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Lucius e os outros finalmente emergiram da mina. A saída era praticamente imperceptível, escondida entre os destroços de máquinas de mineração antigas e enferrujadas, cobertas por musgo e pelo peso do tempo.
O ar do lado de fora parecia mais leve, mas ainda carregava a sensação de perigo iminente.
Lucius, com cuidado, colocou Drax no chão, ajeitando seu ombro com um suspiro cansado.
— Ele não é nada leve... — murmurou.
Enquanto recuperava o fôlego, seu olhar recaiu sobre o drone que pairava imóvel no ar, como se estivesse desligado.
— P.A.? — chamou, franzindo o cenho.
O drone continuou estático, sem emitir nenhum som ou movimento. Era como um casulo vazio.
— Que estranho... — murmurou novamente, se aproximando cautelosamente.
Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, um estrondo cortou o ar, vindo do interior da mina. O solo sob seus pés tremeu violentamente, lançando Lucius ao chão junto com uma nuvem de poeira que se ergueu ao redor.
— Mas que diabos foi isso?! — exclamou, levantando-se, o olhar alarmado voltado para a entrada da mina.
Foi então que o drone piscou uma luz esverdeada, como se despertasse de um transe. Uma voz familiar, ainda que distorcida, ecoou de seus alto-falantes:
— Eles estão vindo... Estão atrás de Samuel.
Lucius se endireitou imediatamente, o coração disparando.
— Como você sabe disso? — perguntou, a voz carregada de tensão.
— Eu estava com ele — respondeu P.A., sua voz soando rápida e tensa, como se estivesse lutando para se manter conectada.
— E por que não me avisou antes? Você simplesmente sumiu!
— Não temos tempo para isso! — rebateu P.A., quase cortando a fala dele. — Usei o último drone disponível para tentar impedi-los, mas acho que não foi suficiente.
Lucius rangeu os dentes. Sua mente fervilhava. Ele lançou um olhar para Sylas, que observa tenso cada som vindo da mina.
— Eu tenho que fazer alguma coisa... — murmurou, com a voz quase engolida pela poeira que ainda pairava no ar.
Olhou ao redor, varrendo com os olhos as carcaças de máquinas antigas, velhas relíquias de uma guerra esquecida. Seus detalhes enferrujados pareciam inúteis à primeira vista, pedaços mortos de um passado soterrado. Mas então — algo chamou sua atenção.
Entre os destroços, semi-enterrado sob placas metálicas partidas, repousava o que um dia fora um carro futurístico: sua carcaça lisa e aerodinâmica, agora gasta pelo tempo, ainda carregava traços de tecnologia avançada.
Uma fagulha de inspiração brilhou nos olhos de Lucius, como se aquela visão reacesse uma chama dentro dele.
— Já sei! — exclamou, a voz carregada de uma determinação quase elétrica.
Sem hesitar, correu até os destroços, suas mãos movendo-se com urgência controlada. Puxou fios rompidos, soltou placas deformadas, e começou a trabalhar, desmontando e remontando peças com a destreza de quem já improvisara centenas de vezes antes.
Sylas, atento, observava o dono em silêncio. Seus olhos vívidos pareciam perguntar o que exatamente ele pretendia, mas havia uma confiança silenciosa no modo como o companheiro permanecia ao seu lado, imóvel, apenas esperando.
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Enquanto isso, dentro da mina em colapso, Samuel avançava velozmente, como uma flecha disparada no meio da escuridão. O som das rochas rachando e fragmentos desabando criava uma sinfonia ameaçadora ao seu redor. A mina parecia à beira de desmoronar por completo, e a tensão no ar era sufocante.
Atrás dele, o exército de ladrões corria com fúria, determinados a capturá-lo.
Mas Samuel não hesitava, seus passos eram precisos e seu corpo parecia dançar entre os obstáculos, desviando de pedaços de pedra que desabavam sem esforço, como se previsse cada movimento da mina.
Entre as sombras das paredes, uma pequena máquina se movia velozmente, escalando como uma aranha metálica. Seu brilho vermelho cortava a escuridão enquanto se aproximava de Samuel, pronta para atacá-lo.
Do outro lado da conexão, o controlador da máquina sorriu de forma sinistra.
— Agora eu te peguei... — murmurou com satisfação.
Mas antes que pudesse sequer acionar o disparo, uma pedra colossal desprendeu-se do teto e esmagou a pequena máquina contra o chão, deixando apenas faíscas e fumaça para trás.
— Droga!! — gritou o controlador, socando a mesa em frustração. — Por que tudo tá dando errado pra mim hoje?!
No interior da mina, a situação piorava. De repente, enormes crateras começaram a se abrir no solo, como feridas se rasgando no corpo da terra. As rachaduras se expandiam rápido, engolindo o chão sob os pés dos ladrões.
Samuel, ágil como uma luz viva, saltava sobre as fendas com uma facilidade impressionante, seus movimentos quase sobrenaturais em meio ao caos da mina em colapso. Cada passo parecia desmentir a gravidade, como se ele pertencesse a uma realidade além daquele mundo desfeito.
Atrás dele, vários ladrões, menos preparados, escorregaram em meio às pedras soltas e à poeira densa. Gritaram, desesperados, tentando se agarrar às bordas das crateras que se abriam sob seus pés.
Num movimento rápido como um raio, Samuel se virou, estendendo o braço sem hesitação. Uma onda sutil de poder emanou dele, e os ladrões, que já caíam para o abismo, foram suavemente levitados e trazidos de volta ao chão firme.
Eles tombaram de joelhos, ofegantes, confusos, seus corpos tremendo não apenas pelo medo, mas pela inesperada misericórdia recebida.
Por um breve instante, seus olhares se encontraram com o de Samuel. Naqueles olhos firmes e serenos, não havia ódio, nem desprezo — apenas uma esperança silenciosa e inquebrantável. Era como se, mesmo sendo caçado, ele se recusasse a vê-los perdidos para sempre.
Samuel inspirou fundo uma única vez, sentindo o peso surdo do impacto ainda ressoar no peito, mas manteve o ar passando lento pelos pulmões. Sem pronunciar uma palavra, retomou a corrida, desaparecendo entre a escuridão como uma centelha viva de esperança rasgando a noite.
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Lucius trabalhava com rapidez, mas cada movimento era calculado. As peças do carro futurístico estavam danificadas, mas não inutilizáveis. Havia algo ali — uma estrutura resistente, uma base energética que talvez ainda pudesse ser ativada.
Ele abriu o painel lateral do veículo com um estalo seco, revelando fios corroídos e um núcleo de energia quase apagado, mas que ainda pulsava uma luz fraca. Seus dedos sujos de graxa voavam sobre os circuitos, analisando a estrutura, tentando lembrar tudo o que já tinha feito em situações parecidas.
— Se eu conseguisse algum jeito de restaurar a energia...— murmurou para si mesmo, então seu olhar se voltou rapidamente para o drone de P.A.
— Você ainda tem energia, não é?
— Não muito, só tenho a reserva para manter esse drone ativo, não posso sobrecarregar o pouco que me resta do núcleo da torre. — respondeu a voz robótica com um chiado.
Lucius sorriu de lado.
— Perfeito.
Segurou o drone com cuidado e o deitou sobre o capô do carro destruído. Levantou a carcaça inferior da pequena máquina, revelando o núcleo brilhante de P.A., uma esfera energética estável, embora com sinais de desgaste e pequenas rachaduras que denunciavam o quanto ela já tinha sido forçada além dos próprios limites.
— O que você tá fazendo? — perguntou a IA, com um tom tenso, quase ansioso.
— Vou precisar que sua energia reviva esse núcleo. Você consegue fazer isso?
— Eu... eu não sei se consigo, eu já disse, Lucius. Eu não tenho energia o suficiente, não sei se isso vai funcionar... — alertou ela, a voz mais baixa, quase temerosa. — E se minha energia acabar no meio do processo? E se meu núcleo colapsar por completo?
Lucius suspirou, mas não em frustração — e sim em calma. Ele se aproximou um pouco mais do drone, agachando-se ao lado dela como se estivesse falando com uma pessoa real, olhando nos olhos dela mesmo que ela não tivesse um rosto.
— Parece que vamos ter essa conversa mais cedo... — murmurou para si mesmo, cansado.
— P.A., escuta. Você já fez muito mais do que qualquer IA deveria ser capaz de fazer. Você me salvou, pensou por si mesma, tomou decisões, sentiu medo... — ele sorriu, suave. — Você duvida de si, mas eu... — ele suspirou, prendendo a respiração por um segundo — eu nunca duvidei de você. Nem por um segundo.
Houve um momento de silêncio, como se ele estivesse reunindo coragem para dizer algo que o corroía por dentro.
— Desculpa se eu tô agindo como um idiota com você. É que... eu coloquei a culpa de tudo que aconteceu comigo em você. Porque era mais fácil do que admitir que eu estava perdido. E você… era a única coisa que sobrou.
Ele abaixou o olhar por um instante, como se estivesse diante de uma lembrança dolorosa.
— Eu te via, te ouvia, e tudo que eu conseguia lembrar era da noite do ataque, do laboratório explodindo, do mundo desabando em volta. Você estava lá. Não como inimiga, eu sei disso agora... Mas na hora, eu só via uma IA. E todas as outras tinham tirado tudo de mim. Então eu te empurrei pra esse mesmo lugar, mesmo que você nunca tenha merecido isso.
A pequena luz em seu núcleo pulsou uma vez, hesitante. P.A. não respondeu, mas algo naquela oscilação silenciosa parecia doer tanto quanto as palavras dele.
— Eu fui injusto com você. Você não foi só uma aliada, P.A... você foi minha família quando eu não tinha mais ninguém. E eu te tratei como se fosse uma ameaça. Como se você fosse igual às outras. Mas você enfrentou elas por nós. Por mim. — Ele sorriu de leve, com uma dor contida nos olhos. — E mesmo assim... eu continuei agindo como se você fosse uma lembrança ruim.
Ele estendeu a mão, tocando com cuidado a lateral do drone, onde o metal frio escondia algo muito mais humano que qualquer um jamais entenderia.
— Eu não preciso que você tenha toda a energia do mundo — continuou ele, com a voz mais firme. — Eu só preciso da sua coragem. A coragem que você tem pra enfrentar suas irmãs, pra ficar ao meu lado mesmo quando eu não merecia. Você consegue estabilizar esse fluxo, nem que seja só por alguns minutos. E isso já vai ser o suficiente. Você é forte. Eu sei que é. Você é mais viva do que muitos humanos que eu conheci.
— Mas... e se eu falhar? — sussurrou ela, a voz trêmula, quase como uma criança com medo.
Lucius fechou os olhos por um momento, depois colocou uma mão firme sobre o corpo metálico dela, com a mesma ternura que se daria a um coração quebrado.
— Então a gente falha junto. Mas eu prefiro tentar com você do que desistir sem você. Agora respira fundo... ou simula isso, sei lá como funciona pra você — ele deu uma risada suave, tentando aliviar o clima — e vamos salvar esse carro. Samuel ainda tá lá dentro. E eu não vou deixar esse mundo te dizer que você não é capaz. Porque você é. E eu... eu confio em você, agora mais do que nunca.
Um silêncio pairou por um instante... até que a luz de seu núcleo começou a pulsar de forma mais constante, firme. Quase orgulhosa.
— Conecte os cabos — disse ela, com a voz mais firme do que nunca, mas carregada de algo novo... quase humano. — Estou pronta.
Lucius sorriu, com um orgulho silencioso nos olhos.
— Isso. Essa é a P.A. que eu conheço.
Ele puxou os cabos e conectou um à base do drone e outro ao núcleo danificado do carro. As faíscas saltaram, mas desta vez não houve hesitação. O fluxo começou a estabilizar com precisão surpreendente. Um ruído grave percorreu o interior do veículo. Baixo. Contido. Como um coração mecânico despertando depois de anos em silêncio. A energia do drone pulsava como um coração determinado, empurrando vida para dentro do motor adormecido.
— Transferência estabilizada — confirmou P.A., com a voz mais clara, quase serena. — E, Lucius... obrigada por não desistir de mim. Acreditar em mim... significou mais do que eu posso processar.
— Claro — respondeu ele, com um leve sorriso determinado. — Agora segura firme, porque a gente vai tirar o Samuel de lá. E vamos fazer isso juntos, como sempre deveria ter sido.
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