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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
37 |💫| O Preço da Paz
1195 palavras • 6918 caracteres • ⏱ 4 min 47 s

37 |💫| O Preço da Paz

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O corredor do hospital estava silencioso, envolto por um ar limpo e um cheiro suave que trazia uma sensação de tranquilidade quase ilusória. Ao fundo, vozes abafadas vinham de outras alas, ecoando como sussurros distantes de um mundo que tentava, desesperadamente, continuar existindo.


Sylas dormia profundamente. Seu peito subia e descia em um ritmo sereno. Naquele instante, parecia em paz. Uma paz frágil, rara, como se o tempo ali tivesse parado por compaixão.


Ao lado dele, Samuel permanecia sentado em um banco estreito, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas. Seus olhos estavam fixos no rosto adormecido do tigre, mas sua mente vagava — e o levava a outro tempo. Um tempo onde um pequeno lobo de olhos gentis dormia da mesma forma. A lembrança de Alex não o enfraquecia. Pelo contrário, era uma chama discreta que o mantinha firme, ainda que queimasse em silêncio no fundo do peito.


Foi então que uma voz quebrou a quietude.


— Faz tempo que eu não vestia uma roupa diferente... — disse Lucius, caminhando pelo corredor com passos lentos, quase tímidos. Estava com roupas limpas e simples, algo bem distante das vestes pesadas que costumava usar. — Essa aqui é até que bem confortável. Valeu.


Samuel desviou o olhar de Sylas e o dirigiu para Lucius, observando por um instante sua nova aparência. O homem parecia diferente — não apenas pelas roupas. Havia menos peso nos ombros, menos tensão nos olhos. Talvez fosse o cansaço. Ou talvez... o começo de uma mudança.


— Não precisa agradecer — respondeu Samuel, com a serenidade habitual. — Você já passou por bastante.


Lucius assentiu, deixando escapar um leve sorriso antes de se encostar na parede, ao lado da porta. O silêncio entre os dois não era desconfortável. Havia algo respeitoso naquela quietude. Como se ambos compreendessem o valor de um breve instante de paz num mundo que não permitia descanso.


Mas logo Lucius rompeu a trégua com um suspiro.


— Quase esqueci... Antes da P.A. partir, ela me contou uma coisa importante. Foi rápido, meio atropelado, mas eu me lembro bem. Ela disse que o corpo principal dela ainda está intacto... em algum lugar chamado Linha 8.


— Nunca ouvi esse nome — murmurou Lucius. — Faz muito tempo desde que deixei Valtrex.


— Ela disse que o corpo estava sob a proteção de um grupo. Uma gangue, na verdade... — Lucius franziu a testa, tentando se lembrar com exatidão. — O nome era estranho, algo como...


— A gangue Skull — completou uma voz feminina firme.


Ambos viraram-se ao mesmo tempo. A doutora Lira estava parada à entrada da ala, os braços cruzados, uma expressão de leve preocupação no rosto.


Lucius ergueu as sobrancelhas, surpreso.


— Você conhece eles?


— Infelizmente, sim — respondeu Lira, se aproximando. — Os Skull são uma gangue que vive causando problemas por aqui. Um tipo de comunidade anarquista, com regras próprias. Eles controlam territórios, redes clandestinas, vivem de confrontos com os setores centrais. Mas... foram eles que trouxeram seu amigo até aqui — disse ela, olhando diretamente para Samuel. — Ele deveria estar descansando.


— Então foram eles que roubaram o corpo da P.A.? — questionou Samuel, a voz calma, mas firme.


Lira arregalou um pouco os olhos, surpresa.


— Você... você não tinha me contado que não falava meu idioma?


Samuel apontou para o pequeno dispositivo preso ao ouvido e depois indicou Lucius com o queixo.


— Foi ele quem fez.


— Uau! — Lira arregalou os olhos, fascinada. — Isso é incrível! Um tradutor neural funcional? E com essa precisão?!


Lucius coçou a nuca, ligeiramente envergonhado.


— É... nada demais, só uma adaptação. Mas enfim... A P.A. parecia saber muito bem quem eram esses Skull. Só que não deu tempo de explicar mais — disse ele, desviando o olhar. — Ela parecia... apressada. Como se estivesse fugindo de algo, ou sei lá.


O silêncio caiu por um instante. Samuel manteve os olhos em Sylas, que ainda dormia serenamente, alheio à conversa. Seus pensamentos corriam em silêncio, alinhando possibilidades, caminhos, riscos.


— Se o corpo dela está mesmo com eles... — disse enfim — então há uma chance de trazê-la de volta. E com ela... salvar toda a estrutura que ainda resta neste lugar.


Lucius cruzou os braços, a expressão agora mais séria, o peso da responsabilidade se firmando nos ombros.


— Certo, mas... como vamos encontrar esses caras? Eu não faço ideia de como me guiar por aqui em Valtrex. A cidadela parece um labirinto. E a gente mal conhece a região onde estamos.


Samuel permaneceu em silêncio por um momento, e então desviou o olhar para Lira. Lucius o acompanhou, como se a resposta estivesse ali, parada bem diante deles.


A doutora piscou algumas vezes, confusa com a súbita atenção.


— O quê? Por que estão me olhando assim? — disse ela, arqueando uma sobrancelha. — Não me digam que querem minha ajuda?


— Por favor — disse Lucius, dando um passo à frente, a voz mais firme agora, sem hesitação. — Sem a P.A., estamos no escuro. E se conseguirmos recuperar o corpo dela... talvez consigamos salvar o núcleo, a torre, a cidadela — e impedir que o resto desse mundo desabe com eles.


— Eu sei, mas... — Lira olhou ao redor, visivelmente dividida. — Eu não posso simplesmente abandonar o hospital. Existem pessoas dependendo de mim aqui. Muitos feridos, crianças... Eu tenho responsabilidades.


Foi quando Samuel se ergueu devagar do banco. Seus passos foram calmos, firmes. E ao olhar para Lira, seus olhos diziam mais do que qualquer ordem. Havia ali empatia. Respeito. Mas também esperança.


— Você já salvou muitos aqui dentro, doutora — disse ele, com a voz baixa, mas carregada de significado. — Inclusive esse tigre, que um dia pode mudar o rumo desta cidade. Mas os que estão aqui... já estão fora de perigo, graças a você. Agora, é lá fora que vidas estão sendo perdidas. É lá fora que precisam da sua coragem.


Lucius completou, com um olhar mais próximo, mais humano:


— A P.A. confiou em você para continuar... e nós também. Não queremos te colocar em risco. Só precisamos de alguém que conheça os caminhos. Alguém que acredite que ainda vale a pena lutar por esse lugar.


Lira olhou em silêncio para os dois. Seus olhos foram até a porta da ala, onde pacientes descansavam em paz. Aquilo doía. Mas dentro dela, algo começava a mudar.


— Tem uma médica de confiança minha que pode assumir por mim... — murmurou, mais para si mesma. — Ela é nova, mas tem preparo.


O silêncio que se seguiu foi curto, mas carregado de tensão. E enfim, ela suspirou, derrotada por algo maior do que o dever: a esperança.


— Tá bom, tá bom. Eu vou com vocês. Mas com uma condição: se vocês me colocarem no meio de tiroteio com gangue de rua armada com implantes neurais e braços mecânicos, eu mesma aplico um sedativo em vocês dois. E forte.


Lucius riu, aliviado.


— Combinado. E eu ainda te dou um bônus: pode escolher o sabor da seringa.


Samuel apenas assentiu com um leve movimento de cabeça. Era o suficiente.


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