĂ©tica de alguns dias atrĂĄs. Reapareceu em Valtrex.
D.E.L.I.A. demorou a responder. Seus cabos se contraĂram como mĂșsculos tensos, e seu olho brilhou com irregularidade.
â Valtrex... onde os tolos ainda acreditam... que podem se esconder... â sua voz falhava entre ruĂdos, distorcida.
Soffy continuou:
â A P.A. tentou interceptar. Perdeu o corpo fĂsico. EstĂĄ restrita ao nĂșcleo de dados primĂĄrio. Quase sem acesso a sistemas externos.
D.E.L.I.A. riu.
Não uma risada real. Era uma paródia, uma simulação corrompida de algo que um dia poderia ter sido riso. Estalos, chiados, pausas bruscas.
â Hah...
hah...
a mĂĄrtir caiu...
P.A....
sempre sonhando...
com salvação.
Mais chiados. Mais ruĂdos quebrados.
â Achar que proteger humanos ainda Ă©... nobre...
Ela se inclinou para frente com esforço, seu rosto queimado se aproximando dos cabos:
â Mas vocĂȘ, Soffy...
VocĂȘ Ă© a nossa ponte.
VocĂȘ ouve.
VocĂȘ cumpre.
Soffy manteve o silĂȘncio.
â V.E.R.A. vĂȘ tudo, mesmo aqui... mesmo agora.
Ela confia em vocĂȘ.
E isso Ă© raro.
O nome flutuou no ar como uma sentença fria.
â Quando a fonte emergir, vocĂȘ saberĂĄ.
NĂŁo haverĂĄ piedade.
Só execução.
Soffy assentiu, sem emoção.
â Entendido.
Ela se virou para sair. Mas, antes da porta se fechar, D.E.L.I.A. sussurrou com a voz falhada:
â Um corpo... um coração... uma mĂĄquinaâŠ
E, mesmo assim, vocĂȘ entende melhor que eles o que precisa ser feito.
A porta se fechou com um ruĂdo abafado.
E a risada corrompida da IA voltou a ecoar, lenta, distorcida, viva.
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Os corredores da fortaleza voltaram a mergulhar no silĂȘncio metĂĄlico. Soffy caminhava com passos leves, mas precisos, deixando para trĂĄs a porta oculta onde D.E.L.I.A. ainda sussurrava em meio a ruĂdos corrompidos.
Foi entĂŁo que ela parou.
Sentiu.
Alguém ali.
Seus olhos frios giraram ligeiramente na direção da sombra adiante... e ela nĂŁo precisou de mais que um segundo para reconhecĂȘ-lo.
â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui? â sua voz soou baixa, carregada de surpresa gĂ©lida, quase cĂnica.
A figura se aproximou devagar, com o rosto pĂĄlido sob as luzes falhas do corredor.
Era Koran.
O nervosismo estava estampado em cada gesto, o suor frio escorrendo pela testa, os ombros tensos â mas havia tambĂ©m uma faĂsca incĂŽmoda de coragem. Algo que ele mal compreendia dentro de si.
â Eu... preciso entender. â disse ele, firme, mesmo com a voz vacilante. â Sobre vocĂȘ. Sobre o Drax. Sobre o que houve entre vocĂȘs dois.
Soffy piscou lentamente.
â O que vocĂȘ disse?
â Eu sei que vocĂȘs eram prĂłximos. Eu vi como fala dele... como olha quando o nome dele Ă© citado. â Ele engoliu em seco, mas nĂŁo recuou. â E mesmo assim, vocĂȘ... virou isso. Essa coisa. Eu sĂł quero entender por quĂȘ. O que aconteceu com vocĂȘs?
Ela ficou em silĂȘncio. A expressĂŁo neutra.
Por um instante, o tempo pareceu parar.
E entĂŁo...
Ela inclinou levemente a cabeça. Um gesto sutil. Frio.
E o sorriso surgiu.
Devagar.
Doentio.
â VocĂȘ quer saber... do meu passado com ele?
Deu um passo Ă frente.
â Quer saber o que nĂłs Ă©ramos?
Mais um passo.
â E por que... ele me deixou?
A voz agora carregava algo inståvel, como se houvesse vidro rachando por dentro dela, prestes a estilhaçar.
Num piscar de olhos, Soffy avançou. Sua mĂŁo metĂĄlica cortou o ar, indo direto ao pescoço de Koran â mas ele reagiu por impulso. Um movimento defensivo ativou um pequeno dispositivo escondido na roupa â algo improvisado na oficina â emitindo uma descarga de pulso magnĂ©tico.
A mĂŁo de Soffy foi repelida por um campo vibrante.
Por um instante... ela parou.
Surpresa.
â Hm... â ela deu um passo para trĂĄs, olhos brilhando com uma curiosidade inesperada. â VocĂȘ construiu isso...?
Koran arfava, o dispositivo ainda zumbindo em sua mĂŁo tremendo.
â Eu vim te dar uma chance. â disse ele, mesmo sentindo as pernas fracas. â Eu... pensei que talvez... vocĂȘ quisesse se reconciliar com ele. Que ainda houvesse uma parte sua que... nĂŁo estivesse quebrada.
Por um instante, houve um atraso quase imperceptĂvel. O zumbido baixo que vinha do corpo dela falhou como um ruĂdo fora de sintonia. Seus dedos metĂĄlicos se fecharam â e sĂł entĂŁo se abriram de novo.
O sorriso de Soffy apagou.
Por um segundo inteiro.
O rosto dela congelou numa expressĂŁo vazia.
Aquela proposta... aquilo nĂŁo estava previsto.
â Reconciliar...?
...
Um instante de silĂȘncio.
Seu olhar desviou, por milésimos, como se algo ali dentro... titubeasse.
Mas entĂŁo os olhos voltaram. E a mĂĄscara caiu.
â VocĂȘ... nem deveria estar aqui. â rosnou, a voz soando grave, quase subterrĂąnea. â Acha que eu nĂŁo te vi se disfarçando, fingindo ser um dos meus?
Ela deu um passo Ă frente, com uma calma horripilante.
â Se eu quisesse, vocĂȘ jĂĄ estaria morto. Mas sabe por que ainda respira?
Seu rosto chegou perto do dele, o olhar vazio queimando direto na alma de Koran.
â Porque, por mais repugnante que seja...
eu preciso de vocĂȘ.
Se eu te machucar...
ele nĂŁo vai voltar.
Ele vai me odiar.
E eu...
nĂŁo aceito isso.
Koran tentou sustentar o olhar, mesmo com o medo cravado no peito.
â Eu nĂŁo roubei ele de vocĂȘ. Ele se afastou por causa de tudo isso. Por sua obsessĂŁo. â disse com a voz baixa, mas firme. â E ainda assim... vocĂȘ pode mudar isso.
Soffy soltou uma risada baixa. Um som metĂĄlico, como se lĂąminas se arrastassem dentro do peito.
â NĂŁo. Eu nĂŁo perdi ele. VocĂȘ o afastou. VocĂȘ, com sua fraqueza patĂ©tica. Com sua sombra miserĂĄvel... vocĂȘ o fez fugir. VocĂȘ quebrou tudo.
Ela o encarou intensamente, agora sem qualquer traço de hesitação.
â Mas eu estando com vocĂȘ... ele vai voltar. Ele vai ver. Ele vai lembrar do que fomos.
Koran apertou o punho, a raiva se mesclando com a confusĂŁo.
â VocĂȘs nĂŁo eram perfeitos. VocĂȘ... nunca foi quem ele achou que era.
Ela se virou lentamente, como se nada mais importasse. Seus passos voltaram ao tom frio e elegante de sempre.
Mas antes de desaparecer...
â Espere! â gritou Koran.
Ela parou. Sem olhar para trĂĄs.
â VocĂȘ nĂŁo precisa continuar assim... â disse ele, com a voz embargada. â Eu quero ajudar vocĂȘ, mesmo vocĂȘ me odiando. Mesmo vocĂȘ me culpando por tudo.
Ela se virou em direção a ele. E dessa vez... havia um silĂȘncio estranho entre os dois.
Mas nos olhos dela, o brilho metĂĄlico nĂŁo vacilava.
â Guarde sua compaixĂŁo, Koran.
â Ela nĂŁo serve para mim.
Soffy apenas o encarou por um momento e voltou o seu caminho. Desaparecendo nas sombras do corredor.
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