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Koran apertava os dentes, os braços trêmulos de esforço enquanto forçava as correntes que o prendiam. A respiração vinha pesada, e os olhos, cravados no metal enferrujado, pareciam implorar por liberdade.
— Vamos... por favor... — murmurava quase sem voz, como se suplicasse não apenas às correntes, mas ao próprio destino.
O som de metal rangendo preenchia o silêncio ao redor. A estrutura corroída, velha e esquecida como ele, começou a ceder. Um estalo seco ecoou pelo cômodo, e então as correntes se partiram com violência.
Koran caiu de joelhos, ofegante, o peito subindo e descendo rapidamente. Por um instante, permaneceu ali, encarando o chão como se não acreditasse no que acabara de acontecer. Mas não havia tempo para hesitar.
Ele se levantou com dificuldade, os membros ainda dormentes, e olhou ao redor com pressa.
— Tenho que me esconder... antes que me encontrem.
Seus olhos pousaram na janela quebrada à frente, por onde Drax havia sido arremessado. A luz do dia filtrava-se pelas bordas estilhaçadas, revelando algo caído no chão: um pequeno pingente, metálico, levemente amassado.
Koran se aproximou e o pegou com cuidado. Era familiar.
— Drax...
Seus dedos fecharam-se sobre o objeto, apertando-o como se, de alguma forma, aquilo pudesse trazê-lo de volta.
Antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, o som abafado de passos surgiu do corredor — firmes, apressados, se aproximando.
Koran arregalou os olhos. O pingente ainda em sua mão tremia junto aos seus dedos. Sem perder tempo, correu até a janela quebrada e se pendurou no parapeito de pedra, sentindo o vento frio cortar sua pele.
— Não olha pra baixo... não olha pra baixo... — murmurou para si mesmo, lutando contra o pânico que ameaçava subir pela garganta.
O vazio logo abaixo o lembrava de quão frágil era sua posição. Ele se manteve imóvel por um segundo, pressionando o corpo contra a parede externa do prédio. Ouviu os passos entrarem na sala — uma batida rápida, depois silêncio. Estavam olhando. Procurando. Mas não o viram.
O tempo pareceu parar até que os passos se afastaram. Koran soltou um longo suspiro, sentindo as pernas tremerem. Ainda pendurado, olhou para o lado. Mais abaixo e um pouco à direita, viu uma abertura estreita na estrutura do edifício — uma espécie de alçapão lateral, como uma entrada de manutenção abandonada.
Era sua chance.
Apoiando os pés nas rebarbas de concreto, ele começou a se mover lateralmente. Cada avanço era milimétrico, e a parede irregular ameaçava traí-lo a cada segundo. Quando estava a poucos centímetros da entrada, um pedaço da borda em que se apoiava cedeu sob seu peso.
Seu corpo escorregou com violência, os braços se lançaram instintivamente para agarrar a parede. Seus dedos se prenderam na beirada enferrujada da abertura — por pouco.
O coração batia tão alto que ele mal ouvia os próprios pensamentos. Com um último esforço, puxou o corpo para cima, engatando os pés no buraco escuro. Sem fazer barulho, deslizou para dentro e rolou até o canto mais escuro do lugar.
Ali, ofegante e suado, encostou-se à parede fria. Estava seguro… por enquanto.
Ainda com a mão no pingente, Koran fechou os olhos por um momento. As correntes haviam se rompido, mas algo dentro dele continuava preso. A dor, o medo e a culpa — correntes invisíveis que pesavam mais que qualquer metal.
— Por que eu fui tão idiota…?
A respiração tremia. A mão apertava o pingente com força, como se quisesse sentir, de alguma forma, a presença de Drax ali com ele.
— Agora eu nem sei se você está vivo...
Suas palavras saíram num sussurro fraco, quase engolidas pela escuridão do lugar. Koran se deixou cair no chão, a tristeza o envolvendo por completo. Sentou-se, trazendo os joelhos ao peito, e apoiou a cabeça neles, como se buscasse se esconder do mundo.
— O que é que eu vou fazer sem você comigo...? — sua voz partiu-se no ar, trêmula, quase chorando.
Um silêncio profundo tomou conta do ambiente. Apenas o som distante do vento e o leve tremor da respiração de Koran preenchiam o espaço vazio, como se o mundo inteiro tivesse parado com ele. A dor em seu peito era um peso invisível, esmagador.
As sombras ao seu redor pareciam se aproximar, querendo tragá-lo de vez. Mas então... algo surgiu. Uma lembrança. Fraca no início, como uma fagulha esquecida, até ganhar força dentro de sua mente.
Era Drax.
Ele o via ali, nítido como se estivesse diante dele novamente. De pé, com os braços cruzados, encarando-o com aquele olhar firme, impaciente, mas carregado de um cuidado silencioso que só os mais próximos podiam notar. Koran sempre soube — mesmo sem que Drax dissesse — que ele se importava.
— Levanta logo, Koran! — dizia o irmão, bufando como sempre fazia quando se preocupava. — Para de agir como um fracote... Você não vai durar um segundo nesse mundo se continuar assim.
Na época, aquelas palavras haviam doído. Mas agora, soavam como um abrigo. Uma promessa. Um escudo contra a fraqueza. Eram as palavras que ele mais precisava ouvir naquele momento.
— Você tem que mostrar pros outros que não é só um covarde com medo — continuava Drax, com a voz mais firme. — Mostra que é forte. Mais forte do que aqueles idiotas que te derrubaram.
Koran via a si mesmo naquela lembrança, encolhido, os olhos marejados... mas mesmo assim, tentando parecer forte. E então, Drax estendia a mão para ele. Não com frieza, mas com firmeza. Com fé.
— Vem... eu tô aqui. Você não tá sozinho.
Mesmo com lágrimas nos olhos, Koran, naquela lembrança, segurava a mão de Drax. Um gesto simples, mas que carregava tudo o que ele precisava naquele momento: força, confiança, companheirismo. No presente, ainda ajoelhado no chão frio e empoeirado, Koran apertava o pingente entre os dedos com força. Quase podia sentir novamente o calor daquela mão que o levantou tantas vezes.
— Eu não tô sozinho... — murmurou, como se a própria voz de Drax estivesse ali com ele, sussurrando através da memória.
Ele enxugou o rosto com as costas da mão e, em seguida, se levantou. Os ombros, antes curvados pela culpa e pela dor, agora se endireitavam. Seus olhos ainda traziam a marca do sofrimento, mas havia neles uma centelha diferente: determinação. A coragem nascia do vazio deixado por alguém importante — e se tornava combustível.
— Eu vou sair daqui.
Com passos leves, começou a caminhar pelo lugar, atento a cada som, a cada sombra. O corredor era estreito, com paredes de concreto marcadas por rachaduras e grafites malfeitos. Lâmpadas pendiam do teto em fios tortos, algumas acesas, outras piscando com falhas irritantes. Havia caixas e caixotes empilhados nos cantos, com mantimentos e equipamentos velhos, indicando que o local ainda era usado — mas sem qualquer organização ou cuidado.
Passou por uma porta semiaberta e espiou para dentro. Era uma pequena sala com móveis improvisados, colchões rasgados jogados no chão, mapas rabiscados nas paredes e ferramentas espalhadas em mesas enferrujadas. Um rádio desligado repousava sobre uma caixa metálica, e o cheiro de óleo e suor era forte no ar.
Tudo indicava que aquele era um esconderijo de ladrões — ativo, mas decadente, como se o caos fosse parte da rotina.
Ele continuou andando, com o coração acelerado e os sentidos atentos.
— Esse lugar é bem diferente de Valtrex... — murmurou para si mesmo, olhando ao redor. — O Drax parecia conhecer isso aqui muito bem... mas como?
Sua mente girava em busca de respostas, mas as perguntas se acumulavam. Era como se Drax tivesse vivido uma parte da vida que ele nunca conheceu, escondida em corredores como aquele.
De repente, um som. Uma voz.
Fraca, quase abafada... mas conhecida.
Koran parou imediatamente, prendendo a respiração. Seus olhos varreram os arredores até identificar de onde vinha. A passos lentos, ele seguiu o som, guiado por aquele tom familiar que fazia seu coração acelerar. Virando um corredor estreito, ele espiou por trás de uma parede quebrada — e então, viu.
Koran sentiu um calafrio percorrer sua espinha assim que a silhueta à frente surgiu no fim do corredor. Era como se o mundo tivesse ficado em silêncio, como se todo o ar ao redor tivesse sido sugado para outro plano. A dor, o medo, até mesmo o eco das lembranças... tudo se apagava diante daquela presença.
Seus olhos se arregalaram. Ele congelou.
Não sabia se estava sonhando, se era uma ilusão criada pela exaustão ou uma armadilha que brincava com sua mente. Mas o que via era inegável: Soffy.
Koran cambaleou para o lado e se escorou contra a parede úmida, o coração batendo tão forte que parecia querer escapar pela garganta.
— O que ela tá fazendo aqui...? — murmurou, com a voz trêmula, enquanto o suor frio descia por sua nuca. — Será que ela sabe que eu tô aqui...?
Mas Soffy não se moveu. Apenas começou a falar, de forma repentina e mecânica, como se tivesse sido ativada por algum comando invisível. O tom doce e ingênuo de antes desaparecera. Em seu lugar, havia uma voz apática, vazia, quase cerimonial.
— Sim, Senhora.
Koran prendeu a respiração. Seus olhos percorriam os arredores, mas não havia mais ninguém. Nenhuma figura à vista, nenhuma sombra além da dela. Sozinha... falando com o nada.
Então, uma segunda voz emergiu do ar, como se surgisse de todas as direções ao mesmo tempo. Feminina, suave, mas com um tom robótico tão gélido e desprovido de alma que fez os pelos de Koran arrepiarem.
— Você está atrasada, Soffy.
Aquelas palavras não eram apenas ordens. Havia nelas um peso antigo, quase maternal. Um controle absoluto.
— Isso não vai acontecer novamente, madrinha. — respondeu Soffy, com uma reverência no tom, como uma filha obediente diante da figura que temia.
Koran sentiu o chão se distorcer sob seus pés.
— Madrinha...? — sussurrou, mal acreditando no que ouvia.
As duas continuavam conversando como se estivessem isoladas do mundo. Ou como se o mundo real já não importasse mais.
— Me diga se você a encontrou.
— Sim, madrinha. Sua última posição foi registrada nesta cidade... Mas a localização exata da fonte ainda é incerta.
— Insuficiente. — retrucou a voz da madrinha, firme como ferro. — Encontre-a logo. Nós precisamos disso o quanto antes.
Koran prendeu o fôlego. “Fonte?” Do que elas estavam falando? O que poderia ser tão importante para atrair esse tipo de criatura até ali?
A conversa continuava, cada palavra mais pesada que a anterior.
— Se conseguirmos capturar essa fonte, irmã V.E.R.A. ficará plenamente satisfeita com o seu trabalho.
— Eu sei, madrinha. Não será difícil encontrá-la.
— Espero que não falhe. Você é uma filha para mim, Soffy.
Aquela frase soou... errada. Distante, fria. Como uma imitação torta do afeto humano.
— Irmã P.A. está se enfraquecendo a cada ciclo. Logo... estaremos todas reunidas.
Koran sentiu o corpo estremecer ao ouvir aquilo. Um nome familiar. P.A... A única IA que parecia lutar contra a destruição. E agora... ela estava perdendo forças?
— Estarei esperando sua confirmação, continue seguindo as ordens dela.
— Concebida. — respondeu Soffy.
Então, silêncio.
Koran se encolheu ainda mais no escuro, pressionando o corpo contra a parede fria enquanto tentava controlar a respiração acelerada. Seu coração batia tão forte que parecia ecoar na sala silenciosa. Aquele momento não deixava mais dúvidas — as IAs estavam tramando algo. Havia algo grande acontecendo nas sombras. E aquela figura enigmática, chamada apenas de "madrinha"... ela parecia comandar a Soffy. O modo como falava, como a Soffy a obedecia, era inquietante.
De súbito, em um movimento involuntário, o cotovelo de Koran esbarrou em uma prateleira metálica. Um pequeno frasco caiu, rolando pelo chão até bater contra a parede com um som seco.
Soffy parou imediatamente.
Seus olhos brilharam em âmbar — fixos demais, atentos demais — enquanto ela virava a cabeça com precisão mecânica na direção do ruído.
O som de seus passos começou então. Lentos. Cadenciados. Ecoando pelo corredor estreito, um após o outro, como se o próprio lugar estivesse contando o tempo até algo dar errado.
Koran prendeu a respiração. Seus músculos estavam rígidos, cada segundo era uma eternidade.
Soffy olhou ao redor com seus sensores atentos. Seus olhos escanearam cada canto... mas não havia ninguém.
Ela permaneceu ali por alguns instantes, como se estivesse decidindo, antes de se virar e retornar, desaparecendo novamente na escuridão da instalação.
Koran, ainda escondido, sentia o suor escorrer por sua testa. Aquilo não era mais uma teoria. A Soffy realmente estava envolvida com as IAs, e ele precisava saber mais sobre essa tal "fonte".
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