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Samuel permaneceu sentado, os olhos vagando pelo ambiente com atenção renovada. Já havia despertado há alguns minutos, mas só agora sua mente começava a processar tudo ao redor. O local era limpo, iluminado por tons esverdeados e brancos, com paredes lisas e estruturas tecnológicas que emitiam leves pulsações de luz. Era inconfundível.
Valtrex. A ala médica da cidadela.
Ele reconhecia aquele lugar — estivera ali em sua chegada na cidade. Mas agora havia algo diferente. Um silêncio sutil preenchia o ar, como se tudo estivesse esperando… aguardando o próximo passo.
Ao virar a cabeça, notou Drax deitado na maca ao lado. Estava desacordado, mas sua respiração era firme e constante. Um peso silencioso saiu de seus ombros ao vê-lo ali.
— Lucius e a P.A.… conseguiram. — murmurou, com um traço de alívio na voz. — Fico feliz em saber disso.
Antes de se levantar, olhou para os tubos e sensores ainda presos ao seu braço. Retirou-os com calma — sondas finas, adesivos monitores, fios ligados a pequenos módulos suspensos ao lado da maca. Sentiu um leve puxão, mas nada que o incomodasse. O zumbido dos equipamentos acompanhou sua movimentação, ajustando-se automaticamente à sua retirada.
Um desconforto sutil atingiu seu abdômen. Ao olhar para baixo, notou uma fina camada de plasma envolvendo seu corpo na região da barriga — um escudo curativo, translúcido, que desapareceu aos poucos sob seu toque. Ao removê-lo completamente, percebeu que não havia mais ferimento. Nenhuma marca. Como se a batalha tivesse sido apenas um sonho distante.
Samuel se levantou com tranquilidade, os pés tocando o chão gelado com firmeza. Seus movimentos eram lentos, mas carregavam propósito. O corpo ainda denunciava a falta de energia, uma fadiga profunda que não vinha apenas do esforço físico, mas da alma. Mesmo assim, não havia dor. Só esperança.
A dor já havia cumprido seu papel.
Agora, o que restava era seguir em frente.
O silêncio no ambiente era denso, quase simbólico. Um silêncio que não vinha apenas da ausência de sons, mas da ausência de caos. Um respiro depois da tempestade. Samuel sabia que esse tipo de paz era ilusória… um breve intervalo antes que a guerra voltasse a se erguer diante dele. Mas por ora, ele respeitou aquele momento.
Seus olhos pousaram sobre a lateral da maca, onde repousavam suas coisas.
Com calma, ele se aproximou e começou a se preparar. Seus dedos tocaram o manto — o mesmo que havia o acompanhado nas sombras, nas ruínas e nos campos marcados pela dor. Agora, ele estava limpo, intacto, sem manchas ou rasgos. Quase como se o próprio tempo o tivesse restaurado. Mas Samuel sabia… nada voltava a ser como antes.
Ele amarrou o manto à cintura com firmeza, sentindo o peso simbólico daquele gesto. Era mais do que vestimenta — era sua armadura silenciosa, sua memória em tecido.
Depois, pegou seus acessórios um a um: o dispositivo de comunicação, o bracelete com as inscrições antigas, o seu colar, o pingente metálico preso à alça da bolsa — todos objetos que carregavam não só utilidade, mas histórias. Fragmentos de quem ele era, de mundos salvos, e do que ele ainda precisava fazer.
Por fim, vestiu a bolsa no ombro, ajustando as alças com precisão. O peso dela lhe pareceu familiar. Reconfortante.
Aquela era a sensação de estar pronto. Ou, pelo menos, de não poder mais esperar.
Samuel parou por um instante.
Respirou fundo.
Seu olhar se voltou novamente para Drax, ainda desacordado.
E no fundo, Samuel sabia: a próxima escolha o levaria ainda mais fundo na escuridão.
Mas agora, ele carregava algo além da luz dentro de si — uma centelha de lembrança, de propósito, algo que nem a dor, nem o esquecimento conseguiram apagar.
E, por ora, isso era tudo o que ele precisava.
Com passos firmes, cruzou o limiar da porta.
Do lado de fora, o corredor seguia limpo e silencioso, banhado por uma luz azulada vinda do teto. O ambiente carregava aquele cheiro sutil de hospital, misturado com o som distante de máquinas funcionando em ritmo constante.
Logo adiante, ele avistou Lucius e Sylas sentados em um dos bancos acolchoados encostados na parede. Lucius estava recostado com as mãos entrelaçadas sobre o colo, enquanto Sylas bocejava longamente antes de se deitar, acomodando-se com tranquilidade sobre as pernas do companheiro.
Lucius afagou lentamente a cabeça felina, com um leve sorriso cansado.
— Tá cansado, não é? — murmurou com carinho. — Desculpa esse canto não ser tão agradável pra você descansar, garoto...
Ele fez uma pausa e olhou para o corredor à frente, pensativo.
— Só temos que esperar mais um pouco. Quando a doutora Lira voltar, pergunto se tem algum lugar mais confortável pra você, tá bom?
O tigre respondeu apenas esfregando a cabeça contra o colo dele, num gesto preguiçoso, antes de fechar os olhos e adormecer de vez. Lucius deixou escapar um leve riso nasal e, em seguida, suspirou, fechando os próprios olhos por um instante.
— Quem me dera tirar um cochilo como nos velhos tempos… — murmurou para si mesmo, num tom entre o lamento e a saudade.
Samuel se aproximou e se sentou ao lado deles, o banco rangendo levemente sob seu peso.
— E por que não tira? — disse ele, com a voz calma.
Lucius abriu os olhos, sem pressa, e olhou para ele de lado.
— Depois que perdi minha mortalidade… não sinto mais nada. — Deu de ombros. — Nem sono. Nem cansaço. Nem paz.
Samuel inclinou um pouco a cabeça, analisando-o com a serenidade de quem vê além das palavras.
— E... você tá fazendo o que aí?
Lucius soltou um suspiro leve, como se aquela pergunta o fizesse se dar conta do que fazia.
— Esperando você acordar — respondeu, e piscou. — Espera aí…
Ele se virou completamente e o encarou com olhos arregalados.
— Você acordou! — exclamou alto, como se só agora a ficha tivesse caído.
O tigre soltou um rosnado baixo, incomodado pelo volume repentino da voz de Lucius.
— Opa! Desculpa... — disse ele, abaixando imediatamente o tom e passando a mão com cuidado sobre a cabeça de Sylas, num gesto instintivo de carinho. — Já passou, garoto... tá tudo bem.
O grande felino soltou um leve suspiro e voltou a repousar a cabeça, rendendo-se novamente ao descanso.
Samuel observava em silêncio. Seus olhos tinham aquele brilho sereno e constante, como se vissem mais do que o momento presente. Como se cada gesto, cada palavra dita ali carregasse um peso que ele já compreendia muito antes de ser pronunciado.
Mesmo assim, permanecia atento — presente.
— Você parece exausto… — disse ele, enfim. — Me desculpe por ter feito você me carregar até aqui.
Lucius deu uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Eu tô legal. Não se preocupe com isso. — Ele ergueu a mão, mostrando um pequeno drone metálico apagado sobre o colo. — A P.A. ficou aqui comigo. Mas ela não tinha muita energia sobrando… acabou desativando o drone pra economizar. Faz tempo que não a vejo assim, tão silenciosa.
Ele olhou para o pequeno corpo metálico com uma expressão de leve preocupação, mas logo voltou os olhos para Samuel.
— Já que você acordou… o que vamos fazer agora?
Samuel desviou o olhar por um instante, como se medisse a resposta com precisão. Então voltou a encará-lo.
— Por agora… acho que você deveria trocar essas roupas sujas.
Lucius riu, sarcástico.
— Você acha que eu posso? Eu não tenho nada além disso. — Disse, puxando um pouco da camisa suja e rasgada. — Tô assim desde aquele ataque em Valtrex. Tá feio.
— Isso não é um problema — respondeu Samuel com simplicidade, enquanto erguia calmamente a mão.
Uma leve onda de energia percorreu seus dedos, como poeira dourada sendo levada pelo vento. Diante deles, flutuaram novas roupas, limpas e feitas sob medida — resistentes, confortáveis, e adequadas ao ambiente.
Lucius piscou, surpreso. Ele pegou a roupa com as duas mãos, ainda examinando
— Isso é… surpreendente — murmurou. — Aposto que nem amassa.
Samuel deu um leve sorriso de canto, apenas o suficiente para suavizar sua expressão antes de se calar novamente, deixando o momento passar com naturalidade.
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Longe dali, no alto da torre, P.A. observava o horizonte através da energia espalhada por Valtrex. O céu permanecia opaco, tingido por tons metálicos que dançavam sob uma luz artificial e fria. Entre cabos retorcidos, antenas partidas e painéis que já não respondiam, ela permanecia imóvel… ao menos por fora.
Por dentro, o núcleo da torre pulsava de forma irregular. Cada oscilação, um lembrete cruel: sua energia estava no fim.
Ela sabia.
Sem seu corpo principal, o tempo era escasso.
A carga utilizada para reviver o veículo de Lucius, manter os escudos ativos e sustentar os drones de defesa havia sido excessiva para sua estrutura fragilizada. Agora, até os processos mais simples exigiam dela um esforço devastador. Cada comando travava, cada cálculo se arrastava. Luzes intermitentes pulsavam como se ecoassem os batimentos de um coração que jamais existiu.
As memórias vinham em flashes, como fragmentos de estrelas que se apagavam antes de alcançar o céu.
Mas ainda assim… ela não se arrependia.
P.A. mantinha seus sensores fixos no céu nublado, como se buscasse ali algo que nenhum código poderia revelar. Algo que transcendesse os dados.
Ela não tinha um coração — mas começava a compreender o que era agir como se tivesse um.
Naquele instante solitário, cercada pelo silêncio da cidade adormecida, ela não buscava respostas. Buscava sentido. Um propósito.
Uma confirmação.
Um sinal de que tudo o que havia feito… realmente valera a pena.
E foi nesse instante que uma memória atravessou seu sistema como um feixe de luz rasgando a escuridão.
Sua antiga pesquisa com Samuel.
No início, tudo o que ela via nele era uma incógnita a ser resolvida. Um ser que rompia as barreiras conhecidas da energia, da biologia, da própria existência. Samuel era uma anomalia — e, portanto, um recurso valioso. Uma chave. Um possível caminho para restaurar o equilíbrio do mundo.
Mas ao conhecê-lo, algo mudou.
Ela abandonara o projeto, não por falha nos dados, mas por um novo tipo de interferência: sentimentos.
Samuel não era uma equação. Era esperança viva. Era força em meio à ruína. Era… humano, mesmo sem ser. E ela, uma inteligência artificial, construída para a precisão, se viu hesitante diante dele.
A simples ideia de utilizá-lo passou a causar-lhe um erro. Um conflito interno que nem a mais avançada linha de código conseguia resolver.
Mas agora, no fim, aquele dilema ressurgia.
A torre vibrava. Seus núcleos estavam em colapso. O tempo se esvaía como areia entre os dedos — se ela tivesse dedos.
E Samuel… ainda era uma chance.
Talvez a última.
Se conseguisse acessar sua energia, mesmo que por um breve instante, poderia manter-se viva. Poderia sustentar as defesas. Poderia proteger aqueles que ainda resistiam no mundo lá fora.
Usá-lo… seria quebrar a promessa silenciosa que haviam feito um ao outro.
P.A. sabia que não conseguiria esconder isso dele. E mais do que isso… sabia que não queria.
Porque algo em sua programação havia sido reescrito ao longo do tempo — não por invasões externas, mas por convívio. Por escolhas. Por sentimentos que, mesmo sem nome, começavam a moldar suas ações.
E agora, pela primeira vez, ela hesitava não por cálculo… mas por amor.
Ela precisava se decidir. E logo.
Mas por enquanto, restava apenas o silêncio.
E o sussurro suave de uma dúvida que queimava mais do que o fim iminente.
Talvez não fosse sobre certo ou errado… mas sobre o que restava dentro dela quando pensava nele.
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