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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
45 |💫| A Estação do Esquecimento
2394 palavras • 14055 caracteres • ⏱ 9 min 35 s

45 |💫| A Estação do Esquecimento

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Existe um lugar. Esquecido sob os escombros da cidadela, afundada onde até a luz hesita em entrar.


Ela foi construída para servir... depois descartada, enterrada e finalmente deformada. Hoje, é o domínio da gangue Skull — um império subterrâneo onde o vício, a violência e o esquecimento caminham lado a lado. Abaixo da Cidadela, tudo pulsa diferente. Mais sujo. Mais cruel. Mais verdadeiro.


Não é apenas um abrigo de criminosos.


É onde a cidade joga tudo o que quer apagar.


E agora... era para lá que eles estavam indo.


O grupo avançava pelas ruas abafadas e pouco movimentadas, onde até os painéis de propaganda pareciam exibir imagens fantasmas. O som da cidade vibrante já havia desaparecido há muitos quarteirões. O cheiro de umidade dominava o ar.


Até que chegaram.


No fim de uma escadaria de metal parcialmente engolida pela estrutura urbana, escondida atrás de uma barricada velha e letreiros rachados, estava a entrada.


Um antigo terminal de metrô.

Coberto por placas holográficas piscando fora de ritmo, onde letras quase apagadas ainda podiam ser lidas: "Linha 5 - Desativada". Mas o detalhe mais estranho era o portão metálico, selado por décadas… que agora se abriu sozinho.


Um scanner invisível detectou o dispositivo de Leon.


Com um estalo sutil e uma série de luzes se acendendo em sequência, as grades se recolheram como costelas mecânicas, revelando um túnel em espiral mergulhado numa escuridão pulsante. As escadas rolantes estavam cobertas por musgo eletrônico e cabos expostos, mas ainda funcionavam — lentas, rangendo com um som abafado.


Pelas paredes, projeções digitais piscavam entre anúncios quebrados e símbolos da gangue, como se a própria estação estivesse viva... ou vigiando.


Sem falar uma palavra, Leon desceu primeiro.


O grupo o seguiu.


Samuel, por último, fitou por alguns segundos o símbolo antigo da estação — uma estrela apagada entre linhas curvas — e então, com o mesmo passo calmo e firme, mergulhou no subsolo.


Pois mesmo onde o concreto sufoca a luz, ele caminhava.


Porque era ali, onde todos haviam desistido...

que a esperança ainda podia florescer.


--- 💫 ---


Enquanto o grupo caminhava pelos trilhos abandonados, o som de seus passos ecoava pelo túnel como uma batida distante de alerta. A luz das faixas de néon em suas roupas refletia nas paredes metálicas enferrujadas, distorcendo sombras em figuras irreconhecíveis. O ar cheirava a poeira velha e eletricidade queimada.


Leon, caminhando ao lado de Lira, não conseguiu mais conter o incômodo que lhe roía por dentro. Olhou de relance para o grupo e então se aproximou dela, baixando o tom de voz.


— Desde quando você anda com esse tipo de gente? — sussurrou, tentando disfarçar o nervosismo com sarcasmo. — Sabe que eu só tô nessa porque você pediu, né? Se for algum tipo de sequestro silencioso... pisca duas vezes.


Lira soltou um riso fraco, desviando o olhar.


— Eu tô bem, Leon. Pode relaxar.


— Então por que diabos vocês querem vir até aqui? — ele insistiu, olhando ao redor com desconfiança. — A Skull, Lira? Justo eles?


Ela suspirou, pressionando os dedos contra as têmporas, como se carregasse o peso de tudo nas mãos. Queria explicar, mas parte dela hesitava. Ainda assim, encontrou coragem na figura adiante.


— Eu queria muito te contar tudo... mas...


Samuel, que caminhava em silêncio, virou levemente o rosto em sua direção. Um gesto sutil. Um simples movimento de cabeça.


Lira assentiu de volta, quase imperceptível.


— É sobre a P.A.


Leon parou por um instante, franzindo o cenho.


— P.A., Lira?!


— Espera... deixa eu explicar. — disse ela, tentando manter a calma — A Skull... eles roubaram o corpo dela. Estamos aqui pra recuperá-lo.


Leon piscou, processando as palavras como se estivesse esperando qualquer outra coisa — menos isso.


— Você tá me dizendo que essa IA metida a guardiã te arrastou pra cá? — ele disse, descrente. — Ela perdeu completamente a noção, não foi?


— Não foi ela que me chamou... foram eles. — respondeu Lira, lançando um olhar rápido para Samuel e Lucius, que seguiam à frente.


Leon desviou os olhos para os dois, analisando cada um em silêncio. Seus olhos pararam por mais tempo em Samuel.


— E você aceitou assim? Só... confiou? Lira, você lembra com quem a gente tá lidando, né? A Skull não é só uma gangue — é um tumor. Você sabe o que aconteceu comigo quando eu tentei entrar aqui da última vez...


Ela abaixou a cabeça por um momento, depois encarou o amigo com firmeza.


— Eu sei, Itochi. Mas... as palavras dele — disse, olhando diretamente para Samuel — me fizeram aceitar. Não sei explicar. Ele é... diferente. Não de um jeito ruim. Tem algo nele que... não dá pra ignorar.


Leon cruzou os braços, ainda desconfiado.


— Diferente? — murmurou, sem esconder a curiosidade. — É, eu senti algo também... quando o vi. E aquele outro ali? — apontou discretamente para Lucius com o queixo — Parece tipo... o mascote engraçado da missão?


Lira riu de leve, quase aliviada por ele ceder um pouco.


— O Lucius é... estranho, mas de um jeito bom. Meio tagarela, meio impulsivo... mas tem um bom coração. E ele conhece o Samuel de alguma forma. Só não sei o quanto.


Leon ficou em silêncio por alguns segundos, observando os dois homens à frente como se ainda estivesse esperando um sinal para recuar.


Mas então, Leon olhou para Lira novamente. Seus olhos suavizaram por um breve instante, vencidos por algo entre cansaço e cuidado.


— Se você diz... eu acredito.


Ele respirou fundo e seguiu adiante, à frente do grupo, ainda com os ombros tensos — como se carregasse o peso de uma memória que preferia deixar enterrada.


O grupo continuou em silêncio, os passos ecoando nos trilhos abandonados enquanto cruzavam os restos da esquecida linha 5. Ao longe, uma placa enferrujada surgia, pendurada por fios tortos e quase caída, com letras digitais piscando intermitentes: LINHA 6.


Foi então que Leon parou e virou-se parcialmente para o grupo. Sua voz saiu firme, porém mais baixa do que o habitual — como se temesse que o próprio ar ao redor pudesse ouvir.


— A partir daqui... fiquem perto. — seus olhos varreram cada rosto — É sério, isso não é brincadeira. Aqui é perigoso demais. Nosso ponto é na Linha 8... mas temos que cruzar a 6 primeiro. E rápido.


Lira se aproximou discretamente de Lucius, caminhando ao lado dele. Leon lançou um olhar rápido para trás, só para se certificar de que todos ainda estavam juntos — e então continuou em frente.


Mas assim que o grupo pisou na Linha 6, entenderam o porquê da tensão em sua voz.


Aquele lugar não parecia mais uma estação — era um abrigo grotesco, onde a cidade depositava tudo o que não queria ver.


Os trilhos estavam cobertos por lixo e placas metálicas improvisadas. Entre os vãos das antigas plataformas, havia colchões rasgados, cobertores sujos e garrafas vazias espalhadas como se marcassem território. O cheiro era uma mistura sufocante de mofo, ferrugem e urina. Tremores distantes ecoavam por debaixo da terra, como se a própria estação reclamasse sua existência.


Alguns vagões estavam abertos, com panos pendurados nas janelas, improvisados como cortinas. Dentro, siluetas malformadas dormiam ou apenas encaravam a escuridão, olhos perdidos, corpos envoltos por trapos e restos de roupas térmicas. Era como se cada vagão carregasse uma história que ninguém quis ouvir.


Entre os pilares de concreto, cabanas improvisadas se espalhavam como cicatrizes. Olhos surgiam da penumbra — desconfiados, famintos, vazios. Ninguém ali estava vivendo. Estavam apenas resistindo.


Leon desacelerou um pouco, atento aos rostos que surgiam da escuridão. Em um canto, um grupo de figuras encapuzadas estava agachado ao redor de uma fogueira feita com placas eletrônicas queimadas, falando baixo, encarando o grupo com olhares carregados.


— Não olhem pra eles. — disse Leon, sem virar o rosto — E não parem por nada.


Samuel, como sempre, caminhava em silêncio, os olhos à frente, atento, mas inacreditavelmente calmos. Lucius olhava em volta com expressão contida, segurando a vontade de comentar qualquer coisa.


Lira desacelerou o passo por um instante. Seus olhos passaram pelos colchões espalhados, pelas crianças encolhidas demais para a própria idade, pelas mãos trêmulas agarradas a restos de cobertores. O impulso de parar, de fazer algo, apertou-lhe o peito — mas ela seguiu em frente. Não por indiferença, e sim por saber que, ali, qualquer gesto impensado poderia custar mais do que ajudar.


Logo atrás, Drax seguia com o punho cerrado e o olhar duro, como se cada sombra fosse um inimigo prestes a se mover. Em determinado momento, ao perceber um vulto se aproximando por entre os vagões abandonados, ele parou, encarou fixamente e apenas abriu um pouco a postura — como um aviso silencioso. O vulto recuou sem dizer palavra.


Sylas, no entanto, caminhava atento e silencioso, os passos felinos firmes e suaves, o focinho movendo-se conforme ele captava os cheiros no ar. Mas continuava ao lado de Samuel, como um guardião vigilante.


Leon caminhava à frente com firmeza, mas seus punhos estavam cerrados. Ele conhecia aquele lugar. Conhecia mais do que gostaria.


E sabia que, por ali, a linha entre ser predador ou presa era tênue. Um passo em falso, uma troca de olhar errada... e aquele abrigo se transformava num pesadelo.


— Estamos quase. — murmurou, acelerando o passo.


Mas então, algo interrompeu o ritmo.


Drax esticou o braço e puxou Samuel bruscamente pelo ombro, fazendo o grupo parar num estalo. Seus olhos estavam fixos à frente — duros, sombrios, como lâminas prestes a se cravar.


— Achei ele. — rosnou com a voz grave, sufocada por raiva contida.


Seu dedo apontava com convicção para um garoto — magro, de no máximo quinze anos — com o rosto sujo de fuligem e os olhos fundos de quem já viu demais. Ele estava agachado ao lado de dois irmãos pequenos e de uma mulher fraca demais até para manter-se sentada. Juntos, queimavam restos de fios num tambor improvisado, extraindo cobre — o único valor que ainda conseguiam arrancar daquele mundo morto.


— Foi ele que roubou a Lira. — completou Drax, o punho cerrado, pronto para agir.


Sem esperar permissão, deu um passo à frente.


Mas Samuel se colocou em seu caminho. Não com força. Apenas com presença. Um gesto contido, calmo... porém absoluto.


— O quê? — cuspiu Drax, indignado. — Achamos ele. Vamos dar a ele o que merece!


— Não. — respondeu Samuel, com uma voz baixa e serena. Sem ódio. Sem julgamento. Só certeza.


Drax o encarou com fúria mal disfarçada. Para ele, aquilo era fraqueza. Medo. Mas Samuel não hesitou. Apenas passou por ele, em silêncio, e seguiu em direção ao garoto — seu olhar não mirava a faca... mas o que existia por trás dos olhos do menino.


O garoto notou sua aproximação e se ergueu num impulso. Sacou uma faca pequena, com o cabo desgastado. Tremia, mas manteve o corpo à frente dos irmãos e da mãe, como um escudo humano feito de desespero e teimosia.


— Para aí! — gritou, a voz trêmula, o maxilar travado. — Eu não vou deixar ninguém encostar neles! Eu... eu juro que corto!


Samuel parou. Não falou. Não reagiu. Apenas permaneceu ali, firme. Sereno.


— Eu só peguei aquilo porque ela parecia ter tudo! — o garoto vociferou, mais assustado do que agressivo. — A gente não tem mais nada! Nada!


Samuel deu mais um passo. Calmo. Ameaçador apenas pela ausência total de ameaça.


E então... ajoelhou-se. Não para se rebaixar. Mas para estar na altura dele. Para olhar nos olhos, de igual para igual. Para mostrar que ele o via.


O silêncio caiu como um manto.


E então, com a mesma suavidade de quem acende uma luz na escuridão, Samuel tirou algo do bolso. Não disse uma palavra. Apenas estendeu a mão.


Havia um pequeno objeto envolto ali. Mas o que Samuel entregava não era visível.


O que ele entregava... era esperança.


O garoto hesitou. A faca ainda trêmia, mas já não cortava. Pouco a pouco, o braço dele cedeu. A lâmina desceu.


Seus dedos, sujos e pequenos, avançaram como quem toca algo sagrado. Ele pegou o que Samuel lhe oferecia com cuidado — como se fosse algo que pudesse se quebrar com o toque.


Atrás dele, as crianças observavam. Não famintas por comida... mas famintas por alívio. Por um milagre.


O garoto tentou manter o rosto firme. Engoliu seco. Lutou contra o que sentia.


Mas quando Samuel ergueu a mão e tocou suavemente seus cabelos sujos, com um gesto simples, cheio de humanidade... o garoto desmoronou.


Caiu em seus braços, o rosto enterrado contra o peito de Samuel, chorando de verdade. Como uma criança. Como alguém que, pela primeira vez, não precisava lutar.


A dor veio crua. O choro foi feio, verdadeiro. Mas ninguém ali o julgou.


Pois naquele instante... não havia erro. Não havia culpa. Só alguém que foi visto — e perdoado.


Samuel ficou ali, imóvel, como um pilar de calma no meio do caos. Sem dizer nada. Sem exigir nada.


Lucius observava com os olhos marejando, engolindo em seco.


Lira levou uma mão ao peito, como se segurasse o coração.


Sylas, atento, recuou os olhos como se também compreendesse.


Drax... ficou parado. O semblante rígido. Mas havia algo diferente. Um lampejo em seus olhos. Não era raiva. Era... desconcerto. Um desconforto que ele não sabia nomear.


E Leon... apenas assistia. Em silêncio. Como se, naquele momento, tivesse entendido pela primeira vez o que Samuel realmente era.


Pois até mesmo ali, onde o mundo já havia desistido... Samuel via.


Não via um ladrão.


Nem um inimigo.


Ele via uma vida.


E oferecia o que quase ninguém mais ousava dar: compaixão.


Samuel retornou ao grupo com a mesma serenidade de antes. Como se nada tivesse acontecido.


Ao se aproximar de Lira, estendeu o braço. Em sua mão, o T.P.


Ela o pegou com cuidado.


— Obrigada... — murmurou. Mas não era só pelo objeto.


Era por tudo.


Drax, calado, desviou o olhar. Mas antes de seguir adiante, soltou um suspiro baixo. E murmurou, quase inaudível:


— Isso foi... grande.


Não tinha palavras melhores. E nem precisava.


O grupo recomeçou a caminhar, atravessando a linha esquecida como quem carrega um segredo.


Mas no fundo... sabiam.


Aquele gesto mudaria tudo.


Porque, às vezes, a menor luz... é suficiente para reacender um mundo inteiro.


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