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O grupo parou diante da entrada de um beco estreito, onde o concreto e o metal se encontravam com a sombra de um lugar esquecido — mas não abandonado.
— Bom, é aqui — disse Lira, tentando soar confiante, embora seu corpo ainda carregasse o peso do roubo recente. Seu sorriso gentil parecia um pouco apagado, como se tentasse segurar a frustração para não contaminar o grupo.
Drax soltou um bufar pesado, os olhos estreitos observando o beco como se aquilo fosse uma provocação.
— É sério que você nos trouxe até um beco vazio? — resmungou, cruzando os braços com a testa franzida.
O beco guardava uma estranha beleza decadente. As paredes, apesar da sujeira e das marcas do tempo, formavam uma galeria de grafites neon — traços que contavam histórias de rebeldia e esperança. Figuras estilizadas, símbolos de antigas gangues e mensagens codificadas brilhavam em tons elétricos contra o cinza opaco da pedra. Pequenas lâmpadas de néon piscavam de forma irregular, lançando manchas coloridas sobre sacos de lixo e metal retorcido espalhados pelo chão.
O ar carregava um cheiro ácido, mistura de ferrugem, umidade e o odor metálico de cabos queimados que serpenteavam pelas laterais. A luz rarefeita vinha das frestas entre prédios altos, esqueletos de aço e vidro que se erguiam como fantasmas da cidade que um dia fora vibrante.
Perto de uma lixeira grande e enferrujada, uma escada quebrada e semioculta levava a uma altura indefinida, como se desse acesso a algum segredo. Mas o que realmente chamava atenção era uma parede aparentemente comum — um holograma projetado com perfeição, fundido ao cenário degradado, escondendo a verdadeira entrada para algo mais profundo e obscuro.
Lira desviou o olhar por um instante, tentando não deixar transparecer a insegurança.
— Não é só um beco vazio. Confia em mim.
Samuel, como sempre, permaneceu quieto na retaguarda, os olhos frios e atentos varrendo cada sombra, cada detalhe. Por um breve segundo, seu olhar se prendeu em um reflexo quase imperceptível na estrutura metálica ao lado da escada — talvez um dispositivo de segurança escondido, talvez só paranoia. Mesmo assim, seus sentidos estavam sempre um passo à frente. Havia, em sua presença, uma serenidade que parecia acalmar até o próprio beco... como se o mundo, por um instante, respirasse mais devagar perto dele.
Lira avançou, tocando a parede holográfica.
— Não é bem o que parece... — disse, com aquele tom descontraído, cheio de charme. — Isso aqui é só a porta de entrada, não se preocupem. — Sorriu de canto, deslizando a mão pelo painel oculto. — Ele costuma ficar lá embaixo. Não é muito fã de olhares curiosos.
Assim que seus dedos tocaram o ponto certo, a parede se desfez em uma névoa digital, revelando uma porta metálica robusta, escondida ali atrás. Ao fundo, uma escada descia para as profundezas daquele setor esquecido, onde segredos e velhas alianças ainda sobreviviam.
O silêncio caiu sobre o grupo, como se até o próprio beco segurasse a respiração, à espera do próximo movimento.
— Podem vir, é seguro — disse Lira, já puxando a porta que rangeu ao abrir, revelando uma escada íngreme e enferrujada que descia para a escuridão.
Lucius ajeitou o casaco, sorriu de canto.
— Se você diz... — respondeu, e sem hesitar, foi o primeiro a descer.
O som dos passos metálicos ecoava escada abaixo, rangendo sob o peso de cada pisada, como se aquela estrutura não gostasse de ser acordada. O cheiro de ferrugem, poeira, mofo e um leve odor de ozônio invadia o ar, denso e pesado, como se aquele lugar tivesse esquecido o que era frescor há muito tempo.
Quando o grupo enfim alcançou o final da escada, se depararam com uma visão... inesperada.
Era uma pista de skate. Uma enorme arena esquecida, engolida pelo tempo, mas ainda de pé. Rampas rachadas, trilhos tortos, pilares de concreto manchados e cobertos por grafites vibrantes que contrastavam com a decadência do espaço. Aquele lugar parecia ter sido arrancado de uma época diferente — um pedaço de rebeldia perdido no meio da ruína.
Espalhados pelo ambiente, sinais claros de que alguém — ou algo — vivia ali. Colchões gastos empilhados de qualquer jeito, sacolas com comida, latas amassadas, garrafas jogadas pelos cantos, uma televisão antiga, cúbica, com a tela quebrada, e jogos de videogame espalhados no chão, como se, em algum momento, aquilo tivesse sido um lar... ou pelo menos um refúgio improvisado.
Nos cantos mais escuros, pilhas de materiais médicos, faixas, remédios, seringas vazias. Mesas e cadeiras feitas de sucata se amontoavam em pontos estratégicos, transformando aquele caos em uma espécie de sala de estar futurista e completamente anárquica.
Apesar da desordem, a pista de skate estava surpreendentemente limpa, quase como se fosse tratada como um santuário. Nenhum pedaço de lixo sobre as rampas, nenhuma rachadura obstruindo os percursos. E o teto... aceso. Lâmpadas lineares, frias, vibrando com uma luz constante, lançando aquele brilho esbranquiçado sobre tudo, revelando cada detalhe, cada rachadura, cada marca do tempo.
De repente, um som rasgou o silêncio — um zumbido agudo, seguido de um chiado metálico. Um vulto deslizou pela pista com uma fluidez hipnótica, girando entre as rampas como se fosse parte do próprio concreto. As luzes frias refletiam nas espirais azul-esverdeadas que pulsavam nas laterais de um Air Board, um skate tecnológico que levitava alguns centímetros do chão, deixando rastros de néon que serpenteavam no ar como fitas de luz líquida.
O som dos rolamentos magnéticos, do atrito elétrico e dos pequenos estalos metálicos preenchia o espaço, criando uma sinfonia futurista que se misturava ao eco do vazio.
Aos poucos, a figura foi desacelerando até parar em frente ao grupo. Saltou do board com uma precisão quase felina, pousando com leveza. Só então puderam vê-lo claramente.
Seus olhos eram belos, mas marcados por olheiras, carregando um olhar sereno e frio, porém exausto... como o de quem já encarou a morte vezes demais. Uma máscara preta cobria todo o rosto, deixando à mostra apenas os olhos — olhos que, mesmo escondidos atrás daquela máscara, pareciam dizer mais do que qualquer palavra.
O cabelo preto e ondulado, com algumas mechas tingidas de roxo, estava preso num coque grande e desalinhado, com vários fios rebeldes escapando e duas franjas longas que caíam nas laterais do rosto, cobrindo-lhe as orelhas. Em cada uma delas, brincos prateados em forma de cruzes invertidas balançavam levemente.
Usava uma blusa cinza de mangas largas, sobreposta por um casaco preto, longo, semelhante a um jaleco, mas com as mangas rasgadas, deixando à mostra as faixas brancas que enrolavam seus braços até os dedos. O short xadrez preto e cinza e os sapatos escuros completavam o visual despretensioso, quase negligente, mas que exalava estilo. Pelas frestas das roupas, era possível notar mais faixas nas pernas, sugerindo ferimentos recentes... ou cicatrizes que ele preferia esconder.
Ele pousou o olhar sobre eles com uma expressão quase vazia, calma, sem qualquer sinal de surpresa ou desconfiança — apenas uma neutralidade serena, que paradoxalmente transmitia desconforto e segurança ao mesmo tempo.
O olhar dele parou em Samuel.
Ali... ficou.
A sobrancelha arqueou, quase imperceptível. Mas havia algo ali. Uma percepção. Um estranhamento. Uma leitura silenciosa... como se tentasse entender algo que a maioria não era capaz nem de enxergar.
Drax estreitou os olhos, sua postura firme, mas contida, como quem se recusa a ser enganado. Samuel, ligeiramente mais afastado, permanecia sereno, envolto naquela calma que parecia natural para ele. Seus olhos, profundos e tranquilos, vasculhavam não só o estranho, mas cada canto do ambiente, absorvendo tudo — como quem lê até os silêncios.
Ao lado de Lira, Lucius manteve o sorriso curioso, estudando o estranho como quem tenta decifrar um enigma prestes a ser revelado.
Lira abriu um sorriso sincero, agora bem mais leve, como se aquele encontro apagasse qualquer peso que ela carregava.
— Eu ia fingir que estava surpreso... mas você sempre aparece quando eu menos espero — disse o estranho. Sua voz era baixa, arrastada, como quem pensa antes de escolher se vale a pena ou não quebrar o silêncio.
O olhar dele percorreu o grupo novamente, sem pressa, analisando cada rosto com aquele mesmo olhar cansado, mas afiado.
— Quem são?
— Uns amigos... e... bem, acho que você vai gostar deles — respondeu Lira, descontraída.
Ele soltou um breve suspiro, andando até o Air Board e apoiando-o de lado, onde os desenhos em espiral brilhavam fracamente.
Fez uma pausa, ajeitando uma das faixas no braço, e completou, com um tom de ironia quase preguiçoso:
— Pessoas... sempre achando que estão fugindo da morte. — Desviou o olhar, encarando o chão sujo. — Eu não me iludo mais com isso. — Ajeitou uma das faixas no braço, apertando-a com mais força. — Só tento... dar um pouco mais de tempo... pra quem ainda acha que vale a pena.
Seus olhos voltaram ao grupo, e pela primeira vez, sua postura se suavizou minimamente, como quem percebe que talvez não precise manter as garras tão afiadas naquele momento.
— Ah... e caso estejam se perguntando... — ergueu levemente o queixo, cruzando os braços novamente —... me chamam de Leon. — A voz saiu num tom quase indiferente, como se aquele nome fosse só mais uma etiqueta, sem muito valor pra ele. — Mas... duvido que isso vá importar muito aqui.
— Por enquanto... vocês não parecem ser problema. — Seus olhos voltaram pra Samuel, e por um instante, endureceram. Um olhar que não era ameaça... mas reconhecimento. — Isso... já é mais do que posso dizer de muita gente.
Ele desviou o olhar, encarando o teto iluminado da pista por alguns segundos, como quem busca alguma resposta além daquele concreto velho... e então, com um meio sorriso melancólico, deixou escapar a frase que encerrou o silêncio:
— Bem-vindos ao último lugar onde ninguém te pergunta quem você é... só se você ainda tá vivo.
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