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O Herói Dos Esquecidos: O Eclipse do Futuro
34 |💫| O Peso da Luz
3437 palavras • 20304 caracteres • ⏱ 13 min 45 s

34 |💫| O Peso da Luz

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O carro avançava com dificuldade, acelerando ao máximo que conseguia, mas sua energia estava quase no fim. O motor emitia estalos e rangidos, prestes a ceder. Valtrex surgia à frente, cada vez mais próxima, como a última esperança diante do caos.


— Não dá pra essa coisa andar mais rápido, não?! — esbravejou Lucius, com os olhos fixos na estrada e o coração acelerado.


— O motor está sobrecarregado. O carro está no limite, Lucius... não há como forçar mais do que isso. — informou P.A., com sua voz firme, mas marcada por uma nota de preocupação.


P.A. desviou o olhar rapidamente para o banco ao lado. Samuel estava inconsciente, com o tórax cheio de sangue.


Lucius franziu o cenho e, sem hesitar, rasgou parte da própria manga. Pressionou o tecido contra o ferimento de Samuel, improvisando uma bandagem para conter o sangramento.


— Ele está muito fraco. Perdeu bastante sangue. Parece que usou uma quantidade absurda de energia... talvez mais do que deveria. — comentou P.A., após uma breve análise.


— E você acha que eu não percebi?! — rebateu Lucius, frustrado, cerrando os punhos no volante. — Droga!


— Calma, Lucius... — tentou apaziguar P.A., mantendo o tom sereno.


— Ele se feriu desse jeito pra salvar a gente! E você quer que eu simplesmente fique calmo?! Ele tá morrendo!


A voz de Lucius reverberou dentro do carro como um trovão, carregado de desespero, frustração e medo. O silêncio que se seguiu foi denso, pesado como o ar antes de uma tempestade.


Sylas, no banco de trás, encolheu-se instintivamente. Seus olhos estavam arregalados, fixos em Samuel, e sua respiração curta denunciava o susto. O jovem tigre parecia menor, vulnerável diante da dor que tomava conta do ambiente.


Lucius, ao notar o estado de Sylas, sentiu uma pontada no peito. Seu olhar suavizou, e ele estendeu a mão para tocar de leve a cabeça do companheiro felino.


— Tá tudo bem, garoto... me desculpa. — murmurou, tentando acalmá-lo. — Eu me exaltei, não queria assustar você.


Sylas encostou o focinho em sua mão, ainda hesitante, mas aceitando o gesto. Lucius suspirou profundamente, passando a mão pelo rosto coberto de suor e tensão. O som do motor agonizante era a única coisa que quebrava o silêncio agora.


Minutos depois, Valtrex surgiu à frente, imponente. O solo metálico pulsava sob o carro, reagindo à aproximação como se tivesse consciência própria. A cidade se moldava à presença deles — estruturas erguiam-se com fluidez orgânica, e a entrada se abria sozinha.


Cápsulas metálicas flutuavam ao redor, emitindo feixes de luz que os escaneavam em silêncio. Uma neblina densa cobria o chão entre as construções translúcidas.


O carro parou abruptamente, seus sistemas quase exauridos após a longa jornada. Lucius, sem perder tempo, abriu a porta com pressa. Ele retirou o pequeno drone da P.A. e Sylas do banco de trás, antes de se mover para Drax e Samuel.


Com uma força impressionante, Lucius pegou os dois, um em cada ombro. Drax ainda tinha o peso bruto de sempre, mas Samuel... estava leve demais. Como se a energia que o mantinha forte tivesse se esvaído por completo. Lucius sentiu um arrepio subir pela nuca, mas não disse nada. Apenas firmou os passos, carregando ambos com facilidade, embora soubesse que aquele leveza tinha um custo alto demais.


Antes que ele pudesse avançar, um sistema de segurança se ativou. Luzes verdes começaram a pulsar ao longo das paredes e do chão, quase como se o próprio ambiente estivesse analisando-os. O ar parecia denso, como se a entrada estivesse sendo permitida, mas a cidade não estivesse completamente disposta a recebê-los ainda.


De repente, uma voz fria e impessoal ressoou pelos sensores biotecnológicos:


— Identificação confirmada. Lucius Arkwright, cofundador autorizado. Entrada liberada.


Lucius parou, confuso. A resposta automática ecoou com um tom mecânico, mas a presença de P.A., por trás disso tudo, era evidente.


— Cofundador? — Ele questionou, com uma ponta de curiosidade e sarcasmo.


— Claro. Nada disso iria existir se não fosse você. — Respondeu P.A., sua voz suave, quase afetiva.


Lucius soltou uma risada breve, aliviando a tensão no ar.


— Sua voz é tão suave quando não é programada, sabia? — Ele disse, com um sorriso irônico. — É menos... irritante.


P.A. deu uma breve risada, um momento raro que parecia romper a barreira entre máquina e ser humano.


— Não achei graça. Agora ande. — A voz de P.A. soou, ainda séria, mas com um toque sutil de diversão.


Lucius não disse mais nada e, sem perder tempo, começou a caminhar em direção à entrada da cidade. O grupo o seguiu, a névoa que os cercava se dissipando enquanto eles se aproximavam da estrutura viva de Valtrex. As portas automáticas se abriram suavemente, guiadas por sistemas biotecnológicos que permitiram a passagem sem qualquer resistência.


A entrada de Valtrex, com seus corredores de metal e vidro que se estendiam à frente, parecia convidá-los a entrar, como se o próprio lugar aguardasse por eles. O som dos passos de Lucius ecoou, e por um breve instante, tudo parecia mais calmo, como se a cidade estivesse apenas esperando o momento certo para revelar seus segredos.


Ao cruzar os portões principais de Valtrex, Lucius sentiu um peso antigo se instalar em seus ombros. Não era medo — era memória.


A cidade diante dele já não era a mesma que ele havia deixado para trás anos atrás. Antes, era uma zona neutra, silenciosa e fragmentada, onde poucos ainda se agarravam à vida. Agora… agora pulsava como uma entidade viva.


Luzes vibrantes cobriam os arranha-céus que rasgavam os céus em linhas agressivas e dinâmicas. Estruturas inteiras pareciam levitar acima das avenidas repletas de energia e movimento.


Lucius parou no topo da escadaria que dava vista à avenida central. Seu olhar percorreu cada detalhe com a intensidade de quem procurava algo que talvez não existisse mais. A cidade havia se reinventado. Sobrevivido. Evoluído.


Mas, mesmo admirando o progresso, havia algo naquela perfeição iluminada que incomodava suas entranhas. Um ruído baixo e persistente que só ele parecia ouvir, escondido sob os sons da cidade. Nada específico — apenas um leve arrepio na nuca, um impulso involuntário de manter os ombros tensos. Como se seus instintos soubessem o que sua mente tentava ignorar.


— Eu lembro disso… — murmurou, quase sem perceber. — Mas não assim.


P.A. olhou para ele de lado pelo drone, sem dizer nada.


E por mais que a tecnologia estivesse por todos os lados, não era isso que prendia a atenção de Lucius — e sim o fato de que, contra todas as expectativas, eles tinham conseguido. Tinham vencido o tempo, o esquecimento e a ruína.


Ele apertou o passo, mantendo os olhos nos prédios que agora brilhavam com orgulho, como se evitasse encarar muito de perto o que tomava conta das ruas. Cada canto era um lembrete silencioso de que ele havia ficado para trás.


— Muita coisa mudou, Lucius — disse P.A., com a voz baixa, quase humana, como se também respeitasse o momento.


— Mudaram… mais do que eu achei que conseguiriam — respondeu ele, com um leve tom de surpresa. Não era admiração. Era mais… respeito. E talvez, uma dor antiga que preferia não nomear.


Então sentiu algo quente escorrer pelo ombro. Sangue.


Lucius fechou o punho com força. Tinha que se apressar.


Desceu os degraus com o maxilar travado, os músculos tensionados como cordas prestes a se romper. Seus olhos não desviavam da avenida à frente. A cada passo, o peso aumentava. Samuel, em seus braços, permanecia inconsciente, a respiração frágil e irregular como se cada fôlego fosse uma batalha silenciosa.


Lucius mal sentia o próprio cansaço. O sangue escurecia sua roupa, pingando do cotovelo em um ritmo silencioso, constante, quase simbólico. Carregava no corpo o peso de uma batalha que ele ainda não havia digerido. E no coração, o medo de perder o pouco que restava.


— Onde fica o centro médico mais próximo? — perguntou entre os dentes, a voz rouca de urgência. Ele não parou de andar.


— Há uma instalação aqui perto. É só me seguir — respondeu P.A., flutuando à frente com velocidade, seu brilho suave iluminando discretamente o caminho.


Ele assentiu sem responder. Não queria escâneres. Não queria máquinas o observando, nem drones oferecendo ajuda automatizada. Queria silêncio. Pressa. E mãos humanas.


Caminhou pela avenida como uma sombra decidida, indiferente aos olhares curiosos que surgiam entre os painéis transparentes e as janelas suspensas. O desconforto crescia com cada drone que zumbia sobre sua cabeça, com cada propaganda flutuante que piscava na sua direção. Luzes, sons, comandos digitais — um mundo que falava alto demais quando o que ele precisava era paz.


Mas agora, isso era o de menos.


Ele precisava salvá-los. E não havia tempo para lembranças.


Quando finalmente alcançaram o centro médico, as portas se abriram com um zumbido suave. O ar lá dentro era estéril e levemente frio. Lucius entrou com os dois corpos desacordados nos braços, o olhar firme apesar do sangue, da exaustão, da alma em pedaços.


Dois sentinelas vieram ao encontro deles, idênticos. Uniformes impecáveis, posturas rígidas. Ambos levantaram uma das mãos em gesto de bloqueio, mecânico e impessoal.


— Eles estão sangrando, precisam de ajuda! — disse Lucius com urgência, sem parar de andar.


— Ei, ei! É proibida a entrada de tigres aqui... e drones também — disse um dos sentinelas, apontando para Sylas e para o drone de P.A., com uma voz neutra.


Lucius parou, mas não por hesitação. Parou porque sua raiva exigia que ele olhasse nos olhos de quem ousava impedi-lo.


Primeiro olhou para Sylas, quieto. Depois para o drone de P.A., que tremeluzia em silêncio, sem saber se deveria responder. Então voltou o olhar para os sentinelas — e naquele instante, seus olhos queimavam com a fúria de quem já viu o mundo acabar. De quem já perdeu demais.


— Você só pode estar de brincadeira… Qual parte do “eles estão sangrando” você não entendeu?!


— Senhor, precisamos que coopere. — respondeu o outro sentinela, como se fosse incapaz de compreender a urgência real dele.


— Não me mande ficar calmo! — rosnou Lucius, e o som da sua voz preencheu o saguão como uma explosão abafada. Por um instante, até o ar pareceu se calar.


Foi então que uma figura surgiu no fim do corredor. Uma mulher de jaleco branco, caminhando com pressa, os passos ecoando como marteladas no chão metálico. Em mãos, uma prancheta de dados tremia levemente, incapaz de acompanhar o ritmo acelerado do seu coração.


— Está tudo bem aqui? — perguntou a doutora Lira, com a voz firme e os olhos atentos.


Lucius virou o rosto. Seus olhos encontraram os dela. E por um instante, o tempo parou.


Havia algo além de reconhecimento naquele olhar. Havia uma curiosidade que doía, como se algo antigo tivesse sido reconhecido ali. Como se, mesmo sem se conhecerem, algo dentro deles soubesse... que estavam completos ali, diante um do outro.


Ambos hesitaram. Um segundo. Apenas um segundo.


Mas naquele segundo, um sentimento sutil, silencioso, floresceu.


Não era paixão. Como a brisa antes da tempestade — um pressentimento. Algo leve, mas profundo o suficiente para fazê-los prender a respiração.


Lira desviou o olhar, o coração acelerando. Sentiu o peito apertar com uma sensação estranha, como se estivesse sendo puxada para mais perto dele sem entender o motivo. Seus olhos então se arregalaram ao reconhecer os corpos nos braços de Lucius.


— Drax...? Samuel...? — sussurrou, incrédula, como se o mundo à sua volta tivesse parado.


O nome saiu de seus lábios com a delicadeza de uma prece.


Lucius continuou a encará-la por mais um instante. Não sabia quem ela era. Mas havia algo no jeito que ela falou... algo que o fez confiar. Mesmo sem querer. Mesmo sem entender.


— A senhora os conhece, doutora Lira? — perguntou um dos sentinelas, quebrando o silêncio que se formara como um véu entre os dois.


Ela respirou fundo e endireitou a postura, o olhar voltando a brilhar com urgência.


— Sim, eu conheço! — disse com firmeza, retomando o controle. — Agora saiam da frente! Eles estão muito feridos! Sala de emergência dois, agora!


— Sim, senhora! — responderam os sentinelas em uníssono, recuando rapidamente.


Lira correu até Lucius, parando diante dele. Olhou os corpos feridos, mas quando ela ergueu o olhar de volta para Lucius, hesitou por um breve instante.


Foi só um segundo… mas naquele segundo, parecia que ela não queria desviar os olhos dele de novo. Como se quisesse garantir que ele ainda estava ali.


— Venha comigo — disse, com firmeza, enquanto tocava de leve o braço dele. — Eu vou cuidar deles.


Lucius não respondeu. Mas algo dentro dele se moveu. Os ombros, antes tensos como rochas, relaxaram apenas o suficiente para denunciar o alívio. Era quase imperceptível. Quase. Como se uma pequena parte dele, tão acostumada à dor e ao medo, tivesse encontrado um breve refúgio naquele gesto.


E então ele a seguiu. Silencioso.


--- 💫 ---


O tempo parecia se arrastar.


Lucius permaneceu imóvel durante todo o procedimento, em pé no canto da sala, como uma estátua feita de dor e silêncio. Seus olhos estavam fixos nela, sem desviar por um único segundo. Observava cada gesto, cada toque de Lira, como se temesse que, ao piscar, tudo aquilo se desfizesse como uma miragem.


Desde que a operação começou, Lucius foi claro em seu único pedido: nada de robôs. Ele queria mãos humanas cuidando deles. Disse isso com uma firmeza que não permitia debate. Havia algo de frio demais na precisão programada das máquinas. Ele precisava de calor — precisava de presença. E, mais do que tudo, precisava confiar.


Lira se movia com precisão e calma, mesmo que a preocupação pesasse visivelmente em seu semblante. Os olhos revelavam a gravidade do que via, mas suas mãos seguiam firmes, cuidadosas, humanas. Ela estava acostumada à dor — à sua presença constante — mas jamais havia se tornado insensível a ela. Cada toque era uma promessa silenciosa de que faria o possível para salvar quem estivesse diante dela.


Samuel e Drax já estavam estabilizados sobre as macas. As luzes dos monitores pulsavam em tons suaves, refletindo no olhar vazio de Lucius. Mas ele mal piscava. Apenas observava. Como se, naquele momento, tudo o que restava dele estivesse nos gestos de Lira. Como se seu mundo inteiro estivesse ali, entre uma respiração e outra.


— Estão fora de risco — disse ela, por fim, em tom suave, quase hesitante. — Só precisam descansar agora.


Lucius não se moveu. Mas havia algo em seu olhar... um tipo de gratidão silenciosa que ele não conseguia colocar em palavras. Ficou ao lado dos dois, quieto, com os ombros ainda tensos.


Lira se aproximou com delicadeza e parou ao seu lado. Sua presença era tranquila, e havia uma ternura quase imperceptível em sua voz.


— Você pode ficar, se quiser. Eles vão sentir que não estão sozinhos.


Lucius assentiu, os olhos voltados para Samuel. Sua expressão era indecifrável, mas algo ali parecia ceder um pouco — como uma muralha trincando.


— Você parece se preocupar bastante com ele — disse ela, sem saber ao certo se estava sendo invasiva. Seus dedos mexeram-se nervosamente com o canto do avental, numa tentativa de disfarçar o leve rubor que começava a subir pelo rosto.


Lucius permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse ponderando se deveria responder. Por fim, apenas assentiu mais uma vez. Seu olhar, no entanto, deixou Samuel por um breve instante e encontrou os olhos dela.


— Se precisar de qualquer coisa… é só me chamar — acrescentou Lira, um pouco mais suave. Ela deu um pequeno sorriso e se virou para sair da sala.


— Espere — chamou ele, a voz saindo mais baixa do que o pretendido.


Ela se virou, um pouco surpresa com a iniciativa. Por um momento, os dois se encararam. Havia uma tensão sutil no ar, algo indefinido — não desconfortável, mas também não familiar.


— Obrigado por ajudá-los... — disse ele, a voz carregada de sinceridade, mas também de algo mais difícil de nomear.


— Não precisa me agradecer — respondeu ela, com um sorriso gentil. — É o meu trabalho.


Houve um breve silêncio entre os dois. Ele parecia querer dizer algo mais, mas hesitava, como se lutasse contra a própria natureza reservada.


— Eu me chamo Lucius — disse por fim, desviando o olhar por um segundo, quase envergonhado. — Desculpe pela confusão mais cedo... não era minha intenção parecer... ameaçador.


Lira assentiu com um sorriso leve, e dessa vez foi ela quem desviou os olhos, como se não soubesse exatamente o que dizer.


— Prazer, Lucius. Está tudo bem... Aqueles sentinelas não sabem muito bem o que fazem. São novatos. — Ela fez uma pausa, lançando um olhar sutil para a maca onde Drax repousava. — Os meus sumiram. Ou melhor... um deles.


Lucius acompanhou seu olhar.


— Ele é um dos seus sentinelas?


— Sim — respondeu ela, com um tom mais suave. — Ele e o irmão, Koran. Trabalhavam comigo todos os dias. Mas ontem... desapareceram.


— Desapareceram? Como assim?


Lira hesitou por um instante, como se pesasse as palavras.


— Isso... Mas acredito que não posso contar mais sobre isso. Desculpa.


De repente, uma voz ecoou pela sala, clara e serena, como se surgisse do próprio ar.


— Pode sim.


Lira arregalou levemente os olhos e olhou em volta, surpresa.


— Senhora P.A.? — perguntou, instintivamente, endireitando a postura.


O pequeno drone da P.A. emergiu e flutuou até eles, emitindo um brilho esverdeado suave.


— Você pode contar para ele, Lira. Ele está comigo agora — declarou P.A., sua voz ressoando com uma autoridade serena, quase maternal.


Lira hesitou por um breve instante, surpreendida com a permissão direta. Ainda assim, assentiu com leveza, respirou fundo e voltou seu olhar para Lucius.


— Se você permite, Senhora P.A.... Ontem, recebi um paciente bastante incomum. Ele não falava nosso idioma, não reagia aos protocolos padrões. Havia algo diferente no modo como ele... existia. Como se não pertencesse exatamente a este lugar, ou a nenhum outro.


Lucius inclinou levemente a cabeça, interessado. Havia um brilho atento em seus olhos, mas ele não interrompeu.


— Tentei me comunicar com ele por sinais e gestos, e aos poucos fui entendendo um pouco mais sobre quem era. Seu nome... é Samuel.


Ao ouvir o nome, Lucius manteve a expressão neutra, mas seus olhos traíram a calma — um reconhecimento silencioso.


— Ele era diferente dos outros. Muito diferente. Suas respostas, seus sinais vitais... tudo fugia dos padrões. Após algumas análises, só consegui chegar a uma conclusão: ele era uma anomalia. Não no sentido médico... mas existencial. Algo que não víamos há muito tempo. Talvez nunca.


Ela fez uma pausa, olhando para o drone de P.A., como se buscasse confirmar que ainda podia continuar. Quando recebeu o sutil sinal de luz azul piscando, prosseguiu:


— Por isso, ordenei que meus sentinelas — Drax e Koran — o levassem até a Senhora P.A. Era o procedimento mais seguro. Mas... eles não voltaram.


Lira se virou levemente, fitando Drax inconsciente com um olhar carregado de culpa e preocupação.


Lucius se aproximou das macas, fixando o olhar em Samuel. Sua respiração estava estável, o rosto sereno, mas havia uma força contida em sua presença, como se, mesmo inconsciente, ele emanasse algo maior do que qualquer um ali conseguia entender.


— Você sabe o que aconteceu com Drax para ele estar assim? — perguntou Lira, sua voz agora mais baixa.


Lucius balançou a cabeça devagar.


— Não. Mas se não fosse por Samuel... ele não estaria aqui. Nem eu. — Seus olhos se mantinham fixos no rosto do rapaz. 


Lira permaneceu em silêncio, absorvendo o peso das palavras de Lucius.


Lucius continuou observando Samuel, o homem de expressão calma, mas marcada por cicatrizes invisíveis. Havia algo naquele rosto sereno... uma história ainda não contada.


Ele se perguntava o que se passava na mente dele. Que tipo de memórias se escondiam por trás daquele olhar fechado? Que sombras ele havia enfrentado para chegar ali? E por que, mesmo sem dizer uma única palavra, parecia carregar nas costas o peso de um mundo inteiro?


Lucius apertou os punhos discretamente, como se tentando conter a inquietação que começava a se formar em seu peito.


— Seu corpo está tão leve... — murmurou ele em voz baixa, apenas para si — ...espero que ainda reste algo de você quando acordar.


E então, virou-se devagar, deixando a luz das máquinas repousar sobre Samuel, como um véu silencioso. 

Porque ele sabia: quando aquele jovem despertasse, algo iria mudar.


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