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Samuel finalmente alcançou a entrada da mina.
— É aqui. — informou P.A.
O vento frio que escapava da escuridão da mina tocou o rosto de Samuel como um sussurro sombrio. Ele parou por um momento, encarando o breu à sua frente, e abaixou a cabeça. Um suspiro pesado escapou-lhe dos lábios, como se algo dentro dele pesasse mais que o próprio mundo.
P.A. notou o gesto. Sua voz, ainda que suave, transbordava preocupação.
— Aconteceu algo?
Samuel balançou a cabeça em negação, mas sua expressão fechada não convenceu.
— Não é nada. — murmurou.
P.A. quis insistir, mas conteve-se. O olhar de Samuel, perdido em pensamentos, dizia que havia coisas que palavras não alcançavam. Sem mais hesitar, ele adentrou a mina, engolido pela escuridão.
— Quer que eu ilumine pra você? — ofereceu P.A., com uma luz tênue surgindo do aparelho no ouvido de Samuel.
Samuel apenas ergueu a mão. Uma pequena chama dourada acendeu-se em sua palma, fraca, mas constante, como um último vestígio de esperança resistindo no meio das trevas.
— Eu tô bem. — respondeu ele, sua voz baixa, quase distante.
Enquanto avançavam, o eco de seus passos reverberava pelas paredes úmidas da mina. O cheiro de terra e abandono era sufocante. P.A. não aguentou o silêncio pesado.
— O que tá acontecendo com você, Samuel? — perguntou, aproximando-se um pouco. — Você tá diferente desde que entrou aqui.
Samuel caminhou mais alguns passos antes de responder.
— Se lembra daquelas sombras que você viu quando estávamos no centro da cidade?
— Lembro. — respondeu P.A., vasculhando os arredores. — Mas... não vejo nada por aqui.
Samuel parou. Seu olhar percorreu a escuridão infinita à sua frente, como se enxergasse muito além do que os olhos normais poderiam ver.
— Aquelas sombras que você viu... — começou ele, a voz carregada de um peso difícil de explicar — mesmo que já estivessem feridas... ainda tinham uma fagulha de esperança dentro delas. Uma chance de se encontrarem de novo.
Ele fechou a mão por um instante.
— Só que aqui... — continuou, o tom mais grave — essas já foram consumidas pelo esquecimento. Estão perdidas, presas num vazio sem volta.
P.A. hesitou, processando aquelas palavras.
— Mesmo assim, ainda existe esperança nelas? — perguntou baixinho.
— Existe. — respondeu Samuel. — Mas são faíscas tão fracas que encontrar cada uma é como buscar uma estrela num céu que já morreu.
O silêncio caiu entre eles, pesado como uma rocha. P.A. quebrou-o, tentando entender melhor:
— Quantas você consegue ver aqui?
Samuel respirou fundo, fechando os olhos por um momento.
— Dezenas. Talvez centenas, todas elas sofrendo como se fossem sussurros.
P.A. piscou suas luzes de forma inquieta.
— Você tá com medo deles? — perguntou, notando a melancolia crescente nas palavras de Samuel.
Ele abriu os olhos devagar. Havia firmeza neles, uma firmeza quebrada pela tristeza, mas não pelo medo.
— Não. — respondeu com serenidade.
— Então... por que tá agindo desse jeito?
Samuel ergueu a chama, observando sua luz vacilar contra a vastidão escura. Sua voz saiu num sussurro carregado de dor:
— Porque eu sinto a dor deles.
P.A. demorou alguns segundos para compreender o que aquilo significava.
— Você sente a dor deles? Mas como?
Samuel fechou os olhos de novo, como se estivesse vendo algo muito além da mina, algo gravado em sua própria alma.
— Se lembra da garota que eu salvei?
— Lembro... — respondeu P.A., com a voz quase sumindo.
— Ela tinha uma vida feliz antes de ser consumida pela escuridão... pelo esquecimento. — Samuel falou pausadamente, como quem revive cada pedaço daquela memória. — Vivia com seus pais, correndo por campos, sorrindo ao sol... Mas então... o dia terrível chegou.
A chama em sua mão vacilou de novo, refletindo a dor em suas palavras.
— Quando as máquinas atacaram... eles tentaram se esconder. Se agarraram uns aos outros, esperando sobreviver. Mas era tarde demais. O desespero tomou conta. O medo... o peso de perder tudo... — A voz dele falhou por um breve instante. — Como última alternativa... o pai dela, chorando, desesperado matou sua esposa, sua filha... e depois... a si mesmo.
P.A. ficou imóvel, incapaz de responder.
— Eu vi tudo. — murmurou Samuel. — Como se tivesse vivido aquilo. Cada lágrima. Cada grito engolido pelo silêncio.
— O mundo... — ele continuou — precisa de alguém que entenda a dor do outro, não para julgar, mas para curar. Alguém que olhe para essas almas e veja o que elas ainda podem ser... e não o que elas se tornaram.
P.A. permaneceu quieta, suas luzes diminuindo, como se respeitasse aquele momento.
Samuel então ergueu o olhar para o fundo da mina. Seus olhos, mesmo mergulhados na escuridão, brilhavam com a luz que resistia dentro dele.
E, sem dizer mais nada, ele deu o primeiro passo rumo às sombras, levando consigo não apenas uma chama de fogo... mas uma chama de esperança.
De repente, enquanto Samuel avançava pela mina em silêncio, um clarão cortou a escuridão atrás dele — rápido como um raio. Um estrondo seco ecoou pelas paredes estreitas. Algo, vindo em velocidade mortal, rasgava o ar em direção à sua cabeça.
Instintivamente, Samuel inclinou o corpo para o lado, sentindo o ar cortar sua pele e o projétil zunir tão perto que ele quase podia ouvir a pressão do vento. O impacto foi brutal. O projétil se cravou com força na parede de pedra, lançando estilhaços que ricochetearam por toda parte. A dor da proximidade do golpe era palpável, mas Samuel não demonstrou nenhuma reação. Seus músculos, treinados para a quietude, continuaram firmes. Ele se virou devagar, o olhar frio e atento, como se nada tivesse acontecido, mas sua mão apertou a chama em sua palma com mais força, como se a dor tivesse acendido algo dentro dele.
À distância, várias silhuetas emergiram da escuridão, iluminadas apenas pela chama fraca que Samuel ainda segurava. Vozes exaltadas romperam o silêncio abafado da mina.
— Idiota! — rosnou um dos homens, claramente irritado. — Ela mandou a gente trazê-los vivos! O que você tá fazendo!?
Um outro deu de ombros, como se aquilo não tivesse importância.
— É só um sentinela... — disse com desprezo, a voz carregada de arrogância. — O que você acha que ela quer com eles, afinal?
— Eu não sei… — ele engoliu em seco. — Mas ele derrotou o Draken.
— …e isso já não é suficiente pra chamar atenção?
Samuel permaneceu imóvel por um momento, apenas observando. O fogo em sua mão tremeluzia, refletido nos olhos dos invasores. Um silêncio tenso pairava entre eles, como a respiração contida antes de uma tempestade.
— Eles nos localizaram — avisou P.A., sua voz soando mais urgente. — Foram enviados para capturar você... e o meu sentinela. No que esse meu sentinela se meteu?
Samuel apertou o passo, os olhos atentos à escuridão da mina que parecia se fechar ao seu redor.
— Temos que tirá-lo daqui antes que o encontrem — disse Samuel — Lucius e os outros estão muito longe?
— Não — respondeu ela rapidamente. — Se você se apressar, consegue alcançá-los.
Samuel não hesitou. Seus olhos brilharam com uma determinação silenciosa.
— Vou segurá-los com o meu drone — disse P.A. — Mas não vou poder me comunicar com você por um tempo. Não se preocupe, me encontrará com eles.
Samuel apenas assentiu, firme e decidido, antes de lançar um último olhar para trás.
Sem perder tempo, ele disparou para frente, mergulhando ainda mais na escuridão da mina.
No mesmo instante, P.A. executou seu plano. O pequeno drone que até então os guiava deu uma guinada súbita no ar e, com um leve zumbido, avançou em direção ao grupo de perseguidores.
Então, uma explosão seca ecoou pela mina. As paredes estremeceram e uma chuva de destroços desabou, bloqueando o caminho e levantando uma nuvem espessa de poeira.
Os escombros caíam como uma barreira improvisada, comprando o tempo que Samuel precisava para escapar.
Sem olhar para trás, ele correu, seus passos ecoando como tambores no coração da escuridão. O ar ardia em seus pulmões, mas o ritmo de seus passos permaneceu firme.
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