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Soffy colapsava por dentro, tomada por uma raiva tão intensa que seus olhos ardiam como brasas vivas. O ambiente ao seu redor parecia sufocar, como se a própria atmosfera se curvasse, pesada, à sua fúria crescente. Cada passo que ela dava ecoava pelas paredes, arrastando um peso ameaçador que fazia até o ar vibrar. Os soldados enfileirados mal ousavam respirar, sentindo a pressão insuportável que emanava dela.
— Vocês deixaram os sentinelas fugirem — rosnou, sua voz arrastada e envenenada de desprezo. — Acha mesmo que eu estou feliz?
Ela caminhou lentamente diante da fileira de soldados, seus olhos os devorando um a um, até se fixarem em Draken. A tensão espalhou-se como eletricidade, estalando no ar.
— Você só tinha um trabalho simples — sibilou, sua voz se tornando um fio cortante. — Apenas um! Trazê-los até mim... — Um sorriso cruel se desenhou em seus lábios. — E ainda assim... você falhou.
Um dos soldados, tomado pelo pânico, tentou balbuciar:
— Senhora Soffy, é que...
Ele não teve tempo de terminar. Soffy girou em um movimento fulminante, e seu braço se transmutou em uma lâmina negra e cintilante. Com um estalo sinistro, ela atravessou a cabeça do soldado, que caiu sem vida aos seus pés. O sangue ainda mal havia tingido o chão quando a risada de Soffy irrompeu — um som distorcido e insano, como vidro estilhaçando na escuridão.
— Eu estava falando com você, Draken — disse ela, em um tom quase carinhoso.
Draken permaneceu imóvel, como uma rocha diante da tempestade. Seu olhar encontrou o dela sem vacilar — havia respeito, sim, mas não medo. Nenhuma tremedeira, nenhum passo atrás. Apenas a frieza controlada de alguém que já caminhara por lugares escuros demais para se deixar abalar.
— Ele era mais forte do que eu — respondeu Draken com voz firme e sem desviar os olhos.
Enquanto falava, sua mente voltou a luta, ao confronto com Samuel. Ele ainda lembrava da forma como Samuel lutava. Não era uma luta comum, algo tão diferente do que ele já conhecia. A maneira como Samuel se movia, com precisão, evitando machucar, como se cada movimento fosse planejado para neutralizar sem causar dano. Draken havia sido forçado a se adaptar, sentindo seu próprio poder ser equilibrado pela serenidade imperturbável de Samuel. Ele poderia ter esmagado qualquer um dos seus homens, mas não... Samuel tinha algo que transcendia. Uma calma que desafiava qualquer agressividade. Ele não era como os outros. Ele era... algo diferente.
Soffy aproximou-se ainda mais, seus olhos faiscavam de fúria, procurando em Draken qualquer sinal de fraqueza — mas encontrou apenas o silêncio inabalável que começava a lhe incomodar.
— Como... — ela sussurrou, em um tom adocicado e perigoso — você ousa perder... para um simples sentinela?
Draken manteve o olhar sereno, analisando cada palavra, cada movimento. Algo nele havia mudado. Não era insubordinação aberta, mas uma semente silenciosa crescendo sob sua expressão calma.
— Ele não matou sequer um dos meus homens... — disse Draken, com cuidado nas palavras. — Nem ao menos levantou a mão para me atacar.
A memória de Samuel, com seu rosto impassível, atravessou sua mente. A forma como ele olhava, quase como se soubesse que não havia necessidade de destruição. Samuel não era um monstro. Ele era uma força que se recusava a ser consumida pela violência. Draken havia sido forçado a reconhecer algo naquele combate... Samuel não era apenas um sentinela. Ele era algo que transcendia o papel de guerreiro. Ele era, de certa forma, algo que o fez se questionar sobre suas escolhas.
A sala parecia congelar por um momento. A tensão se esticava a ponto de se rasgar.
Soffy franziu o cenho, irritada.
— Ele? — repetiu, inclinando a cabeça de lado. — Está me dizendo que apenas um sentinela... derrotou você e todos os seus homens?
Draken não piscou. No fundo de seus olhos, uma faísca de algo inominável cintilou.
— Ele não é um sentinela — disse com firmeza.
As palavras pairaram pesadas no ar.
Soffy arregalou os olhos, seu sorriso desmanchando-se em um semblante de puro ódio.
— Então o que ele é, hein?! — rugiu, a voz ressoando como um trovão. — Um salvador? Um herói?!
Ela respirava com dificuldade, como se a própria ideia a enojasse.
— Você me decepcionou, Draken... pela última vez.
Antes que pudesse avançar, um dos capangas irrompeu pela porta, ofegante:
— Senhora Soffy! Nós os localizamos! — disse, quase tropeçando nas próprias palavras.
— Fale. — ordenou Soffy, o olhar ainda cravado em Draken.
— Eles estão nas minas de Verdanium, perto da primeira entrada principal da cidade. E... parece que eles estão recebendo ajuda de um drone!
Os olhos de Soffy brilharam de fúria e reconhecimento.
— P.A... — murmurou ela entre dentes, sua voz se tornando um sussurro carregado de ódio.
Ela se virou para os soldados.
— Enviem todos atrás deles. Todos! Quero a cidade inteira virada de cabeça para baixo se for preciso! — vociferou, sua voz ecoando como chicotes no ar. — Dessa vez... ninguém escapa.
Os soldados se entreolharam, hesitantes, sentindo a loucura no comando que acabavam de receber.
— AGORA! — berrou Soffy, e o estrondo de sua voz pareceu estremecer a estrutura da sala.
Num rompante, os soldados começaram a se mover, correndo para cumprir as ordens sem questionamentos.
Ela então se virou novamente para Draken, os olhos ainda faiscando.
— E você... — disse, com um veneno gotejando de cada palavra.
Draken apenas inclinou levemente a cabeça, reconhecendo suas palavras, mas sem desviar seu olhar firme.
— Dessa vez não haverá mais volta — finalizou Soffy, sua voz baixa como uma sentença de morte. — Vá... e prove que ainda merece respirar.
Draken assentiu uma única vez, virou-se com passos lentos e pesados, e saiu. Atrás de seus olhos calmos, crescia algo a mais — uma semente que talvez, em breve, florescesse em algo que nem mesmo a escuridão conseguiria sufocar.
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