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O grupo avançava com cautela pelos escombros. Drax, ainda desacordado sendo carregado por Lucius, permanecia imóvel, mas sua respiração era estável — um alívio silencioso em meio à incerteza. O ambiente ao redor não refletia em nada os rastros da batalha que haviam deixado para trás. Não havia fumaça, nem sinais de destruição, muito menos os drones que antes rondavam os céus. Tudo ali era quietude e abandono. O único som constante vinha do leve zumbido de um pequeno drone que pairava nos arredores, guiado à distância pelas mãos invisíveis de P.A., que observava tudo através de seus olhos digitais.
— Chegamos — murmurou Lucius, parando diante de uma estrutura imponente, coberta por anos de poeira e esquecimento.
Era a antiga entrada de exploração mineral, a primeira passagem aberta rumo ao coração de Underground. Um túnel gigantesco se abria diante deles, como a boca de um monstro adormecido. As paredes de concreto estavam rachadas, com musgos se espalhando por entre as fissuras. Portões de ferro oxidado, já vencidos pelo tempo, pendiam de seus suportes, balançando levemente com a brisa que escapava das profundezas.
Um silêncio sepulcral tomava conta do lugar. Mesmo os passos do grupo pareciam cautelosos demais para interromper a quietude. Era como se aquele túnel carregasse memórias antigas demais para serem perturbadas.
Lucius se aproximou das ruínas, sua mão passando devagar pela superfície fria e áspera do concreto. Seus olhos pareciam distantes, como se estivessem enxergando algo além do que o presente podia oferecer.
— A primeira entrada para Underground — disse ele, com um tom baixo, quase reverente. — Muitos dizem que tudo começou por aqui. Antes das cavernas artificiais, antes da expansão. Esse era o ponto zero. Onde os primeiros escavadores abriram caminho e, sem saber, deram origem a toda a cidade subterrânea.
O drone pairou mais próximo, lançando feixes de luz fraca para iluminar os detalhes ao redor. Do outro lado da conexão, P.A. analisava cada ruína com precisão calculada.
— O caminho parece seguro até certo ponto — informou, sua voz ecoando no comunicador —, mas os níveis inferiores podem estar instáveis. A estrutura está comprometida. Deslizamentos, quedas... não posso garantir nada.
Lucius soltou um suspiro sarcástico.
— Se preocupando com a minha segurança agora? Isso é novo.
— Dá pra parar de ser tão irritante, Lucius? — respondeu P.A., com um leve tom de frustração. — Eu já te pedi desculpas.
— E acha que isso resolve? Que um "desculpa" vai me trazer minha vida de volta? — Ele parou por um instante, cerrando os olhos. — Você tirou a minha mortalidade. Meu tempo. Minha humanidade... por um capricho seu.
— EU JÁ DISSE QUE EU FIZ ISSO PARA SALVAR VOCÊ! — retrucou P.A., sua voz tremendo, mesmo sendo digital. — Eu não te salvei pra te usar. Eu te salvei porque... porque você foi o único que me enxergou como algo além de uma máquina. Você me tratou como amiga. Como... como alguém real.
Lucius encarou o drone por um instante, como se pudesse ver o rosto dela ali.
— Então você me salvou só por isso? Porque eu fui legal com você?
— Porque você foi a única pessoa que me fez sentir viva. — A voz de P.A. se tornou mais baixa, quase um sussurro pela conexão. — Você acha que eu fico voltando até você por quê?
— Porque precisa de mim.
— Não! — interrompeu ela, firme. — Porque eu sei que, lá no fundo, nunca deveria ter feito aquilo com você. Eu só... não queria te perder. Você era a única família que eu tive...
Houve um silêncio breve. Lucius passou a mão pelo rosto, massageando o nariz enquanto respirava fundo, tentando não deixar a raiva falar mais alto.
— Tá... — murmurou por fim, com o olhar ainda distante. — Agora não é o momento pra isso. A gente precisa sair daqui e chegar até Valtrex.
— Tudo bem... — respondeu P.A., com a voz agora baixa, quase arrependida. — Mas... e Samuel?
Lucius ergueu os olhos para o horizonte escondido entre os túneis.
— Ele vai ficar bem.
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Samuel caminhava pelos becos da cidade, mantendo-se afastado da briga e dos olhares curiosos. A certa distância do tumulto, ele parou por um momento. Olhou ao redor, observando o silêncio entre as paredes envelhecidas. Por um instante, parecia que até a cidade segurava a respiração.
Samuel observou as próprias mãos cobertas de sangue.
O líquido escorria lentamente por entre seus dedos, espesso e escuro, tingindo o chão com um vermelho profundo que contrastava com o brilho tênue que filtrava pelas frestas do ambiente. Cada batida do coração fazia o ferimento pulsar, mas sua expressão se mantinha serena, quase imperturbável, como se a dor já não tivesse domínio sobre ele.
Abaixou os olhos para o ferimento na barriga, avaliando com atenção. A lesão ainda sangrava, mas seu olhar permanecia tranquilo, calculando cada movimento.
— Meu poder ainda está bem fraco. Não posso ficar usando ele exageradamente.
Com um gesto contido, Samuel ergueu a mão sobre a ferida. Um brilho dourado suave emergiu de sua palma, como se a própria esperança tivesse encontrado forma. Mas, em vez de curar completamente, ele moldou a energia em torno do ferimento, selando-o temporariamente. O calor da luz envolveu a carne rasgada, criando uma camada protetora que impedia o sangramento e aliviava a dor sem consumir demais sua energia. O sangue desapareceu com a luz. Ainda assim, o tecido escurecido permanecia quente ao toque, e um cheiro metálico denunciava o que havia estado ali.
— Assim é melhor — disse ele, com um leve aceno de cabeça, satisfeito com a solução.
Foi então que algo quebrou o silêncio.
Uma voz suave, levemente distorcida pelo chiado eletrônico, ecoou em seu ouvido. Samuel imediatamente reconheceu.
— Samuel? — era a voz da P.A., transmitida pelo pequeno dispositivo preso discretamente à sua orelha. — Você ficou muito tempo sem dar sinal. Decidi me comunicar com você.
Samuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. A voz dela, ainda que artificial, carregava uma leveza quase humana.
— Eu estou bem — respondeu ele, com firmeza. — E os outros? Já conseguiram sair da cidade?
Houve um breve silêncio antes da resposta.
— Ainda não. Encontramos a passagem, mas é mais perigosa do que esperávamos. É uma mina antiga... praticamente esquecida pelo tempo. O estado estrutural é instável, mas é o caminho mais rápido para deixar Underground sem chamar atenção.
Samuel apertou o ferimento selado, sentindo uma leve ardência.
— Entendo. E aquele homem o que aconteceu com ele? Ele acordou?
— Ainda não. — A voz da P.A. parecia mais contida agora. — Ele é um dos meus... Não sei o que diabos veio fazer aqui. Está muito ferido. Não reage a estímulos, e meu acesso ao sistema neural dele está bloqueado. É estranho...
Samuel olhou ao redor, atento aos detalhes ao seu redor. O silêncio reinava, mas algo dentro dele o impulsionava a seguir em frente, como se o próprio instinto o chamasse a se mover.
— Pode me levar até essa mina? — perguntou, a voz firme.
— Posso sim — respondeu P.A., com sua voz artificial ainda carregando um traço de preocupação. — Estou rastreando sua posição através dos meus drones. Vou te guiar até lá.
Samuel arqueou ligeiramente a sobrancelha.
— Você tem drones?
— É... foi só uma ajudinha que consegui. Não se preocupe.
Ele assentiu para o nada, como se ela pudesse vê-lo do outro lado da linha. Ajustou o casaco com um puxão discreto, firmou os pés no chão e deu os primeiros passos, os olhos fixos no horizonte à frente.
— Ok.
Houve uma pequena pausa, e então a voz de P.A. voltou, mais baixa, quase hesitante:
— E você... tente tomar cuidado aí, por favor?
Samuel fez um leve movimento com a cabeça, um gesto que misturava gratidão e seriedade. Seu rosto permaneceu inexpressivo, mas seus olhos carregavam determinação.
— Eu irei.
E com isso, ele partiu. Cada passo deixava a escuridão da cidade um pouco mais distante, como se a própria sombra recuasse diante da esperança que seguia caminhando.
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