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A escuridão parecia respirar. Um sussurro suave, quase maternal, deslizou pelos ouvidos de Samuel, chamando por ele como uma lembrança distante. Lentamente, ele abriu os olhos. Não havia dor — apenas um silêncio inquietante e o cheiro familiar de musgo e terra. Estava deitado numa toca. A penumbra filtrava-se pelas paredes rochosas como se cada sombra estivesse viva, vigiando-o. Seus braços estavam enfaixados, e ao redor, o cenário era absurdamente... calmo demais.
Ele reconhecia aquele lugar. A toca do Alfa.
Mas algo estava errado. Muito errado.
Ao seu lado, um corpo quente respirava suavemente. Quando se virou, viu os olhos de Alex se abrirem. Eles brilharam com uma emoção pura — alívio, alegria... como se o mundo tivesse sido salvo naquele instante.
— Pai! — exclamou Alex, com a voz trêmula e carregada de emoção, abraçando Samuel com força. Havia tanta sinceridade naquele gesto que doía.
Em seguida, correu para fora, gritando:
— Ele acordou! Samuel acordou!
Alex...? Samuel pensou, confuso, como se a própria realidade tivesse engasgado.
Logo, o som de passos acelerados ecoou na caverna. Um após o outro, rostos familiares se amontoaram ao seu redor: o Alfa, Kuwabara, Lumaris, Sam, Anne. Todos sorrindo. Todos radiantes. Mas havia algo... nos olhos deles.
— Viemos o mais rápido que pudemos — disse Kuwabara, ofegante.
— Com a demora desses dois aí, nem parece que correram — brincou Lumaris, olhando para Sam e Anne.
— É, né? — Anne retrucou, rindo. — Mas quem disse que a gente precisava correr?
O Alfa se aproximou com um sorriso gentil.
— Parem com isso. Não é hora de discussões — disse ele com firmeza.
Anne e Lumaris silenciaram, e todos se viraram para Samuel, como marionetes respondendo a um mesmo fio invisível.
— E então? Como está se sentindo? — perguntou o Alfa.
Isso... é uma lembrança? pensou Samuel, o estômago afundando em um vazio familiar.
— Estávamos preocupados. Você se feriu muito... Mas conseguimos trazê-lo de volta — disse o Alfa, colocando uma pata em seu ombro.
Samuel afastou a pata do Alfa com estranheza.
— O que eu tô fazendo aqui?
No mesmo instante, todos congelaram.
Seus olhos viraram-se para ele ao mesmo tempo. A realidade piscou.
— Sabe, Samuel, foi incrível o que você fez contra os caçadores! — disse Sam, animado. — Mas por que nunca contou que tinha poderes?
— Eu já sabia! — disse Kuwabara, inflando o peito.
Sam respondeu com uma patada leve, rindo... mas a risada dele ecoava em reverberações distorcidas, como vidro sendo arranhado com ferro.
Samuel tentou se erguer. Mas não conseguia. Algo invisível o prendia.
Ele lutava. Seus músculos tremiam com o esforço, mas o mundo ao redor parecia dobrar-se contra sua vontade.
Lumaris se aproximou. Seus olhos estavam vítreos, sem brilho. Ela tocou o rosto de Samuel com ternura.
— Samuel... nada disso importa. Somos sua família. Você não precisa fugir...
Mas sua voz falhou. E seu rosto...
Distorceu.
O rosto dela se distorceu em algo que não deveria existir.
— E-e-ela está certa — disse o Alfa com a voz tremendo. — Aqui... somos todos uma família. E toda família... — ele se inclinou, o pescoço alongando-se como uma serpente — merece sofrer.
Samuel abriu a boca, mas o som que saiu foi um lamento sufocado, seguido de lágrimas. Mas não eram comuns. Eram vermelhas.
— Vocês não são minha família — disse ele por fim, a voz baixa, firme, mortal.
No mesmo instante, os corpos ao redor se contorceram. Suas bocas começaram a jorrar sangue. Suas peles rasgaram, mostrando o vazio por baixo. Apenas Alex permaneceu imóvel. Chocado. Apavorado. Ele via tudo.
E então... eles o abraçaram.
Todos de uma vez, como uma parede, envolvendo Samuel. Anne sussurrou em seu ouvido, com uma voz que não era dela:
— Sempre estaremos com você... Para sempre...
Samuel sentiu as garras da escuridão tentando enterrá-lo. Mas sua luz começou a pulsar. Seus punhos se fecharam, e o calor de sua esperança irradiou como brasas furiosas. Sua essência queimava aquelas aberrações.
Com um grito silencioso, ele se libertou.
O abraço se desfez em fumaça, membros caindo como cinzas.
Alex se aproximou, trêmulo, os passos hesitantes como os de um filhote assustado.
— O que eram aquelas coisas, pai? — perguntou, com a voz baixa, quebrada pelo medo.
Samuel não respondeu. Seu olhar permanecia perdido na escuridão adiante, imóvel como pedra.
— Papai...? Você tá bem? — insistiu o filhote, inclinando a cabeça de lado, daquele jeitinho que sempre fazia quando estava preocupado.
Samuel apertou os olhos. Aquela voz… tão familiar.
— Para com isso — murmurou ele, virando o rosto, como se fugisse de uma memória dolorosa.
— Eu tô com medo, pai... — a voz tremia, mas havia um carinho tão genuíno ali, que parecia impossível duvidar.
O filhote se aproximou mais, quase encostando o focinho em Samuel.
— Pai... eu te am...
As palavras foram cortadas abruptamente.
Samuel agarrou Alex pelo pescoço, levantando-o com brutalidade. O olhar do filhote se arregalou, confuso, como se não compreendesse.
— Pa... pai... dói... — murmurou, com a voz fraca, exatamente como o verdadeiro Alex teria dito.
Samuel tremia. As lágrimas escorriam sem controle, mas seu olhar era inquebrantável, de uma lucidez cruel.
— Você não é o Alex.
O pequeno corpo se debateu com espasmos curtos, como se ainda lutasse por alguma centelha de vida. Os olhos — os olhos que pareciam os de Alex — buscaram misericórdia em vão. Um som seco e falho escapou da garganta, seguido de um silêncio inquietante.
O corpo ficou imóvel, a cabeça tombada como se a vida tivesse se esvaído. As patas pendiam inertes. Por um instante, o silêncio foi absoluto. Samuel continuava segurando, o olhar fixo naquele semblante, e por um momento cruel… parecia real, mas Samuel sabia que não era verdade.
Mas então… a pele começou a rachar.
Lentamente, como se a ilusão estivesse se despedaçando, fissuras profundas surgiram por toda a superfície do corpo.
O focinho que antes tremia com doçura se distorceu. A pele parecia se contorcer sozinha, resistindo ao colapso da mentira.
Samuel continuava firme. A luz que emanava de seu corpo já não era mais serena — era pura chama sagrada. Implacável. Cada centelha dessa luz tocava a criatura como um julgamento inevitável.
E então, a coisa gritou.
— VOCÊ ME MATOU! — rugiu com uma voz impossível, feita de muitas. Não saía apenas da boca, mas do corpo inteiro, ressoando direto na mente.
O corpo se torcia, espremia, mudava de forma como um pesadelo líquido. Onde antes havia um rosto dócil, agora bocas rasgadas com fileiras de dentes girando como engrenagens. Tentava manter o rosto de Alex, mas este se desmanchava grotescamente, como cera derretida tentando se manter inteira.
Então, pegou fogo.
Chamas pálidas, sem som, envolveram a criatura. Não queimavam como fogo comum — era a própria essência da farsa sendo desfeita. A mentira morria diante da verdade absoluta de Samuel.
A carne virou fumaça. Os ossos evaporaram. E no fim… não restou nada.
Nem mesmo um grão de cinza.
Só o vazio. Silencioso. Imenso.
Samuel permaneceu ali, imóvel, respirando com calma, embora sentisse como se sua alma pesasse toneladas. O silêncio era opressor, e seus olhos permaneciam fixos na escuridão à frente, atentos. Ele sabia — aquela criatura não havia surgido por acaso. O ar estava denso, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Vozes começaram a sussurrar ao seu redor. Frases distorcidas, nomes esquecidos, gritos abafados por lágrimas invisíveis. E então, uma risada... baixa, distante, mas tão cortante quanto uma lâmina enferrujada atravessando a sanidade.
O ambiente começou a se desmanchar como papel queimado, se desfazendo em cinzas. As paredes da realidade tremiam. Do centro da escuridão, uma figura começou a emergir. Era feita de sombras puras, moldadas pelo ódio e pelo desespero. Os contornos se contorciam, como se o próprio vazio lutasse para manter sua forma. Olhos vermelhos surgiram no meio daquela massa negra, brilhando com malícia, como brasas no fundo de um poço sem fundo.
A voz da entidade ecoou, múltipla e fragmentada, como se mil bocas falassem ao mesmo tempo:
— Como foi... matar o seu próprio filho?
Samuel fechou os olhos por um breve momento, respirando fundo, mantendo-se firme.
— Eu nunca machucaria meu filho. — Sua voz saiu calma, mas carregada de firmeza. — Eu não vou cair nas suas mentiras.
A criatura gargalhou, e a risada se espalhou como um veneno por todo o espaço ao redor. As paredes do lugar começaram a chorar sombras, como se o próprio mundo estivesse apodrecendo.
A sombra ergueu a mão, e com um gesto quase preguiçoso, apontou para baixo. Uma força invisível tomou Samuel e o forçou a cair de joelhos.
— Logo... você se curvará diante de mim por vontade própria.
Os olhos de Samuel se apertaram. A raiva queimava como uma fornalha silenciosa em seu peito.
— Você envolveu minha família nisso....
— E você irá fazer o que?— A sombra se aproximou, flutuando, sem tocar o chão. — Você ainda acredita que existe justiça neste mundo esquecido?
O olhar de Samuel brilhou. Em um único movimento, ele avançou. Seu corpo cortou o ar com precisão, mirando direto no coração daquela aberração. Mas ao tocá-la, sua mão atravessou a sombra como se fosse feita de fumaça espessa.
Por um instante, ele segurou algo. Um brilho fraco, como uma centelha.
A sombra se desfez em redemoinhos de escuridão, rindo com uma maldade profunda, grave e sádica.
— Eu sei a sua fraqueza... — murmurou, antes de desaparecer na escuridão crescente.
Samuel abriu a mão lentamente.
Na palma, repousava um fragmento brilhante, pulsando de forma fraca, mas resistente — uma luz viva entrelaçada por pontos escuros, como se pequenas estrelas mortas flutuassem em sua superfície. Um contraste entre esperança e desespero. Vida e morte.
Ele o encarou em silêncio. Não sabia o que era, mas sentia. Aquilo não era só matéria. Era memória. Era dor. Era parte de algo muito maior.
O fragmento estremeceu em sua mão.
E então, uma única palavra ecoou dentro de sua mente, rompendo o vazio ao seu redor como um raio em céu calmo. A voz era suave, mas carregava um peso que fez seu coração parar por um instante.
— Acorde, pai... — disse a voz, serena como o vento, quente como um lar que ele achava ter esquecido para sempre.
O tempo congelou.
Samuel sentiu um calor profundo brotar do centro do peito, subindo como um sopro de vida antiga. A luz em sua mão brilhou com força, explodindo em rajadas silenciosas que começaram a rachar a realidade ao seu redor.
O chão se partia em fragmentos de vidro. Tudo ruía — memórias, formas, sombras — tragadas por um vazio absoluto, onde nem mesmo a dor existia. Apenas o silêncio. Um silêncio ancestral, opressor.
Mas, no último segundo… algo rompeu esse abismo.
Um latido.
Forte. Determinado.
Alex.
Dessa vez, Samuel sentia que era realmente o seu filho.
O som rasgou a escuridão como uma lâmina de luz, e Samuel sentiu o chamado.
Foi esse som — pequeno, mas inabalável — que rompeu o véu entre sonho e realidade.
Seus olhos se abriram com lentidão.
O mundo ainda estava escuro, mas agora fazia sentido. O frio da sala, o zumbido dos monitores, o ar pesado ao seu redor.. Ele voltou.
Samuel se sentou na maca, os músculos ainda pesados, o corpo clamando por descanso… mas a alma, desperta. Um brilho úmido marcava seu rosto — lágrimas haviam escorrido enquanto dormia, silenciosas, invisíveis até mesmo para ele.
Seus olhos se moveram de forma instintiva, como se buscassem algo vital. Alex. Mas o lobo não estava ali.
E então ele se lembrou.
Um vazio apertou seu peito, não pela ausência, mas pela distância. Alex estava longe… mas nunca fora realmente embora.
Samuel passou a mão pelo rosto, respirando fundo. Seu peito ainda doía, mas algo dentro dele já não era o mesmo.
— Alex… — murmurou, com a voz embargada, quase como um sussurro perdido no ar.
Ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o nada. O eco da voz que ouvira ainda vibrava dentro dele. Não era um sonho. Era um aviso. Um chamado.
— Ele sabe… — disse, num tom grave. — Sabe do meu medo. Do meu arrependimento… Vai usar isso contra mim. Contra tudo o que eu ainda amo.
E então, sentiu algo em sua mão.
Olhou para ela.
O fragmento ainda estava lá, imóvel, pulsando fracamente. Mas a luz que antes iluminava sua superfície agora parecia apagada. Estava acinzentado, envolto em sombras tênues que tremulavam como fumaça prestes a se dissipar. Era instável… mas ainda vivo.
Samuel o observou por longos segundos, em silêncio absoluto. E naquele silêncio, compreendeu.
— Mas o que significa isso?
Fechou a mão devagar, sentindo o peso do fragmento não em seu corpo, mas em sua história. Aquilo não era apenas uma centelha de luz — era a lembrança de algo perdido, a essência daquilo que se recusa a desaparecer.
Era esperança. Mas não uma esperança comum.
— Uma esperança esquecida... — sussurrou. — Que singular... Uma luz apagada que ainda insistia em existir, esperando ser lembrada.
Samuel ergueu os olhos, e uma certeza nasceu em seu olhar. A lembrança de Alex... não foi apenas um eco. Foi a faísca. A memória que reacendeu o impossível.
— Então foi ela… a lembrança dele… que a trouxe de volta.
Com calma, estendeu a mão aberta.
A luz dentro do fragmento estremeceu.
E então, como se finalmente compreendida, a escuridão ao redor do fragmento se desfez, girando em espirais suaves, até desaparecer completamente. A pequena esfera brilhou, por um instante, com uma pureza rara — clara, leve, verdadeira.
E então… se desfez no ar, livre.
A esperança esquecida havia sido libertada.
Samuel permaneceu ali, em silêncio. Mas dentro de si, algo se acendeu. Uma nova chama.
Ele sabia o que tinha que fazer.
E dessa vez... não teria mais espaço para o esquecimento.
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