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As ruas estavam vazias demais.
O grupo caminhava por becos estreitos e avenidas esquecidas, onde até o som de seus passos ecoava alto demais, como sussurros intrusos num lugar onde o silêncio havia se tornado lei. Havia algo de errado ali. Um silêncio incômodo, denso, que parecia pesar nos ombros. Como se a cidade inteira estivesse prendendo a respiração. Portas entreabertas, janelas empoeiradas e olhos desconfiados espiando das sombras… Era como se todos se escondessem não apenas da ameaça, mas de uma verdade que preferiam não encarar.
Samuel manteve a postura ereta, o olhar atento, varrendo cada canto da rua. Ele podia sentir — o medo impregnado nas paredes, o abandono entranhado no chão. Seu olhar se deteve por um momento numa janela alta, onde uma criança o observava, com olhos assustados, por trás de uma cortina rasgada.
— A cidade sempre foi assim? — perguntou ele, sem desviar o olhar.
Lucius suspirou. O tom de sua voz carregava mais do que palavras. Tinha saudade.
— Claro que não. Isso aqui já foi cheio de vida. Uma cidade simples, sim… mas viva. Aqui é o oposto de Valtrex. As pessoas evitam tecnologia. Só usam o básico. Eles têm medo de IA, até mesmo da P.A... assim como eu tenho.
Fez uma pausa, como se buscasse, nas sombras da memória, imagens melhores.
— Aqui havia vozes nas ruas, fogueiras nas praças, risadas de crianças correndo pelos becos. Era um lugar de encontros, de histórias... Não esse vazio. Não essa escuridão que engole tudo em silêncio.
— Algo os fez perder a esperança — murmurou Samuel, como quem decifra o coração do mundo com um único olhar.
Lucius assentiu devagar, os olhos perdidos.
— E o pior... é que eles já se acostumaram com isso.
Por um tempo, seguiram em silêncio. Apenas o vento assobiava entre os prédios esquecidos, como se tentasse lembrar a cidade do que ela já foi. Então Lucius, quebrando o silêncio, olhou para Samuel com curiosidade.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Eu sei que você não é daqui. Tá estampado no seu jeito de andar, de falar... no jeito como você encara o mundo.
Samuel permaneceu calado. Lucius continuou:
— O lugar de onde você veio... era assim também? Tão perdido? Ou era cheio de esperança, como você parece ser?
Samuel andou mais alguns passos antes de responder, como se cada palavra tivesse que ser sentida antes de ser dita.
— Não. — Sua voz saiu firme, mas havia um peso nela. Um lamento antigo.
— Não?
— O lugar de onde eu vim era igual a este. Só que pior. O ser humano foi seu próprio inimigo. Eles destruíram tudo. Não só a natureza... mas a si mesmos. Esqueceram do valor da vida, dos sentimentos, das pequenas coisas. Era um mundo onde o esquecimento não era um erro — era um modo de viver. Um mundo onde a morte era rotina... e a esperança, uma lenda.
Lucius o fitou em silêncio, surpreso.
— Pela forma como você fala... não parece que veio de um lugar assim.
Samuel olhou para o horizonte, e sua voz saiu como um sussurro de força.
— Mesmo onde a escuridão consome até as raízes... sempre existe uma centelha de esperança. Pequena. Frágil. Mas viva.
— E você é essa centelha?
Samuel parou, encarando Lucius. Seus olhos eram calmos, mas intensos. Uma tempestade silenciosa.
— Eu não nasci para isso. Não era o meu destino. Mas fui escolhido. Não por ser o melhor… mas porque tive a chance de renascer. — Ele olhou para as mãos. — E lutar por aqueles que ainda precisam da luz.
Lucius sorriu. Um sorriso real, ainda que triste.
— Se fosse o Lucius de alguns anos atrás... eu teria rido da sua fala. Mas hoje... depois de tudo o que vi... eu acredito. Acredito em você.
Samuel não respondeu. Seguiu em frente. Às vezes, palavras eram desnecessárias.
— Então é esse o motivo de você estar aqui — continuou Lucius, andando ao lado dele. — Trazer esperança... pra nosso mundo.
— É mais do que isso. — A voz de Samuel saiu baixa, como um segredo dividido com o vento. — É lembrar vocês de que ela nunca foi embora. Só estava adormecida.
Lucius sorriu, mas logo o sorriso sumiu ao refletir.
— Deve ser bom… salvar pessoas. Mundos.
Samuel parou por um instante.
— Às vezes não é — Sua voz suavizou. — Você se apega. Vê neles um novo começo. E no fim… nem sempre pode ficar. Às vezes, precisa partir sem dizer adeus.
Lucius abaixou o olhar.
— Quantos mundos você salvou?
Samuel apenas o olhou.
E naquele olhar, Lucius viu. Viu mundos distantes. Povos sorrindo. Guerras evitadas. Crianças salvas. E despedidas que nunca tiveram palavras.
Seus olhos então se voltaram para Sylas, que caminhava à frente.
— Eu não sei quem eu seria sem ele… — confessou, num fio de voz.
Samuel fechou os olhos por um segundo. E viu.
Alex.
O lobo de olhos azuis. A única alma que caminhava ao seu lado mesmo quando o mundo caía. Que dormia junto a ele sob o céu vazio. Que jamais o abandonou...
— Sei como é — murmurou.
E seguiram. Em silêncio. Mas agora havia algo diferente. Um entendimento. Um laço invisível entre aqueles que carregavam a esperança como uma cruz... e como uma promessa.
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As sombras se moviam como predadores na noite.
Drax corria pelos becos apertados da cidade, tropeçando em escombros, deslizando por entre os muros rachados e tentando não olhar para trás. Seu corpo estava em frangalhos — ferido, exausto, encharcado de suor e sangue. Os pulmões ardiam a cada respiração, mas ele continuava, porque parar significava morrer.
Os soldados de Draken estavam no encalço. Silenciosos. Implacáveis.
As botas dos inimigos ressoavam nas paredes úmidas enquanto ele tentava fugir como uma presa encurralada. Sua visão se embaçava, e as luzes da cidade dançavam diante de seus olhos. O calor dos ferimentos queimava sua pele como brasas vivas.
"Não posso parar... não agora…"
Com um último impulso, Drax saiu dos becos e se lançou numa das ruas principais. Tentou se misturar com as poucas pessoas que andavam por ali, buscando refúgio na multidão. Mas bastou um segundo para tudo ruir.
Uma explosão brutal estourou ao seu lado, lançando pedaços de concreto e fogo para o alto. A parede atrás dele se desfez em estilhaços, e o impacto o arremessou para o chão como um boneco de trapo.
Seu corpo rolou pela rua até parar, imóvel, com os olhos entreabertos.
Dor.
Tudo o que ele sentia agora era dor.
Tentou se arrastar, os dedos rasgando o chão em vão. Mas não havia mais forças. O sangue escorria pelos cortes, e cada movimento parecia puxar sua alma para fora do corpo.
— N-não... — sussurrou, mais para si mesmo do que para alguém que pudesse ouvir.
E então, as sombras se revelaram.
Draken surgiu entre os destroços, acompanhado de seus soldados. Ele caminhava com calma, como um predador que já sabia que a presa não escaparia. Os olhos frios de Draken focaram no corpo caído de Drax, que ainda lutava para erguer a cabeça.
— Enfim te encontrei — murmurou Draken, a voz carregada de desprezo.
Mas antes que pudesse dar mais um passo, algo mudou.
Ali, no fim do beco, uma presença firme interrompia o curso natural daquela perseguição.
Samuel.
Ele havia parado.
Lucius vinha ao seu lado, distraído em meio a uma conversa qualquer:
—...eu nunca quis ser cientista, por isso fui pra engenharia quando era mais novo...
Mas Samuel já não ouvia. Seus olhos estavam cravados na cena à frente, como se o tempo tivesse desacelerado.
Lucius percebeu e parou também, franzindo o cenho.
— O que foi?
Samuel não respondeu. Observava em silêncio o corpo caído na rua, os soldados em formação, a figura sinistra de Draken aproximando-se como um carrasco.
Lucius seguiu seu olhar e logo entendeu.
— Não se envolva — disse com pressa. — Eles são ladrões. Provavelmente estão em briga de facções.
Samuel permaneceu imóvel.
Era como se seus olhos pudessem ver além da carne e do caos. Ele não enxergava apenas um “ladrão” no chão... Ele conhecia aquela pessoa caída. Era um dos Sentinelas. E, mesmo ferido, ainda lutava para viver. Alguém com uma história. Alguém que precisava de sua ajuda.
Lucius tocou o ombro de Samuel, tentando puxá-lo de volta.
— Ei... Vamos continuar.
Mas Samuel deu um passo à frente.
Lucius recuou meio passo, quase sem perceber. Aquele olhar… era novo para ele. Um olhar calmo, imperturbável, mas que carregava algo profundo — como se Samuel encarasse não um inimigo, mas o destino. E, por mais que o momento parecesse perigoso, havia naquela presença uma tranquilidade assustadora… como se tudo estivesse exatamente sob controle.
E, por um instante, as sombras tremeram.
Drax, caído no chão, ainda tentava manter os olhos abertos. Sua visão oscilava, embaçada, mas entre a névoa da dor e do sangue, ele viu uma figura escura surgir diante dele. Alta. Imóvel. Como uma muralha silenciosa.
Por favor… — murmurou, antes de seu corpo não aguentar mais. Seus olhos se fecharam, e a consciência se foi.
Draken, com a frieza de um executor, ergueu Drax pela nuca com apenas uma das mãos. O corpo ferido pendia como um trapo, e um gemido fraco escapou dos lábios do rapaz.
Mas antes que desse mais um passo...
— Solta ele. — A voz de Samuel rompeu o ar como um trovão contido.
Draken parou.
Virou lentamente o rosto na direção de Samuel, analisando-o em silêncio.
— Eu conheço você… — disse enfim, a voz firme e profunda. — O forasteiro forte demais pra ser ignorado. Aquele da entrada da cidade.
Seus olhos se moveram para Lucius, e a conexão se completou.
— Então… é você o “Sentinela” que deixei passar?
Draken não riu. Ele não era do tipo que achava graça. Era orgulhoso, direto, e sua presença era de aço — mas diante de Samuel, havia uma sutil tensão. Algo instintivo. Um incômodo que ele tentou disfarçar ao levantar Drax com brutal facilidade, exibindo seu domínio.
— Recebi ordens claras: capturar vocês dois. — Ele fitou Samuel diretamente. — Você e esse rato ferido aí.
— Eu sabia que havia algo diferente em você. Você não é um Sentinela. Não de verdade.
O silêncio ficou pesado demais para ser ignorado.
— Solta ele. — Samuel repetiu, sem elevar o tom, mas com uma autoridade impossível de ignorar.
Draken segurou o olhar de Samuel por alguns segundos.
E então largou Drax.
O corpo caiu pesadamente no chão, um baque seco e doloroso. Mas Samuel não se moveu.
Draken deu um passo à frente.
— Você é muito corajoso... ou muito tolo. Ainda tem tempo pra pensar no seu lado, forasteiro. Com sua força, seria um dos meus melhores soldados. Posso garantir isso.
Samuel permaneceu em silêncio. A resposta estava em seu olhar. Frio. Indiferente. Inquebrável.
Draken entendeu.
Ele endireitou os ombros, ajustando a postura com a firmeza de um comandante. O orgulho era evidente em cada gesto.
— Uma pena… Parece que já escolheu seu lado. Então, só me resta cumprir a missão.
Ele ergue uma das mãos, e os soldados ao seu redor começaram a se mover, lentamente cercando Samuel, Lucius e o corpo desacordado de Drax.
— Vivos… ou mortos. — completou.
Samuel deu outro passo. Um único.
Mas bastou.
A tensão no ar ficou densa como ferro derretido. Os soldados hesitaram, sentindo o peso de algo invisível… algo antigo. Algo puro.
Samuel não dizia nada.
Não precisava.
Porque naquele instante, todos ali — até mesmo Draken — perceberam uma verdade inevitável:
A esperança havia parado diante deles.
E ela não recuaria.
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