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O HerĂłi Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
46 |đŸ’«| Fragmentos de um Desejo
1262 palavras ‱ 7370 caracteres ‱ ⏱ 5 min 03 s

46 |đŸ’«| Fragmentos de um Desejo

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O som dos geradores vibrava baixo sob o chĂŁo enferrujado.


Soffy caminhava pelos corredores apagados da fortaleza dos ladrÔes, onde as paredes eram cobertas por cabos expostos e metal corroído. A iluminação falhava em intervalos irregulares, revelando passagens ocultas e estruturas velhas demais para serem lembradas.


A porta se abriu com um rangido rouco. Vapor quente escapou da fenda como um suspiro antigo.


No centro da sala, coberta de fios e monitores antigos, estava ela.


D.E.L.I.A. estava escrito no que restava em seu peito. 


Um androide de corpo parcialmente destruído se mantinha funcional, sustentado por uma måquina central. O braço esquerdo faltava. O rosto estava parcialmente derretido e o olho restante piscava devagar, tremulando entre a lucidez e o delírio. Estava quebrada, sim. Mas viva. Pensante. Perigosa. Uma das IAs.


O que uma das IAs estaria fazendo ali...?


Soffy parou diante dela, como sempre fazia. Postura neutra. Rosto vazio. Voz profissional:


— Detectamos novamente a fonte. Mesma assinatura energĂ©tica de alguns dias atrĂĄs. Reapareceu em Valtrex.


D.E.L.I.A. demorou a responder. Seus cabos se contraĂ­ram como mĂșsculos tensos, e seu olho brilhou com irregularidade.


— Valtrex... onde os tolos ainda acreditam... que podem se esconder... — sua voz falhava entre ruídos, distorcida.


Soffy continuou:


— A P.A. tentou interceptar. Perdeu o corpo fĂ­sico. EstĂĄ restrita ao nĂșcleo de dados primĂĄrio. Quase sem acesso a sistemas externos.


D.E.L.I.A. riu.


Não uma risada real. Era uma paródia, uma simulação corrompida de algo que um dia poderia ter sido riso. Estalos, chiados, pausas bruscas.


— Hah...

hah...

a mĂĄrtir caiu...


P.A....

sempre sonhando...

com salvação.


Mais chiados. Mais ruĂ­dos quebrados.


— Achar que proteger humanos ainda Ă©... nobre...


Ela se inclinou para frente com esforço, seu rosto queimado se aproximando dos cabos:


— Mas vocĂȘ, Soffy...

VocĂȘ Ă© a nossa ponte.

VocĂȘ ouve. 

VocĂȘ cumpre.


Soffy manteve o silĂȘncio.


— V.E.R.A. vĂȘ tudo, mesmo aqui... mesmo agora.

Ela confia em vocĂȘ.

E isso Ă© raro.


O nome flutuou no ar como uma sentença fria.


— Quando a fonte emergir, vocĂȘ saberĂĄ.

NĂŁo haverĂĄ piedade.

Só execução.


Soffy assentiu, sem emoção.


— Entendido.


Ela se virou para sair. Mas, antes da porta se fechar, D.E.L.I.A. sussurrou com a voz falhada:


— Um corpo... um coração... uma máquina


E, mesmo assim, vocĂȘ entende melhor que eles o que precisa ser feito.


A porta se fechou com um ruĂ­do abafado.


E a risada corrompida da IA voltou a ecoar, lenta, distorcida, viva.


--- đŸ’« ---


Os corredores da fortaleza voltaram a mergulhar no silĂȘncio metĂĄlico. Soffy caminhava com passos leves, mas precisos, deixando para trĂĄs a porta oculta onde D.E.L.I.A. ainda sussurrava em meio a ruĂ­dos corrompidos.


Foi entĂŁo que ela parou.


Sentiu.


Alguém ali.


Seus olhos frios giraram ligeiramente na direção da sombra adiante... e ela nĂŁo precisou de mais que um segundo para reconhecĂȘ-lo.


— O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui? — sua voz soou baixa, carregada de surpresa gĂ©lida, quase cĂ­nica.


A figura se aproximou devagar, com o rosto pĂĄlido sob as luzes falhas do corredor.


Era Koran.


O nervosismo estava estampado em cada gesto, o suor frio escorrendo pela testa, os ombros tensos — mas havia tambĂ©m uma faĂ­sca incĂŽmoda de coragem. Algo que ele mal compreendia dentro de si.


— Eu... preciso entender. — disse ele, firme, mesmo com a voz vacilante. — Sobre vocĂȘ. Sobre o Drax. Sobre o que houve entre vocĂȘs dois.


Soffy piscou lentamente.


— O que vocĂȘ disse?


— Eu sei que vocĂȘs eram prĂłximos. Eu vi como fala dele... como olha quando o nome dele Ă© citado. — Ele engoliu em seco, mas nĂŁo recuou. — E mesmo assim, vocĂȘ... virou isso. Essa coisa. Eu sĂł quero entender por quĂȘ. O que aconteceu com vocĂȘs?


Ela ficou em silĂȘncio. A expressĂŁo neutra.


Por um instante, o tempo pareceu parar.


E entĂŁo...


Ela inclinou levemente a cabeça. Um gesto sutil. Frio.


E o sorriso surgiu.


Devagar.


Doentio.


— VocĂȘ quer saber... do meu passado com ele?


Deu um passo Ă  frente.


— Quer saber o que nĂłs Ă©ramos?


Mais um passo.


— E por que... ele me deixou?


A voz agora carregava algo inståvel, como se houvesse vidro rachando por dentro dela, prestes a estilhaçar.


Num piscar de olhos, Soffy avançou. Sua mĂŁo metĂĄlica cortou o ar, indo direto ao pescoço de Koran — mas ele reagiu por impulso. Um movimento defensivo ativou um pequeno dispositivo escondido na roupa — algo improvisado na oficina — emitindo uma descarga de pulso magnĂ©tico.


A mĂŁo de Soffy foi repelida por um campo vibrante. 

Por um instante... ela parou.

Surpresa.


— Hm... — ela deu um passo para trĂĄs, olhos brilhando com uma curiosidade inesperada. — VocĂȘ construiu isso...?


Koran arfava, o dispositivo ainda zumbindo em sua mĂŁo tremendo.


— Eu vim te dar uma chance. — disse ele, mesmo sentindo as pernas fracas. — Eu... pensei que talvez... vocĂȘ quisesse se reconciliar com ele. Que ainda houvesse uma parte sua que... nĂŁo estivesse quebrada.


Por um instante, houve um atraso quase imperceptível. O zumbido baixo que vinha do corpo dela falhou como um ruído fora de sintonia. Seus dedos metálicos se fecharam — e só então se abriram de novo.


O sorriso de Soffy apagou.

Por um segundo inteiro.


O rosto dela congelou numa expressĂŁo vazia.


Aquela proposta... aquilo nĂŁo estava previsto.


— Reconciliar...? 


...


Um instante de silĂȘncio.


Seu olhar desviou, por milésimos, como se algo ali dentro... titubeasse.


Mas entĂŁo os olhos voltaram. E a mĂĄscara caiu.


— VocĂȘ... nem deveria estar aqui. — rosnou, a voz soando grave, quase subterrĂąnea. — Acha que eu nĂŁo te vi se disfarçando, fingindo ser um dos meus?


Ela deu um passo Ă  frente, com uma calma horripilante.


— Se eu quisesse, vocĂȘ jĂĄ estaria morto. Mas sabe por que ainda respira?


Seu rosto chegou perto do dele, o olhar vazio queimando direto na alma de Koran.


— Porque, por mais repugnante que seja...

eu preciso de vocĂȘ.

Se eu te machucar...

ele nĂŁo vai voltar.

Ele vai me odiar.

E eu...

nĂŁo aceito isso.


Koran tentou sustentar o olhar, mesmo com o medo cravado no peito.


— Eu nĂŁo roubei ele de vocĂȘ. Ele se afastou por causa de tudo isso. Por sua obsessĂŁo. — disse com a voz baixa, mas firme. — E ainda assim... vocĂȘ pode mudar isso.


Soffy soltou uma risada baixa. Um som metĂĄlico, como se lĂąminas se arrastassem dentro do peito.


— NĂŁo. Eu nĂŁo perdi ele. VocĂȘ o afastou. VocĂȘ, com sua fraqueza patĂ©tica. Com sua sombra miserĂĄvel... vocĂȘ o fez fugir. VocĂȘ quebrou tudo.


Ela o encarou intensamente, agora sem qualquer traço de hesitação.


— Mas eu estando com vocĂȘ... ele vai voltar. Ele vai ver. Ele vai lembrar do que fomos.


Koran apertou o punho, a raiva se mesclando com a confusĂŁo.


— VocĂȘs nĂŁo eram perfeitos. VocĂȘ... nunca foi quem ele achou que era.


Ela se virou lentamente, como se nada mais importasse. Seus passos voltaram ao tom frio e elegante de sempre.


Mas antes de desaparecer...


— Espere! — gritou Koran.


Ela parou. Sem olhar para trĂĄs.


— VocĂȘ nĂŁo precisa continuar assim... — disse ele, com a voz embargada. — Eu quero ajudar vocĂȘ, mesmo vocĂȘ me odiando. Mesmo vocĂȘ me culpando por tudo.


Ela se virou em direção a ele. E dessa vez... havia um silĂȘncio estranho entre os dois.


Mas nos olhos dela, o brilho metĂĄlico nĂŁo vacilava.

— Guarde sua compaixão, Koran.


— Ela não serve para mim.


Soffy apenas o encarou por um momento e voltou o seu caminho. Desaparecendo nas sombras do corredor.


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