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O grupo caminhava pelas ruas reluzentes da Cidadela, imerso em um cenário que parecia ter nascido de um sonho tecnológico — ou de um delírio cuidadosamente calculado. Era impossível não se impressionar com a grandiosidade do lugar: uma metrópole esculpida entre o progresso e o controle, onde cada detalhe exalava modernidade.
Luzes em tons de azul, violeta e âmbar pulsavam sobre calçadas metálicas e prédios de vidro e aço, projetando sombras móveis pela cidade. Painéis holográficos cobriam as fachadas dos arranha-céus, exibindo informações em tempo real e rostos sorridentes que vendiam promessas de um futuro ainda mais brilhante.
Acima deles, veículos flutuavam por trilhas de energia suspensas, deixando rastros de néon que riscavam o ar, enquanto feixes de luz varriam tudo com precisão constante.
Entre os cidadãos, androides circulavam com naturalidade, e até as roupas reagiam ao clima e ao humor, como se identidade e tecnologia fossem a mesma coisa.
Tudo parecia existir em um equilíbrio impecável, calculado até o último detalhe.
Lira caminhava à frente deles, como se aquele ambiente futurista fosse tão comum quanto qualquer rua do mundo antigo. Seus passos eram seguros, quase elegantes, e ela parecia alheia ao deslumbre dos outros — ou talvez apenas acostumada.
Lucius girava a cabeça de um lado para o outro, os olhos arregalados, absorvendo cada detalhe com a empolgação de quem vê um mundo novo pela primeira vez. Sylas caminhava logo ao lado dele e de Samuel, com sua pelagem listrada contrastando com o cenário tecnológico. Seus olhos observavam tudo com atenção felina, silenciosa e desconfiada, a cauda balançando suavemente, pronta para reagir a qualquer ameaça.
Mais atrás, Drax seguia em silêncio, passos pesados e precisos. Andava levemente afastado dos outros, atento a tudo, com a expressão fechada de quem não abaixa a guarda nem por um segundo.
Já Samuel seguia firme, passos precisos, expressão serena e olhar atento. Ele não parecia afetado nem pelas luzes, nem pelo movimento, nem pelos excessos da Cidadela. Seus olhos analisavam tudo, não como quem observa a beleza de um lugar... mas como quem procura as sombras que ele esconde.
E, mesmo em meio a tanto esplendor, algo era evidente: por trás de toda aquela beleza sintética, havia segredos demais esperando para emergir.
Foi então que a voz de Lucius quebrou o breve silêncio, carregada de desconfiança e uma pontinha de frustração:
— Você disse pra gente que essa tal gangue... 'Skull', né? — fez uma breve pausa, olhando ao redor — vivia causando confusão por aqui. Mas, até agora... eu não tô vendo nada. Nenhuma confusão, nenhum cara estranho, nenhuma briga. Tá tudo... bonitinho até demais — comentou, cruzando os braços.
— Eles não costumam ficar vagando por esses setores — respondeu Lira, sem nem olhar para ele, mantendo o tom neutro. — Esses bairros industriais são relativamente seguros... desde que você saiba por onde anda.
— E então... onde é que eles ficam? — questionou Lucius, franzindo o cenho.
Lira respirou fundo, diminuindo o ritmo dos passos.
— Eu não sei exatamente — respondeu, olhando de canto. — Mas conheço alguém que pode levar vocês até lá...
Lucius arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— E qual é o problema?
Ela sorriu de canto, cruzando os braços.
— O problema... é que ele não é exatamente sociável — respondeu, ajeitando a gola da roupa. — Prefere ficar na dele, longe dos olhares. Odeia falar com qualquer um que não conheça. Na verdade... odeia falar, ponto.
— Ah... ótimo. — Lucius bufou. — E como é que a gente convence esse cara, então?
— Com doces. — respondeu Lira, séria, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo de forma irônica.
Lucius arregalou os olhos.
— O quê?
Ela riu brevemente.
— É sério. De vez em quando eu levo uns lanches pra ele. Bolos, chocolates... Ele tem uma obsessão absurda por doces. É quase cômico, na real.
Sylas olhou para Samuel, que permaneceu imóvel, sem reagir, apenas observando, como se já soubesse de tudo aquilo.
Lucius coçou a nuca, respirando fundo.
— Tá. Pelo menos isso parece mais fácil do que levar um tiro.
Lira sorriu de canto, voltando a caminhar.
— Não comemora antes da hora. — respondeu, lançando um olhar por cima do ombro. — A gente ainda tem que pegar um Skyrail pra chegar até lá.
Lucius arqueou uma sobrancelha, franzindo o cenho de imediato.
— Um... o quê? — Lucius piscou algumas vezes, franzindo o cenho, claramente perdido. — Isso é tipo... o quê? Uma nave? Um carro voador? Uma daquelas plataformas de teletransporte? Ou, sei lá... a gente vira dados e aparece do outro lado? Igual naqueles filmes antigos de ficção.
Lira parou de andar por um instante, encarando ele como se realmente estivesse tentando processar aquela sequência de possibilidades.
— Como assim... você não sabe?? — perguntou, arqueando uma sobrancelha, visivelmente surpresa — ou talvez só fingindo estar chocada pra provocar.
Drax levou a mão ao rosto, passando pelos olhos até a testa, soltando um suspiro pesado. Sylas soltou um ronco baixo, como se também estivesse julgando a confusão de Lucius, antes de seguir ao lado de Samuel com passos silenciosos e elegantes.
Lira cruzou os braços, segurando o riso, e balançou a cabeça levemente.
— Relaxa, Senhor Lucius... — respondeu, com um sorriso malicioso no canto da boca. — Você vai entender quando a gente chegar.
Deu um tapinha de leve no ombro dele, como quem diz “se prepara”.
— Isso nunca é um bom sinal... — resmungou Lucius, ajeitando a gola da jaqueta, desconfiado.
Samuel, à frente, seguia com passos calmos, como se tudo aquilo fosse apenas ruído distante, mantendo seu olhar firme no caminho, alheio à pequena confusão que se desenrolava logo atrás.
Alguns minutos depois, Lucius parou de repente, arregalando os olhos ao se deparar com uma gigantesca plataforma suspensa. Trilhos de luz flutuavam no ar, conectando torres metálicas que se estendiam por vários níveis da cidade. E, vindo rapidamente pela linha, um veículo aerodinâmico cortava o céu, deslizando pelos trilhos como se fosse feito de vento e eletricidade — elegante, veloz e absurdamente silencioso.
— Pera aí... — apontou. — Isso é um trem? — exclamou, quase indignado. — Você me disse "Skyrail"... eu achei que fosse, sei lá, um supercarro, uma nave, qualquer coisa assim... Mas é literalmente um trem! Só que... no céu?
Lira cruzou os braços, segurando uma risada.
— Bem-vindo ao Skyrail. — respondeu, com aquele tom divertido.
O Trem se aproximou, flutuando suavemente até a plataforma. As portas se abriram com um som sutil, liberando um brilho azulado vindo do interior. Sem perder tempo, o grupo embarcou.
E enquanto seguiam rumo ao próximo destino, as luzes da cidade pareciam observá-los em silêncio. Porque, naquele mundo onde tudo reluz, nem toda luz significa segurança... e nem toda sombra significa perigo.
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Depois de algum tempo percorrendo os trilhos suspensos do Skyrail, o grupo finalmente chegou ao destino. Um setor diferente, ligeiramente afastado da zona industrial. Assim que desceram na plataforma, o contraste ficou evidente — embora ainda carregasse toda a estética tecnológica da Cidadela, aquele lugar parecia... mais desligado do restante.
Os prédios eram mais baixos, alguns com fachadas holográficas parcialmente apagadas, piscando em intervalos irregulares, como se estivessem à beira de falhar. As luzes, antes vibrantes e pulsantes, aqui pareciam mais fracas, mais pálidas, lançando sombras longas e distorcidas pelas ruas estreitas de metal e concreto.
Havia menos movimento. Poucas pessoas circulavam, e as que estavam ali andavam com pressa, cabeça baixa, evitando contato visual. Alguns androides de manutenção caminhavam lentamente, quase como se estivessem largados, enferrujando junto ao ambiente.
O silêncio aqui era diferente. Não era o silêncio organizado e limpo dos setores centrais — era um silêncio desconfortável, quase pesado. Um tipo de quietude que parecia carregar histórias não contadas, segredos esquecidos, e talvez, cicatrizes de coisas que ninguém ali queria mais lembrar.
Não era exatamente um lugar abandonado... mas também não era completamente vivo.
Drax olhou ao redor com a testa franzida, expressão carregada, enquanto caminhava alguns passos atrás dos outros, mantendo-se sempre atento, sério, no seu habitual isolamento. Já Lucius, mesmo tentando disfarçar, parecia claramente desconfortável, olhando para os lados com um misto de curiosidade e receio.
— Tá... definitivamente, esse lugar não tá no mapa turístico da Cidadela — resmungou, cruzando os braços.
Lira, como sempre, caminhava à frente, indiferente à tensão no ar, como se aquele tipo de ambiente fosse apenas mais um dia normal.
E Samuel… apenas observava. Sempre atento. Sempre pronto.
Seus olhos se moveram discretamente, pousando sobre Drax, que caminhava alguns passos atrás. O jeito dele era inconfundível — pesado, com os ombros tensos, a cabeça baixa e o punho cerrado, como se carregasse na mão não só a própria raiva, mas todo o peso do mundo.
Percebendo aquilo, Samuel diminuiu levemente o passo, igualando sua velocidade à de Drax, posicionando-se ao lado dele em silêncio.
Drax percebeu na mesma hora e lançou um olhar de puro incômodo.
— O que você quer? — rosnou entre os dentes. — Volte pro seu lugar.
Samuel, impassível, continuou andando ao lado dele, ignorando por completo o tom hostil.
— Eu falei sério — Drax insistiu, girando o rosto com mais agressividade. — Você acha que eu tô de brinca...
— Seu irmão está bem. — cortou Samuel, simples, direto, como se fosse uma verdade absoluta.
Drax parou por meio segundo. As palavras bateram fundo, mais forte do que qualquer soco. Ele apertou o punho, como se aquilo ativasse uma defesa automática.
— E como é que você sabe disso? — rosnou Drax, com a voz baixa.
Samuel manteve-se inabalável, andando ao lado dele, os olhos fixos no caminho à frente.
— Eu apenas sei. — respondeu, simples, direto.
Drax bufou, desviando o olhar, visivelmente desconfortável com aquele tipo de resposta. Apertou mais uma vez o punho, respirou fundo e tentou ignorá-lo... Mas Samuel simplesmente permaneceu ali, ao seu lado, como uma sombra que se recusa a ir embora.
— Tsc... — Drax rangeu os dentes. — Você é sempre assim? Fica andando do lado dos outros feito um idiota calado?
Samuel soltou um breve suspiro, como se aquela pergunta fosse mais engraçada do que ofensiva.
— Nem todo mundo gosta de falar — respondeu, com aquele tom calmo que parecia impossível de provocar. — E você, aparentemente, também não.
Drax apertou os olhos, lançando um olhar de lado.
— Não. — respondeu seco. — E gosto menos ainda de gente que fica me seguindo.
— Então somos dois. — Samuel respondeu, quase dando um sorriso de canto, sem de fato sorrir.
O silêncio se instalou por alguns segundos. Drax tentou manter a postura fechada, ignorando, olhando pro chão, mas havia algo naquela presença... aquele cara simplesmente não ia embora.
Drax apertou os lábios, desviou o olhar, visivelmente irritado. Era estranho.
Caminharam por alguns segundos em silêncio, até que, sem nem olhar, Drax resmungou:
— Você sempre é assim? Quieto... sério... e... sei lá... esquisito?
Samuel pensou por um segundo antes de responder.
— Sempre. — respondeu, seco. — E você sempre é assim? Cabeça quente, punho cerrado... e tentando parecer mais bravo do que realmente tá?
Drax virou o rosto, o olhar semicerrado.
— Eu sou bravo, parceiro. — respondeu, meio ofendido. — Só não sou obrigado a ficar sorrindo pra qualquer um.
Samuel assentiu levemente.
— Eu também não.
Por um segundo, Drax piscou, como se não esperasse aquele tipo de resposta. Colocou a mão no bolso, bufou, olhou pro lado.
— ...Você é realmente estranho. — resmungou.
Samuel manteve o olhar no caminho, respondeu no mesmo tom, sem nem piscar:
— Eu sei.
Drax balançou a cabeça, apertou a mandíbula... mas, por algum motivo, o punho começou a relaxar, e aquele peso constante parecia... um pouco menos sufocante. Só um pouco.
Caminharam assim, lado a lado, sem mais palavras. Não eram exatamente amigos. Nem parceiros. Talvez nem pudessem se considerar aliados ainda... mas, pela primeira vez, aquele silêncio entre eles não parecia desconfortável.
Parecia... aceitável.
De repente, passos apressados romperam o silêncio, cortando as sombras estreitas do lugar. Uma figura surgiu do nada — rápida, ágil — e, antes que pudessem reagir, esbarrou em Lira, lançando-a alguns passos para trás.
Mas, no exato segundo em que o impacto aconteceu, os olhos de Samuel brilharam, quase imperceptivelmente. Uma fina ondulação no ar — como um sopro de luz distorcendo o espaço — percorreu o ambiente.
O corpo de Lira deveria ter se chocado com violência contra o chão... mas não foi o que aconteceu. Ela caiu, sim, mas de forma muito mais leve do que deveria. Era como se, no último instante, algo invisível tivesse segurado seu corpo, amortecendo a queda, protegendo-a de qualquer ferimento.
O som do impacto foi abafado, quase suave, diferente do que todos esperavam ouvir.
— Ei! — gritou Lucius, correndo até ela. — Tá cego, por acaso?! — esbravejou, olhando na direção de onde a figura havia surgido.
Ajoelhou-se rapidamente ao lado de Lira, sem nem perceber o que havia acontecido de fato.
— Você tá bem? — perguntou, estendendo a mão pra ajudá-la a se levantar.
Lira segurou a mão dele e se levantou com um sorriso leve, apesar da situação.
— Tô bem, tô bem... — respondeu, ajeitando a roupa e sacudindo a poeira dos joelhos com aquele jeitinho descontraído e leve que parecia ser natural dela. Seus olhos, no entanto, agora revelavam um foco absoluto, atento a tudo ao redor. — Só um encontrão meio... apressado — brincou, soltando um sorrisinho rápido, tentando quebrar o clima tenso.
Mas esse sorriso sumiu no segundo em que sua mão deslizou, quase instintivamente, até o pulso, onde antes repousava seu transmissor portátil. Seus dedos tocaram o vazio, e uma pontada de desconforto atravessou seu rosto.
— Ah... não. — sussurrou, sentindo o peito apertar. Seus olhos se arregalaram um pouco, e, mesmo mantendo aquele tom sempre gentil, sua voz agora vinha mais firme, mais tensa. — Eu acho... acho que fui roubada.
— E o que ele pegou? — perguntou Lucius, franzindo o cenho, cruzando os braços, tenso.
— Meu T.P... — respondeu, respirando fundo, tentando manter a calma, embora desse pra perceber que aquilo a preocupava. — Transmissor Portátil. — completou, rápida, percebendo que ele provavelmente não saberia o que era. — É como... como um celular... mas faz muito mais do que isso. É minha identificação, meus dados pessoais, códigos de acesso, chaves digitais... basicamente... minha vida tá lá.
Lucius arregalou um pouco os olhos.
— Caramba...
Enquanto Lira falava, Samuel permaneceu sério, atento. Seus olhos acompanhavam a direção por onde o ladrão havia fugido.
Samuel já havia sentido aquilo antes. Uma sensação sutil passou por ele — um pressentimento, uma intuição calma, dizendo que aquele momento deveria acontecer. Apenas uma certeza silenciosa de que ele não deveria intervir.
Logo atrás, Drax seguia na mesma postura de sempre, quieto, a expressão fechada. Observava o mesmo ponto, mas, diferente de Samuel, seu olhar era carregado, como se estivesse segurando a própria irritação.
— Isso... isso não é nada bom. — murmurou Lucius, olhando ao redor, inquieto.
— Está tudo bem... — respondeu Lira, puxando um sorriso gentil, ajeitando a roupa, tentando não deixar transparecer tanto a frustração. — Não era tão importante. — completou, mesmo sabendo que, no fundo, ela não acreditava muito nas próprias palavras.
Lucius balançou a cabeça, apertando os lábios.
— A gente vai recuperar. — disse, tentando soar confiante.
Lira respirou fundo. Seu sorriso vacilou por um instante, mas ela logo se recompôs, ajeitando o cabelo atrás da orelha, com aquele jeito leve que parecia ser parte de quem ela era.
— Vamos logo. Esse lugar não é agradável.
Samuel, então, se virou até Drax, dando dois passos calmos em sua direção. Sem dizer nada, pousou a mão sobre seu ombro — um gesto firme, mas tranquilo, que pedia atenção sem precisar força.
Drax virou o rosto devagar, lançando aquele olhar frio, pesado, que parecia querer afastar qualquer um. Mas Samuel apenas manteve-se sério, olhando diretamente pra ele, sem se abalar.
— Não é a hora. — falou, simples, direto, no mesmo tom calmo que carregava pra tudo.
Drax desviou o olhar, respirando fundo, cerrando os dentes.
— Tanto faz... — respondeu, como se quisesse fingir que aquilo não o incomodava.
Samuel soltou o ombro dele e voltou a caminhar, no mesmo passo sereno de sempre, sem mais nada dizer.
O grupo então seguiu em frente, deixando aquele pequeno contratempo pra trás — ou, pelo menos, era isso que tentavam fazer.
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