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O cheiro de graxa, óleo queimado e metal derretido já parecia ter se infiltrado na própria pele de Koran. As mãos estavam imundas, os dedos riscados de pequenos cortes, e a ponta das unhas já não tinham mais cor — só graxa preta e suor seco. A essa altura, nem doía mais. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse o próprio corpo, que entendia que, ali, dor não fazia parte do contrato.
Sentado em uma bancada improvisada — um amontoado de placas tortas, tambores enferrujados e pedaços de máquinas mortas —, Koran apertava um conector numa carcaça, tentando fazer aquilo ganhar vida. Chave de fenda numa mão, uma placa de circuito na outra... desmontava, montava, encaixava, desencaixava. Se não desse certo, tentava de novo.
Apesar do medo, até que não estava tão perdido assim. Desde pequeno, montar e desmontar coisas era quase um hobby. Motores simples, rádios quebrados, pequenos drones... Não era nenhum mestre, longe disso, mas entendia o suficiente pra se virar — e o suficiente pra fingir que sabia o que estava fazendo. O problema era que, ali, os erros não se mediam em peças quebradas... se mediam em confiança perdida. E confiança, naquele lugar, custava caro.
Enquanto apertava uma última peça, sua mente já estava bem longe dali. As mãos se moviam no automático, mas os olhos vagavam, perdidos.
“Espero que o Drax tenha conseguido... Mas... espera...”
Ele franziu o cenho, se lembrando das palavras que Phomer havia jogado no ar, meio sem perceber.
"Sentinelas..."
Seu peito apertou.
“...Sentinelas, no plural. Não... não era só o Drax ali. Tinha mais alguém. Como eu não percebi isso antes...? Idiota...”
Mordeu o lábio inferior, apertando mais forte a chave de fenda, enquanto o pensamento fazia seu estômago revirar.
O som das soldas, dos martelos e das vozes ao redor parecia cada vez mais abafado, distante. Por alguns segundos, tudo sumiu, ficando só o som dos próprios pensamentos — e o ranger metálico da chave de fenda girando.
Até que...
— Ô, sucateiro! — a voz rouca e debochada de Phomer rasgou seus devaneios como um soco. — Tá surdo, parceiro? Acorda aí, pô! — completou, batendo o punho contra uma chapa metálica, fazendo um estrondo ecoar pela oficina.
Koran piscou, levantando a cabeça rápido, meio perdido, olhando em volta como se tivesse acabado de acordar de um sonho ruim.
Phomer veio andando, chutando uma caixa vazia no caminho, e jogou um pano sujo de graxa no ombro dele.
— Bora... hora do descanso. — Disse, cruzando os braços, olhando pro lado como se checasse se ninguém tava ouvindo. — A galera vai fumar, beber, falar besteira, reclamar da vida... — então abriu aquele sorriso torto de sempre — É o que mantém esse lugar funcionando, parceiro. Aproveita enquanto o patrão não aparece distribuindo voadora.
Koran respirou fundo, limpando as mãos no pano, tentando aliviar a tensão nos ombros. Forçou um sorriso leve, ajeitando o capuz meio torto sobre a cabeça.
— Beleza... — respondeu, com aquele tom que tentava ser casual, mas saía meio cansado, meio tenso. — Até que... nem é tão ruim mexer nessas tranqueiras.
— Iiiih... cuidado. — Phomer deu um tapão nas costas dele, forte o bastante pra quase desequilibrá-lo. — Começa assim... daqui a pouco tá igual nóis: vivendo de sucata, graxa e promessa furada.
Os dois seguiram em direção à parte aberta da oficina — um espaço meio improvisado, onde alguns barris queimavam, espalhando uma fumaça espessa e alaranjada. Ali, parte dos mecânicos já estavam largados: uns sentados em caixas, outros encostados nas paredes, outros em pé, com copos nas mãos e cigarros pendurados nos lábios.
— Aí, sucateiro... chega mais. — Chamou um dos três que viviam discutindo — Pink, jogando uma peça pra cima como se fosse uma moeda — Vem conhecer como é o melhor happy hour da desgraça.
— E sem desconto pra novato, hein! — completou Madson, acendendo um cigarro improvisado com um maçarico portátil.
Poc só balançou a cabeça, puxando um gole de uma garrafa suja.
Koran ajeitou o capuz, colocou as mãos no bolso e forçou um sorriso de canto, tentando se encaixar no tom descontraído do grupo.
— E aí... — respondeu, tentando soar natural —... o que cês tão tomando? Veneno ou solvente?
Todos riram, inclusive Phomer, que quase cuspiu o cigarro.
— Eita... — Phomer deu uma risada rouca, batendo a mão no ombro dele. — Esse aí tá pegando o jeito, hein!
Do outro lado, encostado sozinho numa parede, estava Sorrento — braços cruzados, expressão dura, olhos frios. Nem olhou na direção deles. Só ficou ali, como uma estátua de metal, encarando algum ponto perdido, desmontando uma peça de arma com a mesma calma letal de quem desmontaria uma pessoa se precisasse.
Ele era diferente. Silencioso. Fechado. A postura dele lembrava alguém que Koran conhecia bem... alguém que preferia resolver tudo na base da força, sem papo. Drax.
Mas, ao contrário dos outros, Koran sabia que ali... era melhor não puxar assunto.
Phomer deu um tapa na perna dele.
— Bora, parceiro. Relaxa... aqui é assim. A gente ri, trabalha, quase morre... e ri de novo. Aproveita enquanto o patrão não aparece cuspindo fogo.
Koran deu uma risada leve, olhando pro fogo que subia dos barris, e, por um momento... se permitiu esquecer que estava no meio de um ninho de rato.
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O fogo estalava dentro dos barris, lançando pequenas faíscas pro alto, enquanto a fumaça grossa desenhava sombras nas paredes metálicas da oficina. As conversas se misturavam com o som de gargalhadas roucas, latas sendo abertas, brindes batendo contra sucatas e, claro, xingamentos jogados como quem joga carta na mesa.
Phomer puxou um gole da garrafa, limpou a boca com as costas da mão e olhou de canto pra Koran, que estava mais quieto, meio retraído, olhando as chamas como quem tentava se perder nelas.
— E aí, sucateiro... — chamou, cruzando os braços sobre o joelho, apoiando-se —... tá na cara que tu não é igual a gente. Tem um... sei lá... um jeito estranho. Fala meio certinho, anda meio certinho... — balançou a cabeça —... de onde tu vem, parceiro?
Os outros que estavam por perto — Pink, Madson, Poc e até XK e TM que tavam mais afastados — pararam de falar por alguns segundos, jogando olhares curiosos na direção dele. Até quem tava de costas, fingindo não ouvir, ajeitou a posição, puxando mais um gole, só pra ouvir melhor.
Koran respirou fundo, abaixou o olhar e, por alguns segundos, ficou em silêncio. O ar ficou curto. Não era mentira... era só... a parte da verdade que ele podia contar.
— De onde eu venho...? — repetiu, olhando as próprias mãos sujas de graxa. — Cara... não sei nem se posso chamar de "lugar". — Deu um sorriso sem humor.
Puxou o ar, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Era só eu... e meu irmão. Só a gente. Desde... desde sempre. — A voz saiu mais baixa, pesada, quase arranhando na garganta. — A gente cresceu no meio do nada... Sem casa... sem família... sem ninguém. Só... andando por aí. Um lugar... depois outro... fugindo, se escondendo... sobrevivendo do jeito que dava. — Koran apertou as mãos, olhando fixo no chão. — A verdade... é que a vida nunca foi fácil pra gente.
O silêncio começou a tomar conta. Até Pink, que vivia fazendo piada, abaixou o olhar, passando a mão no rosto, segurando o que parecia ser um nó na garganta. Madson cruzou os braços, encarando o fogo, sem dizer uma palavra. TM largou a peça que segurava, os olhos meio perdidos, com o maxilar travado.
Koran continuou:
— A gente... nunca teve muito. — A voz oscilou. — Mas... meu irmão sempre... sempre deu um jeito. Sempre teve comida... um canto seguro, por mais simples que fosse... e, de algum jeito, ele fazia tudo parecer... menos pesado. — Levantou o olhar, com aquele brilho triste. — Eu nunca soube como... nunca questionei. Eu só... confiava nele. E no fim... — apertou os olhos, segurando o peso que começava a transbordar —... no fim, a única coisa que eu aprendi nessa vida... é que só dá pra contar com quem realmente tá disposto a te proteger. E, pra mim, sempre foi só ele. Só meu irmão.
A fogueira estalou mais forte, preenchendo aquele silêncio desconfortável que tomou o grupo. Até o som das faíscas parecia mais alto que qualquer coisa.
Phomer passou a mão no rosto, balançando a cabeça.
— Caraca, parceiro... — soltou, num tom rouco, segurando o que parecia ser emoção misturada com choque. — Tá querendo me derrubar aqui... — tentou forçar uma risada, mas ela saiu falha, trêmula.
Poc virou o rosto pro lado, limpando discretamente o olho.
Pink balançou a cabeça, respirando fundo, segurando firme uma lata na mão como se aquilo fosse impedir qualquer lágrima de escapar.
Só um não parecia afetado.
Sorrento.
Encostado na parede, braços cruzados, o olhar fixo nas chamas. Não disse nada. Nem mexeu um músculo. Até que... os olhos dele apertaram, e pela primeira vez... falou.
— Esse seu irmão... — A voz dele cortou o silêncio como aço contra vidro. — Como ele era?
Koran virou o rosto devagar, meio surpreso. Não esperava que ele falasse, muito menos que se importasse.
Engoliu seco, ajeitando o capuz, apertando os próprios braços, como se isso ajudasse a segurar a pressão que parecia esmagar seu peito.
— Ele... — respirou fundo —... sempre foi assim. Sério, meio fechado... meio na dele. Forte, meio... bruto às vezes, mas... não tem pessoa no mundo mais confiável. Se ele dizia que ia cuidar de mim... então eu sabia, eu sabia que tava seguro. Ele nunca... nunca me deixou faltar nada. Nunca deixou ninguém chegar perto pra me fazer mal. Sempre foi assim. Sempre.
Foi como se o fogo estalasse mais forte naquele exato momento.
Os braços de Sorrento se descruzaram. Ele ajeitou o corpo, se afastando da parede, lentamente, olhando direto nos olhos de Koran.
— Drax.
— Como você sabe? — Koran franziu o cenho.
Os outros se entreolharam, confusos.
— Tu conhece ele? — perguntou Phomer, franzindo a testa.
Sorrento ajeitou os braços cruzados, respirou fundo, e a voz grave saiu mais arrastada, carregada de algo que parecia uma mistura de respeito... e saudade.
— Ele... — repetiu, num tom mais pesado —... ele não era qualquer um. — O olhar apertou, mirando o vazio, como se olhasse pra algum ponto perdido no passado. — Naquele tempo... não existia ninguém igual ao Drax.
O silêncio que se espalhou foi imediato. As ferramentas cessaram. Conversas morreram no ar. Até quem fingia não ouvir, agora ouvia.
— Ele era o melhor — continuou, a voz firme, carregada de peso. — Um ladrão profissional. Não… não só isso. — Fechou os olhos por um instante. — Era um fantasma. Um pesadelo pras câmeras. — A mandíbula se contraiu. — Não tinha sistema que segurasse ele. E quem tentava… aprendia rápido.
Phomer soltou um assobio baixo. Pink e Madson trocaram olhares, em silêncio. Ninguém riu. Ninguém interrompeu.
Sorrento inclinou o corpo pra frente, apertando o próprio braço, como se a lembrança tivesse peso físico.
— Ele era nosso líder. — A voz falhou por um instante, mas se recompôs. — Sempre na frente. Sempre carregando a gente nas costas. — Balançou a cabeça. — Quando tudo dava errado… ele dava um jeito. Sempre dava. — A mão se fechou no ar. — Não existia parede ou portão que parasse ele.
Koran sentia o peito apertar. Aquilo era grande demais. Vivo demais.
Sorrento respirou fundo, o maxilar travado.
— E… — desviou o olhar, o tom escurecendo — …não era só comigo. Ele e a Soffy… — a voz baixou — …eram próximos.
O impacto foi imediato. Koran engoliu em seco.
— Inseparáveis. — completou, cruzando os braços. — Se alguém fazia aquele cara baixar a guarda… era ela. Só ela. — Um silêncio curto. — A gente nunca entendeu direito o que eles tinham.
Sorrento fechou os olhos, respirando pesado.
— Até que, um dia… — abriu-os de novo, amargo — …ele largou tudo. — Um meio sorriso torto. — O bando. A vida. A Soffy. — Fez uma pausa curta. — Tudo.
O silêncio apertou. O cheiro da graxa, do óleo, da ferrugem... parecia sufocar mais do que antes.
Koran, sem perceber, levou a mão até a boca, apertando os próprios lábios, os olhos marejando, a respiração falhando. Porque... naquele instante... tudo começou a fazer sentido.
Ele lembrou de cada sacrifício que o irmão fazia. De como nunca deixava faltar nada. De como, mesmo no pior, sempre arranjava um jeito de fazer as coisas parecerem menos ruins. E de como, de repente... eles apareceram na Cidadela. Longe daquele mundo. Longe de tudo isso.
A ficha caiu. E caiu como uma pedra no peito.
Foi por ele.
Drax largou tudo... deixou pra trás aquela vida... aquela mulher... aquele bando... tudo... por ele. Pra que ele, Koran, não precisasse viver assim. Pra que tivesse uma chance diferente. Pra que vivesse numa vida melhor.
As mãos de Koran tremiam. E ele mal conseguia disfarçar.
Sorrento olhou pra ele, apertando o olhar, percebendo... percebendo tudo.
— Agora me responde, moleque... — a voz dele veio mais baixa, mais grave, mais carregada. —... qual foi o nome que você falou mesmo...?
Koran piscou, a voz saiu quase num sussurro, falhada, embargada:
— D-Drax... meu irmão... meu irmão é o Drax...
Sorrento fechou os olhos, apertando a mandíbula, e soltou, num tom que carregava mais do que só lembranças... carregava história, mágoa, saudade, respeito... e um pouco de dor:
— Filha da mãe... — resmungou, quase rindo, quase engolindo a própria voz. — O desgraçado... sumiu... e agora o irmão dele aparece aqui.
O silêncio parecia ter engolido tudo. Nem as faíscas, nem as marteladas, nem os resmungos comuns da oficina conseguiam preencher aquele vazio que se formou após as palavras de Sorrento. Até quem sempre fazia piada... agora só encarava o fogo, ou mexia na própria mão, sem saber onde enfiar o olhar.
Koran ficou quieto. O peito apertado, a mente girando, tentando processar tudo aquilo. Suas mãos seguravam os joelhos, apertando sem perceber. A respiração parecia mais pesada.
Foi quando, quebrando aquele peso todo, a voz rouca e meio debochada de Phomer surgiu, quase forçando uma leveza que nem ele parecia sentir direito:
— Certo, certo... — bateu as mãos sujas uma na outra, olhando em volta — Chega de sessão terapia, galera. Bora... descanso acabou. O chefe já já aparece e cês sabem... não quero ninguém dizendo que eu incentivei folga, hein.
Pink, Madson e TM resmungaram juntos, meio sincronizados, meio contrariados, como quem sabe que a folga nunca dura o suficiente. Alguns se levantaram, outros chutaram pedacinhos de lata no chão antes de voltarem pras bancadas e ferramentas.
Sorrento não disse mais uma palavra. Só descruzou os braços, virou de costas e caminhou lentamente até o canto dele, voltando pro velho ritual de montar e desmontar armas como se o mundo inteiro não passasse de metal e pólvora.
Koran ficou parado por um segundo a mais. Nem se moveu. Só ficou ali, olhando o fogo estalando dentro do barril, enquanto um único pensamento girava como engrenagem desajustada em sua mente.
"Ele fez tudo isso... tudo isso... só pra mim. Pra que eu não precisasse viver esse tipo de vida. Ele carregou tudo... sozinho. Todo esse peso"
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