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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
42 |💫| O Sussurro dos Segredos
2910 palavras • 17990 caracteres • ⏱ 11 min 38 s

42 |💫| O Sussurro dos Segredos

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A madrugada tomava conta da Cidadela. As luzes de néon e os hologramas que pulsavam em explosões de cor e movimento, agora cintilavam de forma mais suave, como se a própria cidade respirasse mais devagar, adormecida — mas nunca verdadeiramente silenciosa.


As ruas estavam menos movimentadas, os prédios projetavam sombras longas e distorcidas, e o vento carregava consigo ecos de histórias não contadas. Naquele instante, a Cidadela parecia repousar... mas, por trás de suas fachadas brilhantes e suas estruturas colossais, segredos esquecidos e mistérios antigos permaneciam acordados, à espera de quem ousasse descobri-los.


Um pouco distante dali, na cidade subterrânea conhecida como Underground — Koran se movia como uma sombra entre ladrões, traficantes e foras da lei. Seu olhar atento percorria cada rosto, cada gesto, mas não havia sinal de medo em sua expressão.


Havia se preparado para aquilo. Roubar algumas roupas foi fácil, e agora trajes velhos, rasgados e manchados de óleo cobriam seu corpo, escondendo qualquer traço de sua verdadeira identidade. O capuz, as luvas gastas e até as botas rasgadas ajudavam a disfarçar quem ele realmente era.


Graças àquele disfarce improvisado, Koran podia circular livremente naquele labirinto de concreto, sucata e fumaça, onde a palavra "lei" não passava de uma piada contada por fantasmas do passado. Naquele submundo esquecido, ninguém julgava, ninguém questionava — todos, de certa forma, eram iguais... ou, ao menos, gostavam de acreditar nisso. Para ele, aquilo não era só uma vantagem. Era uma brecha. Uma oportunidade perfeita.


Mas, mesmo camuflado, seus olhos permaneciam afiados, fixos em um único alvo: Soffy. Acompanhava seus passos à distância, escondido nas sombras, analisando cada gesto, cada troca de palavras, cada olhar suspeito que ela lançava. Seus sentidos estavam à flor da pele, captando fragmentos de conversas cortadas pelo barulho dos computadores, vozes roucas e o som metálico de ferramentas batendo contra as paredes.


Não estava ali por acaso. Cada passo de Soffy, cada silêncio, cada olhar carregava respostas que Koran precisava encontrar.


À frente, Soffy mantinha os olhos fixos no monitor holográfico que preenchia metade da parede. Seu rosto, frio e quase inexpressivo, era iluminado pelo brilho pálido das imagens, refletindo nos tons metálicos de sua pele sintética. As pontas dos dedos batiam sutilmente sobre a mesa, num gesto ritmado, meio impaciente... meio ansioso.


Ela assistia, em silêncio absoluto, uma gravação capturada no dia anterior — e, mesmo para uma mente artificial como a dela, aquilo parecia desafiar toda a lógica.


Na tela, a cena se desenrolava com uma brutalidade que beirava o sobrenatural. Uma explosão colossal de luz dourada irrompia no meio da Necrópolis de Ferro, varrendo veículos, destroços e estruturas como se tudo fosse feito de papel. Os carros dos ladrões eram arremessados como brinquedos quebrados, desmantelados no ar, anulados pela força daquela energia que simplesmente... não fazia sentido.


Mas o que chamou sua atenção não foi apenas a destruição.


Soffy inclinou levemente a cabeça, seus olhos ajustando o foco com precisão, enquanto seus sistemas internos processavam quadro por quadro.


Nenhum dos criminosos sofreu sequer um arranhão. Nenhum.


— Isso... não está certo... — murmurou, com uma voz quase inaudível, mas carregada de uma curiosidade inquietante.


Seus dedos deslizaram rapidamente sobre o painel, ampliando a imagem, filtrando interferências, limpando os dados. E então, no centro do clarão, ela viu.


Uma figura. Uma silhueta humana.


Ali, de pé, imóvel, cercado pela tempestade dourada. A luz explodia ao seu redor, mas parecia contorná-lo, respeitá-lo, como se sua presença fosse... uma exceção às regras do próprio mundo.


Soffy se inclinou um pouco para frente, apertando os olhos. Seus sistemas tentavam compensar os ruídos visuais, ampliando detalhes. E, aos poucos, a figura ia se revelando. Uma capa que ondulava lentamente. Uma postura serena, firme. A expressão — embora distorcida — não parecia carregar nem ódio, nem desespero... muito menos prazer pela destruição.


Havia... calma. Uma tranquilidade impossível para alguém no centro de tudo aquilo.


— Quem... — sussurrou, quase sem perceber.


Ela aumentou ainda mais o zoom. As mãos dele estavam abaixadas, relaxadas. Nenhum gesto de ataque. Nenhuma ameaça visível. Simplesmente... estava ali, de pé, observando enquanto o caos acontecia.


E então percebeu. O olhar dele.


Soffy se recostou lentamente em uma cadeira, encarando aquele olhar através da tela — um olhar que não carregava raiva. Nem sede de poder. Nem arrogância. Era... algo diferente.


Determinação.


Convicção.


Esperança. Uma esperança fria, inabalável, como se aquele homem fosse uma âncora de algo que o mundo inteiro tinha esquecido há muito tempo.


Por alguns segundos, ela ficou imóvel, absorvendo cada pixel daquela imagem congelada. Um silêncio estranho tomou conta da sala, até que, de forma quase involuntária, um sorriso torto surgiu no canto de seus lábios artificiais.


— Você é exatamente o que eu estava procurando.... — murmurou, com uma mistura de fascínio e desconforto.


Ela deslizou os dedos pelo queixo, pensativa. E, enquanto olhava fixamente para aquela imagem, deixou escapar uma risada baixa, seca, contida — não de deboche... mas de inquietação.


— Tudo vai mudar... — sussurrou. — Definitivamente... vai mudar.


Ela permaneceu ali, imóvel, encarando aquela silhueta na tela, sentindo — pela primeira vez em muito, muito tempo — algo que seus sistemas simplesmente não conseguiam processar com clareza. Um desconforto... curioso. Quase agradável. Uma faísca estranha, desconcertante, algo que não fazia parte de sua programação, mas que, de alguma forma, parecia... necessário.


E, no fundo, aquilo era simplesmente fascinante.


Soffy inclinou levemente a cabeça, mantendo aquele sorriso torto, quase imperceptível, enquanto seus olhos seguiam fixos na imagem congelada, como se tentasse desvendar um mistério que até então sequer sabia que existia.


À distância, Koran a observava, escondido entre as sombras. Seus olhos analisavam cada pequeno movimento, cada nuance daquele comportamento estranho. Aquele sorriso... aquele jeito quase desconectado da realidade. Por mais que fingisse ser apenas uma androide qualquer, ele sabia que havia algo mais por trás daquela aparência.


Um arrepio percorreu sua espinha.


— Esse sorriso... — sussurrou para si, franzindo a testa. — Tem algo errado... Isso não é normal.


Seu peito apertou. Uma inquietação crescente fazia seu corpo se manter meio encolhido, meio preparado para qualquer coisa. Seus olhos piscavam rápido, como se seu cérebro tentasse, em vão, encaixar aquela cena em algum padrão lógico.


Enquanto tentava manter o foco, uma voz grossa e rouca cortou seu raciocínio:


— Tá olhando o quê, esquisito? — rosnou um dos ladrões, surgindo ao seu lado de forma abrupta. — Vai cuidar da tua vida... ou ela vai cuidar da tua pra você.


O susto foi instantâneo. Koran se sobressaltou, quase tropeçando para trás. Seu coração disparou, e por um segundo ele perdeu completamente a compostura. Engoliu seco, respirou fundo e apenas acenou com a cabeça, fingindo naturalidade.


— É... é... claro... — respondeu baixo, desviando o olhar, evitando qualquer confronto.


O ladrão lançou um último olhar desconfiado antes de se afastar, praguejando algo incompreensível enquanto sumia pela lateral das estruturas.


Koran levou alguns segundos para recuperar o ritmo da respiração. Passou a mão no próprio rosto, balançou a cabeça e então, com cuidado, voltou a direcionar os olhos para onde Soffy estava.


E então... congelou.


O holograma atrás da mesa se apagou com um estalo seco.


— Não... — murmurou, apertando os olhos, procurando por ela. — Ela... sumiu?!


O espaço onde ela estava... completamente vazio. Nenhum sinal. Nenhum som. Nenhum rastro.


Seus olhos percorreram o ambiente, apressados, quase desesperados. O desconforto virou uma pressão no peito.


— O que... o que você tá escondendo...? — sussurrou, apertando os punhos, lutando contra aquele misto de medo e fascínio. — Droga... isso não é bom... não é nem um pouco bom...


Sentiu os batimentos acelerarem, e, mesmo sem perceber, seus pés começaram a recuar lentamente, como se sua própria intuição gritasse que era melhor não estar ali... não tão perto dela.


E, no fundo, Koran sabia — aquela androide escondia muito mais do que deixava transparecer.


Muito mais.


Foi quando percebeu, pela visão periférica, a aproximação de alguém. Passos pesados, porém tranquilos, arrastando as botas surradas contra o chão metálico.


— E aí, parceiro... — chamou uma voz rouca, meio anasalada, carregada de malícia, mas com um tom quase amigável. — Relaxa, não leva a mal o comandante, não... Ele anda meio azedo esses dias. Muita pressão, tá ligado? Pode ficar de boa.


Koran engoliu seco, disfarçando o nervosismo. Sentiu o suor escorrer pela lateral do rosto, mesmo com o capuz escondendo parte de sua expressão.


O sujeito cruzou os braços, olhando ele de cima a baixo, com aquele olhar treinado de quem sabe farejar mentira a quilômetros.


— Tá suando, hein... — comentou, arqueando uma sobrancelha. — Tu é novato, né? Tá na cara... Mas relaxa, todo mundo começa de algum lugar.


Ele estendeu a mão suja de graxa, exibindo um sorriso torto, daqueles que você não sabe se é simpatia ou ameaça.


— Pode me chamar de Phomer. E aí... qual é tua função aqui no pedaço?


Koran pensou rápido, tentando não gaguejar.


— É... Sucateiro. — respondeu, torcendo pra soar convincente.


Phomer piscou, bateu com força nas próprias mãos e abriu um sorriso mais largo.


— Sucateiro?! — quase riu. — Rapaz... olha que coincidência do caramba! Cê caiu do céu, meu chapa. Era EXATAMENTE o que eu tava precisando. Vem comigo, vamo resolver um pepino aqui. Bora, bora!


Koran respirou fundo, lançando um último olhar para o local onde Soffy estava... ou, melhor dizendo, onde tinha estado. Ela realmente havia sumido. Aquilo fez seu estômago revirar.


Sem ter muito pra onde fugir, seguiu Phomer.


Os dois caminharam por um corredor apertado, cheio de fios pendurados, lâmpadas quebradas piscando e painéis soltos nas paredes. No caminho, passaram por outros ladrões: uns mexendo em caixas, outros soldando peças, e alguns apenas largados no chão, bebendo ou limpando armas.


Phomer seguia falando, jogando as mãos pro alto, gesticulando muito, como todo bom ladrão tagarela.


— Nossos carros... nossos armamentos... tão tudo no bico do urubu, parceiro. Quase virou sucata depois daquela perseguição. Uma desgraça...


Koran fingiu surpresa.


— Perseguição...? — perguntou, tentando soar desentendido.


Phomer parou, virou de lado, encarou ele com uma expressão de quem achava aquilo estranho.


— Cê tá meio perdido, hein... tá por fora mesmo. — Deu uma risada abafada. — A perseguição pra capturar aqueles malditos Sentinelas, ué! Tu não viu? Não ouviu? Foi um escarcéu do caramba!


Koran engoliu seco, segurando a curiosidade. "Drax..."


— E... e o que aconteceu?


Phomer deu um assobio longo, balançando a cabeça como quem ainda não acreditava no que viu.


— Rapaz... foi bizarrice pura. — Disse, apontando o dedo pra frente, como se revivesse aquilo. — Uma puta explosão do nada! Surgiu do além! DO NADA, bicho! Bum! Parecia o fim do mundo. Nossos carros? Viraram pedaços.


Koran arregalou os olhos, fingindo surpresa.


— E... eles... fugiram?


Phomer chutou uma lata que estava no caminho, resmungando.


— Infelizmente... pra infelicidade da Senhora Soffy... é. Fugiram sim. Se mandaram. Sumiram no vento. E a patroa? Tá azeda, azeda... quase matou dois caras hoje só no olhar.


Sem perceber, Koran deixou escapar, quase num sussurro:


— Que bom...


Phomer parou na hora. Virou devagar, olhando pra ele de lado, arqueando uma sobrancelha.


— Você falou o quê, ô sucateiro?


— Hã? N-nada... não falei nada, não... — tentou disfarçar, coçando a nuca, desviando o olhar.


Phomer apertou os olhos, analisando ele por um segundo que pareceu uma eternidade... até que deu de ombros.


— Ahn... entendi outra coisa. Deixa quieto. Vai ver tô ficando meio surdo. — Disse, balançando a cabeça. — Enfim... cola aí. A oficina tá uma zona. Tem trampo pra três vidas. Bora, bora!


Os dois então chegaram à entrada de uma oficina improvisada, onde o caos parecia ter encontrado seu lar. Havia peças espalhadas por todo canto, motores abertos largados em cima de tambores enferrujados, armas desmontadas jogadas em bancadas improvisadas e cabos pendurados como teias de aranha. O cheiro forte de óleo queimado, graxa e plástico derretido impregnava o ar, tornando o ambiente quase sufocante para qualquer um que não estivesse acostumado.


Phomer apoiou as mãos na cintura, respirou fundo e abriu um sorriso torto, orgulhoso daquele cenário de destruição organizada.


— Aqui é onde milagre vira gambiarra... e gambiarra vira lucro, parceiro. — disse, soltando uma risada abafada.


Logo depois, bateu duas palmas, chamando a atenção do restante da galera.


— Ôôô, rapaziada! — gritou. — Achei esse novato perdido aí fora... Trouxe ele pra dar uma mão pra gente, tá precisando. Se vira com ele aí.


Um dos mecânicos, com o rosto todo sujo de fuligem, levantou a cabeça sem muito interesse e respondeu com aquela típica preguiça de quem já viu muito novato entrar e sair:


— Hmmm... beleza.


Koran olhou ao redor, meio deslocado, coçando a nuca.


— E... o que eu faço aqui exatamente?


Phomer riu, cruzando os braços.


— Oxi... trabalhar, né, meu chapa! Tá achando que veio fazer turismo? — respondeu, dando um tapinha nas costas dele. — Mas antes... deixa eu te apresentar os caras, pra não se perder por aqui.


Apontou com o queixo na direção de dois sujeitos agachados ao lado de um carro que mais parecia uma lata velha prestes a explodir.


— Aqueles ali são o XK e o TM. São dois dos melhores na mecânica... quando tão sóbrios. — falou, lançando um olhar maroto pros dois.


Um deles nem se virou, só levantou a mão, suja de graxa, e respondeu num tom seco:


— E aí.


— E aí... — repetiu o outro, sem tirar os olhos do motor que desmontava.


Phomer então virou e apontou pra três sujeitos do outro lado da oficina, que discutiam em meio a uma pilha de peças quebradas.


— Aqueles três lá são o Pink, o Madson e o Poc. Cuidado com eles... vivem discutindo, mas trabalham que é uma beleza. Só não tenta se meter nas tretas deles, que o último que tentou tá até hoje catando dente no chão.


Os três olharam de relance, balançaram a cabeça como se reconhecessem Koran, mas voltaram rapidinho pro que estavam fazendo.


Por fim, apontou pro canto mais escuro da oficina, onde um sujeito grande, de braços cruzados, mexia calmamente em uma arma pesada, com peças espalhadas sobre uma mesa de metal.


— E aquele ali... é o Sorrento. O cara é bruto, meio calado, mas é quem cuida das armas pesadas. Se a gente ainda tem metralhadoras funcionando, é por causa dele. O bicho trabalha dobrado, dia e noite. Não chega muito folgado nele, não... só uma dica.


Sorrento nem levantou a cabeça. Só deu uma batidinha seca na lateral da arma que montava e resmungou, com voz grossa:


— Não venha me atrapalhar.


Phomer riu, cruzando os braços de novo.


— E é isso. Bem-vindo à oficina, parceiro. Aqui a regra é clara: quebrou, conserta... e se não der pra consertar, faz gambiarra até funcionar. Bora meter a mão na graxa.


Koran endireitou os ombros, olhando em volta, tentando assimilar aquele universo completamente diferente de tudo que conhecia...


Ele não podia vacilar. Aqui, qualquer erro, qualquer deslize, poderia custar muito mais do que só a confiança deles.


Koran respirou fundo, apertou os punhos discretamente e forçou um sorriso leve, disfarçando toda a tensão que crescia no peito. Não podia demonstrar insegurança. Não ali.


— Certo... bora trabalhar. — respondeu, tentando soar mais confiante do que realmente estava.


Phomer soltou uma risada curta e debochada, daquelas típicas de quem já viu de tudo naquele submundo, e deu um tapão no ombro de Koran — forte o bastante pra quase desequilibrá-lo.


— É isso aí, sucateiro. Vamo ver se tu serve pra alguma coisa além de ficar olhando torto pros outros. Bora, que serviço aqui nunca acaba. — disse, com aquele tom meio sarcástico, meio de camaradagem forçada.


Koran respirou fundo, ajeitou o capuz na cabeça e seguiu, meio sem jeito, até o balcão improvisado — um amontoado de ferro velho, peças queimadas, fios pendurados e ferramentas sujas de graxa. A pilha de sucatas parecia mais um cadáver tecnológico implorando por milagre... ou pelo menos por alguém que conseguisse dar um último suspiro de utilidade àquilo.


Ao olhar rapidamente pros lados, seu peito aliviou, ainda que por pouco. Seu irmão estava longe, seguro... fora daquele ninho de rato. Ao menos, por enquanto.


A oficina parecia ganhar vida própria. Chamas das soldas riscavam o ar como relâmpagos azulados, faíscas voavam e desapareciam no chão sujo de óleo, o cheiro de metal queimado e borracha derretida grudava no nariz. Marteladas, sons metálicos, ferramentas rangendo... e no meio disso tudo, vozes roucas jogando piadas, discussões, provocações e até palavrões cortavam o ambiente.


Por alguns minutos, Koran se permitiu relaxar... pelo menos, fingir que fazia parte dali. Pegou algumas peças, soltou um suspiro como se realmente estivesse concentrado, e até arriscou trocar uma ou duas palavras com os caras que passavam. Tentava se enturmar, se misturar, fazer parecer que era só mais um no meio daquela engrenagem quebrada que mantinha o Underground funcionando.


Por um instante, deixou Soffy um pouco de lado. Precisava se manter invisível, ganhar a confiança deles. Parecer comum, inofensivo.


Mas, mesmo ocupado com aquilo, a sombra dela... não sumia por completo da sua mente. Ainda martelava lá no fundo, quase como um sussurro incômodo, esperando a hora certa pra voltar com força. Aquela androide não o enganava. Havia algo errado ali — e ele iria descobrir.


Mal sabia ele... que esse jogo de fingimento estava prestes a ficar muito, muito mais perigoso.


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