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Embora por dentro sentisse um incêndio lento e silencioso se espalhar, ameaçando consumir tudo que restava de si, Drax mantinha-se consciente apenas por um fio — o nome de Koran. Era como uma âncora no meio do naufrágio, a única lembrança que ainda o impedia de se afogar por completo na própria escuridão.
As palavras de Samuel não causaram dor, tampouco consolo imediato. Mas ecoaram. Suaves, persistentes. Como um sussurro que atravessa muralhas, invadindo um espaço que Drax julgava selado.
Ele bufou, irritado com o próprio pensamento.
— Idiota... — murmurou para si mesmo, a voz baixa e rouca.
Mas, mesmo com toda a resistência, não conseguia negar: por um instante, ainda que mínimo, algo dentro dele hesitou. Uma pequena rachadura na armadura que vestia por dentro.
E naquele espaço tênue entre a fúria e a lembrança, o nome do irmão voltou à mente com mais força. Não como dor. Mas como propósito.
Foi aí que veio. Uma imagem, breve como o piscar de olhos. Koran, ainda pequeno, tropeçando nos próprios pés enquanto corria atrás dele, com o rosto iluminado pelo sorriso mais puro que Drax já havia visto. “Espera, irmão!” — ele dizia, rindo.
E aquilo... doeu.
Mas não como antes. Doeu como uma ferida que precisava cicatrizar. Uma memória que não pedia vingança, mas coragem para ser aceita.
Seu olhar desceu lentamente até a mão fechada, como se algo o chamasse silenciosamente. Os dedos, antes cerrados com força, se abriram aos poucos, revelando o pequeno fragmento.
Lá estava ele. Quieto.
Cintilando fracamente sob a luz fria da enfermaria, como uma centelha teimosa em meio à sombra. Não vibrava, não pulsava, mas havia uma calma estranha em sua presença, como se o tempo ao redor diminuísse só para que ele pudesse olhar com mais atenção.
Por um instante, tudo pareceu mais quieto. O som do ventilador da enfermaria ficou abafado, como se o mundo tivesse prendido a respiração com ele.
Drax não o afastou. Pela primeira vez, não o viu como um inimigo, nem como uma ameaça. Apenas... algo que estava ali.
Algo que insistia em permanecer.
Seu peito subiu em um suspiro contido, e por um breve momento, o peso que carregava em silêncio pareceu mais leve. Não era visível aos outros, mas dentro dele, as correntes começaram a enfraquecer.
E foi então que sentiu.
A dor. A queimação. Os cortes e hematomas. Tudo começou a desaparecer, como se nunca tivessem existido. As feridas internas, tão profundas quanto as externas, pareciam ser tocadas por uma força silenciosa, quente e desconhecida.
Ele arregalou os olhos, surpreso, olhando para os braços antes feridos e para o próprio corpo, agora limpo de sangue e dor.
— O que é isso? — murmurou, confuso, como quem presencia um milagre, mas se recusa a chamá-lo assim.
O fragmento brilhou mais uma vez, sutilmente. Como se respondesse.
Como se soubesse.
Drax ainda encarava a palma da mão quando a porta se abriu, quebrando o silêncio denso do ambiente. Ele ergueu os olhos lentamente, o olhar ainda pesado, os músculos tensionados como se estivesse pronto para qualquer ameaça.
O enfermeiro entrou novamente, com passos hesitantes. Ao vê-lo sentado e desperto, sem as bandagens nem os cortes que horas atrás rasgavam sua pele, parou abruptamente. Franziu o cenho, confuso.
— Você... deveria estar descansando — disse, tentando manter o tom firme.
Mas havia algo em sua voz. Um tremor. Um medo discreto, mas real. Ele olhava para Drax como se algo estivesse fora do lugar. Como se o ar ao redor tivesse ficado mais denso, mais pesado. Um arrepio percorreu sua espinha, involuntário. Algo no olhar de Drax o fazia hesitar — o brilho estranho nos olhos, como se uma força silenciosa o observasse de dentro daquele corpo.
— Como você se recuperou tão rápido?
Drax não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos na mão agora vazia. O fragmento desaparecera, como se tivesse se fundido com ele, ou como se nunca tivesse estado lá.
Mas a sensação permanecia. E por dentro, mesmo curado, havia um estranho vazio. Como se um espaço dentro dele tivesse sido aberto à força, e agora algo se alojava ali, sem permissão... algo que ainda não compreendia.
O enfermeiro deu um passo à frente, mas parou no meio do caminho. O corpo inteiro dele parecia lutar contra aquele impulso. Era como se cada passo em direção a Drax exigisse força de vontade.
— Como... está se sentindo? — perguntou, a voz baixa, cautelosa. Quase reverente.
Drax ergueu o olhar devagar, como quem retorna de um lugar profundo e perigoso. Havia algo novo em seus olhos — não calma, não redenção — mas um conflito mudo, como brasas que ardiam sob a superfície. A raiva ainda estava lá, viva... mas menos desgovernada.
Ele bufou, impaciente.
— Que tipo de pergunta é essa? — rosnou com desprezo. — Eu pareço bem pra você ou não?
O enfermeiro engoliu seco, sem saber se recuava ou continuava com seu trabalho.
— Eu só... nunca vi uma recuperação assim. É como se algo tivesse...
Drax fechou a mão devagar, como se ainda esperasse sentir algo ali dentro. O fragmento o deixara, mas a sensação... não. Algo o corroía por dentro, uma presença incômoda, como uma semente plantada sem permissão.
Outra lembrança piscou. Koran, mais velho, sua expressão triste. “Eu deveria sumir...”
Drax franziu o cenho com raiva, tentando afastar aquilo.
Ele se levantou da maca, os músculos ainda rígidos, mas sem dor. Passou pela frente do enfermeiro como se ele não existisse.
— Faça seu trabalho e não fale nada com ninguém. — disse sem encará-lo, a voz cortante como lâmina.
E saiu.
Mesmo com o andar pesado e os olhos furiosos, algo era diferente. Ainda havia uma inquietação viva dentro dele... mas já não era mais clara como antes. A cada passo, sentia que lutava contra algo que morava nele, e não fora dele.
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As ruas da Cidadela nunca dormiam.
Agora, naquela hora da noite, as luzes vibrantes dos painéis eletrônicos iluminavam cada centímetro da avenida principal, enquanto drones patrulhavam silenciosamente o céu entre os arranha-céus de metal reluzente. Carros flutuantes deslizavam sobre trilhas de energia suspensas, deixando rastros luminosos no ar. Vozes digitais ecoavam pelos alto-falantes com anúncios incessantes — chamando, vendendo, distraindo. Um zumbido constante de tecnologia viva. E por mais que o céu lá em cima existisse, ninguém ali o via. Nem mesmo as estrelas ousavam atravessar aquela camada artificial de luzes e ruídos.
O ar era carregado com um cheiro metálico e artificial, como se a própria cidade respirasse por pulmões de aço. O chão vibrava levemente sob os pés, e tudo parecia supervisionado, controlado, polido até o incômodo. Nada lembrava a textura orgânica da terra, nem o som de folhas ao vento, como na Underground. Ali, a natureza não existia — apenas a ilusão de um progresso brilhante demais para ser verdadeiro.
Na frente do hospital, uma das estruturas mais altas do setor central, Samuel, Lucius e Sylas permaneciam imóveis diante das portas translúcidas, que abriam e fechavam automaticamente com o fluxo constante de pessoas apressadas e androides.
Apesar do movimento intenso ao redor, havia uma bolha de silêncio entre os três. A multidão parecia contorná-los, como se o próprio tempo hesitasse onde eles estavam.
Lucius lançava olhares nervosos para os lados, observando os telões, os cidadãos apressados e os robôs assistentes que zumbiam de um lado para o outro. Seus olhos então voltaram-se para Samuel, como se tentassem entender o que se passava naquela cabeça tão calma — e isso o incomodava.
— Você acha mesmo que ele vai vir, Samuel? — perguntou, com uma voz que mal se ouvia em meio ao burburinho da cidade.
Samuel não respondeu de imediato. Seus olhos permaneciam fixos em algum ponto da multidão, como se vissem algo que os outros não conseguiam ver. Um tipo de silêncio diferente o envolvia. Um silêncio que escutava o mundo, em vez de ignorá-lo.
— Acho — disse por fim, com a mesma firmeza tranquila de sempre.
Lucius franziu o cenho, inquieto.
— Mas como você tem tanta certeza disso? — insistiu Lucius, com o cenho franzido. — Eu sei que você tem esperança nas suas palavras, mas… ele não pareceu te levar nem um pouco a sério. Ele parecia pronto pra te rasgar ao meio.
A voz de Lucius saiu mais carregada do que ele queria admitir. Não era apenas dúvida — era uma mistura de preocupação e frustração, como quem assiste algo prestes a desmoronar e não consegue impedir.
Samuel permaneceu em silêncio. Seus olhos vagaram lentamente pelo ambiente ao redor — atento aos mínimos detalhes, como se estivesse ouvindo algo que só ele pudesse captar. O ar parecia mais denso ali, como se o silêncio entre os dois carregasse um peso antigo, mas necessário.
Lucius o observou por mais um instante, tentando decifrar aquele olhar distante. Então, respirou fundo e balançou a cabeça, quase com um sorriso amargo.
— Eu não entendo você, Samuel. Às vezes acho que ninguém entende. — A pausa veio carregada de sinceridade. — Isso te incomoda?
Samuel voltou o olhar para ele, calmo, firme. Não havia julgamento, nem frieza — apenas a tranquilidade de quem já aprendeu a aceitar o fardo de não ser compreendido.
— Não é pra ser entendido — respondeu com uma voz baixa, quase confidencial. — É pra ser sentido.
E então, completou, olhando de volta para a multidão:
— Até o ódio mais puro... é só um grito de dor. Esperando ser ouvido.
As palavras ficaram no ar como algo sagrado. Não eram ditas com pretensão — mas com a naturalidade de quem já havia ouvido muitos desses gritos antes.
Lucius desviou o olhar. Aquelas palavras ecoavam mais do que gostaria. Era como se Samuel não estivesse apenas falando com ele, mas abrindo uma ferida. E não saber explicar o porquê disso o irritava profundamente.
Antes que pudesse dizer algo, passos rápidos ecoaram pelo piso metálico da entrada, e uma figura surgiu entre o fluxo de pessoas e luzes da cidade: era a doutora Lira.
Ela caminhava com leveza, mas sua presença era marcante. Os cabelos agora estavam soltos, levemente ondulados, e as roupas comuns do hospital haviam sido trocadas por um traje moderno, elegante, típico dos cidadãos de alta patente da Cidadela. Um sobretudo negro de tecido sintético e cintilante envolvia seu corpo de forma sutil, destacando seu porte confiante. A luz dos painéis publicitários refletia em seus olhos com intensidade, tornando-a ainda mais expressiva.
— Desculpem a demora — disse ela com um leve sorriso no rosto. — Fui resolver algumas pendências antes de sairmos... e aproveitei para trocar de roupa. Aquele jaleco é um pouquinho desconfortável demais para andar por aí.
Lucius ficou em silêncio.
Seu olhar simplesmente se perdeu nela — como se o tempo ao redor tivesse diminuído o ritmo. Seus olhos percorriam os detalhes com discreta admiração: o jeito como os cabelos balançavam com o vento da rua, o brilho sutil da roupa contra a luz azulada da noite, e o tom suave da voz de Lira, que agora parecia diferente, quase... envolvente.
Ele só percebeu que estava encarando quando Lira arqueou uma sobrancelha, olhando para si mesma e depois ao redor com expressão confusa.
— O que foi? — perguntou, com um leve sorriso nos lábios. — Tem algo em mim?
Lucius piscou algumas vezes, como se tivesse saído de um transe.
— Não... não... tá tudo bem — respondeu rapidamente, tentando soar natural, mas a voz saiu um pouco mais alta do que o necessário.
Sylas soltou um leve ronronar rouco, quase como um riso contido. Seus olhos felinos brilharam ao encarar Lira por um instante, depois se voltaram para Lucius.
Com um movimento lento e imponente da cabeça, inclinou-se ligeiramente para o lado, reconhecendo silenciosamente a entrada. Sua cauda se ergueu com elegância, balançando suavemente, como se apreciasse o impacto causado.
Mas foi Samuel quem se destacou naquele momento. Ele observava Lira com a mesma serenidade de sempre, quieto, firme. Quando seus olhares se cruzaram, houve um instante de silêncio — não desconfortável, mas cheio de significado. Como se ela sentisse que havia muito mais por trás daquele semblante calmo.
Lira não desviou o olhar de imediato. Havia uma gentileza em sua expressão, mas também uma centelha de curiosidade — como alguém diante de um mistério que ainda não sabe se quer resolver. Algo em Samuel parecia estar fora de lugar, e, ao mesmo tempo, exatamente onde deveria estar.
Ela se aproximou, deixando o sobretudo ondular levemente com a brisa artificial das ventoinhas da rua. Parou ao lado dele, e seus olhos o analisaram por um instante — sem julgamento, apenas tentando compreender.
Um sorriso suave surgiu em seus lábios, carregado de respeito. Não era afeto, nem desconfiança. Apenas uma certeza silenciosa de que ele era... diferente.
— O que estamos esperando? — perguntou ela, com a voz calma. — Já podemos ir?
Mas antes que alguém pudesse responder, o ar pareceu mudar. Um sutil estremecer tomou conta do ambiente, quase imperceptível — como se a atmosfera se tornasse mais densa, mais pesada.
Então, uma voz ecoou por entre os prédios e os ruídos da Cidadela, cortando o ar com autoridade:
— Samuel.
Todos se viraram de imediato.
Drax surgia a alguns metros de distância, andando com passos firmes em meio à multidão que, curiosamente, começava a abrir espaço para ele sem nem perceber.
Ele não corria. Não gritava. Apenas caminhava, olhando fixamente para Samuel, como se nada mais existisse além dele naquele instante.
Lucius engoliu seco. Sylas esticou o corpo em alerta. Lira franziu levemente a testa, colocando-se ao lado de Lucius com um olhar atento.
Samuel, por sua vez, deu um passo à frente, firme como uma muralha. Seu semblante continuava calmo, inabalável, como se já soubesse que aquele momento viria — e o aceitasse.
— Drax — respondeu com voz baixa, porém audível o suficiente para se impor no espaço entre os dois.
O silêncio tomou conta da rua. Até as telas holográficas que transmitiam anúncios pareceram diminuir o brilho. Era como se a cidade inteira estivesse prendendo a respiração.
Drax parou a poucos passos de distância. O olhar de fogo encontrou o de Samuel, e por um breve segundo, não havia ameaça — apenas a sombra de algo quebrado, um misto de dúvida e cansaço.
— Eu devia te odiar — rosnou, a voz baixa e rouca, carregada de amargura. — Você é estranho. Irritante até. Não faço ideia do que você é, nem se dá pra confiar em você.
Samuel permaneceu imóvel, com o olhar firme e sereno.
— Vamos salvar seu irmão. Mas antes, temos algo maior para resolver.
Drax cerrou o punho, os músculos do pescoço saltando de tensão.
— Você fala como se soubesse o que é perdê-lo. Como se entendesse o que é ver alguém que você ama... se apagar. — Seus olhos escureceram. — Ele não é só meu irmão. Ele é tudo o que restou de mim.
Samuel respirou fundo. Seu olhar vacilou por um instante, se perdendo no vazio — mas voltou com mais força.
— Eu realmente não sei — respondeu com calma. Apenas verdade. — Mas eu entendo.
E naquele instante, o silêncio entre os dois parecia dizer mais do que qualquer palavra.
Drax desviou o olhar por um instante, encarando a rua como se buscasse coragem no silêncio.
— Não me peça lealdade, Samuel. Eu não sou como eles. — Apontou com a cabeça para o grupo. — Eu não sigo líderes. Não sou herói. Nem estou interessado em salvar o mundo.
Samuel deu um passo à frente, sua presença quase tangível.
— Eu não quero seguidores. Quero aliados. E você... ainda carrega algo que muitos já perderam: esperança.
Drax ficou imóvel. Seu peito subia e descia devagar. Por fim, olhou de relance para os outros — Lira, Sylas, Lucius — depois de volta para Samuel.
— Eu vou com vocês... — disse por fim, com firmeza. — Mas escuta bem, Samuel. Só há uma razão pra isso. Eu vou até o fim se for preciso... mas só se vocês me ajudarem a encontrar Koran. E tirá-lo daquele inferno.
— Você tem minha palavra — respondeu Samuel, sem hesitar.
Drax assentiu uma única vez, seca e lentamente. E naquele gesto, estava selado algo maior que um acordo — era a primeira rachadura no muro de raiva que o cercava.
A aliança estava feita.
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