⚡──────👾──────⚡
A escuridão ainda dominava sua mente, mas algo dentro de Drax parecia em constante agitação. Um peso invisível apertava seu peito, como se algo estivesse prestes a explodir por dentro. Seu rosto contorcia-se em dor, os olhos cerrados tremiam e, mesmo inconsciente, seu corpo se remexia inquieto sobre o leito. Suor escorria por sua testa, descendo pelo pescoço e encharcando o lençol.
De repente, como se algo o arrancasse de um pesadelo, ele desperta bruscamente.
— Koran!! — gritou, arfando, os olhos arregalados, como se esperasse ver o irmão à sua frente.
Seu peito subia e descia rapidamente. Levou alguns segundos até perceber que não estava mais em perigo. Seus olhos percorreram o ambiente em busca de respostas. A luz suave atravessava as cortinas brancas, revelando paredes limpas, aparelhos médicos e o som ritmado de máquinas monitorando seus sinais. Estava em um hospital.
Ele tentou se sentar, mas uma dor aguda atravessou sua cabeça como uma lâmina, fazendo-o gemer baixo. Levou a mão à testa com dificuldade, sentindo a faixa espessa que cobria parte do crânio, ainda úmida pelo suor. Quando olhou para o braço, viu as marcas dos curativos envolvendo-o até o cotovelo — aquele mesmo braço que antes jazia destruído, com fios e ligamentos metálicos à mostra. Agora, a estrutura mecânica havia sido parcialmente restaurada, os primeiros sinais de reconstrução visíveis em meio aos curativos. Todo o seu corpo estava envolto em faixas e ataduras, lembranças silenciosas da intensidade da batalha que havia enfrentado.
Estava fraco. Cada músculo parecia feito de chumbo. O simples ato de respirar exigia esforço, como se o ar pesasse dentro de seus pulmões.
— Como... eu vim parar aqui...? — murmurou, sua voz rouca, quase apagada pela exaustão.
Fechou os olhos, tentando reunir as memórias. Mas tudo vinha em fragmentos desordenados: a dor... o desespero... o grito abafado de seu próprio nome... e, no meio da escuridão, o rosto do irmão — Koran — ofuscado por uma luz que desapareceu tão rápido quanto surgiu.
Seu peito apertou. Não era apenas o cansaço — era a sensação de que algo havia sido arrancado dele.
— Koran... foi ele que me salvou? — murmurou, com os olhos perdidos.
Uma inquietação começou a crescer dentro de Drax, abafando a dor por um momento. Com esforço, retirou as cobertas e empurrou as pernas para fora da maca. Mal conseguia sustentar o próprio peso, mas a necessidade de entender, de encontrar respostas, falava mais alto. Segurou-se no suporte de soro preso à veia do braço e se arrastou até a porta.
O corredor diante dele se abriu silencioso, iluminado por uma luz fria e branca. Ele olhou em volta, os passos lentos e arrastados ecoando pelo chão liso. Estava sozinho... por ora.
— Esse hospital... por que me parece tão familiar? — sussurrou, enquanto sua mente começava a ligar memórias antigas a aquele ambiente. Algo naquele lugar lhe trazia uma sensação incômoda de déjà-vu.
Foi então que enfermeiros — ou melhor, cyborgs com traços quase humanos — o notaram.
— Senhor, o senhor não pode andar nesse estado — disse uma das enfermeiras, se aproximando com delicadeza.
— Eu estou bem — respondeu Drax, mesmo sabendo que mal conseguia manter-se em pé.
— Seu corpo ainda está frágil, precisa descansar. Por favor, volte para o quarto — insistiu outro.
— Eu já disse... que estou bem! — sua voz cresceu, impaciente, carregada de raiva contida.
Tentando ignorar as dores, ele se desvencilhou deles com um empurrão trêmulo. Os enfermeiros tentaram segurá-lo, mas Drax avançou mancando, determinado a seguir. E então, ao virar um corredor lateral, ele parou subitamente.
Viu pessoas mais adiante. Algumas estavam reunidas, conversando. Entre elas... ele reconheceu o rosto da Doutora Lira. Mas não estava sozinha.
Seus olhos se fixaram naquele que menos esperava ver.
Samuel.
As memórias voltaram como um vendaval.
O coração de Drax disparou. Uma fúria crua explodiu dentro dele, sufocando qualquer lógica ou autocontrole. O soro ainda preso ao braço foi arrancado à força quando ele se lançou para frente. As agulhas se romperam da pele, fazendo o sangue escorrer pelos curativos, mas ele não sentiu dor — só raiva.
— Você!! — rugiu, empurrando os enfermeiros com uma força surpreendente, jogando-os ao chão.
A dor já não importava. Nem o sangue, nem os ferimentos. Nada além da raiva que ardia dentro dele.
E com os olhos flamejantes, Drax avançou, cada passo sendo movido por uma fúria crua que superava qualquer dor. Seu olhar estava fixo em Samuel, como se toda a dor e raiva acumuladas tivessem encontrado um único alvo.
— Isso é tudo culpa sua!! — rugiu, a voz ecoando pelo corredor como um trovão contido, seus passos se apressando, apesar do corpo cambaleante.
Ele se aproximava com passos desgovernados, ignorando os curativos que se desfaziam e os gritos distantes que clamavam por sua parada. Cada músculo queimava como fogo sob a pele, cada batida do coração parecia ecoar em dor — mas nada o impedia. Nem a fraqueza, nem a razão. Era como se ele estivesse pronto para atravessar o próprio inferno... apenas para lançar sua dor contra Samuel.
E então, no último instante, o inevitável aconteceu.
Seu corpo, já exausto além do limite, simplesmente cedeu. Como se o peso da raiva fosse maior que suas forças. Os joelhos fraquejaram, o mundo girou ao seu redor em um turbilhão confuso — e antes que tocasse o chão, uma figura se moveu com precisão.
Samuel.
Com um gesto firme e veloz, ele o segurou antes da queda. Envolveu Drax com um braço forte, impedindo que o impacto acontecesse. Mesmo naquele momento, Samuel manteve a expressão calma, quase inalterada — como se já soubesse que aquele colapso era inevitável. Como se, por dentro, já estivesse preparado para sustentá-lo.
Drax arfava, buscando o ar com dificuldade. O suor e o sangue escorriam por seu rosto, manchando as faixas e escurecendo seus olhos.
— Sua... culpa... foi... sua culpa... — murmurou entre suspiros entrecortados, as palavras carregadas de mágoa, dor e uma velha ferida que ainda sangrava.
Tentou levantar os olhos, mas estavam turvos. O mundo ao redor se tornava uma massa indistinta de sombras, vultos e luzes. E o peso do que sentia o puxava de volta para o fundo da inconsciência.
Sua cabeça tombou lentamente contra o ombro de Samuel, o corpo tremendo. Os lábios, ainda insistentes, tentaram formar uma última palavra... um último sopro carregado de tudo o que ainda guardava no peito:
— Você...
E então... o silêncio.
Samuel permaneceu imóvel, sustentando o corpo de Drax como se carregasse algo mais do que carne e osso — como se carregasse todo o sofrimento não dito, toda a confusão, toda a verdade que ainda não havia sido revelada.
Ao tocá-lo, sentiu o turbilhão que existia dentro dele —uma tempestade de lembranças despedaçadas, de laços partidos por um mundo que já não sabia o que era paz.
Seus olhos, apesar de serenos, guardavam uma dor muda. Ele não respondeu. Não precisava. Apenas respirou fundo e, com um movimento lento e cuidadoso, deu um passo à frente — como quem decide carregar um fardo que não é só seu, mas de todos os que ainda não conseguiram se curar.
— Venham, rápido! — gritou a doutora Lira, correndo ao lado de dois enfermeiros. O som de passos ecoou pelos corredores frios.
Lucius, parado logo atrás, observava a cena com um olhar distante. Havia algo em seus olhos — não surpresa, mas dúvida.
— Parece que ele conhece você, Samuel... — murmurou Lucius, pensativo, como quem contempla as peças de um quebra-cabeça.
Samuel não respondeu. Não se moveu. Apenas ficou ali, imóvel, segurando Drax como quem sustenta mais que um corpo — como quem segura o peso de lembranças há muito tempo esquecidas. Os olhos serenos, inabaláveis, pareciam olhar para um ponto distante, como se vissem algo além daquele corredor, além daquele instante.
Os enfermeiros se aproximaram com pressa, mas por um breve momento... tudo ao redor parou.
O tempo, os sons, até mesmo a dor que pairava no ar... cessaram.
E naquela suspensão quase sagrada, pairava uma única pergunta não dita — de onde vinha todo esse ódio por Samuel?
--- 💫 ---
A enfermaria estava silenciosa, preenchida apenas pelo leve som dos aparelhos e o sutil tilintar de instrumentos sendo organizados. Uma luz suave atravessava as janelas altas, criando feixes quase dourados que dançavam sobre o chão estéril.
Deitado sobre a maca, Drax começou a se mover. Primeiro os dedos se contraíram, os músculos retesando como se ainda estivessem em combate. Os olhos cerrados tremularam. Dentro dele, uma batalha silenciosa era travada entre o corpo exausto e a mente que se recusava a descansar.
E então... os olhos se abriram.
Lentos. Confusos. Carregados de um cansaço que vinha de um lugar mais fundo que o físico — era o tipo de exaustão que arranhava a alma. Ele piscou algumas vezes, tentando entender o que havia acontecido. Sentia o peso dos curativos sobre o peito, a rigidez nos músculos, e um zumbido incômodo latejando na cabeça.
Mas havia algo mais.
Presenças.
Dessa vez, ele não acordava sozinho.
Seu olhar vagou, ainda turvo, até encontrar a figura imóvel na entrada da sala — e, ao vê-lo, os olhos se arregalaram.
Era Samuel.
Ali.
O sangue de Drax ferveu em um impulso bruto de raiva. Quase gritou. Quase se levantou. Quase.
Mas antes que o instinto tomasse o controle, uma mão pousou sobre seu ombro. Firme. Quente. Humana.
— Ei... calma. Você está seguro agora — disse Lira, com aquela voz firme, mas gentil. Uma mistura estranha entre autoridade e cuidado. — Respira, Drax. Ninguém vai te machucar aqui.
Os olhos dele buscaram os dela, como os de um animal encurralado tentando entender se era mesmo seguro abaixar a guarda. O peito subia e descia de forma irregular, o coração disparado demais para um corpo que mal conseguia se erguer.
Então ele desviou o olhar. E lá estava Samuel.
Imóvel. Silencioso. Aquilo era mais provocação do que consolo. O silêncio daquele homem era uma faca cravada fundo — e nem assim sangrava.
O corpo de Drax gritava por confronto. Mas a mente... hesitava. Como se uma parte dele ainda estivesse presa no redemoinho de lembranças confusas.
— O que aconteceu? — perguntou Lira, ao notar a expressão carregada de tensão. — Por que você tá olhando assim pra ele?
Drax cerrou os dentes, os músculos do maxilar tremendo de raiva contida. Mesmo ferido, mesmo exausto, ele se forçou a se erguer um pouco, encarando Samuel com um olhar que parecia capaz de abrir fendas na parede.
— Foi por causa dele... — rosnou, a voz arranhando a garganta, embargada pela dor e pelo orgulho ferido. — Por causa dele que pegaram o Koran.
O silêncio caiu pesado na sala. Até os sons dos aparelhos pareceram cessar por um momento.
Lira franziu o cenho, surpresa.
— Como assim? O que ele fez?
Drax apertou o punho sobre os lençóis, a respiração ficando mais pesada. A raiva era um escudo, mas por trás dela, havia algo mais — algo que ele odiava ainda mais do que Samuel: a verdade.
— Ele desapareceu... no pior momento possível — cuspiu as palavras com desprezo. — A gente precisava dele. E ele... sumiu. Feito um covarde.
— Isso não é o suficiente pra essa raiva toda — respondeu Lira, sem elevar a voz. — Você não tá contando tudo.
Drax bufou, os olhos faiscando. A raiva agora começava a se voltar contra ele mesmo.
— Eu segui ele, tá legal? Eu e o Koran. Ninguém mandou. Ninguém pediu. Eu tomei a decisão. — A voz dele era como um golpe seco. — E no fim... fomos pegos. Por minha causa.
Fez uma pausa, os olhos duros, desviando por um instante.
— Eu sabia o risco. Sabia que podia dar merda. Mas fui mesmo assim. E arrastei o Koran comigo... — mordeu o interior da bochecha, respirando fundo. — Só que é mais fácil colocar a culpa nele... do que encarar o espelho.
As palavras saíram cuspidas, afiadas, cruas. E ainda assim, não havia alívio algum nelas.
Lira ficou em silêncio. A verdade estava ali, nua. E mesmo assim, Drax parecia querer gritar de novo só por tê-la admitido.
Samuel continuava em pé. Nem uma palavra. Nem uma reação. Apenas seu olhar tranquilo e firme.
Drax o encarou mais uma vez, como se quisesse arrancar alguma emoção. Mas nada.
— Ele que salvou você, Drax — disse Lira, com suavidade, mas sem hesitação.
Drax socou o colchão com a mão boa, os olhos arregalados de raiva.
— Eu sei… — a voz falhou, baixa demais para ser raiva. — Eu sei que fui eu.
Bufou alto, o peito arfando.
— Que merda...
Samuel manteve o silêncio. Nem um gesto, nem um suspiro fora de lugar. Apenas um aceno sutil com a cabeça — não como quem aceita uma acusação, mas como quem reconhece a coragem de quem finalmente encarou a verdade.
--- 💫 ---
Drax estava sentado em uma das cadeiras da ala médica, o olhar perdido entre uma rachadura no chão e o vazio de si mesmo. Sua mão repousava sobre o joelho, trêmula, manchada de sangue seco e lembranças recentes. O hospital ao redor parecia existir em outra dimensão — uma onde o tempo não corria e a dor não cessava.
— Preciso que fique aqui, tudo bem? — disse um dos enfermeiros, mantendo o tom calmo enquanto fechava a porta do quarto ao lado.
Drax não respondeu. A voz do enfermeiro se perdeu, como se ecoasse através de um túnel distante.
Lucius observava à distância, encostado na parede fria do corredor. Não ousava interromper o silêncio que envolvia Drax. Havia algo naquele garoto que o fazia lembrar de si mesmo. Os olhos de Drax não pareciam olhar para o presente, mas para um passado que o devorava por dentro.
— Sabe, Samuel… — disse Lucius, com a voz baixa, como se não quisesse incomodar o ar.
Samuel o olhou e assentiu, sem desviar a atenção de Drax.
— Ver ele assim me lembra de mim… quando eu estava sozinho no laboratório. Os olhos distantes, vazios… preso dentro da própria mente. Eu sabia que estava respirando, mas por dentro era como se estivesse morto.
Ele fez uma pequena pausa, mas logo continuou.
— Ele falou de um tal de Koran, não foi? — continuou. — Chamou de irmão… disse que foi capturado. Talvez esse seja o motivo do olhar dele. Talvez… ele se sinta culpado por isso e agora não sabe se o irmão esta vivo ou morto.
Lucius cruzou os braços.
— Não temos muito tempo, temos que partir logo.
Mas não houve resposta. Samuel ainda observava Drax com intensidade — como se estivesse olhando dentro dele, atravessando a dor e a casca endurecida.
— Samuel? — chamou Lucius, com um leve aperto na voz.
Samuel só então virou a cabeça, assentindo em silêncio. Seus olhos, porém, continuavam carregando o peso do que havia visto em Drax.
— Você está certo sobre ele — murmurou. — Há algo grande o consumindo… mais do que raiva. É culpa. E ela o está rasgando por dentro, lentamente.
— Não podemos deixá-lo aqui — completou Samuel.
— E o que vamos fazer? — perguntou Lucius, a voz baixa, mas carregada de preocupação. — Nesse estado ele não é capaz de lutar. Os ferimentos são graves… tanto físicos quanto mentais. Ele mal consegue se manter de pé.
Samuel permaneceu em silêncio por um instante. Seus olhos continuavam fixos em Drax, analisando não os cortes, nem os hematomas visíveis — mas a escuridão que se contorcia dentro dele.
Então, respondeu, com a calma que fazia sua voz atravessar qualquer ruído:
— Não importa o tamanho do ferimento… se ainda houver luz dentro dele, até a escuridão mais profunda será forçada a recuar.
Lucius o encarou, como se absorvesse lentamente aquelas palavras. Samuel não estava falando apenas de Drax — ele falava de todos. Do mundo inteiro.
E, naquele instante, mesmo sem entender completamente, Lucius sentiu: aquela frase ficaria gravada. Porque Samuel não dizia coisas à toa. Cada palavra era como uma âncora. Ou uma centelha.
Samuel então deu um passo à frente, como se a própria decisão já curasse o caminho.
— Se ele se recusar a enxergar essa luz… então eu a levarei até ele.
Cada palavra ecoou com o peso de quem já havia caminhado por sombras mais densas do que palavras podiam descrever.
Ele se aproximou de Drax com passos lentos, mas firmes, sem pressa — como se respeitasse o tempo que aquele homem precisava para sair do próprio abismo.
Mesmo mergulhado em seus pensamentos, Drax sentiu a presença. Seus olhos, ainda perdidos, se ergueram com irritação contida.
— O que você quer aqui? — rosnou. — Me deixa em paz.
Samuel não respondeu de imediato. Apenas sentou-se na cadeira ao lado, como quem visita um velho conhecido. O silêncio entre os dois durou alguns segundos, densos como o ar de uma tempestade prestes a cair.
— Eu sei que você não quer falar — disse Samuel por fim, a voz tranquila, sem qualquer tom de reprovação. — Mas às vezes, o silêncio também pesa.
Drax virou o rosto, como se quisesse expulsá-lo com o olhar.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Talvez não saiba tudo. Mas vi nos seus olhos que tem alguém que ainda importa. E que essa dor que você sente não é só sua. É de quem você perdeu… ou de quem ainda está preso.
Drax cerrou o punho. Seu corpo ferido mal sustentava a tensão que tentava esconder.
— Se você veio aqui pra dar um discurso de fé, pode sair. Não vai funcionar comigo.
Samuel o olhou, firme, porém sereno.
— Eu não vim te convencer de nada. Vim te lembrar de algo que talvez você tenha esquecido…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você ainda está aqui. Respirando. Lutando contra si mesmo. Isso quer dizer que algo dentro de você ainda não desistiu.
Drax soltou uma risada fraca, amarga.
— E o que isso importa? Você acha que vai consertar o mundo com palavras?
— Não. — Samuel respondeu com calma. — Mas com ações… talvez.
Ele se aproximou um pouco mais, respeitando o espaço, mas sem se afastar da verdade.
— Eu sei que tem alguém esperando por você. Preso. E sei que você fará qualquer coisa pra salvá-lo. E eu vou te ajudar a fazer isso, juntos. Mas antes… preciso da sua ajuda pra algo maior.
Drax virou-se lentamente, o olhar agora mais sério do que hostil.
— Algo maior?
— A dor que você sente… não é só sua. Há muitos como você. E muitos como ele. Se não fizermos algo agora, vamos perder todos.
Samuel se levantou da cadeira com a mesma serenidade com que havia se sentado. Seus olhos permaneceram sobre Drax por mais alguns segundos, como se enxergasse além do silêncio, além da raiva.
— Não vou te forçar a nada — disse, em um tom que não exigia, apenas oferecia. — Mas vou estar aqui. Até que você enxergue que sua dor pode ser o começo de uma nova força — e não o fim da sua.
Antes de virar-se completamente, Samuel apontou com o queixo para o punho cerrado de Drax.
— Estarei te esperando.
Havia firmeza em suas palavras, mas nenhuma pressão. Era como se falasse de alma para alma, num tempo que não exigia resposta imediata. Em seguida, deu as costas, caminhando em direção à saída com passos calmos, levando consigo um silêncio carregado de significado. Não deixava uma sentença, deixava uma escolha.
Drax permaneceu imóvel, o maxilar travado, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede. Por um instante, o zumbido em sua mente cessou, dando lugar a um eco distante das palavras de Samuel. Não porque haviam o tocado profundamente… mas porque, pela primeira vez em muito tempo, ele as ouviu.
Seus dedos, antes cerrados com força, se abriram lentamente. A palma da mão revelou um pequeno fragmento brilhante — talvez um pedaço da armadura danificada, talvez uma lembrança que se recusava a desaparecer. Ele o encarou em silêncio, os olhos semicerrados.
Não havia emoção em seu rosto, nem aceitação, nem rejeição. Apenas um instante de pausa. De análise. Como quem tentava compreender se aquele brilho era real… ou apenas mais uma ilusão.
Então fechou a mão novamente, firme. O punho voltou à sua posição original.
Mas algo, mesmo que imperceptível, havia se movido dentro dele.
Os monitores ao lado da maca emitiram um som contínuo e estável. A respiração de Drax, antes irregular, encontrou um ritmo mais firme. A dor que pressionava cada músculo recuou em silêncio, como algo que, pela primeira vez, aceitasse descansar.
Drax não notou. Ou, talvez, apenas fingisse não notar.
Mas a verdade estava ali, gravada em sua pele: um corpo que começava a se curar… assim como uma alma que, aos poucos, deixava de resistir à luz.
⚡──────🌟──────⚡

