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As luzes lançavam sombras dançantes nas paredes corroídas da cidade subterrânea. O ar era preenchido por um silêncio tenso, quase palpável. Draken estava à frente, imponente, com sua roupa marcada por cicatrizes de antigas batalhas. Atrás dele, uma fileira de alguns de seus principais soldados de elite — rostos ocultos por máscaras e intenções mergulhadas na escuridão.
Samuel se manteve imóvel por um momento, seus olhos percorrendo todo o cenário, analisando cada detalhe com calma. Seu olhar enfim se fixou em Drax, caído no chão, o corpo coberto de ferimentos e respiração fraca. Por um instante, seu semblante se suavizou — não por medo ou hesitação, mas por empatia. Ele sabia o quanto Drax havia resistido, o quanto havia lutado.
Ao seu lado, Lucius aguardava instruções, o punho cerrado pela tensão. Samuel quebrou o silêncio com uma voz baixa e firme, que cortou o ar como uma lâmina.
— Eu vou ser uma distração para vocês tirarem ele daqui.
Lucius arregalou os olhos.
— Você vai ficar? Sozinho... contra todos eles? — Ele olhou novamente para os inimigos. — Não acha que tá exagerando um pouco? Eu sei que você tem poderes e tudo mais, mas isso aqui...
— Leve-o para fora de Underground — interrompeu Samuel, sem desviar o olhar de Draken. — Eu logo estarei com vocês.
P.A. então se manifestou, sua voz digital atravessando o momento como um comando de urgência.
— Vai logo, Lucius! Não temos tempo pra dúvidas!
Lucius apertou os lábios, a inquietação nítida em seu rosto.
— Tá... tá bom. Mas não pense que eu vou te deixar enfrentar isso sozinho.
Samuel deu um leve passo à frente. O casaco escuro balançou com um sussurro quase sobrenatural, como se o próprio ar ao redor tivesse prendido a respiração. Seus olhos não demonstravam medo, tampouco arrogância — apenas a firmeza inabalável de quem carregava um propósito maior que a própria vida.
Ele não respondeu. Não precisava. Ele era a muralha entre a luz e a escuridão.
Draken ergueu uma das mãos e seus soldados recuaram imediatamente. Ele não sorria, mas havia respeito em seus olhos. Não desprezava aquele homem diante de si — reconhecia sua grandeza.
— Eu não vou desrespeitar um duelo... um contra um — disse Draken, sua voz firme, quase solene. Não havia zombaria, apenas a admiração silenciosa entre dois guerreiros que sabiam o peso de suas escolhas.
Samuel permaneceu imóvel, como uma estátua esculpida pela própria esperança. O silêncio era sua resposta — uma linguagem mais poderosa do que qualquer provocação.
Com calma, Draken levou a mão às costas e retirou uma espada longa. A lâmina reluziu sob a tênue luz das tochas subterrâneas, liberando um brilho sombrio, quase vivo, como se a própria escuridão tivesse sido forjada em metal.
Ele a segurou com ambas as mãos, em posição de combate, e o chão pareceu estremecer levemente sob seus pés.
Samuel ergueu as mãos lentamente. O ar ao seu redor vibrou, como se a própria realidade se curvasse por um instante. Faíscas de luz começaram a girar ao seu redor em espirais douradas, cada uma mais intensa que a anterior, até se condensarem no centro de suas palmas. E então, com um estalo seco e brilhante, o machado surgiu — forjado de pura energia e aço, com lâmina única reluzente e um cabo marcado por runas antigas, pulsando em uma tonalidade suave, quase celestial.
Draken observou a manifestação com olhos atentos, mas seu foco não estava na magia — e sim na arma. Um sorriso torto se formou em seus lábios, quase surpreso.
— Um machado? Você é mais ousado do que imaginei… — disse ele, girando os ombros, preparando-se. — Mas eu não sou homem de questionar a arma de outro guerreiro.
Samuel girou o machado com destreza. O som do metal cortando o ar era preciso, quase melódico. Ele o lançou de uma mão à outra, testando o peso com perfeição. Seus movimentos eram calculados, leves, porém letais — como a dança de um predador antes do salto final.
Draken soltou uma gargalhada breve.
— Ainda tem tempo de mudar de lado, antes que seja morto. É raro encontrar alguém digno… seria um desperdício.
Samuel apenas levantou uma das mãos e balançou lentamente o dedo indicador, negando com tranquilidade. Seus olhos, firmes, não expressavam ódio, apenas certeza.
Draken estreitou o olhar.
— Então eu não terei piedade.
Em um piscar de olhos, Draken avançou.
Seus pés explodiram contra o solo, rachando a pedra sob sua passada. Ele veio como um furacão de brutalidade, a espada erguida, o braço puxado para trás com força suficiente para despedaçar uma parede de concreto.
Mas Samuel não se moveu em pânico — ele deslizou.
Com um passo lateral preciso, girou o corpo como uma corrente de vento e ergueu o machado na diagonal. O impacto entre as armas explodiu em faíscas, reverberando como um trovão entre as paredes da câmara subterrânea.
Ambos ficaram frente a frente, as lâminas pressionadas, os músculos tensionados, os olhos travados como duas forças que se chocavam por inteiro — luz contra lâmina, firmeza contra brutalidade.
— Magnífico… — murmurou Draken, com um brilho selvagem nos olhos.
Samuel, sem dizer nada, empurrou com força o machado, quebrando o impasse. Ele girou o corpo e tentou um corte baixo, mirando as pernas do oponente. Draken desviou para trás com agilidade, girando sua espada em uma manobra defensiva e recuando com um sorriso satisfeito.
O confronto estava selado.
E nenhum dos dois pretendia errar o passo.
Samuel avançou.
Seus pés tocavam o solo como se dançassem sobre o tempo — leves, calculados, quase silenciosos — contrastando com a fúria que crescia em cada batida do coração. O machado girou sobre sua cabeça, traçando um arco de luz cortante no ar rarefeito, e desceu com a precisão de um meteoro, mirando o ombro de Draken.
Draken ergueu a espada no último instante. O impacto foi brutal. Um estrondo ecoou pelas paredes de pedra, fazendo pedaços de poeira caírem do teto corroído. A força do golpe obrigou Draken a recuar dois passos, suas botas marcando o solo com sulcos profundos. Ainda assim, ele não fraquejou — girou o corpo com agilidade e contra-atacou com uma estocada lateral, a lâmina buscando o flanco de Samuel como uma flecha letal.
Mas Samuel já esperava. Moveu-se com elegância, inclinando o machado de forma sutil. O aço deslizou com um som cortante, perdendo força no contato. Num só movimento fluido, ele girou o cabo e desferiu um chute no abdômen de Draken — firme, certeiro, o suficiente para fazê-lo cambalear.
Draken deu dois passos para trás, arfando, o peito subindo e descendo. Um sorriso surgiu entre os dentes cerrados.
— Você é rápido demais… — cuspiu para o lado, limpando a boca com o dorso da mão. — Não combina com alguém que carrega um machado desse tamanho.
Samuel permaneceu em silêncio. Reposicionou-se com um giro lento, o machado se movimentando como extensão de seu próprio corpo. Seus passos eram como os de um rio que nunca para — suaves, contínuos, mas capazes de esculpir montanhas com o tempo. Ele não lutava com raiva — lutava com intenção.
Draken rugiu e avançou novamente, agora com mais intensidade. Suas investidas vinham como uma tempestade: cortes diagonais, estocadas rápidas, movimentos circulares — uma sinfonia de aço selvagem. Mas Samuel desviava de cada ataque por um fio, os olhos sempre calmos, os pés dançando no limite entre a destruição e a precisão. Cada esquiva era milimétrica, e cada bloqueio, um golpe na vaidade de Draken.
Nos becos escuros atrás da batalha, Lucius e Sylas moviam-se silenciosamente entre sombras, esgueirando-se por passagens esquecidas, aproximando-se dos soldados de elite que observavam tudo com tensão crescente.
De novo, os dois guerreiros se encontraram no centro da arena. Machado contra espada. Luz contra aço sombrio.
— Eu não estou aqui para matar — disse Samuel, desviando de um corte e travando a lâmina de Draken com o cabo do machado.
A frase caiu como um trovão entre as pedras da cidade esquecida.
Draken cravou os olhos nos dele, intensos.
— Então por que luta com tanta força?
Samuel empurrou, os músculos firmes, a postura inabalável. O brilho das runas no machado pulsava, refletindo a convicção de seu portador.
— Porque proteger e salvar também exige força.
Sem esperar resposta, Draken rugiu e voltou à investida. Seu estilo era agressivo e imprevisível — girava com estocadas, saltava com cortes horizontais, dançava com a brutalidade de quem aprendeu a sobreviver no caos. A espada zumbia, tentando cercar Samuel em curvas traiçoeiras.
Samuel bloqueou três ataques seguidos, recuando com eficiência. No quarto golpe, agachou-se num rolamento veloz, escapando por baixo da lâmina. Um instante depois, surgiu atrás de Draken como um sussurro veloz. Poderia ter atacado. Poderia ter finalizado. Mas não o fez. Apenas parou, com a lâmina do machado encostando levemente no ar entre eles — como um aviso.
Draken virou-se, ofegante. A lâmina de sua espada tremia levemente sob a tensão.
— Você está acostumado com a violência — disse Samuel, a voz baixa e firme. — Mas a verdadeira força está em controlar o caos. Não em se tornar parte dele.
O silêncio que se seguiu não foi de paz — foi de peso. Os soldados observavam com inquietação, como se a presença de Samuel pressionasse o próprio ar. Sua aura não causava medo — causava dúvida. Fazia os homens questionarem o que era, de fato, ser forte.
Draken cerrou os punhos, os olhos inflamados por um misto de frustração e fascínio. Ele avançou mais uma vez, mas desta vez, hesitou por uma fração de segundo. Era quase imperceptível — mas Samuel viu. Um lampejo de respeito? Ou apenas raiva travada?
— Continue bancando o herói... e vai morrer como um! — rosnou Draken, retomando a postura de batalha.
Samuel levantou o machado, lentamente, a luz suave envolvendo sua silhueta. Os olhos serenos como sempre. Ele não precisava responder — seu propósito já havia falado por ele.
A dança ainda não havia terminado. Mas a plateia, mesmo que silenciosa, já começava a entender que aquela luta não era apenas um combate físico.
Era um choque de ideais.
E Samuel estava ali para mostrar que até mesmo a esperança sabe lutar.
Lucius se aproximou de um dos soldados como uma sombra. Seus passos eram leves demais para serem ouvidos, seu olhar afiado como uma lâmina. Tocou suavemente o ombro do homem armado.
O soldado se virou instintivamente… e caiu no mesmo instante, como se a consciência tivesse sido arrancada dele com um simples toque. Um segundo guarda notou a movimentação e, sem hesitar, puxou o gatilho. A bala atravessou a testa de Lucius com precisão cirúrgica, jogando sua cabeça para trás com um estalo seco. Por um breve segundo, ele ficou ali parado, encarando o teto, os óculos tortos, o corpo inerte… mas não caiu.
Com uma lentidão quase teatral, Lucius abaixou a cabeça. A bala havia aberto um buraco no centro de sua testa — mas ele não sangrava. A pele ao redor da ferida começou a se reconstruir diante dos olhos atônitos dos soldados. Ele ajeitou os óculos com os dedos, impassível, como se nada tivesse acontecido.
— O que é isso!? — exclamou um dos soldados, engolindo em seco.
Lucius riu baixo, com um som grave e vazio, enquanto Sylas já se movia. Ele era um trovão sem aviso. Avançou com brutalidade, derrubando dois soldados antes que pudessem gritar. O som dos corpos sendo lançados contra as paredes ecoou pelos becos escuros.
Do outro lado da cena, P.A. não estava apenas observando.
Ela invadiu a conexão neural de um dos soldados encarregados dos drones. Linhas de código se misturaram à sua voz digital.
— Acesso concedido. — murmurou ela, invisível.
— Droga, perdi a conexão! — gritou o soldado, olhando desesperado para sua tela.
No visor, a imagem da câmera do drone tremeu, ficou preta por um segundo… e então reapareceu com uma carinha pixelada mostrando a língua, seguida da frase:
“Quem com ferro fere…”
— Merda! — rosnou o soldado.
Os drones, agora sob o controle absoluto de P.A., mergulharam como meteoros vingativos. Não disparavam, mas seus corpos metálicos tornaram-se projéteis devastadores. Colidiram contra os soldados com violência precisa, espalhando faíscas, estilhaços e nuvens espessas de fumaça por todo o campo.
A confusão foi instantânea. Gritos ecoaram entre os becos, armas caíram de mãos trêmulas, e a visibilidade se perdeu em meio ao caos sufocante.
Lucius e Sylas não precisaram de mais que isso.
Aproveitando o tumulto, cortaram o caminho entre os destroços e os clarões esporádicos das explosões até localizarem Drax — caído, desacordado, parcialmente coberto por fragmentos de concreto. Lucius o ergueu com esforço, seus músculos tensionando sob o peso do companheiro.
— Ele tá mais pesado do que parece… — murmurou entre dentes, ajeitando Drax sobre os ombros.
P.A., atenta e letal, manteve a cobertura. Seus drones restantes varriam o perímetro, derrubando os últimos soldados com precisão fria. Um deles sobrevoou diretamente acima de Lucius, zumbindo em um tom quase cômico.
Lucius olhou para o alto e sorriu de canto.
— Olha só quem resolveu nos proteger… virou babá agora, é?
— Até aqui você vai continuar com suas brincadeirinhas? — retrucou P.A., a voz carregada de impaciência.
— Eu tô brincando. É o estresse. — respondeu ele, divertido, mesmo com o peso nos ombros.
— Um dia você vai levar um tiro e eu não vou fingir que me importo.
— Como se eu não tivesse levado um agora pouco. — rebateu ele, rindo.
Acima deles, os drones começaram a se reposicionar, formando um padrão estratégico. Criaram uma cortina de interferência no ar, emitindo sinais embaralhados que impediam qualquer tentativa de rastreamento ou detecção térmica.
Sylas foi o primeiro a avançar, abrindo caminho por entre a densa fumaça. Lucius veio logo atrás, carregando Drax nos braços. O trio sumiu na névoa, fundindo-se às sombras enquanto se dirigiam à entrada oculta que levava à antiga saída subterrânea de Underground.
Atrás deles, o som das hélices dos drones ecoava como um sussurro metálico de despedida.
E, ao fundo, ainda se ouvia o estrondo do machado de Samuel colidindo com a espada de Draken — um som grave, como um trovão que reverberava por toda a cidade. Aquela batalha parecia ecoar no coração do mundo, como se o próprio destino estivesse atento. Os moradores observavam em silêncio, escondidos atrás de janelas e portas entreabertas. Uma luta lendária se desenrolava diante de seus olhos.
Draken avançava com ferocidade, seus golpes eram brutos, diretos e incrivelmente precisos. Mas Samuel... apenas os defendia. Seus movimentos eram calmos, quase serenos. Não havia intenção de atacar, apenas de suportar.
A fúria de Draken crescia a cada segundo. Aquela atitude era um insulto. Para ele, significava apenas uma coisa: que Samuel não o considerava digno de um combate real.
— Você está brincando comigo!? — gritou Draken, sua voz carregada de raiva. — Não me acha forte o suficiente para me atacar de volta!?
Com os olhos tomados pela ira, ele desferiu uma sequência devastadora de golpes, seu corpo movido por pura fúria. Mas Samuel permaneceu firme, desviando e aparando cada golpe com seu machado, sem perder a calma.
— Eu já disse — respondeu Samuel, com a voz baixa, porém firme. — Eu não estou aqui para lutar.
Aquelas palavras foram como veneno para Draken. Aquilo já não era mais apenas uma disputa de forças. Tornara-se algo pessoal, profundo, quase doloroso. Ele cravou os pés no chão, segurou sua espada com ambas as mãos, e seus músculos se tensionaram como cordas prestes a romper. Uma aura selvagem e intensa emergiu de seus braços, como uma labareda de ódio prestes a consumir tudo.
— ENTÃO VÁ EMBORA MORRENDO!
Com um rugido final, ele saltou para o golpe derradeiro.
Samuel sabia que poderia bloquear. Sabia que era capaz de desviar. Mas entendeu que isso apenas alimentaria ainda mais a escuridão dentro de Draken. E então, num gesto inesperado, ele fez seu machado desaparecer no instante exato em que o golpe se aproximava.
A lâmina atravessou sua barriga com brutalidade. O corte foi limpo, certeiro, e ainda assim... Samuel não caiu. Permaneceu de pé, como se sustentado por algo além da própria carne.
Draken ofegava, os olhos arregalados diante da cena impossível. A espada cravada em Samuel, o sangue escorrendo lentamente pela lâmina… e ele ali, imóvel, olhando-o com uma calma desconcertante.
— Por que você fez isso?! — perguntou Draken, recuando meio passo. — Você podia ter se defendido! Por que hesitou?!
Samuel ergueu a mão e, com um gesto surpreendentemente gentil, segurou com delicadeza o punho de Draken, ainda apertado ao cabo da espada. Seus olhos — firmes como a luz do amanhecer — encontraram os dele.
— Nenhuma luta se vence com força bruta… nem com a raiva — disse ele, a voz serena, carregada de uma verdade que atravessava o tempo. — Ela se vence... quando o coração entende o que realmente está em jogo.
Fez uma breve pausa. O vento soprou entre os dois, levantando a poeira ao redor como se o próprio mundo prendesse a respiração para ouvi-lo.
— A esperança não corta, não grita, não revida. Ela permanece. E só a presença dela já é suficiente para quebrar as correntes de um espírito perdido.
Os olhos de Draken tremeram. Aquele golpe não foi o da espada — foi o peso daquelas palavras. Um fragmento de algo adormecido dentro dele se acendeu, tímido… mas vivo.
A lâmina estava a estremecer. A espada começou a se partir sozinha, rachaduras de luz correndo por sua superfície, como se aquela escuridão não fosse capaz de permanecer ali. Em silêncio, os fragmentos se desfizeram no ar, dissolvendo-se como fumaça diante do amanhecer. Samuel sentiu o peso se acumular por dentro, como se cada respiração exigisse mais do que a anterior.
Ele então soltou lentamente a mão de Draken, e mesmo com o sangue escorrendo por sua roupa, sua postura permanecia firme… como a de alguém que carrega um mundo inteiro nas costas, mas não permite que isso o curve.
— Eu não lutei contra você, Draken... Eu lutei por você.
As palavras ecoaram como um sussurro eterno — não no ar, mas na alma de todos que assistiam. Draken, tomado por algo que não compreendia — um vazio estranho, diferente da raiva — caiu de joelhos, como se, enfim, o peso da própria alma tivesse o alcançado.
Samuel tocou a ferida com calma. O sangue escorria por entre seus dedos, tingindo sua mão de vermelho, mas seus olhos… ainda carregavam paz. Uma paz firme, inabalável. Havia compaixão neles. Não dor. Não rancor. Apenas a luz silenciosa de quem entende o verdadeiro significado da esperança — mesmo em meio à escuridão.
— Se um dia você decidir andar pela luz… estarei lá. Não para guiá-lo, mas para caminhar ao seu lado. Como seu amigo, não como um soldado.
Então, sem mais uma palavra, virou-se. Seus passos firmes contrastavam com o sangue que gotejava silenciosamente no chão. Cada passo de Samuel parecia mais pesado, mais lento… mas não por fraqueza. Era o peso de quem escolheu salvar ao invés de ferir.
E atrás dele, Draken continuava imóvel, ajoelhado, encarando as próprias mãos como se as visse pela primeira vez — manchadas, não de sangue, mas de dúvidas.
— Eu… perdi. — A voz falhou no meio da frase, presa na garganta, como se aquilo doesse mais do que qualquer ferimento. Não a dor por ter sido vencido, mas por finalmente compreender a verdadeira força daquele contra quem lutava.
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